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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Ela Anda Tão Triste


Você que achou o novo álbum da Lykke Li triste deveria segurar um pouco o choro e ouvir este Olhos de Onda, da Adriana Calcanhotto, pra aprender o que é tristeza de verdade. O disco, que saiu essa semana, é o registro da estreia de sua nova turnê aqui no Brasil (Adriana já havia estreado antes em Portugal) e consegue reunir 20 canções numa sequência que, ou te mata de poesia, ou te mata de depressão.

"Onde será que isso começa?", pergunta ela já no primeiro verso. Não sabemos se fala da dor ou do mar. Parece que as duas coisas se embrulham ao longo do show; uma tentando caber na outra. O mar de Portugal, berço da nossa língua, se esforça para falar de uma dor que, sem muito esforço, faz-se toda correnteza em busca de um oceano que lhe acalme.

Não existe banda, mas também não precisa. Adriana Calcanhotto é uma das poucas cantoras brasileiras que ainda sustentam um show inteiro só com violão e voz. A mulher toca barbaridades, canta barbaridades e deixou o cabelo crescer. Tudo parece favorecer a tristesse do espetáculo e você pode saber que depois de uma ou duas canções menos pessoais, que ela só toca pra colocar a plateia na mesma temperatura, a coisa vai começar a ficar feia. "No dia em que fui mais feliz eu vi um avião se espelhar no seu olhar até sumir", e depois disso é só ladeira abaixo.


Impossível fugir de uma interpretação vagabundinha e ignorar o fato de que as músicas do álbum parecem recriar o fim de um relacionamento. Depois de Me Dê Motivos, que ela regrava com um sofrimento muito mais elegante que o do Tim Maia, Adriana envereda por caminhos obscuros e comete um cover de Back to Black com tanta verdade e luto que até os fãs mais puristas da Amy (acreditem, eu sou um deles) ficarão sem material para o mimimi.

O clímax vem com Maldito Rádio, uma das três canções inéditas presentes no disco. "Maldito rádio / agora que parecia que eu ia / mudar de vez o curso dessa história / agora que parecia que ia ser agora / Não é momento / de reprisar canções que são só minhas / Maldito rádio, não me faça pensar nela / volte pras notícias / para o hit da nova novela...", mas parece que o rádio é tão maldito que não obedeceu. E já emendou com Devolva-Me, o carro-chefe da dor de cotovelo. É sempre ótimo ouvir aquele silêncio longo que Adriana Calcanhotto faz questão de alongar na última estrofe: "o retrato que te dei / se ainda tens, não sei / mas, se tiver... (e neste momento o público sempre enlouquece e um ou dois gritos de "devolve", "devolve!", "devolve, porra!", surgem no vácuo) ...devolva-me".

E do meio pro fim, torna-se bastante tênue a linha que separa a adoração sincera da obsessão doentia. "A uma hora dessas / por onde passará seu pensamento? / Por dentro da minha saia / ou pelo firmamento?", ela quer saber; "onde será que você está agora?", ela procura; "entre por esta porta agora e diga que me adora / você tem meia-hora pra mudar a minha vida / vem, vambora", ela convida.

E ao que tudo indica a pergunta fica mesmo sem resposta, a procura sem encontro e o convite sem destinatário.




"Depois de ter você, poetas para quê?
Os deuses, as dúvidas,
pra quê amendoeiras pelas ruas?
Para quê servem as ruas?
Depois de ter você..."

sexta-feira, 30 de março de 2012

Mixtape - Hoje Vou Te Fazer Chorar

Eu estava relutando, mas uma hora ela teria que vir: a mixtape de músicas depressivas. Durante algumas semanas fui anotando o nome das músicas que já me fizeram chorar ou que, pelo menos, me deixaram com um buraco na alma. O resultado são essas 14 canções, entre músicas brasileiras, americanas e européias.

Começa com Pato Fu dizendo que não é por mal, mas hoje vai te fazer chorar, e é bom você acreditar e estar com os lenços de papel preparados, porque daí em diante é só ladeira abaixo. Tem Damien Rice (oconcur quando o assunto é música deprê) e seus 9 crimes, tem Radiohead com Karma Police e Creep (que aqui aparece numa versão cover do coral feminino Scala and Kolacny Brothers), tem Cássia Eller cantando Lanterna dos Afogados, Chico Buarque engasgando com Trocando em Miúdos e Cartola interpretando O Mundo É um Moinho (também conhecida como "Música Mais Triste do Universo"). Destaque para Amy Winehouse fazendo Love is a Losing Game acompanhada só do violão  e a lacrimosa Ne Me Quitte Pas, de Edith Piaf (a grande dama da dor). Tudo termina com o sucesso da jovem guarda Filme Triste, que deixa o clima um pouco irônico e infantil, como toda boa crise de depressão.

