Blogs abandonados duram muito, se não pra sempre. Um blog abandonado não cobra e nem te deixa culpado. O máximo que pode acontecer é ele continuar a ser um blog abandonado. Agora se ele fosse um blog com atualizações diárias, semanais, quinzenais... mensais, que fosse... ainda assim ele não duraria tanto quanto um blog abandonado. Porque o sentimento de frustração, quando você precisar manter o ritmo e não conseguir (ou não estiver a fim), e a irritação de ficar arrastando uma coisa que não te dá dinheiro, não muda os seus problemas, não te faz ficar famoso e nem te faz ter mais amigos, mas, em vez disso, te enche de culpa, é justamente o que vai matar seu blog cheio de posts.
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domingo, 24 de maio de 2015
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Como Você Consegue, Joana?
Depois de assistir Whiplash defini que realmente não tem jeito: se a gente quiser ser alguém nessa vida são necessários alguns sacrifícios tipo tirar sangue da mão de tanto treinar o mesmo movimento ou assumir a solteirice e o isolamento social necessários para o aperfeiçoamento da sua técnica. Aí resolvi me obrigar a escrever qualquer coisa que não seja trabalho acadêmico por pelo menos uma hora todos os dias, além de um tempo reservado pra escrever num arquivo que ainda chamo de diário mas que já virou uma espécie de joguinho masturbatório de estilos.
Considerando que reservar uma hora do seu dia pra treinar qualquer tipo de habilidade não é sacrifício em lugar nenhum do mundo, pode parecer que eu esteja sendo meio prepotente, achando que, por ter nascido com uma sintaxe natural mais evoluída, o que alguém levaria dias de treino e lapidação eu mataria em duas horas na frente da escrivaninha. Não. Não é bem isso. A verdade é que eu tô sendo bastante realista. Eu escrevo quando dá na telha (e não só quando dá na telha, mas quando dá na telha e eu tô em casa, com tempo disponível, computador disponível, etc) e isso não é o bastante. Pelo menos não segundo Bradbury e esse pessoal que ama tanto o ato de escrever que só passou a vida escrevendo e falando sobre como era mágico escrever, de uma forma meio guru (e pensando agora, a verdade é que quase todo escritor cai nesse ciclo víciosíssimo) e dizendo que você só vai ser bom realmente na coisa se fizer essa coisa uma porrada de vezes e experimentar formatos novos, assuntos desconhecidos, segredos profundos...
A ideia então é manter essa média de uma hora por dia por pelo menos dois meses seguidos (se ficar um dia sem escrever, começa tudo de novo) e só aí ir aumentando progressivamente o tempo de dedicação até virar um monge literário.
A partir desse ponto confesso que nem minha mania de programação doentia conseguiu dar conta. Porque o tempo não existe. Não tenho tempo. (Ninguém tem, eu sei, mas eu não tenho mesmo!) Eu caí no erro tremendo de ser do tipo de gente que é um pouco bom em muitíssimas coisas e não do tipo de gente que é muito bom em pouquíssimas coisas (ou ainda do tipo de gente que é o melhor em apenas uma coisa - o tipo certo) e isso atrasa tudo, porque eu me enfio numa verdadeira zona artística (tanto no sentido da bagunça quanto no sentido da putaria), sem saber se compro uma máquina fotográfica ou entro pra aula de canto.
Fora a pretensão dessa coisa toda de querer ser artista, ainda tenho que lidar com a minha natureza de consumidor insaciável. Antes de querer ser um fazedor de livros, filmes e músicas eu já queria consumí-los todos. Eu já era fascinado por eles (e esse fascínio é tão grande que até hoje alimenta minha inspiração) e acho que o dia em que eu não conseguir mais sentir alguma coisa com um conto, um romance ou um poema, aí realmente eu não vou ter mais forças pra continuar. Então manter esse fascínio é mais que uma boa estratégia, é uma questão de sobrevivência. É preciso me alimentar com estímulos que justifiquem meu esforço para produzir algo parecido. Daí a dificuldade de querer acompanhar uma indústria que solta material novo a cada segundo (e muito material novo!) e trata cada um desses novos lançamentos como obra de arte indispensável (que provavelmente ele não é, mas daí a você não querer ver com seus próprios olhos...).
