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terça-feira, 19 de junho de 2012

Olhos nos Olhos


Gosto particularmente de como o universo se transforma depois de certa hora da madrugada. Não é que a nossa percepção do mundo fique alterada, mas é que o próprio mundo vai se alterando e se revelando todo cheio de percepções sobre nós. E o silêncio é tanto que qualquer um pode ouvir meus pensamentos, vagando pelas cobertas
. E depois das 3 eles eclodem como berros, acordando o Caetano no quarto ao lado.

Às vezes vou pra cama com uma música, pra abafar as memórias, e elas sempre me parecem bem mais reveladoras quando sussurradas no meio da noite. Saem do fone de ouvido feito lanças, furam meus tímpanos e jogam ali dentro todas aquelas verdades inconvenientes que a gente cria pra encaixar uma canção aleatória na vida da gente. Pra ver se consegue explicação pra esse tanto de erro absurdo e infantil.

Ontem perdi alguns minutos ouvindo uma coletânea da Maria Bethânia e encontrando milhares de respostas, concordando com quase tudo e sofrendo mais que o normal por umas letras bobas, quase cafonas. Percebi  como Tatuagem é linda, como Explode Coração é pornográfica, como é difícil dormir depois de Minha História e como Olhos nos Olhos é a coisa mais cruel que o Chico já escreveu.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Mixtape - Hoje Vou Te Fazer Chorar

Eu estava relutando, mas uma hora ela teria que vir: a mixtape de músicas depressivas. Durante algumas semanas fui anotando o nome das músicas que já me fizeram chorar ou que, pelo menos, me deixaram com um buraco na alma. O resultado são essas 14 canções, entre músicas brasileiras, americanas e européias.

Começa com Pato Fu dizendo que não é por mal, mas hoje vai te fazer chorar, e é bom você acreditar e estar com os lenços de papel preparados, porque daí em diante é só ladeira abaixo. Tem Damien Rice (oconcur quando o assunto é música deprê) e seus 9 crimes, tem Radiohead com Karma Police e Creep (que aqui aparece numa versão cover do coral feminino Scala and Kolacny Brothers), tem Cássia Eller cantando Lanterna dos Afogados, Chico Buarque engasgando com Trocando em Miúdos e Cartola interpretando O Mundo É um Moinho (também conhecida como "Música Mais Triste do Universo"). Destaque para Amy Winehouse fazendo Love is a Losing Game acompanhada só do violão  e a lacrimosa Ne Me Quitte Pas, de Edith Piaf (a grande dama da dor). Tudo termina com o sucesso da jovem guarda Filme Triste, que deixa o clima um pouco irônico e infantil, como toda boa crise de depressão.

Como vocês já sabem, a mixtape vem organizadinha, com capa e contra-capa, e pronta para o iTunes. Pode baixar numa boa e deixar tocando enquanto você chora em posição fetal.




Outras Mixtapes:

Músicas de natal: Por um Natal Sem Uva-Passa
Vozes sexys femininas: So Wet, So Tight

terça-feira, 9 de agosto de 2011

O Internauta


Até 2006, quando lançou Carioca, Chico parecia desconhecer qualquer coisa sobre MP3, iPods ou YouTube. E hoje tá aí... Conversando com os internautas e até fazendo o louco do pântano em depoimentos descontraídos. Acho graça, porque o Chico Buarque parece um tio meu, que levou mais ou menos 15 anos pra aceitar esse negócio de computador. Mas é um caminho inevitável. Até o mais tradicional dos artistas está percebendo que, em vez de lutar contra o inimigo, é melhor ficar do lado dele e tentar tirar algum proveito. Então poucos meses antes de lançar seu último álbum, Chico Buarque colocou no ar um site onde publicava vídeos periódicos dos bastidores das gravações pra manter o público interessado e vender mais cópias. Eu falo "Chico" como se ele próprio tivesse montado o site após um cursinho de Dreamweaver, mas é claro que o velho foi forçado incentivado a fazer tudo isso por alguém com muito mais visão de mercado. O resultado é Chico, um disco minimalista com 10 faixas muito boas e algumas excelentes.

Querido Diário, que abre os trabalhos, tem uma harmonia bem mais interessante que a letra. Não gosto de algumas rimas, principalmente aquela que ele confessa amar uma "mulher sem orifício" (WTF?). Mas do meio pro final entra uma segunda voz extremamente sofrível que enriquece tudo e faz a gente querer repetir o mesmo trecho 500 vezes. Já a segunda faixa, Rubato, é a que menos me agradou. Acho que o Chico chegou num nível de dissonância que ultrapassa o limite do bonito. É tanto medo de ser previsível que a coisa acaba ficando esquisita.

O álbum ainda conta com uns sambas bem gostosinhos, como Sou Eu e Barafunda. E outras canções mais depressivas, como Sem Você 2 e Nina, onde ele fala de um romance online (sério!): "Nina diz que se quiser eu posso ver na tela / A cidade, o bairro, a chaminé da casa dela / Posso imaginar por dentro a casa / A roupa que ela usa, as mechas, a tiara / Posso até adivinhar a cara que ela faz / Quando me escreve".

Essa Pequena parece muito outro clássico do Chico, Ela É Dançarina, mas com um pouco menos de glamour: "Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas / o blues já valeu a pena". E Se Eu Soubesse, que é uma das minhas preferidas, tem a participação de Thais Gullin, a namorada do Chico (uma fofa de aparentes 15 anos de idade). A música ficou  linda! Talvez pela química do casal, talvez pelos "lararis" e "lararás" que escondem parte da letra e fermentam nossa imaginação.

A canção que fecha o disco é Sinhá, que tem participação de João Bosco e já entra diretamente pro Top 10 músicas mais tristes do Brasil. Conta a história de um escravo que viu a patroinha se banhando e, por isso, vai perder as pernas, os olhos e a vida. Uma volta ao passado, pra encerrar o primeiro passo de Chico em direção ao futuro.