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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Salubridade, Sanidade e Perfume


Cheguei em casa e fui recebido por uma mãe de banho tomado, cabelos úmidos e perfume de condicionador. Elizete, que trabalha na minha irmã mais velha, veio dar um salve aqui em casa e as duas passaram o dia numa faxina que, imagino eu, precisou terminar com esse ritual de autopurificação materno. Depois ela foi me mostrando os cômodos, quase efusiva. Contou que tinham passado aspirador de pó em todos os cantos do meu quarto (o pobre menino asmático) e tinham limpado até os segredos mais sujos do guarda-roupas. Entrei no banheiro e, ofendido com tamanha assepsia, fiquei pensando em como foi difícil passar tanto tempo sem ela.

Desde que voltei a morar com meus pais, nunca mais vi a louça acumular. A pia está sempre vazia, seca e brilhando. As roupas aparecem passadas, dobradas em pequenos cubos em cima da cama. As cobertas, lençóis e toalhas são trocados de pouco em pouquíssimo tempo. O papel higiênico, o sabonete, o shampoo, o condicionador... Tudo é reposto de forma discreta e silenciosa, escondendo assim o maior segredo da minha família: elfos domésticos.

Puxei da minha mãe essa obsessão com a limpeza, obviamente sem nunca alcançar seu alto nível de dedicação à higiene. Sempre gostei de ter as coisas no lugar e tenho pequenos surtos de deleite quando termino de limpar qualquer coisa mais ou menos imunda. Acho que significa o começo de algo. Como se fosse impossível ser feliz enquanto não passasse álcool gel nas mãos. Mas também tenho preguiça e foi essa minha salvação. Foi isso que me impediu de ser uma Mônica Geller de vida.

Antigamente, no banho, me ensaboava por horas e com tal zelo e tanto, que acreditava piamente ser uma questão de tempo até que meu corpo desaparecesse. Um menino que, de tanto tomar banho, sumiu. Porque uma linha muito tênue divide as células vivas das mortas. É preciso cuidado com essa mania de querer limpar tudo que é sujo. A gente sempre acaba descobrindo que nada é realmente limpo.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Um Ano Muito

Fui ler as resoluções do ano passado e morri de pena de mim. Porque continuo dormindo pouco, comendo mal, vivendo em estado vegetativo e perdendo séculos em redes sociais sem qualquer compromisso com a realidade. O bom disso tudo é que não preciso ficar inventando novas metas pra 2013.

2012 foi tão eufórico e desesperado que não consigo classificá-lo como um ano bom ou ruim. Vou classificá-lo como um ano muito.

Então eu só queria que 2013 fosse um ano menos, porque até minha asma voltou.

Ninguém tem fôlego pra isso. Pra entrar na faculdade, terminar namoro e morar em quatro casas em regiões opostas de um Distrito Federal cada vez menor. Sinto meu corpo desproporcional e gigante, como o da tia Guilda do Harry Potter. Meus pés ficam pra fora da cama e isso é pura metáfora.

Depois de quase dois anos, voltei a morar com os meus pais. E pode parecer uma regressão no processo natural de amadurecimento (vai ver até é), mas eu considero uma volta necessária. É preciso estabelecer uma comunicação, atualizar a família e ganhar meu espaço. Também é preciso economizar.

Ontem fiz uma maratona de How To Make it in America (uma das séries mais legais que a HBO já produziu) e assisti Setembro, um desses filmes sérios do Woody Allen. Hoje acordei mais cedo pra nadar um pouco e tomar sol, enquanto observava duas crianças apostando corrida na piscina infantil (uma delas roubando descaradamente). A ideia era começar o ano com as séries e filmes em dia e uma inclinação inevitável para o exercício físico, quiçá a maromba, mas tudo que consegui foi começar o ano com o ombro queimado.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Meninos Não Choram

Faz um mês que estou emocionalmente abalado e não sei por que. Percebi o problema em uma noite de segunda-feira, quando, sozinho no meu quarto, fui ver Compramos um Zoológico e chorei por quatro vezes ao longo do filme. Quem viu sabe que ele não é tão triste nem oferece tantas oportunidades assim pra comoção, mas eu fiz acontecer.

Meu pai, por exemplo. Nunca vi derramar uma lágrima. Ele simplesmente não chora. Desconfio de que suas glândulas lacrimais não funcionem muito bem. Ou talvez ele vá todo dia pro banheiro chorar escondido, nunca se sabe. Minha mãe diz que já viu meu pai chorar duas vezes ao longo dos infinitos anos de casados que eles têm, mas até agora são só boatos.

Eu realmente queria ser menos sensível a essas bobagens. Ou chorar pelos motivos certos. Porque quando é pra demonstrar carinho, falar da minha vida ou sofrer com alguma perda, sou uma pedra. Agora, coloca um Toy Story 3 procê ver se eu não estarei em prantos do início ao fim, com direito a soluços desesperados na sequência final.

