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terça-feira, 30 de outubro de 2012

Complexo de Walter White

Estava sentado no ônibus às quatro da tarde, num estado de quase sono, quando recebo um tapa na cara. Desses com a mão aberta. Abri os olhos pensando que esse era um jeito no mínimo curioso de abordar um conhecido, mas a figura que vi de pé na minha frente não lembrava nem vagamente qualquer amigo. E apontava um revólver pra minha barriga.

Pediu o celular, estava visivelmente nervoso. E eu, com uma calma estranha, entreguei meu aparelho robusto de 50 reais. "O outro!", "Que outro? Só tenho esse...". Mas eu sabia que ele falava do iPod touch que eu trazia carinhosamente no bolso da calça e que, de longe, parece mesmo um iPhone. Por alguns segundos fiquei perdido nesse raciocínio e o cara se enfureceu. "Você quer morrer?". Agora o cano da arma encostava a minha testa. E eu olhando aquilo tudo só conseguia pensar que, por favor, eu assisto Breaking Bad! Lido com coisa muito pior que uma arma na cabeça.

Estendi o aparelho como quem entrega um filho e adverti: "Mas é um iPod". Acho que ele não ouviu. Saiu correndo, limpou o caixa, mandou o motorista parar, sumiu na BR. Quando tudo acabou, vi que a mulher do meu lado chorava copiosamente.

Eis uma que nunca assistiu Breaking Bad.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Sobre Velhas Fofas e Noites Refrescantes

Hoje na rodoviária, estava eu no meio da fila pro 110, ouvindo o podcast do Cinema em Cena e me policiando pra não comprar outro pastel da Viçosa, quando chega uma velha e, disfarçadamente, se enfia na minha frente. Olha... Nem era o caso de atendimento preferencial, porque visivelmente a dona não tinha mais de sessenta anos. Era caso de safadeza pura e simples. E fico tão atônito, tão desconjuntado quando essas coisas acontecem que nem sei o que fazer. Passei uns dois minutos imóvel, olhando pra nuca dela com tanta força que me surpreende ela não ter quebrado o pescoço. Mas o ódio foi me subindo, silencioso e rastejante, e não aguentei. Dei uma batidinha em seu ombro e perguntei: "moça, cê tava na fila?", ao que ela respondeu "estava sim" e virou pra frente de novo. E foi isso. MAS ELA NÃO ESTAVA! Eu vi, não sou louco. Agora, o que se pode fazer? Eu que não ia armar barraco por causa de lugar em fila de ônibus. Já era humilhação bastante estar nela.

O problema é que sou terrivelmente rancoroso. Tô até agora pensando na velha e em diversas formas de tortura que envolvem desde a catraca do 110 à caldeira de óleo onde os pastéis da Viçosa são fritos. E fico morrendo de ódio da minha passividade diante dos absurdos cotidianos. Porque eu nunca falo. E depois passo o dia repetindo o discurso que eu deveria ter feito e pensando que, oh, seria lindo se eu tivesse tido coragem.

Mais tarde tomei a maior chuva de toda a minha vida. O trajeto era da parada de ônibus ao prédio do meu aluno. Uns 300 metros. Mas o céu desabava em água corrente e tive que atravessar a W3 de navio (o qual naufragou, devido a um iceberg engraçadinho e minha namorada ficou em cima de uma porta e eu morri congelado no meio da rua. Foi triste). Ainda passei uns minutos me enxugando antes de entrar no elevador e pensando em que piadinha eu faria para que a mãe do meu aluno não ficasse com (muita) pena de mim e me oferecesse uma blusa velha do menino.

Aí chego em casa com esses dois rancores enormes. A velha fura-fila e o momento Arca de Noé. Não sei o que mais me entristece. Minha impotência diante de uma velha pilantra ou minha impotência diante de São Pedro.

PS1: No último fim de semana escrevi um conto novo no Crimes por Extenso. É a história de duas crianças que acabam tendo que se esconder no mesmo lugar durante um jogo de esconde-esconde. Aí vai um trecho:

"Aos poucos Luana percebeu o que lhe ocorria e com espanto se deu conta do absurdo que era estar espremida com um garoto no meio do mato. Pra logo mais, não se espantar. E até gostar. E achar estranho. Abusado. Tinha dez anos e estava espremida com um menino no meio do mato."

PS2: Também fiz um Tumblr pra poder reblogar as coisas legais dos outros e perder ainda mais tempo com uma atividade inútil e incrivelmente prazerosa. O nome é Festa do Grand Monde (e só pode entrar quem for da alta sociedade francesa, fiquem avisados).

terça-feira, 6 de março de 2012

Crítico de Transporte Público Rodoviário

Hoje eu tava pensando que deveria existir uma profissão que resenhasse motoristas de ônibus. Assim como exitem críticos de filmes, livros e discos. Porque são muitos aspectos a serem avaliados e o transporte público, mais que um meio de locomoção humilhante e precário, é também uma arte.

Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos artistas.

Geraldo, do 501.
É velho. E por aí você já percebe que não brinca em serviço. É rápido, mas a experiência lhe ensinou a ser cauteloso. Faz uma direção extremamente segura e constante. Nada de freadas bruscas, curvas acentuadas ou gente caindo pelo corredor. Extremamente cortês, gosta de sorrir pra todos os passageiros que entram (sorrisos 0,3 segundos mais longos, se o passageiro for do sexo feminino). Usa bolinhas de massagem no banco.

