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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Como Você Consegue, Joana?

Depois de assistir Whiplash defini que realmente não tem jeito: se a gente quiser ser alguém nessa vida são necessários alguns sacrifícios tipo tirar sangue da mão de tanto treinar o mesmo movimento ou assumir a solteirice e o isolamento social necessários para o aperfeiçoamento da sua técnica. Aí resolvi me obrigar a escrever qualquer coisa que não seja trabalho acadêmico por pelo menos uma hora todos os dias, além de um tempo reservado pra escrever num arquivo que ainda chamo de diário mas que já virou uma espécie de joguinho masturbatório de estilos.

Considerando que reservar uma hora do seu dia pra treinar qualquer tipo de habilidade não é sacrifício em lugar nenhum do mundo, pode parecer que eu esteja sendo meio prepotente, achando que, por ter nascido com uma sintaxe natural mais evoluída, o que alguém levaria dias de treino e lapidação eu mataria em duas horas na frente da escrivaninha. Não. Não é bem isso. A verdade é que eu tô sendo bastante realista. Eu escrevo quando dá na telha (e não só quando dá na telha, mas quando dá na telha e eu tô em casa, com tempo disponível, computador disponível, etc) e isso não é o bastante. Pelo menos não segundo Bradbury e esse pessoal que ama tanto o ato de escrever que só passou a vida escrevendo e falando sobre como era mágico escrever, de uma forma meio guru (e pensando agora, a verdade é que quase todo escritor cai nesse ciclo víciosíssimo) e dizendo que você só vai ser bom realmente na coisa se fizer essa coisa uma porrada de vezes e experimentar formatos novos, assuntos desconhecidos, segredos profundos...

A ideia então é manter essa média de uma hora por dia por pelo menos dois meses seguidos (se ficar um dia sem escrever, começa tudo de novo) e só aí ir aumentando progressivamente o tempo de dedicação até virar um monge literário.

A partir desse ponto confesso que nem minha mania de programação doentia conseguiu dar conta. Porque o tempo não existe. Não tenho tempo. (Ninguém tem, eu sei, mas eu não tenho mesmo!) Eu caí no erro tremendo de ser do tipo de gente que é um pouco bom em muitíssimas coisas e não do tipo de gente que é muito bom em pouquíssimas coisas (ou ainda do tipo de gente que é o melhor em apenas uma coisa - o tipo certo) e isso atrasa tudo, porque eu me enfio numa verdadeira zona artística (tanto no sentido da bagunça quanto no sentido da putaria), sem saber se compro uma máquina fotográfica ou entro pra aula de canto.

Fora a pretensão dessa coisa toda de querer ser artista, ainda tenho que lidar com a minha natureza de consumidor insaciável. Antes de querer ser um fazedor de livros, filmes e músicas eu já queria consumí-los todos. Eu já era fascinado por eles (e esse fascínio é tão grande que até hoje alimenta minha inspiração) e acho que o dia em que eu não conseguir mais sentir alguma coisa com um conto, um romance ou um poema, aí realmente eu não vou ter mais forças pra continuar. Então manter esse fascínio é mais que uma boa estratégia, é uma questão de sobrevivência. É preciso me alimentar com estímulos que justifiquem meu esforço para produzir algo parecido. Daí a dificuldade de querer acompanhar uma indústria que solta material novo a cada segundo (e muito material novo!) e trata cada um desses novos lançamentos como obra de arte indispensável (que provavelmente ele não é, mas daí a você não querer ver com seus próprios olhos...).

Assinei a Entertainment Weekly, que era um sonho meu desde que eu lia a Set (uma revista de cinema já cancelada por falta de papel). A Set era meio tosca, mas era a única revista sobre filmes da banca que estava em português. Nunca me atrevi a comprar uma Entertainment Weekly. Primeiro que o preço cobrado por aquela revistinha mole de papel vagabundo aqui no Brasil chegava aos vinte e cinco reais e segundo que meu inglês é péssimo, mas naquela época era ainda pior. Hoje já dá. E, com iPad e esses aplicativos que simulam toda uma banca de jornal cheia de revista importada, famosa, independente, sem noção..., ninguém precisa mais gastar vinte dilmas num monte de papel grampeado (mas ainda precisa gastar dois obamas e noventa e nove cents, é verdade).

Como se não bastasse esse novo hobby de férias, ainda tenho o diabo de um app chamado Iba Revistas, que é a pior coisa que já inventaram (mas que continuo assinando por inércia e também pela possibilidade de ler todas as Super Interessantes lançadas até hoje). As Piauís nunca estiveram tão acumuladas; acho que estou terminando agora a edição de outubro.

Mas o problema da maioria dessas revistas é que elas, em vez de saciar seu desejo por informação e entretenimento, só fazem esse desejo aumentar, te indicando novos livros em edições de capa dura, blu-rays que vêm com todo o cenário do filme incluso, coletâneas de álbuns relançados em vinil e outros absurdos maravilhosos demais pra gente ignorar. Aí você vai ler um livro (que por si só já tem quase mil e duzentas páginas) e descobre que metade dessas páginas são referências a outras centenas de obras que, se você fosse esperto, já teria lido... Ou seja. Não tem a menor condição de viver num mundo assim.

sábado, 26 de abril de 2014

Possuí e Perdi Alguma Coisa Infinita

Dois mil e catorze e eu acabo de descobrir esse gênero chamado ensaio. Claro que já tinha lido alguns ensaios na minha vida, mas nunca tinha me dado conta de que o nome daquilo era ensaio. Enfim. Acabei viciando. Gastei dinheiro no Kindle, investi tempo e saúde e conheci David Foster Wallace, o autor de Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo.

Quando eu digo conheci, é conheci realmente. E isso é uma das coisas legais de se ler uma coletânea de ensaios (principalmente a coletânea de ensaios de um cara que tem a cabeça como a do David Foster Wallace). O mergulho na mente, na capacidade narrativa e descritiva do autor é tão profundo que, por vezes, você se pega pensando como um D. F. Wallace em plena praça de alimentação do Conjunto Nacional, o que torna a vida inviável. Por outro lado, você, de certa forma, faz um amigo (vomitem, ridículos). Você passa horas numa conversa sem volta com esse homem que te faz rir e te faz pensar e quase te faz dormir, antes de te assaltar com uma construção genial e te fazer acordar. É um pouco estranho, mas você se acostuma (e no final, até ama).