Acho que peguei toda a minha sensibilidade e joguei no campo das artes. É uma estratégia segura, porque a ficção tem essa vantagem maravilhosa de não ser real. E, por mais comovente que o filme for, em aproximadamente duas horas ele vai acabar. Eu tenho medo é dessa coisa louca chamada vida que não vem com o tempo de duração na capa.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Sobre Meninos e Cães


Eu tinha 8 anos quando você nasceu. Redondo, peludo e com uma manchinha branca na cabeça. Eu só conseguia pensar que nunca existiria um cachorrinho tão adorável, engraçado e sem jeito. Éramos duas crianças e tivemos uma infância maravilhosa juntos. Mas você cresceu, ganhou personalidade e definiu quais eram suas prioridades na vida: comida, nossa companhia e bolinhas de tênis (mas a ordem pode estar errada). Ninguém correu tanto, Buddie. Você era incansável! Jogar a bolinha pra você pegar era não só uma das coisas mais divertidas do mundo como também uma das mais surpreendentes. Acho que seus genes de caçador britânico se manifestavam de tal forma que nenhuma barreira era suficientemente grande. Nunca vou esquecer quando a bolinha caiu no lago do parque e você, sem pensar duas vezes, pulou, nadou e voltou com ela na boca, like a boss.

Sabe? Ter um cachorro muda a vida da gente. Você foi a primeira criatura que parecia depender de mim e que me amava sem esperar absolutamente nada em troca. E era recíproco. Poucas coisas vão ser mais gostosas que seu abraço, quando você ficava sobre duas patas, eu agachava e, de um jeito mágico, nos abraçávamos exatamente como dois humanos. Poucas coisas vão ser mais tristes que seus uivos pro caminhão de gás e sua decepção posterior, ao perceber que o som de Pour Elise já havia desaparecido no fim da rua e não tinha mais necessidade de continuar cantando. Poucas coisas vão ser mais brilhantes que seus olhos. Um brilho que acabou cedo demais.

A catarata precoce tornou tudo opaco e sem vida e as coisas ficaram bastante confusas. Postes, degraus e buracos começaram a surgir e mudar de lugar sem o menor aviso. Era difícil. E logo os ossos começaram a reclamar, porque passar a vida correndo atrás de bolinhas de tênis também tem seu preço. Os últimos meses devem ter sido difíceis. Desculpa pela distância, viu? Desculpa. Mas acho que foi melhor assim. Eu não conseguiria te ver partir.

E você foi tão forte, cara! A morte já tinha te visitado outras duas vezes, mas parece que comer veneno e passar 10 minutos na boca de um pit bull não foram suficientes pra te derrubar. (Tem certeza que você é um cachorro e não, sei lá, um touro?) A única coisa capaz de te vencer foi mesmo o que vence todos nós: o tempo. Essa força invisível, violenta e desgraçada que vai destruindo nosso corpo, mudando nosso rosto e levando quem a gente ama.

Hoje eu só queria agradecer por esses treze anos de vida do seu lado. Pela sua fidelidade, carinho e amor sem igual. Por conseguir transformar todos os seus instintos e toda a sua irracionalidade em compreensão. Porque nem toda a ciência do mundo vai conseguir explicar nossas conversas. Obrigado por estar sempre lá.

Dizem que na terça-feira uma criança jogou a bolinha pra você buscar. Espero que você tenha se divertido com ele. Tudo que eu queria agora era ser esse menino e poder te jogar a bolinha mais umas duas ou três vezes antes de sentar com você embaixo de uma árvore pra discutirmos como a vida não faz sentido e é cheia de injustiças. A maior delas, sem dúvidas, é deixar um coração tão bom quanto o seu simplesmente parar de bater.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Missão Julie & Julia


Existem duas coisas bastante incompatíveis na minha personalidade: a péssima alimentação e a tendência a hipocondria. Porque eu sigo comendo mal (é um ponto pelo qual já parei de lutar), mas agora sinto que a qualquer momento podem aparecer as úlceras e pedras nos rins que aguardo com tanta ansiedade. Soma-se a isso meu medo de decepcionar a família e o que temos são sonhos bizarros em que estou deitado numa cama de hospital, comendo nuggets e chorando, enquanto meus pais falam: "eu avisei".

E ando tão cansado dessa minha vida sedentária, de conservantes, corantes e acidulantes, que cheguei a cogitar fazer musculação numa academia aqui perto de casa. Estou com tempo de sobra e tem o incentivo estético que, atualmente, é a única coisa que me faria mudar de vida. Mas eu me conheço tão bem que não vou cair nessa cilada de novo. Porque já fiz academia uma vez, né? Há alguns anos. E foi patético. Eu passava toda a série tentando enganar o instrutor, pulando aparelhos e errando a contagem de propósito. Não dá pra pagar por isso.

Pensei em voltar pra natação, que foi o único esporte que algum dia me empolgou. Lembro de treinar por duas horas diárias e ter sido, inclusive, convidado a competir pelo Sesi. Também adorava a sensação pós-treino. Aquela morosidade agradável que se estendia pelas duas horas seguintes a saída da piscina. O corpo ainda molhado, os pulmões ainda frenéticos e uma fome sem precedentes. Mas natação não te deixa bonito (te deixa magro e esguio, é verdade, mas isso eu já sou até demais), então acaba perdendo o maior incentivo de um exercício físico regular.

Acho que vou aprender a cozinhar. Talvez eu descubra um talento oculto, uma paixão nunca dantes explorada, acabe diminuindo meu consumo de comida industrializada e, consequentemente, meu medo de doenças. Então essa é a proposta. Tô aceitando sugestão de sites com receitas fáceis e baratas para solteiros pobres e preguiçosos. Enquanto isso vou revisando meu testamento pela milésima vez.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Mas Somos Agradáveis


Cenas de um Casamento é um filme do Bergman de quase 3h que conta a história de um casal, sua separação e reencontro. Essa semana terminei um namoro longo (longuíssimo) e só tenho conseguido pensar nesse filme. Especificamente nesse monólogo de Marianne, onde ela tenta explicar pro marido a causa do fracasso do relacionamento dos dois.