André, do 110.
É o pior tipo de motorista. Tem lá seus 40 anos, uma pança respeitável em cima do cinto e toneladas de descaso. Acha o máximo parar pro cobrador comprar pastel, como se o ônibus fosse dele, e finge que não vê 70% das pessoas que dão sinal. Não gosta de parar em semáforo, não gosta de parar em parada, não gosta de dirigir. Tá ali só porque precisava pagar o leite das crianças e não sabia fazer mais nada da vida além de ser babaca.

Zé Carlos, do 526.
É velho e tem bigode. Ou seja: GÊNIO DA DIREÇÃO. Porque nada caracteriza mais um bom motorista de ônibus que grandes e sensuais bigodes grisalhos. E o Zé parece um monstro no volante. Sua corrida dura sempre a metade da de qualquer outro da mesma categoria. Ele voa! E faz balão, e ultrapassa carro do ano, e entra em cruzamento perigoso buzinando like a boss... Tudo isso sem nunca deixar de pegar ninguém em suas respectivas paradas. Dá sorrisos ainda mais longos que o Geraldo do 501. Uma graça.

Baiano, do 600.
O poder subiu á cabeça e agora ele acha que dirige uma BMW. Usa óculos escuros, o que seria normal se não fosse um daqueles coloridos que são vendidos no verão de Niterói por 15 reais. Não fala com ninguém, porque se acha muito importante. E dá certa pena, porque realmente existe um potencial. Talvez é só esperar passar o deslumbramento com o primeiro emprego. Daqui a alguns anos, quem sabe, ele não começa a sorrir um pouco mais, compra bolinhas pra massagear as costas e até deixa o bigode crescer?

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Sobre a Incapacidade de Ser Feliz nas Manhãs

Todo dia, quando estou indo pro cursinho, passo perto de um grupo de idosos que se encontram pra fazer exercícios físicos ao ar livre. E aí que hoje eles estavam abraçando as árvores. Exatamente. Sete horas da manhã, friozinho gostoso, e alguém no mundo achou ok passar 15 minutos abraçando árvore. Árvore! Com direito a rostinho colado no tronco e tudo. O problema não é o exercício físico em si (tem gente por aí que abraça coisa muito pior que uma angiosperma), mas a capacidade heroica dessas pessoas de serem felizes pela manhã. E olha que elas não têm muito o que fazer a não ser esperar pela morte. É gente aposentada, que acorda antes do sol nascer, rega as plantinhas, troca a areia dos gatos e vai pra rua abraçar árvore. Um exemplo.

Pra mim, não existe nada no mundo pior que acordar. Repare que eu não falei "acordar cedo", é só acordar mesmo. Independente do horário, é horrível! Os ossos doem, o nariz entope, a garganta arranha, os dedos tremem, a boca arde... Sempre tenho a impressão de que teria sido melhor continuar dormindo por toda a eternidade a ter que enfrentar o infinito trajeto da cama ao banheiro. E outra... Com toda essa alergia e rinite, eu levo cerca de 40 minutos pra conseguir respirar direito. Qualquer dia, ainda calculo o número de espirros e os metros de papel higiênico.

Então saio de casa com o nariz vermelho e um ótimo humor. E aí começa a epopeia do transporte público. Enfrento ônibus lotado, motorista atrevido, gordinha safada, vendedor ambulante e ainda tenho que caminhar uns dois quilômetros até chegar ao meu destino. Então sempre que passo pelo grupo zen da terceira idade estou a ponto de desistir de tudo, sentar na calçada e começar a chorar. É talvez o momento mais crítico do dia. Sempre penso em desistir Mas aí me aparece um monte de velhinho fofo, com chapéu na cabeça... Abraçando árvores. E com os olhos marejados, sem entender se o que eu sinto é ternura ou pena, respiro fundo e dou mais um passo.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Como Ser Babaca em Transportes Públicos

Acho que ando de ônibus desde os cinco anos, quando a minha avó me levava pra tomar sorvete, em Belo Horizonte, e íamos sentados nos assentos preferenciais. Eu achava tão legal sentar naquele carro gigante e balançante que decidi comprar um ônibus quando fosse rico. E eu tinha o projeto de montar uma casa lá dentro, etc, de tanto que amava. Pra vocês verem que pobreza é o tipo de coisa que nasce com a gente. Enfim. O tempo passou e aos dez anos eu já tinha sacado que não existe melhor forma de ser humilhado, irritado, esmagado e bulinado que andando de ônibus. Primeiro porque é desconfortável, segundo porque não sei o que acontece, mas as pessoas viram bichos quando entram naquele lugar.

Hoje fui dar aula bem cedo, quando os ônibus ainda estavam lotados. Sempre levo uma mochila de uns cinco quilos nas costas (porque tenho muito TOC relacionado a ser prevenido) e o mínimo que espero da sociedade é que alguém que está sentado se ofereça pra levar minha bolsa. GENTE, É LEI! Juro que não tô pedindo muito. Ok. Estava eu, com a coluna já dolorida, e tinha uma Dona toda esparramada sentada na minha frente. Eu lançava uns olhares, pra ver se ela percebia o tamanho da minha carga e se tocava, mas parecia inútil. Foi aí que tive uma ideia genial.

Deixei a alça lateral pendurada em um só braço, de modo que a mochila ficasse dando leves pancadas no rosto da Dona. Ela logo se incomodou, como o previsto:

- Moço, a sua mochila, tá bat...

E eu, dando uma de desentendido, jogo a mochila no colo dela.

- Ah, muito obrigado, querida (sorriso_dissimulado_ativar) - e sigo viagem.