Assinei a Entertainment Weekly, que era um sonho meu desde que eu lia a Set (uma revista de cinema já cancelada por falta de papel). A Set era meio tosca, mas era a única revista sobre filmes da banca que estava em português. Nunca me atrevi a comprar uma Entertainment Weekly. Primeiro que o preço cobrado por aquela revistinha mole de papel vagabundo aqui no Brasil chegava aos vinte e cinco reais e segundo que meu inglês é péssimo, mas naquela época era ainda pior. Hoje já dá. E, com iPad e esses aplicativos que simulam toda uma banca de jornal cheia de revista importada, famosa, independente, sem noção..., ninguém precisa mais gastar vinte dilmas num monte de papel grampeado (mas ainda precisa gastar dois obamas e noventa e nove cents, é verdade).
Como se não bastasse esse novo hobby de férias, ainda tenho o diabo de um app chamado Iba Revistas, que é a pior coisa que já inventaram (mas que continuo assinando por inércia e também pela possibilidade de ler todas as Super Interessantes lançadas até hoje). As Piauís nunca estiveram tão acumuladas; acho que estou terminando agora a edição de outubro.
Mas o problema da maioria dessas revistas é que elas, em vez de saciar seu desejo por informação e entretenimento, só fazem esse desejo aumentar, te indicando novos livros em edições de capa dura, blu-rays que vêm com todo o cenário do filme incluso, coletâneas de álbuns relançados em vinil e outros absurdos maravilhosos demais pra gente ignorar. Aí você vai ler um livro (que por si só já tem quase mil e duzentas páginas) e descobre que metade dessas páginas são referências a outras centenas de obras que, se você fosse esperto, já teria lido... Ou seja. Não tem a menor condição de viver num mundo assim.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
John Lennon Reinventado
Não é como se eu não tivesse nada a dizer; é mais como se eu soubesse que ninguém quer ouvir. E na verdade eu até sei que alguém no mundo quer, que todo blog tem 100 leitores, etc, mas sentir eu não sinto.
E quando você fica muito tempo sem escrever, a tendência é ficar ainda mais. Isso porque a gente percebe que não faz muita diferença.
E agora entra a parte da pretensão literária.
Sempre achei lindo encher a boca pra dizer que não escrevo por dinheiro, fama ou reconhecimento. Que não acredito que a literatura, ou seja lá o que isso for, tenha alguma função. Que a vantagem dela é justamente essa de não servir pra bosta nenhuma. Que só assim ela vai conseguir ser verdadeira.
Mas esse discurso, que parece tão liberal, bonito e artístico, não sustenta a realidade (ou o ego) de escritor nenhum. Primeiro que não existe arte verdadeira (e eu não quero entrar nesse mérito agora, porque o blog tá abandonado há tempo demais pra já voltar assim, com filosofia de boteco) e segundo que escrever é um ato de comunicação e fica impossível se comunicar sem esperar por uma reação do interlocutor.
Quando você fica muito tempo sem escrever e ninguém reclama, significa que você pode ficar mais um pouco. Foi o que eu fiz. E só voltei agora porque estou numa dessas fases mega produtivas, em que tudo o que eu faço é passar horas organizando as coisas que ainda preciso fazer (sem nunca de fato fazê-las).
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Este É um Blog de Mimimi
O semestre começa a dar sinais de falência. E eu acordo e durmo pensando no dia em que não vou ter mais razões pra sair da cama antes da hora do almoço. Não sei como, mas consegui passar um semestre inteiro sem mudar meus hábitos de sono. Continuo dormindo depois das duas, mas agora acordo às seis e meia. Acordo porque preciso (durmo porque te amo) e isso resulta num estado permanente de impaciência e esgotamento. Tenho deixado de falar com as pessoas por pura preguiça de ouví-las.
Óbvio que o que mais sofre é esse blog. Acho que nunca escrevi tão pouco. Primeiro porque não sou obrigado. Segundo porque, sempre que eu pensava em escrever alguma coisa, essa coisa era uma reclamação disfarçada de comentário sobre trecho de livro, episódio de série ou cena de filme. E da última vez que comecei a reclamar aqui, vieram xingar muito nos comentários, falando que tava ficando chato, etc. Agora, imagina... Se tá ficando chato pra vocês (que só têm que ler...) imagina pra mim, que vivo todo o material?
