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terça-feira, 6 de março de 2012

Crítico de Transporte Público Rodoviário

Hoje eu tava pensando que deveria existir uma profissão que resenhasse motoristas de ônibus. Assim como exitem críticos de filmes, livros e discos. Porque são muitos aspectos a serem avaliados e o transporte público, mais que um meio de locomoção humilhante e precário, é também uma arte.

Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos artistas.

Geraldo, do 501.
É velho. E por aí você já percebe que não brinca em serviço. É rápido, mas a experiência lhe ensinou a ser cauteloso. Faz uma direção extremamente segura e constante. Nada de freadas bruscas, curvas acentuadas ou gente caindo pelo corredor. Extremamente cortês, gosta de sorrir pra todos os passageiros que entram (sorrisos 0,3 segundos mais longos, se o passageiro for do sexo feminino). Usa bolinhas de massagem no banco.

André, do 110.
É o pior tipo de motorista. Tem lá seus 40 anos, uma pança respeitável em cima do cinto e toneladas de descaso. Acha o máximo parar pro cobrador comprar pastel, como se o ônibus fosse dele, e finge que não vê 70% das pessoas que dão sinal. Não gosta de parar em semáforo, não gosta de parar em parada, não gosta de dirigir. Tá ali só porque precisava pagar o leite das crianças e não sabia fazer mais nada da vida além de ser babaca.

Zé Carlos, do 526.
É velho e tem bigode. Ou seja: GÊNIO DA DIREÇÃO. Porque nada caracteriza mais um bom motorista de ônibus que grandes e sensuais bigodes grisalhos. E o Zé parece um monstro no volante. Sua corrida dura sempre a metade da de qualquer outro da mesma categoria. Ele voa! E faz balão, e ultrapassa carro do ano, e entra em cruzamento perigoso buzinando like a boss... Tudo isso sem nunca deixar de pegar ninguém em suas respectivas paradas. Dá sorrisos ainda mais longos que o Geraldo do 501. Uma graça.

Baiano, do 600.
O poder subiu á cabeça e agora ele acha que dirige uma BMW. Usa óculos escuros, o que seria normal se não fosse um daqueles coloridos que são vendidos no verão de Niterói por 15 reais. Não fala com ninguém, porque se acha muito importante. E dá certa pena, porque realmente existe um potencial. Talvez é só esperar passar o deslumbramento com o primeiro emprego. Daqui a alguns anos, quem sabe, ele não começa a sorrir um pouco mais, compra bolinhas pra massagear as costas e até deixa o bigode crescer?

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Dos Testes Vocacionais


Hoje tivemos mais uma discussão aqui em casa. Tudo porque, durante o almoço, falei que estava indo ao cinema, assistir Cavalo de Guerra. Minha mãe achou um absurdo e começou a dar um super sermão sobre eu ter que controlar meus vícios, porque ontem eu já tinha ficado acordado até duas e meia da manhã vendo filme francês e que eu tô assistindo, em média, um filme por dia (o que pra ela é o cúmulo da perda de tempo), etc. Olha... Até respirei fundo e pensei se vale a pena mesmo explicar, porque não é possível. 20 anos na cara e até hoje nego não entendeu qual é a minha?

É claro que expliquei, né? Que cinema, pra mim, não é só entretenimento. E é claro que ela continuou sem entender. Porque a geração deles cresceu num mundo que ensinou o seguinte: trabalhar é aquilo que acontece em um escritório, ou numa construção, um numa plantação de cana. Cinema, televisão e internet são espaços de lazer. Não vamos misturar as coisas. Mas o que essa gente não sabe é que as coisas nunca estiveram tão misturadas. E não adianta mais ficar tentando separar.

Nossa geração (digo, o pessoal dos anos oitenta pra cá) não tá mais realizando essa coisa de funcionário público. Trabalhar não precisa ser um porre. Dá, sim, pra trabalhar com o que a gente gosta e, por incrível que pareça, os resultados são até melhores quando isso acontece. E eu quero trabalhar com filmes. BANG! (minha mãe pensando "onde errei?" neste momento). Quero escrever sobre filmes e, pra isso, eu preciso ter uma bagagem mínima. E preciso ver tanta coisa, tanto clássico, tanto filme indispensável, que assistir um por dia seria o ideal. Infelizmente, não é possível manter essa média depois que as férias terminam.

É claro que ir ao cinema ainda é uma das coisas que mais me dá prazer. Não vou ser hipócrita e dizer que só faço por obrigação. Não é isso. Mas o prazer não é tudo. Cinema, pra mim, além de ser a maravilhosa sensação de escolher uma poltrona na sala escura e esperar o começo dos trailers, é também o que eu quero fazer da vida. Não é como se eu quisesse ser prostituto. É?