O livro reúne alguns ensaios sobre, por exemplo, cruzeiros de luxo, a problemática de se cozinhar lagostas ainda vivas e as razões pelas quais Federer é o melhor ser humano que já pisou neste planeta. Todos muito bem escritos. Cheios de detalhes precisos, jornalísticos e, ao mesmo tempo, completamente descompromissados com as coisas "naturalmente" primordiais. Uma das coisas mais legais do D. F. Wallace é essa capacidade de enxergar aquele detalhe que, à primeira vista, não parece muito digno de nota, mas que cresce com o texto e encontra correspondentes muito íntimos na nossa própria memória. Daí talvez a certeza de ter conhecido um ensaísta que se matou há seis anos. Seu texto tem a capacidade de nos ensinar algumas coisas fantásticas e, ao mesmo tempo, deixar a sensação de que, no fundo, nós sempre soubemos essas coisas.

Fiquei um pouco angustiado do meio pro final. Não pela qualidade do texto (até porque o texto é realmente impecável), mas porque Wallace tem uma visão muito pessimista, cíclica e perdida da existência humana. No meu ensaio preferido dessa coletânea (Isto É Água, que na verdade é um discurso de formatura que Wallace teve que fazer para alguma turma) ele descreve, com precisão, esse ciclo de fracassos e fala sobre a única alternativa possível. Só por esse trecho, o livro já valeria a pena.

"A única verdade com V maiúsculo é que quem decide como vai tentar ver as coisas são vocês mesmos. Essa, a meu ver, é a liberdade de uma educação autêntica, de aprender a ser bem ajustado: poder decidir conscientemente o que tem significado e o que não tem. Poder decidir o que venerar… 

Pois aqui está uma outra verdade. Nas trincheiras cotidianas de uma vida adulta, não existe isso de ateísmo. Não existe isso de não venerar. Todo mundo venera. Nossa única escolha é "o que" venerar. E se existe uma ótima razão para talvez venerar algum tipo de deus ou coisa espiritual - seja Jesus Cristo ou Alá, yhwh ou uma deusa-mãe wiccan, as Quatro Verdades Nobres ou algum conjunto inviolável de princípios éticos - é que provavelmente todas as outras coisas vão devorar vocês vivos. Quem venerar o dinheiro e os bens materiais, quem buscar neles o sentido da vida, nunca terá o suficiente. Nunca terá a sensação de que tem o suficiente. É a verdade. Quem venerar o próprio corpo, beleza e encanto sexual sempre vai se achar feio, e quando o tempo e a idade começarem a deixar marcas morrerá um milhão de mortes antes de finalmente ser enterrado por alguém. (...) Quem venerar o poder vai se sentir fraco e amedrontado, e precisará de cada vez mais poder para conseguir afastar o medo.  Quem venerar o intelecto, ser visto como inteligente, vai acabar se sentindo burro, uma fraude na iminência de ser desmascarada. E por aí vai.

Essas formas de venerar são traiçoeiras não por serem malignas ou pecaminosas, mas por serem inconscientes. São configurações padrão. É o tipo de veneração pelo qual nos deixamos levar gradualmente, dia após dia, e que nos torna cada vez seletivos em relação ao que vemos e a como atribuímos valor às coisas, sem jamais termos plena consciência do que é isso que estamos fazendo. E o suposto 'mundo real' nunca desencorajará vocês de operarem nas configurações padrão, porque o suposto 'mundo real' dos homens, do dinheiro e do poder avança tranquilamente movido pelo medo, pelo desprezo, pela frustração, pela ânsia e pela veneração do ego. Nossa cultura atual canalizou essas forças de modo a produzir doses extraordinárias de riqueza, conforto e liberdade pessoal. A liberdade de sermos senhores de reinos minúsculos, do tamanho dos nossos crânios, sozinhos dentro de toda a criação. Esse tipo de liberdade tem seus méritos. Mas é óbvio que há liberdades dos mais variados tipos, e no vasto mundo lá de fora, onde o que importa é vencer, conquistar e se exibir, vocês não ouvirão falar muito do tipo mais precioso de todos. O tipo realmente importante de liberdade requer atenção, consciência, disciplina, esforço e a capacidade de se importar genuinamente com os outros e de se sacrificar por eles inúmeras vezes, todos os dias, numa miríade de formas corriqueiras e pouco excitantes. Essa é a verdadeira liberdade. Isso é ter aprendido a pensar. A alternativa é a inconsciência, a configuração padrão, a 'corrida de ratos' - a sensação permanente e corrosiva de ter possuído e perdido alguma coisa infinita."

terça-feira, 15 de abril de 2014

Quebrando o Silêncio como Quem Quebra a Bacia

Estive pensando demais. Li um bocado de poema, cometi outros tantos, perdi tempo adoidado e não consegui fazer muito. Cogitei um novo formato pro blog, com textos mais curtos e frequentes (numa tentativa de burlar o sistema e fazer na verdade um imenso Twitter com caracteres ilimitados), mas não tive coragem de me comprometer a tanto pra depois acabar com posts minúsculos e, ainda assim, esporádicos.

Tenho ouvido muita música. E elas têm me falado sobre a beleza das coisas de um jeito diferente. Comecei até a comprar CD (não todos os que eu quero ouvir, porque isso não faz nem sentido num mundo como o nosso, dominado por iPhones), mas os meus prediletos, aqueles que lembram uma época específica, uma boca específica ou uma caminhada na chuva. Compro pra ouvir no home theater, deitado no sofá, e depois deixar na estante como um mini-monumento da obra que eu já tinha de graça, há séculos, no celular. Pensando bem é um pouco besta.

Hoje me peguei com uma vontade maior que o normal de escrever aqui. E nem sei por que. O abandono já é tão longo (e tão cheio de promessas vagas e esperanças vãs), que qualquer textinho que quebre o silêncio vai ser noooossa.

Não. Assim como a vida, quando esse texto acabar você vai ver que nem foi lá grandes coisas.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

John Lennon Reinventado


Não é como se eu não tivesse nada a dizer; é mais como se eu soubesse que ninguém quer ouvir. E na verdade eu até sei que alguém no mundo quer, que todo blog tem 100 leitores, etc, mas sentir eu não sinto.