Então desculpa, mas reclamar da minha vida usando trecho de livro, episódio de série ou cena de filme como disfarce é a única razão pela qual mantenho esse blog funcionando. Tem outra razão que é fazer as pessoas que nunca me viram pessoalmente acharem que eu sou mais interessante e inteligente do que realmente sou; e o fato dessas duas razões serem contraditórias é só o começo do que poderia ser a explicação pra todos os problemas da minha vida.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Ele
Ele levantou da cama e foi escrever. E escreveu por semanas inteiras, se desligou do mundo, deixou que nascesse nele qualquer coisa de poético. E foi descoberto. E disseram que era um grande novo talento. E que sua escrita era vulgar e hermética. E imprevisível. E cheia de pontos finais desnecessários, preposições desnecessárias. Conjunções desnecessárias. Assuntos desnecessários. E tudo era lindo.
Ele aprendeu inglês.
Foi pra Nova York. E assistiu espetáculos, visitou museus, conheceu gente bonita, foi pra rehab, voltou da rehab, mudou pra Paris.
Ele aprendeu francês.
Cantou nas horas vagas. E participou de saraus plenos de música e poesia. E se embriagou de mundo. E se apaixonou por uma cortesã.
Ele finalmente aprendeu a amar. E ela morreu de tuberculose. E ele decidiu que amar não era bom. Era bem ruim, na verdade.
E teve uma recaída atrás da outra. Se isolou do mundo, escreveu um romance. Dessa vez um bom. Que fez sucesso. Que deu certo. Alcançou plateias, encantou a crítica, deixou uma mensagem e ele não viu nada disso, porque morreu de overdose. Ou se matou. Ou foi assassinado. Não ficou muito claro.
E disseram dele que era vulgar e hermético. E que teve uma vida cercada de mistérios. E que fez uma bagunça com o coração. E que não sabia amar. E que teve uma infância difícil.
Adotaram seu livro no último vestibular.
Mas não teve vestibular. Não teve livro. Não teve cortesã. Não teve Paris. Não teve francês. Não teve sarau. Não teve Nova York. O inglês não teve. Nem o escrever por semanas inteiras. Nem o levantar da cama.
PS: Tem conto novo no Crimes por Extenso. E é dos masoquistas.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
É Tudo Verdade
Quando você se propõe a escrever um blog pessoal, é óbvio que esperam, no mínimo, um nível Patrícia de exposição. E eu invejo demais essa gente que parece não dever nada pra ninguém. Essa gente com muita sinceridade e pouca censura. Porque só assim dá pra fazer um blog realmente pessoal e ganhar a confiança dos (cof cof) leitores.
E juro que a intenção era essa. De falar dos meus problemas e conflitos sem pensar muito nas consequências. Mas neuróticos não têm essa desenvoltura. A gente pensa num assunto e automaticamente surgem quinhentas projeções de todo mundo que vai ter acesso ao texto e de tudo que podem pensar; e sua voz vai ficando cada vez mais difusa. Acabo por desistir de tudo e falando de um filme aleatório cuja análise não me comprometa.
Minha vida anda muito estranha, com uns problemas perigosos demais para virem a público. Então criei esse personagem, que sou eu mesmo, só que com pudores. Esse personagem que só consegue se comunicar através dos filmes e séries que viu, das músicas que ouve, dos retweets no Tumblr. Tudo pra tentar dizer alguma coisa que não ficaria bem em prosa.
Minha vida anda muito movimentada (no campo das ideias, que fique óbvio), mas ela já não tem espaço aqui. Aqui quem fala é esse personagem previsível e cuidadoso. E ele, ultimamente, não tem tido muito assunto.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
A Coragem de Não Criar
"Destruir é melhor do que criar, quando não se cria o essencial"
Essa semana consegui, finalmente, assistir ao clássico italiano 8½, de Federico Fellini. O filme conta a história de um diretor de cinema em crise criativa. Guido Anselmi é famoso, tem boa reputação no meio artístico e está sendo pressionado de todos os lados para começar as gravações do seu novo longa. O elenco já está selecionado, os cenários estão sendo construídos e os jornalistas não param de buscar novas informações sobre a trama. O problema é que essa trama não existe. Guido não teve nenhuma ideia. Ele não sabe o que escrever, não tem absolutamente nada pra contar e a angústia de ver o tempo passar, a expectativa crescer e nenhuma história surgir faz com que o diretor revisite sua infância e seus sonhos em busca de respostas e inspiração. Elas não vêm e 8½ termina com Guido desistindo do filme.
Qualquer pessoa com alguma inclinação artística, por menor que seja, sabe o que é isso. Você quer escrever, filmar, fotografar, etc, mas o assunto não surge. A sua natureza criativa te impele a produzir e você fica bastante tentado a fazer qualquer porcaria, só pra calar esse impulso. Nessas horas é preciso ter a coragem de Guido Anselmi. Coragem pra recusar o caminho mais fácil. Coragem pra não escrever, não filmar, não fotografar, e poupar o mundo de um trabalho medíocre.
