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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

W3


Eu não devia te dizer, mas essa chuva, essa janela, botam a gente comovido como o diabo.

Não tem parado de chover. E isso é bacana, porque alaga a W3 e oferece novas experiências de vida aos brasilienses (que, devido a evolução da espécie, já estavam criando duas corcovas maravilhosas nas costas), mas também é ruim, porque com a chuva vem essa camada espessa da mais pura melancolia disponível no mercado.

E tenho passado as noites mergulhado em mixtapes com as seguintes tags: sad, rain, heartbreak e loneliness...  E ouvindo Bookends até que o último traço de felicidade tenha sido exorcizado da minha alma. Porque tem isso, né? Além da chuva, que já pede pelas lágrimas, tem eu, que nasci com essa vocação absurda pro sofrimento.

Ando olhando pra baixo, pra não molhar os óculos, afundo o pé em poças oceânicas, chego molhado na casa dos alunos; e tudo vai ficando apático depois das dez. E eu perco a vontade de ler, de escrever, de estudar... Só consigo permanecer entre uma série e outra, maldizendo novembro e pensando no tanto de coisa que ainda tenho pra amanhã.

Os tênis estão todos molhados. E não tem sol pra secar.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Sobre Velhas Fofas e Noites Refrescantes

Hoje na rodoviária, estava eu no meio da fila pro 110, ouvindo o podcast do Cinema em Cena e me policiando pra não comprar outro pastel da Viçosa, quando chega uma velha e, disfarçadamente, se enfia na minha frente. Olha... Nem era o caso de atendimento preferencial, porque visivelmente a dona não tinha mais de sessenta anos. Era caso de safadeza pura e simples. E fico tão atônito, tão desconjuntado quando essas coisas acontecem que nem sei o que fazer. Passei uns dois minutos imóvel, olhando pra nuca dela com tanta força que me surpreende ela não ter quebrado o pescoço. Mas o ódio foi me subindo, silencioso e rastejante, e não aguentei. Dei uma batidinha em seu ombro e perguntei: "moça, cê tava na fila?", ao que ela respondeu "estava sim" e virou pra frente de novo. E foi isso. MAS ELA NÃO ESTAVA! Eu vi, não sou louco. Agora, o que se pode fazer? Eu que não ia armar barraco por causa de lugar em fila de ônibus. Já era humilhação bastante estar nela.

O problema é que sou terrivelmente rancoroso. Tô até agora pensando na velha e em diversas formas de tortura que envolvem desde a catraca do 110 à caldeira de óleo onde os pastéis da Viçosa são fritos. E fico morrendo de ódio da minha passividade diante dos absurdos cotidianos. Porque eu nunca falo. E depois passo o dia repetindo o discurso que eu deveria ter feito e pensando que, oh, seria lindo se eu tivesse tido coragem.

Mais tarde tomei a maior chuva de toda a minha vida. O trajeto era da parada de ônibus ao prédio do meu aluno. Uns 300 metros. Mas o céu desabava em água corrente e tive que atravessar a W3 de navio (o qual naufragou, devido a um iceberg engraçadinho e minha namorada ficou em cima de uma porta e eu morri congelado no meio da rua. Foi triste). Ainda passei uns minutos me enxugando antes de entrar no elevador e pensando em que piadinha eu faria para que a mãe do meu aluno não ficasse com (muita) pena de mim e me oferecesse uma blusa velha do menino.

Aí chego em casa com esses dois rancores enormes. A velha fura-fila e o momento Arca de Noé. Não sei o que mais me entristece. Minha impotência diante de uma velha pilantra ou minha impotência diante de São Pedro.

PS1: No último fim de semana escrevi um conto novo no Crimes por Extenso. É a história de duas crianças que acabam tendo que se esconder no mesmo lugar durante um jogo de esconde-esconde. Aí vai um trecho:

"Aos poucos Luana percebeu o que lhe ocorria e com espanto se deu conta do absurdo que era estar espremida com um garoto no meio do mato. Pra logo mais, não se espantar. E até gostar. E achar estranho. Abusado. Tinha dez anos e estava espremida com um menino no meio do mato."

PS2: Também fiz um Tumblr pra poder reblogar as coisas legais dos outros e perder ainda mais tempo com uma atividade inútil e incrivelmente prazerosa. O nome é Festa do Grand Monde (e só pode entrar quem for da alta sociedade francesa, fiquem avisados).