"De repente, viro-me e olho para uma velha foto de escola de quando eu tinha 10 anos, pareço detectar algo que me escapava até então. Para minha surpresa, devo admitir que não sei quem sou. Não tenho a mais vaga idéia. Sempre fiz o que me mandaram. Até onde me lembro fui obediente, correta, quase humilde. Me impus algumas vezes, quando menina, mas minha mãe me puniu por minha falta de modos, com severidade exemplar. Minha educação e a das minhas irmãs tinha o objetivo de nos tornar agradáveis. Eu era feia e desajeitada um fato do qual sempre me lembravam. Mais tarde percebi que, se guardasse meus pensamentos e fosse agradável e previsível seria recompensada. A maior decepção começou na puberdade. Meus pensamentos e sentimentos giravam em torno de sexo, mas nunca disse isso aos meus pais nem a ninguém. Ser enganosa e reservada se mostrou mais seguro. Meu pai queria que eu seguisse seus passos e fosse advogada. Dei indiretas de que queria ser atriz ou fazer algo no mundo do teatro, mas eles riram de mim. Desde então, sigo fingindo, forjando meus relacionamentos com os outros, com os homens, sempre atuando, numa tentativa desesperada de agradar. Nunca considerei o que eu queria e sim o que ele quer que eu queira. Não é falta de egoísmo, como costumava pensar, é pura covardia, pior ainda, provém da minha ignorância de quem eu sou. Nosso erro foi não nos desligarmos de nossas famílias e criarmos algo que nos satisfizesse a nós mesmos".

terça-feira, 24 de julho de 2012

Debaixo dos Caracóis do Seu Cabelo


Em seu novo filme, a Pixar se rende aos contos de fadas e à forma clássica de contar histórias, mas isso não significa que Valente seja ruim ou dispensável. Muito pelo contrário. A história de Merida, uma princesa rebelde, e sua relação com a mãe controladora são um primor visual e narrativo.

É impossível assistir Valente e não reparar nos cabelos da protagonista. Não só pela animação deslumbrante, que faz cada fio ruivo ter vida própria, mas porque o cabelo surge como uma metáfora óbvia para o comportamento das personagens. Merida mantém suas madeixas encaracoladas ao vento, como símbolo do seu anseio por liberdade, já sua mãe tem cada fio sob controle, num penteado simétrico e perfeito. Logo fica claro que as diferenças não se resumem apenas ao ramo capilar.


Valente é um filme sobre relacionamento entre pais e filhos (tema que a Pixar já havia abordado em 2003, com Procurando Nemo). Só que em vez de um pai superprotetor que vive sob o medo de perder seu unigênito, aqui o conflito se dá pelo excesso de expectativa de uma mãe e sua dificuldade em respeitar a liberdade da filha. Nas duas histórias fica clara a transformação dos personagens, como consequência de uma trajetória de autoconhecimento, mas em Valente essa transformação é literal.

Com personagens carismáticos e momentos engraçados, o novo filme da Pixar deve ser interessante tanto para os pais (coisa que Carros 2 não foi) quanto para os filhos (coisa que Wall-E não foi). E esse é um equilíbrio que, inevitavelmente, reduz a força da trama. Por mais bem executado que seja, um conto de fadas tem suas correntes e todo filme que opte pelo gênero precisa escolher se vai quebrar as regras e virar uma paródia (o que Shrek fez) ou respeitá-las e ficar limitado a um certo campo narrativo. Valente escolhe a primeira opção e, mesmo aprisionado, consegue ir longe.


PS: Todo mundo já sabe que em filme da Pixar não dá pra chegar atrasado. O curta que antecede Valente é um banquete visual (assista em 3D) e tem na sua ideia uma simplicidade e ambição comum a outros trabalhos do estúdio, como Parcialmente Nublado.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Jovens Adultos e o Limbo Imobiliário


Mavis Gary, a personagem principal de Jovens Adultos (novo filme do Jason Reitman), nasceu no interior do estado de Minnesota, mas resolveu ser frustrada na cidade grande. Basicamente é o que muita gente que nasce no subúrbio ou na roça faz. Com a ideia fixa de que o mundo é muito mais que aquela avenida e suas quatro transversais, a pessoa resolve fazer as malas e sair da casa dos pais em busca de uma vida realmente excitante. Mas olha! Se você não é excitante, independente do endereço, sua vida vai continuar uma bosta.

O filme é abusadamente contemporâneo, cheio de Coca-Colas, Pizzas Huts e KFCs espalhados pelo cenário, tem um ritmo delicioso e um bom uso da trilha sonora (como é de se esperar num filme do Jason Reitman), mas sua maior qualidade é mesmo o trabalho de Charlize Theron, que aqui faz uma personagem ora incrível, ora patética (com predominância desse último). O problema é que ver Mavis Gary sendo ridícula e tomar consciência disso foi como me olhar num espelho mal educado. E acaba que vivemos, enquanto assistimos ao filme, algo que a própria personagem irá viver logo mais na tela: uma súbita revelação dos nossos próprios defeitos.