E quando você fica muito tempo sem escrever, a tendência é ficar ainda mais. Isso porque a gente percebe que não faz muita diferença.

E agora entra a parte da pretensão literária.

Sempre achei lindo encher a boca pra dizer que não escrevo por dinheiro, fama ou reconhecimento. Que não acredito que a literatura, ou seja lá o que isso for, tenha alguma função. Que a vantagem dela é justamente essa de não servir pra bosta nenhuma. Que só assim ela vai conseguir ser verdadeira.

Mas esse discurso, que parece tão liberal, bonito e artístico, não sustenta a realidade (ou o ego) de escritor nenhum. Primeiro que não existe arte verdadeira (e eu não quero entrar nesse mérito agora, porque o blog tá abandonado há tempo demais pra já voltar assim, com filosofia de boteco) e segundo que escrever é um ato de comunicação e fica impossível se comunicar sem esperar por uma reação do interlocutor.

Quando você fica muito tempo sem escrever e ninguém reclama, significa que você pode ficar mais um pouco. Foi o que eu fiz. E só voltei agora porque estou numa dessas fases mega produtivas, em que tudo o que eu faço é passar horas organizando as coisas que ainda preciso fazer (sem nunca de fato fazê-las).

sábado, 17 de agosto de 2013

Super Rich Kids


Se a gente parar pra pensar, Bling Ring não é muito diferente dos outros filmes da Sofia Coppola. Ele fala de jovens entediados como os de As Virgens Suicidas, mimados como Maria Antonieta e perdidos como a Charlotte de Encontros e Desencontros. Ele também oferece um olhar curioso (quase complacente) sobre o mundo das celebridades, coisa que Sofia tinha acabado de fazer muito bem em Um Lugar Qualquer. O roteiro é baseado na reportagem que Nancy Jo Sales escreveu para a Vanity Fair em março de 2010, contando a história dos adolescentes ricos de Los Angeles que começaram a invadir casas de famosos para roubar suas roupas, jóias e acessórios. A mesma reportagem deu origem a um livro que chegou no Brasil há pouco tempo. Eu sou bem fã da Sofia Coppola e já estava fascinado com a coisa toda o suficiente pra comprá-lo na semana do seu lançamento. Em pouco tempo comecei a pesquisar a vida dos envolvidos, ver suas fotos, seus vídeos, e ler tudo o que eu podia sobre o tema. Quanto mais eu lia sobre a Bling Ring, menos eu entendia as motivações daquela gente, o que só me deixava ainda mais interessado. Eu estava obcecado por adolescentes que eram obcecados por celebridades que eram obcecadas por si mesmas.

Esteticamente, Sofia Coppola é irretocável. Em Bling Ring ela aproveita as casas majestosas, os adolescentes ricos e as roupas de grife para criar pequenos momentos de contemplação. Depois de uma abertura frenética (e linda), a montagem começa a ficar cada vez mais parecida com a de seus outros trabalhos, até atingir o ápice, numa longa cena em que a casa de uma das vítimas é mostrada de longe, enquanto os ladrões andam pelos cômodos, enchendo bolsas, revirando gavetas, acendendo e apagando  as luzes. Em outro momento a câmera aparece imóvel, acima da escada, de um ângulo muito parecido com o das câmeras de segurança. São escolhas que fazem toda a diferença, quando se conta uma história em que o distanciamento é fundamental.


E o distanciamento é fundamental, porque estamos falando de uma geração vaidosa, egoísta e inconsequente. Marc, o único homem do grupo e principal cabeça por trás das invasões, materializa as três características em uma cena em que ele fuma maconha na frente do computador, enquanto ouve Drop It Low e se exibe para a câmera. Ele canta, dança, levanta a blusa pra mostrar um pouco do corpo, e nesse momento fica claro que eles não estão ali, roubando roupas e jóias, para mostrar pros outros. Quer dizer, é óbvio que é para mostrar pros outros, mas isso é só uma etapa para que o objetivo final seja atingido. A admiração alheia é o combustível que vai alimentar o bem estar desses adolescentes. A gente acaba percebendo que o distanciamento é fundamental, porque se chegar perto demais, corre-se o risco de topar com um grande nada.

E multiplicam-se as cenas de festas, em que tudo o que se faz é dançar, beber, cheirar cocaína e postar fotos no Facebook, para mostrar como se tem dançado, bebido e cheirado cocaína. É uma dinâmica que já não assusta ninguém, mas continua triste. E a coisa mais interessante de Bling Ring é a sua recusa em emitir julgamentos. Basicamente, Sofia Coppola usa da trilha sonora profunda e dos seus planos melancólicos para mostrar que esses jovens não são muito diferentes de mim ou você. Eles só tiveram a sorte de nascer em Hollywood.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Tudo Isso Me Reduz ao Silêncio


Poucas coisas na vida conseguem me deixar irritado. Uma delas é aluno reacionário. A outra é não ter tempo pro cinema.

As pessoas não entendem o que significa pra mim acompanhar o circuito. Não é sobre filmes. Quase nunca é sobre filmes, ou sobre livros, ou sobre séries. Na maioria das vezes é só a necessidade de me sentir vivo. De perceber uma mudança qualquer. De me iludir com uma provável transformação que a arte nunca executa, mas sempre promete. E com aquela persuasão característica.

Por isso, dia desses resolvi me forçar a ver um filme, começando pouco depois da meia-noite. Isso, apesar do cansaço e de ter que acordar às seis da manhã no dia seguinte. Era o jeito. Não dava mais pra esperar outra tarde livre como aquelas que a gente só tem até os 15 anos de idade. Dez minutos depois e eu percebi que já cochilava há cinco. Desisti, desliguei o computador e fui pra cama, chorando.

No dia seguinte as pessoas surgem com uma felicidade infernal e eu não consigo ver razão. Não consigo ver sentido nessas aulas, nessas provas, nessa graduação... Vou conservando um ódio de todo mundo. Entro no Facebook e acho tudo bastante ridículo e tenho vontade de mandar mensagem pros amigos falando que por favor, some daqui, você me enche de vergonha. Mas é tudo muito interno, o que problematiza a coisa do mau humor.