Como vocês já sabem, a mixtape vem organizadinha, com capa e contra-capa, e pronta para o iTunes. Pode baixar numa boa e deixar tocando enquanto você chora em posição fetal.




Outras Mixtapes:

Músicas de natal: Por um Natal Sem Uva-Passa
Vozes sexys femininas: So Wet, So Tight

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Selo Amy Winehouse de Garantia


Já acho que tá na hora das pessoas pararem de se referir à Dionne Bromfield como "a afilhada de Amy Winehouse", porque, apesar do prestígio da falecida, Dionne tem talento suficiente (de sobra, na verdade) para seguir um caminho independente. E é o que tem feito. Mês passado, através do selo Lioness Records, criado pela madrinha, Dionne lançou seu segundo CD: Good for The Soul. Ainda mais impressionante que o primeiro e, desta vez, com canções inéditas.

Ela só tem 15 anos, então o medo de todo mundo era que a moça fosse corrompida e embarangada pela indústria fonográfica e acabasse desperdiçando seu talento em uma carreira projetada para vender músicas no iTunes. Isso ainda não aconteceu, mas naturalmente, esse segundo trabalho já parece um pouco mais trabalhado que o primeiro, com participação de rapper, etc, mas continua excelente.

Dionne Bromfield é tão nova e tem uma voz tão incrível que o fato de também ter um refinadíssimo gosto musical só reforça a certeza de uma das mais promissoras cantoras da Inglaterra. E olha que estamos falando de uma Inglaterra que hoje conta com gente como Adele, Florence Welch e Duffy.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

I Cheated Myself


Fiquei sabendo da morte da Amy através de uma ligação. Porque alguém se lembrou de mim e achou bom me dar a notícia de forma cuidadosa. Tentei parecer normal e apenas um pouco assustado. Alguns minutos depois, já sedento por esclarecimentos, com a Globo News ligada e o celular na mão, eu começava a aceitar o fato de que a dona daquela voz e eu já não habitávamos o mesmo mundo.

A primeira coisa que me passou pela cabeça foi: “ainda bem que eu fui no show”, porque eu não me perdoaria se tivesse perdido essa chance. Gastar 500 reais, enfrentar fila, sol e fazer coisas humilhantes, tipo CORRER pra ficar na grade da pista, me pareceram um pouco exagerado na época, mas hoje eu acho pouco. Não porque ela morreu, mas porque fui tomando consciência do tipo de artista que era Amy Winehouse. E de como esses talentos são raros.

Falam sobre ela ter cavado a própria cova, sobre ter sido burra e se deixado levar pelo vício e eu fico indignado, porque sei o que é você passar a vida inteira tentando mudar e nunca conseguir. E entendo qualquer pessoa que morra no vício ou que tenha desistido de tentar. E falo isso sem nunca ter colocado um cigarro na boca, porque tenho a sorte de ter vícios menos destrutivos que os dela. Não cabe julgamento. Muito menos agora.

Depois me veio uma sensação estranha, como se Amy tivesse nos traído. Porque o mundo é um lugar triste e difícil, mas que temos suportado juntos. E ela morrer assim, aos 27 anos, é como se estivesse desistindo de uma prova de resistência do BBB antes do sol nascer. (Ok, a metáfora é péssima, mas foi a única que encontrei). E eu sinto um misto de pena e inveja. Pena porque ela acabou jogando a toalha e inveja porque minhas pernas também estão doendo, na mesma posição há horas, e tudo o que eu queria agora era poder esticá-las.

sábado, 14 de maio de 2011

All In


Hoje é meu aniversário e decidi não fazer nada. Ano passado armei festa, convidei os amigos, enchi balões e terminei o dia me sentindo vazio. Dessa vez quero ficar em casa... Acordar tarde, curtir minha família, beijar minha namorada, ouvir música boa e comer besteira. Quero ter tempo de fazer essas análises profundas que só as datas especiais nos permitem. Pegar um álbum antigo para ver as fotos da infância. Sentir um bocado de gratidão e outro bocado de remorso.