Mavis decide voltar pra sua cidade natal porque sua vida de ghostwriter de série infanto-juvenil fracassada não anda muito boa, mas na primeira visita à casa dos seus pais, rola toda aquela incompatibilidade característica de quem já não tem nada a ver. E isso é tão comum... Eu saí da casa dos meus há menos de um ano (quer dizer, eles saíram da nossa cidade) e às vezes me pego morrendo de vontade de voltar. O que é uma grande ilusão, porque quando a gente tá longe, as lembranças são todas maravilhosas, envolvendo cafunés e pizzas na frente da TV. Ninguém lembra das encheções de saco características de qualquer dinâmica familiar. Aposto que, se eu realmente voltasse, não conseguiria ficar confortável por mais de uma semana.


Uma amiga minha, que alugou seu próprio apartamento a pouco tempo, disse também estar no limbo da vida adulta. Isso de não pertencer à casa dos pais, mas também não pertencer a lugar nenhum. Dia desses ela afirmou ter sido empurrada pela sua porta enquanto tentava entrar em casa.

Acho que todo mundo tem uma Minnesota. É aquela cidade do interior onde você cresceu, confortável e protegido, mas que hoje em dia não te acolhe mais. E o problema não tá em Minnesota. Claro que não. O problema está em mim, na Mavis Gary e na minha amiga empurrada pela própria porta. Somos nós que acabamos nos tornando diferentes demais pra poder voltar.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Psico-Dramas dos Anos 90


É uma satisfação e um consolo já poder me referir aos anos 90 dessa forma... Como se eles tivessem passado há muito tempo. Eu meio que sempre tive inveja do pessoal que nasceu nos anos 80 porque eles falavam da década deles como uma época maravilhosa de discos dos Menudos, figurinhas de chiclete e brinquedos incríveis e interativos. Os 90 ainda não eram dignos de nostalgia. Mas agora são. Já somos adultos (pelo menos quem nasceu na primeira metade), estamos na faculdade e podemos olhar pra trás com orgulho e saudade.

E percebi dia desses que quase todos os meus filmes preferidos foram produzidos entre 1990 e 1995. Acho que foi a época em que meu pai mais pirateou filmes da locadora pra nossa coleção particular. Tínhamos umas 200 fitas VHS gravadas em EP com três filmes cada. E foi aí que eu me apaixonei por cinema. Descobri que eu não precisava ficar revendo O Rei Leão incansavelmente. Que podia ver filmes de adulto e que meu próprio pai tinha ótimos exemplares bem ali, na estante da sala. Foi assim que fiquei conhecendo os Batmans do Tim Burton, Os Batutinhas, A Convenção das Bruxas, A Família Buscapé, A Morte Lhe Cai Bem... E algumas coisas um pouco mais pesadas como O Exorcista, Carrie - A Estranha e Assédio Sexual, que eu só via quando ficava sozinho em casa.


Ontem revi O Anjo Malvado com a Esthéfane e foi uma experiência maravilhosa. Tenho um carinho todo particular por esse filme. Acho que me impressionava muito ver um menino da minha idade fumando, atirando em cachorros e tentando matar a própria irmã. E toda criança se sente um pouco malvada, né? Então eu ficava me perguntando se algum dia chegaria no nível Macaulay Culkin de crueldade. Felizmente não fui tão longe. Mas ainda hoje acredito na psicóloga de Mark quando, interrogada sobre a possibilidade de alguém ser mau sem motivo aparente, ela diz: "não acredito em maldade". E realmente... Minha avó sempre defendeu esse raciocínio. De que todo mundo tem toneladas de motivos, sejam eles frutos de um trauma ou de uma doença.


O Anjo Malvado é de 1993 e deve ter causado o maior rebuliço na época por levantar essa hipótese de que seu próprio filho é um psicopata. As mães piraram. Dois anos antes, o mesmo diretor já tinha feito Dormindo com o Inimigo, excelente thriller com Julia Roberts, que também colocava um assassino dentro de casa. Dessa vez ele surge na figura de um marido obsessivo-compulsivo que achava ok espancar a mulher por ela ter deixado a toalha torta no banheiro.

Acho que até então nenhuma época do cinema soube abordar tão bem esses transtornos psicológicos e colocar o bandido tão perto de nós. Podemos dizer até que foi uma ótima introdução pros anos 90. A década responsável por toda essa geração que hoje economiza a mesada pra pagar o analista.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Dos Testes Vocacionais


Hoje tivemos mais uma discussão aqui em casa. Tudo porque, durante o almoço, falei que estava indo ao cinema, assistir Cavalo de Guerra. Minha mãe achou um absurdo e começou a dar um super sermão sobre eu ter que controlar meus vícios, porque ontem eu já tinha ficado acordado até duas e meia da manhã vendo filme francês e que eu tô assistindo, em média, um filme por dia (o que pra ela é o cúmulo da perda de tempo), etc. Olha... Até respirei fundo e pensei se vale a pena mesmo explicar, porque não é possível. 20 anos na cara e até hoje nego não entendeu qual é a minha?

É claro que expliquei, né? Que cinema, pra mim, não é só entretenimento. E é claro que ela continuou sem entender. Porque a geração deles cresceu num mundo que ensinou o seguinte: trabalhar é aquilo que acontece em um escritório, ou numa construção, um numa plantação de cana. Cinema, televisão e internet são espaços de lazer. Não vamos misturar as coisas. Mas o que essa gente não sabe é que as coisas nunca estiveram tão misturadas. E não adianta mais ficar tentando separar.