Uma das razões pra essa falta de tempo que me destrói é a quantidade desumana de textos e romances que esses professores passam pra gente ler. Ironicamente, foi daí que tirei a citação que encerra esse post. Tá lá nOs Sofrimentos do Jovem Werther, leitura bastante providencial pra esse momento da vida.

"É comum dizer-se que a vida do homem não passa de um sonho, e esse sentimento me acompanha sempre. Quando observo os estreitos limites em que se acham encerradas as faculdades ativas e intelectuais do homem; quando vejo que o objetivo de todos os nossos esforços é prover necessidades que por si mesmas não têm outro fim senão prolongar nossa miserável existência, e que por conseqüência toda a nossa tranqüilidade, em certos pontos de nossas buscas, não passa de uma resignação sonhadora, que gozamos pintando de figuras variadas e perspectivas luminosas as quatro paredes que nos fazem prisioneiros: tudo isso, meu amigo, me reduz ao silêncio. Olho para dentro de mim mesmo e vejo um mundo; porém um mundo muito mais de pressentimentos e vagos desejos do que de realidades e forças vivas. Então tudo me flutua ante os olhos, e continuo sorrindo e sonhando em minha jornada através do mundo."

sexta-feira, 15 de março de 2013

O Que Deu Para Fazer em Matéria de História de Horror


O livro novo da Elvira Vigna não é mais um exercício de masturbação intelectual como tem sido a nossa literatura contemporânea. E digo isso porque foi o que ouvi dizer. Eu mesmo não faço a menor ideia de como anda a nossa literatura. Imagino que não esteja tão boa quanto a da Elvira. Porque não pode estar. O Brasil explodiria com esse excesso de palavras bem colocadas e não gosto nem de pensar na trabalheira que daria recolher as letras depois.

O Que Deu Para Fazer em Matéria de História de Amor (e, antes de mais nada, por favor: que espécie de título maravilhoso é esse? Não consegui evitar de mostrar a capa do livro pra todos os meus amigos e falar um "olha o que eu tô lendo" com orgulho, porque o título, por si só, já indica certa marotice literária) é um romance narrado em primeira pessoa com uma história só, mas que na verdade são duas. E que na verdade são muitas. Mas que na verdade são a mesma. A protagonista é deliciosa (porque só alguém delicioso teria insights tão bons sobre o número de fileiras em cada espiga de milho e como os jogos de pôquer são terrivelmente sanguinários) e, partindo dela, e da visão dela, todo o resto fica igualmente apetitoso.

A leitura não cansa. Primeiro porque beira a oralidade sem abrir mão da erudição (isto é: sensual sem ser vulgar) e segundo porque a trama propriamente dita, a novelinha mesmo... que a gente gosta de acompanhar, é muito bem construída, amarrada e resolvida. E vai tomando uma proporção mágica nas páginas finais. Fica aberta a interpretações daquele jeito que qualquer pessoa de razoável sensibilidade artística ama. Pra gente poder brincar com as peças, revirar as evidências e fazer castelinhos.

Já o amor do título parece nunca se fazer presente. Se essa é uma história de amor, desculpa, mas eu não sei o que diabos é isso. É o que pensamos. Que essa é uma história de vingança (o que de fato é). Mas, a cada página, os personagens vão se despindo diante dos nossos olhos. É interessantíssimo descobrir os segredos de Roger, Arno e Rose... E ir entendendo o porquê de toda aquela situação desagradável. E a gente vai unindo esses pedacinho de nudez até formar um retrato completo. Agora eles estão completamente pelados, nus, entregues e vulneráveis. Quer maior prova de amor?

"Com o canto do olho apreendo outra vez a sombra que passa na torrinha da Biblioteca Nacional. Tenho um pensamento desses de fim de história, e que acabam (no sentido de destruir) com qualquer história, e que é o seguinte:

A Biblioteca, cheia de histórias em seu interior, tem histórias melhores no seu exterior. Porque a vida está sempre no exterior.

Agora é dar um suspiro profundo, significativo. E fim. Colo um adesivo cor-de-rosa em mim mesma e penso que já posso levantar, acabar com o que mal comecei, e que é isto aqui, e, quem sabe, tentar fazer alguma coisa de útil na minha vida.

Ou posso ver se cato homem."

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Bananas Não Flutuam


Sempre houve esse fascínio pelas fábulas, pelas grandes histórias que tentam explicar nossas vidas pequenas. Eu, particularmente, cresci preferindo ouvir histórias a realmente vivê-las. Talvez por já saber desde cedo que, por mais fantásticas que fossem, nossas experiências pessoais jamais chegariam aos pés da ficção. A realidade é triste, suja, não tem muita graça ou propósito. E, talvez por isso, sempre houve também essa busca desesperada pela fé, esse desejo de se sentir parte de algo maior e mais lógico, essa procura por alguma coisa que justifique o esforço que é sair da cama toda manhã. As Aventuras de Pi, o filme novo do Ang Lee, é uma fábula e é também uma reflexão poderosa sobre a fé, o que ela representa e o que ela pode fazer pela nossa realidade medíocre.

Não quero falar muito sobre a trama, porque entrei no cinema sem saber do que o filme tratava e isso foi fundamental pra minha experiência. Basta dizer que Piscine Molitor Patel (o Pi do título) é um garoto indiano que sobreviveu a um naufrágio e que viveu uma história incrível demais pra ser real. E, ao final, são oferecidas duas versões dessa história: uma mágica, cheia de surpresas e beleza e a outra triste, solitária e violenta.


O longa é cheio de simbolismos e referências bíblicas (de cabeça, consigo lembrar de A Arca de Noé, Jonas e a Baleia, a multiplicação dos peixes e Adão e Eva) e, ao contrário do que pode parecer, não é um filme religioso. É, inclusive, um dos filmes mais céticos que já vi, porque coloca Deus como uma opção e não uma verdade absoluta. A fábula e a fé aparecem como uma coisa só, já que as duas têm a mesma função.

Fica óbvia a relação da religião com a própria arte de contar histórias. Porque um escritor é também um deus do seu universo ficcional. E ler um livro, ou ver um filme, é também um ato de fé. É preciso acreditar pra que a história funcione. Como se não bastasse tudo isso, o filme ainda entrega em seu ato final uma belíssima meditação sobre a morte. Porque, infelizmente, a morte não é uma viagem com data marcada e quase nunca temos a oportunidade de dizer adeus.


