Nada me deixa mais feliz que ver uma atriz talentosa receber um papel à sua altura. Acompanho Natalie Portman desde o primeiro episódio de Star Wars, quando ela vivia a encantadora Rainha Padmé Amidala, e me apaixonei perdidamente em 2004, quando ela fez absurdos em Closer - Perto Demais. Hoje, acho que Natalie Portman atingiu o ápice de sua carreira. Está em sua melhor forma, como a obcecada bailarina Nina Sayers, de Cisne Negro. Uma dessas interpretações que, de tão intensas, parecem consumir cada partícula do ator.
Nina conquista o papel principal na clássica montagem de O Lago dos Cisnes, onde deve interpretar duas personagens. A primeira é o cisne branco, belo, doce e gracioso. A segunda é o cisne negro, intenso, sensual e agressivo. A bailarina tem dificuldades com o segundo papel, já que este exige um pouco menos de técnica e mais impulsividade. Nina Sayers é do tipo que preza pela perfeição em cada movimento. Da hora em que acorda, até a hora em que vai dormir, tudo o que ela faz é treinar. Uma mulher que entrega sua vida à arte, com tamanho desprendimento que acaba abrindo mão da sua própria lucidez.
O ambiente que Cisne Negro reproduz não se assemelha em nada à leveza de um espetáculo de balé. As dançarinas são expostas à pressão e treinos exaustivos. A maior parte delas tem os pés machucados. E a câmera de Matthew Libatique faz questão de focalizar os detalhes mais assustadores desses campos de tortura. Como se isso não bastasse, Nina passa a ser atormentada por estranhas visões que remetem à fábula dos cisnes. Nestes momentos, a trilha sonora desempenha um papel importantíssimo, transformando o filme num terror psicológico dos mais apavorantes.
Adoro histórias que falam sobre o processo criativo de um artista, seja ele dançarino, escritor ou músico. Sempre me encanta ver alguém enfrentando seus limites em prol de uma obra de arte. E nesses casos, quando a ficção encontra a realidade, fica muito difícil não torcer pelo sucesso de Nina Sayers, no Lago dos Cisnes, ou de Natalie Portman, no Oscar 2011.