Nossa geração (digo, o pessoal dos anos oitenta pra cá) não tá mais realizando essa coisa de funcionário público. Trabalhar não precisa ser um porre. Dá, sim, pra trabalhar com o que a gente gosta e, por incrível que pareça, os resultados são até melhores quando isso acontece. E eu quero trabalhar com filmes. BANG! (minha mãe pensando "onde errei?" neste momento). Quero escrever sobre filmes e, pra isso, eu preciso ter uma bagagem mínima. E preciso ver tanta coisa, tanto clássico, tanto filme indispensável, que assistir um por dia seria o ideal. Infelizmente, não é possível manter essa média depois que as férias terminam.

É claro que ir ao cinema ainda é uma das coisas que mais me dá prazer. Não vou ser hipócrita e dizer que só faço por obrigação. Não é isso. Mas o prazer não é tudo. Cinema, pra mim, além de ser a maravilhosa sensação de escolher uma poltrona na sala escura e esperar o começo dos trailers, é também o que eu quero fazer da vida. Não é como se eu quisesse ser prostituto. É?

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Essa Eterna Gincana

Só hoje fui perceber o quão séria é a minha mania de competição. Tudo porque de tarde passou Dirty Dancing na Globo e tinha um pessoal comentando no Twitter. E eu fui falar que "ok, Dirty Dancing é legal, mas Grease é bem melhor!". Assim, do nada. E joguei na cara de todo mundo que Dirty Dancing só tinha uma música (que na verdade é só uma apresentação em um palco), enquanto Grease é um musical de verdade. Depois fui assistir as duas partes de As Relíquias da Morte e segue meu primeiro comentário: "A parte 2 é muito interessante, mas a parte 1 é melhor".

Sabe? Isso deveria ser tratado, porque não é normal transformar tudo em gincana. Eu. Faço. Rankings. Essa é a minha função na vida. Faço ranking dos tios mais bacanas, das primas mais bonitas, dos colegas mais inteligentes, das melhores coxinhas da cidade... Porque alguém me ensinou (talvez minha família e seu particular vício por jogos de tabuleiro) que não basta ser bom. É preciso ser melhor que.

E aí que nesse fim de semana joguei Yahtzee com minha namorada e um amigo. Ela não é boa e ele nunca tinha jogado Yahtzee. E perdi. Perdi vergonhosamente.

O que me mata é que, pra eles, certeza que não fez a menor diferença. É só um jogo de dados. Já eu, tô aqui remoendo a derrota até hoje. Pra mim, não é SÓ um jogo de dados. É um jogo de dados. E isso é muita coisa.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

As Paredes Têm Ouvidos

Nunca foi tão difícil escrever. Estou completa e irreversivelmente travado, de modo que não sei se esse blog sobrevive por muito tempo. Os parentes estão por toda parte, eles brotam nas redes sociais... Eles e os velhos que nunca entendem nada, mas fazem questão de comentar, opinar e aconselhar em cada nova atualização. E eu morro de vergonha, fico me escondendo... Não sei o que responder, não sei o que fazer. Parece que estão invadindo um espaço que, logicamente, é público, mas que até então era só meu e de semi-desconhecidos que não se importavam muito com minha saúde e bem estar.

É um paradoxo. Porque eu escrevo na internet pra ser lido. Eu gosto de ser lido. É esse o objetivo, não é? E, de uma forma ou de outra, fui eu que acabei abrindo esse espaço. Não posso culpar meus pais por lerem um texto público, escrito pelo próprio filho, e divulgado amplamente nas redes sociais.

Eu gosto de ter minha família por perto, realmente não vejo problema em todos eles terem Twitter e Facebook. Mas o tipo de exposição que eu faço não é muito agradável. E muita gente fica incomodada. Faço autodepreciação, reclamo de muita coisa, falo besteira, exagero... E desculpa, mas é assim que sei me expressar. Não tô fazendo tipo. Não tô querendo impressionar. Tô só dizendo que ontem um piano caiu na minha cabeça, porque foi exatamente assim que me senti. A parte de ler e interpretar fica por conta do cliente.

Na maioria das vezes, acabo chateando e preocupando todo mundo, de uma forma ridiculamente egoísta. E isso me constrange. E ver alguém se preocupar comigo publicamente também me constrange. Não sei por que. Mas tem me irritado muito essa incapacidade de dizer o que eu quero falar, por medo de incomodar as pessoas que eu amo.

Das duas uma: ou você começa a cagar pra todo mundo e sai como o egoísta que não consegue disfarçar sua carência, ou você começa a se censurar e, pouco a pouco, vai limitando seu vocabulário, suas ideias e seus pensamentos até cair num silêncio eterno.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Lei do Interesse

Apareceram umas aftas na minha boca e tudo o que eu queria agora era ter minha avó por perto pra dizer que "isso aí é emocional". Porque pra ela, realmente, todos os males e doenças que nos atingiam, começavam na cabeça. Para parar de soluçar, vovó ensinava o truque: nada de tomar três goles d'água, prender a respiração ou levar um susto, o único jeito era se concentrar, contar 1, 2, 3 e dizer um "parou" com bastante fé. Se a sua mente conseguisse se controlar, naturalmente seu sistema digestório seguiria o mesmo caminho. E nessa brincadeira, nunca vi a danada falhar.