"I still cannot understand how he could abandon me so unceremoniously, without any sort of goodbye, without looking back even once. That pain is like an axe that chops at my heart."

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Beto e Inês

Fui num sebo gastar o dinheiro que não tinha e acabei comprando o roteiro de Cenas de um Casamento (meu filme favorito do Bergman), publicado pela Nórdica em 1973, por uns 15 reais. E uma das coisas mais gostosas de comprar livros em sebos é a certeza de que aquilo já passou pelas mãos de outras pessoas. Ao contrário das roupas de segunda mão, que se enchem de cheiros e bactérias alheias, os livros vão se enchendo de gotas de café, marcações inconvenientes, umas lágrimas, uns rabiscos e uns rancores. As dedicatórias então... Confesso que procuro por elas. Se forem muito boas, já vale a compra, independente da obra.

A minha edição de Cenas de um Casamento Sueco veio dedicado à Inês. Antes de começar a fuxicar a vida alheia, é preciso lembrar que esse filme conta a história de um casamento em decadência. Tem umas verdades absurdas, destrói toda a construção familiar e faz a gente pensar que o melhor mesmo é ficar sozinho. Os protagonistas, Marianne e Johan, se amam, mas as coisas vão caminhando de forma inexplicável rumo a um abismo de insultos e tapas na cara.

E em 1976, Goiânia, surge esse homem, Beto, que, tomado de desespero e amor, resolve comprar o livro e dar pra esposa. Como uma última tentativa de salvar o casamento. Talvez a leitura provoque em Inês um insight tão violento de identificação que as coisas realmente se resolvam.


"É necessário enfrentar os problemas a tempo", diz ele. Mas agora, em 2012, vendo o livro jogado numa prateleira de sebo, só consigo pensar em duas explicações pro destino dos dois. Ou os problemas foram realmente resolvidos e de tal forma que o livro perdeu por completo sua utilidade, ou Beto fez sua tentativa tarde demais.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Autoestima Baixíssima, Ego Gigante


Ruby Sparks, o filme novo dos diretores de Pequena Miss Sunshine, poderia ser só mais uma dessas obras com pretensão metalinguística, roupagem indie e final previsível, o que de fato é; mas também é um filme adorável, com um Paul Dano afetado, uma trilha sonora deliciosa e um roteiro, no mínimo, interessante. Na história, Calvin é um jovem escritor de sucesso que, em bloqueio criativo, começa a fazer um trabalho de redação a pedido do seu terapeuta, onde precisa criar uma garota que goste do seu cachorro de estimação apesar da sua fobia social e seu hábito de mijar como uma fêmea. Mas as coisas fogem um pouco do controle e Ruby Sparks, essa menina idealizada, interessante e carismática, de uma hora pra outra cria vida e passa a morar com Calvin.

O absurdo da situação é explorado ao máximo quando Calvin descobre que pode fazer de Ruby o que quiser. Basta escrever que ela está feliz, por exemplo, pra que ela passe os dias seguintes rindo pras paredes. Se ele quer que ela sinta sua falta, é só datilografar e Ruby vira uma namorada grudenta e possessiva. Exatamente como qualquer escritor. E então o filme entra numa intrigante discussão sobre os limites éticos de se relacionar com alguém que você pode manipular e o que isso significa pro seu ego.


Em uma cena específica, a ex-namorada de Calvin diz que ele não consegue se relacionar com ninguém além de si próprio. E lá está Calvin pra provar o contrário: namorando uma criação da sua mente. Uma mulher que é exatamente como ele quer e faz exatamente o que ele escreve. Toda essa masturbação criativa é tão triste que só me fez lembrar da Hannah, protagonista de Girls. Ela também é escritora e, como bem descreveu uma amiga minha, sofre de autoestima baixíssima e ego gigante. Uma combinação tão corrosiva que, por si só, transformou toda uma geração cheia de potencial nesse monte de gente que fica sofrendo no Twitter às duas da madrugada.

Porque somos geniais, não há dúvidas. O problema é que também precisamos de alguém gritando isso o tempo todo.

Só pra confirmar.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Problemas com o Miocárdio


Nada pode ser mais prejudicial à arte que viver. Eu tenho tido particular dificuldade em encontrar ânimo pra ficção e pra toda a concentração e apreciação que ela exige. Porque tudo começou a parecer bastante ridículo agora. A gente vai ganhando certa noção do absurdo que é trabalhar por horas numa história que não tem a menor razão de ser e começa a se questionar se seria realmente válido trazer isso ao mundo. É como ter filhos. Ninguém sente falta deles enquanto não existem. E até quando existem, às vezes, pensamos se não teria sido melhor deixá-los onde estavam.


E eu tô cada vez mais relapso com os contos e com esse futuro provável romance que tenho guardado na cabeça e nuns papéis espalhados pelo criado mudo. Lirismo passou longe. Nunca estive tão entregue ao cinismo dos novos tempos e não sei o que fazer pra recuperar a sensibilidade. A ansiedade tá pulsando e destruindo toda e qualquer inspiração. Ninguém mais tem tempo pra pagar de Shakespeare.


Escrever no blog é um pouco mais fácil. Primeiro porque existe audiência (ridícula, mínima, mas ainda assim uma audiência) e segundo porque isso aqui é meu templo de autoafirmação. É fundamental ter um lugar pra escrever três ou quatro parágrafos por semana dizendo coisas que te identificam como a pessoa que você quer ser. Ou a pessoa que você gostaria que os outros pensassem que você é. É um jeito de economizar com, sei lá, psicólogo? Namorada? Drogas?


Posso dizer que hoje começo a entender os babacas da escola. Aqueles meninos que, minha nossa, preferiam jogar bola ou beijar meninas no recreio em vez de ir pra biblioteca ler Nelson Rodrigues. E como era divertido passar por eles com o livro debaixo do braço e uma sensação absurda de superioridade. Mas eles só estavam num outro nível. Não inferior, nem superior, mas diferente. Um nível onde as emoções são mais orgânicas e o palpitar no coração vem direto do toque, do suor, da saliva... E pra alguém que durante muito tempo só sentiu o coração bater mais forte por causa dos livros e filmes, esse novo estilo de vida tem sido um grande catalisador de infartos.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Belos, Malditos e Incompreendidos


Terminei semana passada Os Belos e Malditos, romance de F. Scott Fitzgerald que narra a trajetória decadente de um casal rico de Manhattan. Anthony e Gloria são lindos e inteligentes, vieram de famílias instruídas, são bem relacionados e tinham tudo para dar certo, mas não dão. E as coisas desandam porque nenhum dos dois soube lidar com a maturidade. Enquanto Gloria se deixava levar por uma vaidade louca e um romantismo doentio, Anthony foi tragado pelo álcool, cigarro e pelas festas intermináveis que o casal promovia em sua casa. Coincidentemente, terminei o livro justamente na época de maior esbórnia da minha vida. E tudo ficou com a maior cara de aviso.