Sempre me incomodou pensar no que minha vida poderia ter sido se eu tivesse tomado algumas decisões diferentes. É triste ter que optar entre dois caminhos sem saber antes qual deles vai nos fazer mais feliz. Cada escolha é uma aposta baseada na nossa intuição, experiência e no erro dos outros. E como toda aposta, às vezes a gente perde e às vezes a gente perde menos.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Boulevard of Broken Dream


Daqui a pouco tô indo pro Rio, na esperança de encontrar uma Amy Winehouse tão sóbria quanto a que cantou em Florianópolis, no sábado. Depois de ter vencido cada um dos obstáculos, parece que vai dar tudo certo e não vou ficar perambulando pelos becos da Barra às 3 da manhã.

Passei a madrugada de sábado pra domingo acompanhando o pessoal que estava no show em Floripa. Todo mundo fazendo elogios desmedidos e deixando minhas expectativas num nível insuportável. Foi uma decepção ela não ter cantado It's My Party, mas, em compensação, teve uma versão de Boulevard of Broken Dreams, do Tony Benett, que ficou um arraso na sua voz rasgada.

Até breve.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

New Jazz Soul Black

Não sei se elas cantam jazz, soul, R&B ou black music. Só sei que sempre imaginei um quarteto assim: Duffy na primeira voz, Corinne Bailey Rae nos contraltos, Dionne Bromfield nos tenores e Amy Winehouse nos baixos. Como já falei da Amy aqui e sei que todo mundo já ama, etc, reservei este post pra apresentar os últimos discos das outras três.


Dionne Bromfield - Introducing Dionne Bromfield
Ela tem 15 anos e poderia ser mais uma cantora teen que concorre ao prêmio Nickelondeon e faz playback nos shows. Mas ela é afilhada da Amy Winehouse (e aqui permita-me abrir um belo de um parênteses, porque, né? Que mãe em sã consciência escolhe alguém como a Amy pra ser respónsável por sua filha se algum dia ela ficar órfã?).  E parece que a madrinha tem encaminhado muito bem a carreira musical de Dionne. Já no seu primeiro álbum a garota emplacou clássicos como He's So Fine e Ain't no Mountain High Enough.


Corinne Bailey Rae - The Sea
Corinne explodiu por aqui depois que Put Your Records On entrou na trilha de Páginas da Vida (novela do Maneco de 2006). Nesse ano ela lançou seu segundo disco, o íntimo e sofisticado The Sea, deixou de lado a pegada pop e carregou nos vocais. E que vocais! Sua voz deveria ser presa por atentado ao pudor. Closer é uma das músicas mais sexys que já ouvi e The Blackest Lily tem qualquer coisa de muito malvada.


Duffy - Endlessly
Confesso que a voz da Duffy não é pra qualquer um e o timbre extremamente agudo pode incomodar. Mas se o primeiro álbum dela enjoava depois de uma terceira reprodução, o mesmo não acontece com Endlessly. Aqui, além das baladas, Duffy surpreende com violinos, baixos e uma batida um tanto agressiva. O que dizer da abertura de Keeping My Baby e de Well, Well, Well (o clipe mais charmoso do ano)?

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Minhas Lágrimas Secam Sozinhas


Tenho duas notícias, uma boa e uma ruim. A boa é que meu ingresso pro show da Amy Winehouse chegou, nesta faceira manhã de quarta-feira. E gente, tô me sentindo privilegiado, porque em uma semana os ingressos pra pista simplesmente acabaram. Se a culpa é dos cambistas ou se a Amy tem mais fãs do que previam os organizadores do show, não sei. Só sei que o meu tá garantido.

A notícia ruim, na verdade são três. Vou fazer uma listinha, pra ficar mais dramático:

1. Não comprei as passagens pro Rio. Porque não tenho dinheiro e não sei como vou conseguir 300 reais de uma hora pra outra. Porque ando muito ocupado. E vocês sabem como é a Gol, né? Esse point da classe C emergente. Hoje tá 180, amanhã tá 220 and beyond!

2. Não tenho companhia pro show. Hahahaha, parece carência (e é mesmo). Porque quando os ingressos começaram a ser vendidos todo mundo ia, que legal Gabriel, meu brother, pode contar comigo, etc. Quando esgotou... Mas já? Ihhh, não deu tempo, foi mal. Sabe quando você combina de pular na piscina ao mesmo tempo que um amigo e na hora H você para e deixa o otário cair na água sozinho? Não que eu esteja comparando o show da Amy com uma cilada, vocês entenderam.

3. Minha tia mora em Niterói e o show vai ser na Barra. Junte isso + eu sozinho + madrugada + traficantes querendo revanche = coisas BELAS prestes a acontecer!

Mas gente, é Amy Winehouse! Nada mais vai importar quando essa mulher aparecer no palco, cantando Tears Dry On Their Own.