Pra minha vó, a mente era a origem e solução de todos os desvios de comportamento humano. A maldade não existia. Ninguém era mau, todo mundo era doente. Sim, porque meu avô sempre bebia, sempre aprontava, sempre fazia com que ela e os filhos sofressem... Chegou ao cúmulo de jogar cachaça no olho de um gatinho, por pura maldade. Mas até hoje, com meu avô já morto, ela continua dizendo que nunca teve raiva. Tinha pena. "Ele era um homem doente".

Nunca vi minha avó julgar ninguém por um erro, e olha que, às vezes, o erro era realmente digno de julgamento, quiçá, pena de morte. Ela conhecia a alma humana muito bem e essa compreensão fez com que entendesse que as pessoas não são ruins porque querem. Que ninguém escolhe o mal ou que, se acabou escolhendo, certamente foi porque não estava em seu juízo perfeito.

Acho que vou acabar exatamente como a minha avó. Colocando a culpa de tudo que é erro, afta ou cachaça em olho de gato nas doenças psicológicas. Estou julgando cada vez menos e sendo cada vez mais tolerante e compreensível com as falhas alheias. Talvez por também estar adquirindo certa compreensão da alma humana ou, na hipótese mais provável, por já estar pensando no meu próprio julgamento e desejando que a mesma misericórdia que dispenso ao meu próximo, seja dispensada a mim no último dia.

sábado, 1 de outubro de 2011

Direito de Resposta

O post de quarta-feira causou certa comoção lá em casa, então achei de bom tom esclarecer alguns pontos aqui.

Blog pessoal só serve pra isso mesmo. Você começa a se sentir íntimo, seguro, e passa a não pensar nas coisas que escreve. E esse filtro, eu faço mesmo questão de não ter, porque me preocupa demais não ser espontâneo. Pelo menos aqui. Aqui é o único lugar no mundo onde tenho o direito de falar bobagem. E vocês têm o dever de relevar.

Acontece que meus pais ficaram um pouco chateados com a abordagem do meu texto. Acharam que não condiz muito com a realidade, essa ideia de que nos isolamos em um grupo fechado. E olha... Eles me deram alguns exemplos que realmente comprovam relações de afeto com outras pessoas. E embora meu enfoque tenha sido na capacidade de "fazer novos amigos", talvez eu tenha mesmo exagerado, ou pior, tenha generalizado a situação da minha família com base na minha situação.

Porque eu, sim, sou um fracasso nessa área. De não ter nenhum traquejo social. De viver a maior parte do tempo sozinho mesmo. E nem é uma solidão solitária, porque sempre tem gente ao meu redor. Sou eu que me isolo aqui dentro. Porque gosto. Então pode ser que meus pais e irmãos não sejam exatamente assim. Mais uma vez, fui enfático demais. Desculpa.

Por isso as pessoas vivem se assustando com as coisas que escrevo no Twitter (não as pessoas do Twitter, que já são escoladas em matéria de hipérbole, mas as do Facebook). Então sempre tem alguém pra falar: menino, que horror! Fica chato, sabe? Ter que explicar situações hipotéticas, figuras de linguagem, pros loucos da interpretação que não fizeram 7ª série. Mas a culpa pode ser minha também. Confesso que já soube me expressar melhor. Hoje faço uma bagunça. Agora, por exemplo, são quase três da manhã e eu tô aqui falando de coisa que nem é assunto desse post, sem entender mais nada, de modo que é melhor acabar logo com isso.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Família Forever Alone

Dia desses, meu cunhado veio falar que minha família não sabe ter amigos. Que somos todos antissociais, fechados em nosso círculo de piadas internas, etc. E olha, por mais que exista certa implicância da parte dele, não acho que alguém essa semana tenha dito algo mais verdadeiro. E é o tipo de coisa que a gente sempre soube, mas nunca quis encarar. Nós cinco: eu, meu pai, minha mãe e meus dois irmãos mais velhos, não sabemos fazer amigos. Nunca aprendemos como se faz. Até porque, imagino que isso não seja o tipo de coisa que se ensine em algum lugar.

O fato de a minha família ser mineira explica boa parte do problema. Mineiros são extremamente apegados aos seus parentes mais próximos. Gostam de tomar o lanche da tarde, numa mesa grande, onde todos poderão sentar, sorrir, comer seus pães de queijo e fazer o papel de pai, mãe, filho e irmão, que é o certo a se fazer nessas situações. A família é tudo pra gente. Então, fora dela nada faz muito sentido. Nunca precisamos de amigo, sabe? Não dá pra entender, mas o raciocínio é justamente esse. Acho que a gente se bastava.

E daí, multiplicam-se as cenas de grandes festas, envolvendo pessoas das mais variadas origens, todas conversando entre si, e a minha família sempre unida, numa mesa, sem interagir com mais ninguém (e sem deixar que ninguém interagisse conosco). Não é nada premeditado. Tanto que só fui perceber dia desses. Simplesmente não nos damos bem com os outros. E não nos esforçamos pra isso.

Particularmente, posso dizer que tenho alguns poucos amigos, mas todos eles surgiram de forma completamente absurda, sendo a culpa da amizade muito mais deles que minha. Não sei ser espontâneo com as pessoas. No cursinho, quando tento falar com alguém que não conheço, sempre acabo parecendo um louco ou um retardado. Na maioria das vezes o resultado é um silêncio longo e constrangedor. Então, tenho preferido não falar.