Mas não acho que o livro seja panfletário, muito pelo contrário. Fica claro que Fitzgerald era fascinado por esse estilo de vida irresponsável que mais tarde veio caracterizar a Era do Jazz. Suas descrições são cheias de adjetivos que elevam e seduzem e em momento algum a culpa é posta na bebida ou nos festejos. A culpa é de Anthony e Gloria. Eles que viviam numa inércia retumbante. Passavam semanas sentados: soltando baforadas de cigarro, enchendo taças de vinho e vendo seu dinheiro desaparecer.

O problema é que ao longo de toda a narrativa, as atitudes do casal parecem bem razoáveis. Anthony era um escritor talentosíssimo, só precisava de tempo pra gerar a obra-prima que, de certo, carregava com ele em algum lugar. E Gloria, com sua beleza e carisma únicos, nasceu pra ser atriz de cinema. Qualquer coisa menos que isso seria um crime contra os deuses da arte. Só que o livro acaba e Anthony não publica nada. E Gloria nunca faz um filme. E os dois permanecem fracos demais pra levantar do sofá.

"Então amadureci e abri mão da beleza das ilusões encantadoras. Minha fibra mental tornou-se áspera e meus ouvidos, tremendamente aguçados. A vida brotou como um mar em volta de minha ilha, e, dentro em breve, eu nadava. (...) O tédio, que não passa de um outro nome e um disfarce frequente da vitalidade, tornou-se a alavanca inconsciente de todos os meus atos. A beleza, eu a tinha ultrapassado, vocês compreendem. Eu amadurecera."

Separei outros dois trechos pra quem quiser saber mais:

Sobre Gloria:

"Aposentou-se. Ela que dominara incontáveis festas, que aspergira sua fragrância por tantas salas de baile, diante do tributo amoroso de tantos olhares parecia não ligar mais. Quem agora se apaixonasse por ela era logo dispensado, quase com raiva. Ela saía indiferentemente com os sujeitos mais indiferentes. Vivia rompendo compromissos, não como no passado, a partir de uma segurança tranquila de que ela era impecável, que o sujeito domesticado por ela voltaria como um animal domesticado - mas com indiferença, sem orgulho nem desprezo. Ela raramente se inflamava contra os homens; bocejava nas suas caras. Dava a impressão – tão estranha – à sua mãe, de estar ficando fria."

Sobre Anthony:

"– Trabalho! – zombou ela - Ah, pobre tipo! Seu enganador! Trabalho: isso significa grandes arrumações na escrivaninha e nas luminárias, fazer muita ponta nos lápis, e "Gloria, pare de cantar!", e "Por favor, mantenha esse diabo do Tana longe de mim!", e "deixe que eu leia minha primeira frase para você", e "levarei muito tempo para acabar, Gloria, por isso não fique acordada me esperando", e um tremendo consumo de chá e café. E só. Dentro de mais ou menos uma hora, ouço o velho lápis que deixou de rasgar o papel e dou uma olhada. Você tirou um livro da estante e está "consultando" alguma coisa. Em seguida está lendo. Em seguida bocejando – e tome cama, se revirando para lá e para cá porque está tão entupido de cafeína que não consegue dormir. Duas semanas depois e toda a cerimônia se repete."

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Memórias Póstumas de Brás de Oliva Domingos


Não sei ler quadrinhos. Quando abro uma página meus olhos são automaticamente sugados pelas letras e as imagens assumem um caráter meramente ilustrativo. Fica parecendo livro infantil, não levo a sério, etc. Até hoje só tinha dado certo com Calvin e Haroldo. Mas também, temos um garoto de seis anos (visivelmente esquizofrênico e perturbado) e seu tigre de pelúcia. Não tem como isso dar errado. Aí comprei minha primeira graphic novel (nome fresco pra história em quadrinhos de gente grande) por indicação de dois amigos com o gosto confiável.

Continuo achando a leitura desconfortável e preferindo apenas letras ou apenas desenhos, mas não posso deixar de reconhecer o mérito de Daytripper. Os quadrinhos são de dois irmãos gêmeos, os brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon, e foram lançados primeiro no exterior e depois traduzidos para o português. Fala sobre a vida de um romancista que trabalha como escritor de obituários pra um jornal da cidade. Não dá pra falar muito sobre a trama, porque a estrutura é particularmente sensível a spoilers, mas não espere uma narrativa das mais clássicas. O livro brinca com você desde o primeiro capítulo e fica clara a intenção de te fazer abrir a guarda e permitir que a obra ultrapasse as barreiras físicas.


Boa parte do encanto de Daytripper se deve a exuberância visual dos traços de Fábio Moon e Gabriel Bá. Cada página é construída com a mesma paleta de cores, pra tornar a leitura ainda mais sensorial e o desenho é levemente despojado, mas sem deixar os detalhes de lado. Tem sempre uma xícara de café, uma fumaça de cigarro ou um porta-retratos pra tornar o cenário crível e nos aproximar do protagonista.

Por tratar de temas muito grandiosos: como amor, vida e morte (Severina), Daytripper às vezes não consegue evitar a cafonice. Alguns trechos parecem tirados de livros de autoajuda, o que, felizmente, não compromete o enredo. Esse se mantém coerente e interessante até a última página (belíssima, por sinal). Terminei de ler satisfeito por ter vencido esse preconceito bobo e conseguido curtir um livro com mais de 200 páginas de quadrinhos e balões. Acho que até ensaiei umas lágrimas no capítulo final.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Mas o diabo do tambor...