Como todo mundo sabe (já que eu não canso de chorar essa pitanga aqui no blog), meus pais se mudaram de Brasília, me deixando sozinho em terras estranhas. E essa seria a grande oportunidade de desenvolver meus atributos sociais, já tão atrofiados. Com o rompimento temporário do clã familiar, naturalmente, eu teria mais tempo para me dedicar às novas amizades ou fortalecer as antigas. Eu poderia ficar mais natural com gente nova, eu poderia ficar menos antipático, eu poderia ficar mais sincero, eu poderia ficar tudo isso, mas o máximo que consegui até hoje foi mesmo ficar sozinho.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Os Ratos Fazem a Festa


Tem uma cena dA Árvore da Vida em que um menino chega em casa e descobre que o pai teve que viajar. Na mesma hora o garoto entra em êxtase e começa a correr pela casa, comemorando com a mãe e os outros dois irmãos. Estava livre.

Porque o pai, um religioso fanático e autoritário, representava toda a insegurança e medo que permeavam a vida familiar. Perto dele, ninguém conseguia ser natural. Ele era o incômodo a ser contornado.

E eu, antes da sessão terminar, decidi que nunca darei motivo pra um filho meu comemorar minha ausência.

domingo, 14 de agosto de 2011

Preconceito Linguístico

Sinceramente, achei que não aguentaria um mês sem meus pais por perto. Que logo entraria numa crise depressiva sem precedentes ou que em poucos dias já teria brigado com minha irmã ou meu cunhado (que agora me abrigam pacientemente em Brasília). Então estou surpreso comigo mesmo. E muito orgulhoso. Ok, não é como se eu estivesse morando sozinho e pagando minhas contas Maria do Carmo feelings, porque meu pai ainda vai mandar uma grana pras necessidades básicas. Mas pra mim isso prova que eu não preciso deles pra tudo (apenas pra 60% de tudo) e que eu consigo sim fazer um orçamento tosco e controlar meus gastos com ônibus, almoço e cinema.

Voltei pro pré-vestibular e a rotina é exatamente a mesma do semestre passado, com a única diferença de que agora eu tenho que atravessar um barranco de terra toda vez que quero pegar ônibus (o que faz o pessoal do cursinho sentir pena de mim, porque chego com dupla camada de terra no tênis). E dia desses tinha um cara mijando na única entrada do barranco, então resolvi dar a volta e passar pelo outro lado pra evitar o constrangimento. Escorreguei nos pedregulhos e saí catando cavalo morro à fora, numa linda performance, mas ninguém viu, porque eram seis da manhã.

Também resolvi prestar vestibular pra Letras na UnB, por cinco motivos: 1) É mais fácil de passar, 2) Dou aula particular de literatura e texto há um ano. 3) Eu posso pegar umas matérias de Comunicação e depois terminar numa particular, me formando em Letras e Jornalismo no total de seis anos. 4) Professor de português pode ser jornalista, mas jornalista não pode ser professor de português e 5) Clarice Lispector me aprovaria.

Não é como se eu estivesse desistindo do meu sonho, até porque não sei se tenho algum. É mais como uma tentativa desesperada de começar alguma coisa. De sentir que não estou perdendo tempo, assistindo aula do lado de menino de DEZESSEIS anos. E juro que não vejo problema nenhum em passar o resto da vida sem dinheiro, corrigindo redação de criança semianalfabeta e esperando meu Jabuti que nunca virá.

Então liguei pra minha irmã, todo empolgado pra falar dos meus planos. E ela me vem com essa: "Não faz isso não! Letras é curso de empregada doméstica". Juro. E-m-p-r-e-g-a-d-a d-o-m-é-s-t-i-c-a! Primeiro eu fiquei assustado, mas depois vi que faz todo o sentido. Né? Sempre curti novela do Manoel Carlos e revista de fofoca... Só faltava mesmo um curso de Letras pra eu poder aumentar o valor da faxina.

Eu quero saber quedê minha vassoura?

PS: Minha irmã é formada em letras.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Balde de Água Potável

Certo dia meu pai apareceu lá em casa com um aquário. Um desses aquários grandões, quadrados, com peixes variados e pedras e algas de enfeite. Desde então só temos dado manutenção, com um punhado de comida por dia, já que não rola a necessidade de um carinho ou de levar o peixe pra passear. Sim, peixe é o bicho de estimação mais chato ever, perdendo apenas pros passarinhos (que, além de não fazer nada, ainda fazem barulho). Semana passada meus pais viajaram e eu fiquei responsável pela casa e pelos animais da casa: o Buddie, os peixes e as formigas (que, de tanto tempo que frequentam a cozinha, acabaram ganhando nome e apelido). O Buddie e as formigas ficaram bem, mas os peixes...

O aquário está nojento há dias e ninguém tem coragem de lavar. O que tem no vidro já não pode ser chamado de lodo, é algo mais próximo de uma floresta amazônica. E ontem fui colocar comida e achei dois peixes mortos, boiando. Um deles estava pela metade, o que foi assustador (já que a outra metade continua desaparecida). Decidido a salvar a vida dos outros animais, enchi um balde de água, coloquei umas pedrinhas no fundo pra eles não estranharem e fiz a transferência. Eles devem estar aliviados, pensei eu, vendo a água limpa do balde em comparação à imundície do aquário. E fui dormir feliz.