Estava lendo esse conto do Machado de Assis pra uma prova que, graças à greve das federais, não aconteceu; e tive espasmos de prazer com o último parágrafo. A história é desse menino, o Pilar, que perdeu uma moeda de prata, conquistada num negócio mal sucedido com Raimundo (seu colega interesseiro), por causa de um menino dedo-duro chamado Curvelo. O professor, indignado com Pilar e Raimundo, não pensou duas vezes e jogou a moeda pela janela da escola. No dia seguinte, Pilar acordou com o firme propósito de encontrá-la antes de ir pra aula:

"De manhã, acordei cedo. A idéia de ir procurar a moeda fez-me vestir depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol magnífico, ar brando, sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por sinal que eram amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Saí de casa, como se fosse trepar ao trono de Jerusalém. Piquei o passo para que ninguém chegasse antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças. Não, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua...

Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor... Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também ao som do rufo, creio que cantarolando alguma cousa:

Rato na casaca... Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor..."

E como eu entendo o Pilar! Aceito perfeitamente que ele perca todo e qualquer propósito quando confrontado com o barulho dos tambores. E até me compadeço. Porque meus tambores têm sido cada vez mais irresistíveis. É recorrente isso de sair de casa com um objetivo claro e tempos depois dar comigo na Praia da Gamboa, maltrapilho.

Ontem meu tambor foi o Song Pop e as 30 pessoas incríveis e insones que jogam comigo. Amanhã pode ser uma série, um romance barato, o Tumblr, Google Reader, YouTube... São muitas as chances de seguir marcha na direção oposta. Porque o dia está lindo, visto calças amarelas e eles estão rufando.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Recontagem

Hoje tive que refazer pela décima vez o cálculo de quantas páginas de Os Lusíadas preciso ler por dia pra terminar a leitura no prazo estabelecido. E basicamente minha vida tem sido assim. Esse esforço enorme e eterno para adaptar os afazeres à minha falta de disciplina. Os dias estão implacáveis e tudo parece um atropelo.

As pessoas mudaram tanto. Tenho achado todo mundo um pouco frio e impaciente comigo. E talvez seja fruto desse clima de Brasília. Acordar tem sido difícil. Os ossos doem. E a cada dia que passa eu tenho mais páginas e menos tempo.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Simplesmente Ela


Na sexta-feira passada, a peça Simplesmente Eu, Clarice Lispector veio a Brasília. Nela, Beth Goulart vive a escritora mais cultuada, zoada e discutida da literatura brasileira e aproveita para interpretar algumas de suas personagens marcantes. Inicialmente, a única apresentação seria às 20h, mas os ingressos esgotaram-se em minutos e uma sessão extra, às 23h do mesmo dia, precisou ser aberta. Fui nessa, um pouco preocupado com o desempenho da atriz, já que não deve ser nada fácil sair de um monólogo de quase 1h e entrar em outro idêntico logo depois, mas a preocupação era vã. Se Beth Goulart estava ou não cansada, jamais saberemos, visto que a personalidade de Clarice, por si só, carrega quase todo o cansaço do mundo.

Eu poderia passar os próximos parárafos descrevendo a magnitude do texto, a beleza do cenário e figurino e a assustadora interpretação de Beth Goulart (vencedora do prêmio Shell de teatro por esse papel), mas não vou. E não vou porque estou morrendo de preguiça encontrei a peça Simplesmente Eu, Clarice Lispector, na íntegra, disponível no YouTube. É claro que essa imagem de 240p não substitui a experiência do teatro (que recomendo e incentivo fortemente), mas pode transmitir pelo menos um pouco da inspiração, confusão e encantamento que o texto de uma das mulheres mais míticas da nossa literatura produz.

Bom espetáculo!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Um Guerreiro Amolecido

Em A República, Sócrates defende uma educação baseada na música e na ginástica. Ele prega o equilíbrio entre essas duas coisas como a única solução para uma disposição de espírito adequada. Sócrates é um mala que, basicamente, contradiz tudo e todos com o único objetivo de não chegar a conclusão alguma, mas nesse ponto ele foi feliz.

"Os que praticam exclusivamente a ginástica acabam por ficar mais grosseiros do que convém, e os que se dedicam apenas à música tornam-se mais moles do que lhes ficaria bem".

Tomando a música como o amor pela arte e as coisas da mente e a ginástica como o amor pelo esporte e as coisas do corpo, acho mesmo que minha educação não foi muito equilibrada. Primeiro que o único esporte que eu já pratiquei na vida foi natação (inclusive eu poderia me gabar das minhas medalhas aqui, mas não vou fazer isso, visto que são todas de bronze) e segundo que meu corpo tem estado cada vez mais debilitado, de um jeito que eu ficaria extremamente feliz se conseguisse chegar aos 30.

Comecei a pensar nisso, porque faz umas duas semanas que eu tô doente. Começou com uma dor de garganta e evoluiu para uma infecção no ouvido também conhecida como A Pior Dor do Universo, com direito a eu chorando no pronto socorro do hospital "meu tímpano está furado", etc. E tem sido assim, sabe? Meu corpo não aguenta um vento um pouco mais forte. Qualquer coisa me derruba.

E isso Sócrates explica muito bem. Se, por um lado, aquele que não valoriza a música "torna-se débil, surdo e cego, em vista de não ser despertado nem acalentado nem purificado no acervo das suas sensações", aquele que se deixa levar por ela corre um risco ainda maior (que é mais ou menos o que Nick Hornby disse em Alta Fidelidade):

"Se uma pessoa permitir à música que o encante com os seus sons e que lhe derrame na alma, através dos ouvidos, como de um funil, as harmonias doces, moles e lentosas a que há pouco nos referíamos, e se passar a vida inteira a trautear canções de coração jubiloso - uma pessoa assim, primeiro que tudo, se tinha alguma irascibilidade, amoleceu como quem amolece o ferro, e, de inútil e duro, o torna proveitoso; porém, se perseverou nessa atitude, e não a deixar, mas ficar fascinado, em breve funde e se dissolve, até aniquilar o seu espírito e ser arrancado da alma por excisão, com um nervo, fazendo dele um amolecido guerreiro".

terça-feira, 27 de março de 2012

Verbo Impessoal

Há muito tempo quero fazer um post sobre O Haver, poema de Vinícius de Moraes que, além de ser o meu preferido, é também um dos textos que mais soube traduzir essa angústia com relação à vida, ao tempo e ao amor.