Hoje, quando acordei, todos os peixes estavam mortos. TODOS.

Sabe? É típico. Porque eu faço isso o tempo todo nos meus relacionamentos. Estou vendo a pessoa sofrer, atolada em uma sujeira impossível de se limpar, e acho que ela ficaria bem melhor em um balde com água limpa. Pego a pessoa, mudo ela de casa, tiro dela suas pedras, suas algas e seu lodo, tudo com a intenção de ajudar, é claro, de salvá-la dessa podridão, e no dia seguinte, quando acordo, cadê meu peixe? Está morto, flutuando numa água potável.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

19 Anos e Mais Nada

Ontem foi confirmada a transferência do meu pai pra Campinas e agora ninguém sabe o que fazer. Porque nossa família nunca se separou. Meus dois irmãos mais velhos, apesar de casados, moram aqui no DF (um em cada extremo, é verdade, mas ainda aqui) e todo mundo já tem sua vida estabelecida, seus empregos, suas casas, etc. Eu sou o filho que não tem nada. Tenho um cachorro e uma namorada, mas, fora isso, nada me impede de mudar de cidade, estado, país ou planeta.  O único problema seria ganhar bem menos com as aulas particulares de redação e literatura, porque a hora-aula que se paga aqui (principalmente a hora-aula que os alunos do Galois pagam aqui) não existe em nenhum outro lugar. Em outros tempos eu adoraria a ideia, mas hoje tenho medo de ficar sozinho. Mais uma vez.

Demorei a reconhecer que sou extremamente dependente da minha família. Uma dependência emocional mesmo. Porque, no fundo, eu não tenho mais nada. Nunca fui de amizades profundas, de entrega completa e sinceridade desmedida. Até porque, sempre tive muito mais amiga que amigo (descobri cedo que nós, meninos, somos muito desinteressantes e abobalhados) e amizade entre homem e mulher, quando não tem segundas intenções, está fadada à superficialidade. Sobrou minha família, onde sempre depositei essa enorme bagagem de medo e insegurança.

Tenho a sorte de ser o caçula e poder contar com dois irmãos razoavelmente estabelecidos, mas não acho que aguentaria passar 4 anos numa casa que não é minha. Por mais à vontade que eu me sinta, não seria confortável pra nenhum dos lados. E nessas horas bate um desespero, porque eu vejo que não tenho muitas outras opções. Não construí nada onde eu possa me agarrar. Não tenho faculdade, salário fixo ou um teto pra fugir do sereno. E o mundo tá aí, querendo me engolir. E eu aqui, com medo de encarar.

E eu aqui, preso num tempo entre 1991 e a puberdade.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Non, Je Ne Regrette Rien

Tenho tido uns sonhos estranhos. Ontem sonhei que matava um homem, sem querer. Por proteção. Era uma briga de trânsito envolvendo toda a minha família. Eu tinha um revólver e acabei atirando. E fiquei com o corpo nos braços, sem saber o que fazer. Enfim, meu pai decidiu ir pra casa (estava tarde) e deixar o defunto escondido embaixo da minha cama. No dia seguinte nos livraríamos dele. Um desconforto imenso, dormir com o homem que você matou embaixo da cama. E eu não estava conseguindo pegar no sono, então levantei pra beber água. Quando voltei, fui conferir o corpo e só tinha sangue. Ele não estava mais lá. Desespero, horror. O homem que eu matei estava vivo. E queria vingança.

Meu sono, naturalmente, é muito agitado. E, como gosto de dormir de manhã, acabo ficando mais tempo naquele estágio em que a gente lembra dos sonhos. Tenho reparado como nunca, nunca me dou bem neles. A história pode até começar tranquila, envolvendo um passeio em família, um flerte, uma ida à praia... Quando de repente aparece um ladrão ou assassino, animais peçonhentos, ondas gigantes (nossa, sempre sonho com ondas gigantes, e que estou afogando, e que estou caindo de um prédio que não tem fim... Sempre).

Tenho muita vontade de estudar o significado dos sonhos. Já ouvi falar que existe uma terapia que é toda baseada nisso. Porque um sonho nada mais é que o subconsciente jogando na nossa cara o quanto a gente não presta. Por isso, eu quase sempre omito algumas partes das minhas viagens oníricas. Porque acho que as pessoas vão ficar impressionadas. Ontem mesmo, falei pra algumas pessoas sobre esse sonho do defunto embaixo da cama, mas não contei que, depois de dar o tiro, comecei a socar o rosto do homem, porque não podia deixar o serviço pela metade e tinha medo de ele não ter morrido realmente. Socava com tanta força que seu crânio abriu, e minha mão encheu de sangue. Não foi legal. Eu sentia pavor o tempo todo... E arrependimento.

Na maior parte das vezes meus sonhos envolvem medos modernos: assaltos, assassinatos e brigas de trânsito que terminam mal. E eu sempre chego num ponto crítico onde não há mais escapatória. Ou as pessoas descobrem minha mentira, ou alguém me pega fazendo algo muito errado, ou a prova do meu crime desaparece. Me ferro muito, e das piores formas possíveis. Sendo que minha única saída, quase sempre, é acordar. Tenho medo de que, qualquer dia desses, eu fique preso no limbo.