Por sua extensão poética (e temática), nem se eu quisesse conseguiria falar dele num dia só. Então resolvi separar as estrofes e ir fazendo breves comentários sobre cada uma conforme a vontade ou inspiração surgirem.

Recomendo fortemente que vocês ouçam o poema na íntegra, narrado pelo próprio Vinícius nesse vídeo, antes de ler o post. E que tirem suas conclusões. E falem sobre elas aqui, porque poesia tem essa vantagem de não ser conclusiva. E de não precisar fazer sentido.

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
Perdoai! Eles não têm culpa de ter nascido

O poema já começa falando do que resta. Muito já se perdeu, não tem o que fazer. Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura. E nem é pra todo mundo. Ser terno é um esforço e um talento. Os artistas conseguem, as mulheres conseguem, as crianças conseguem...

E essa intimidade perfeita com o silêncio só quem já se sentiu realmente sozinho consegue alcançar. É uma espécie de conforto de se bastar. De conseguir passar horas inteiras sem ouvir outra voz e sem se desesperar por isso. De fazer do silêncio um companheiro íntimo.

É um cenário por demais melancólico esse que o poeta desenha pra apresentar seu eu-lírico. E quando ele começa a falar de perdão, aí você percebe o tamanho do "desamparo" e da total falta de esperança desse homem. Não estamos só pedindo perdão. Estamos pedindo perdão por tudo.

E o final da estrofe quase sempre me faz chorar, com o discurso bíblico e a voz de Cristo a pedir perdão por nós. É justo e necessário.

Não temos culpa de ter nascido.

terça-feira, 20 de março de 2012

Carl Fredricksen


Semanas sem escrever nenhuma linha porque, ironicamente, comecei meu curso de letras. Acho até que a tendência é essa mesmo. Vejo minha irmã, que alimentava infinitos blogs na adolescência dela (quando ter blog era uma coisa legal) e que parou de escrever quando começou a fazer letras. Acho que ou você fica excessivamente crítico com seu próprio texto e começa a achar tudo uma porcaria ou você toma birra da palavra escrita de tal forma que só quer saber de plantar bananeiras quando está fora da sala de aula.

Também pode ser falta de tempo, porque tenho um professor que é o velhinho do Up, só que sem a rabugice. E ele é tão fofo e inteligente que a gente nem percebe que está sendo arrastado rumo ao abismo infinito dos clássicos entediantes. Temos uns 7 livros pra ler no semestre e tudo no nível Os Lusíadas de animação. Vai vendo.

Como se não bastasse, nosso amigo Carl Fredricksen faz provas de leitura (6ª série, você por aqui?), cobrando detalhes absurdos que nem quem decorou os livros consegue lembrar. Reza a lenda que é impossível passar com um MS, mas adaptando ao meu caso, acho que é impossível passar e ponto.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Coragem de Não Criar


"Destruir é melhor do que criar, quando não se cria o essencial"

Essa semana consegui, finalmente, assistir ao clássico italiano 8½, de Federico Fellini. O filme conta a história de um diretor de cinema em crise criativa. Guido Anselmi é famoso, tem boa reputação no meio artístico e está sendo pressionado de todos os lados para começar as gravações do seu novo longa. O elenco já está selecionado, os cenários estão sendo construídos e os jornalistas não param de buscar novas informações sobre a trama. O problema é que essa trama não existe. Guido não teve nenhuma ideia. Ele não sabe o que escrever, não tem absolutamente nada pra contar e a angústia de ver o tempo passar, a expectativa crescer e nenhuma história surgir faz com que o diretor revisite sua infância e seus sonhos em busca de respostas e inspiração. Elas não vêm e 8½  termina com Guido desistindo do filme.

Qualquer pessoa com alguma inclinação artística, por menor que seja, sabe o que é isso. Você quer escrever, filmar, fotografar, etc, mas o assunto não surge. A sua natureza criativa te impele a produzir e você fica bastante tentado a fazer qualquer porcaria, só pra calar esse impulso. Nessas horas é preciso ter a coragem de Guido Anselmi. Coragem pra recusar o caminho mais fácil. Coragem pra não escrever, não filmar, não fotografar, e poupar o mundo de um trabalho medíocre.

Vocês hão de concordar que o mesmo anda bastante poluído. Diariamente somos assaltados por toneladas de livros, músicas, textos, fotos, filmes e séries que, em sua grande maioria, não têm razão de ser. Ninguém precisa de mais lixo. Então, em vez de reciclar uma ideia gasta, talvez seja mais digno simplesmente se calar. Alguém disse uma vez que a real perfeição só existe no nada. Nenhuma obra de arte é perfeita, mas todo silêncio é. Aproveite enquanto seu livro ainda não está escrito. Talvez seja sua única chance de ter um livro perfeito. E não se desespere.

Sempre que vou escrever um dos meus contos, fico me perguntando se é realmente necessário que aquela história exista. Não tô preocupado se ela vai mudar a vida de alguém ou transformar a sociedade, não é nada disso (porque isso é uma tremenda bobagem) é simplesmente se ela "vale a pena ser lida". Porque eu sei que as pessoas não têm tempo e não é justo fazer com que elas percam esse bem tão precioso lendo um texto que não vale a pena ser lido. Desculpa Fernando Pessoa, mas tem coisa que não vale a pena, independente da alma.

Agora... É lógico que, assim como é uma injustiça fazer com que alguém perca tempo lendo uma história que não tem razão de ser, é igualmente cruel privar uma boa trama de existir. Eu sempre lembro de Vicky Cristina Barcelona e do pai do Juan Antonio que era um poeta maravilhoso e escrevia poemas sublimes, mas não mostrava pra ninguém, como forma de protesto.

Acho que existe uma diferença muito grande entre o autor que quer contar uma história  e aquele que precisa contar uma história. Quem já escreveu ficção sabe como é... Isso que chamam inspiração. Não é como se você estivesse criando, mas sim descobrindo algo. Parece que aqueles personagens, cenários, e enredo sempre existiram e só estavam esperando a hora certa de serem apresentados ao mundo, de tornarem-se públicos. Saber que essa tarefa cabe a você é, ao mesmo tempo, excitante e assustador.

Pronto. A partir de agora você é um autor que precisa contar uma história. Trate de fazê-lo da melhor forma possível.