Vocês hão de concordar que o mesmo anda bastante poluído. Diariamente somos assaltados por toneladas de livros, músicas, textos, fotos, filmes e séries que, em sua grande maioria, não têm razão de ser. Ninguém precisa de mais lixo. Então, em vez de reciclar uma ideia gasta, talvez seja mais digno simplesmente se calar. Alguém disse uma vez que a real perfeição só existe no nada. Nenhuma obra de arte é perfeita, mas todo silêncio é. Aproveite enquanto seu livro ainda não está escrito. Talvez seja sua única chance de ter um livro perfeito. E não se desespere.
Sempre que vou escrever um dos meus contos, fico me perguntando se é realmente necessário que aquela história exista. Não tô preocupado se ela vai mudar a vida de alguém ou transformar a sociedade, não é nada disso (porque isso é uma tremenda bobagem) é simplesmente se ela "vale a pena ser lida". Porque eu sei que as pessoas não têm tempo e não é justo fazer com que elas percam esse bem tão precioso lendo um texto que não vale a pena ser lido. Desculpa Fernando Pessoa, mas tem coisa que não vale a pena, independente da alma.
Agora... É lógico que, assim como é uma injustiça fazer com que alguém perca tempo lendo uma história que não tem razão de ser, é igualmente cruel privar uma boa trama de existir. Eu sempre lembro de Vicky Cristina Barcelona e do pai do Juan Antonio que era um poeta maravilhoso e escrevia poemas sublimes, mas não mostrava pra ninguém, como forma de protesto.
Acho que existe uma diferença muito grande entre o autor que quer contar uma história e aquele que precisa contar uma história. Quem já escreveu ficção sabe como é... Isso que chamam inspiração. Não é como se você estivesse criando, mas sim descobrindo algo. Parece que aqueles personagens, cenários, e enredo sempre existiram e só estavam esperando a hora certa de serem apresentados ao mundo, de tornarem-se públicos. Saber que essa tarefa cabe a você é, ao mesmo tempo, excitante e assustador.
Pronto. A partir de agora você é um autor que precisa contar uma história. Trate de fazê-lo da melhor forma possível.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Os Corações Selvagens
Descobri Cartas Perto do Coração entre os livros ainda não lidos da minha irmã. Reconheci a edição da Record (no mesmo formato de O Homem Nu, O Bom Ladrão e O Menino do Espelho), tirei da estante e fiquei assombrado ao perceber que tratava-se de uma compilação de correspondências trocadas entre Fernando Sabino e Clarice Lispector. Apenas. E, né? Esses dois monstros juntos... Não tinha como ser ruim.
Fernando Sabino é o autor do meu livro preferido, O Encontro Marcado. Eu me identifico tanto com esse romance que fica até difícil explicar. Na verdade, nem gosto de explicar, porque o livro não tem um final muito louvável e me sinto invadido, vendo meus pensamentos, sonhos e medos expostos assim, de forma tão despudorada. E Clarice dispensa qualquer apresentação. É a queridinha da literatura moderna, indiscutivelmente genial, etc.
Basicamente, os dois escritores, ainda jovens, trocam experiências e originais de obras ainda por lançar. Falam sobre a dificuldade de conseguir uma editora, os mistérios do ato de criar e as saudades do país (ambos moraram fora do Brasil por muito tempo). É engraçado ver que Sabino já era bastante conhecido quando Clarice começou a fazer sucesso e ela meio que submetia seus textos à avaliação do amigo. Fernando Sabino CORRIGIA Clarice Lispector, ok? Hoje parece piada, já que a moça ficou muito mais famosa que Fernando Sabino, Paulo Coelho, Machado de Assis, Buda, ou qualquer ser vivente. Todos nós sabemos.
As cartas são tão boas que eu fiquei tentado a copiar o livro inteiro aqui no blog, mas fui comedido e separei só os trechos mais interessantes.
De Sabino para Clarice:
"Tenho uma grande, uma enorme esperança em você e já te disse que você avançou na frente de todos nós, passou pela janela, na frente de todos. Apenas desejo intensamente que você não avance demais para não cair do outro lado."
"Porque você por dentro não vai bem não, Clarice Lispector, você por três vezes já se esqueceu de sorrir quando era preciso"
"A arte não nos satisfaz porque não passa disso: é o testemunho de nós mesmos. O verdadeiro testemunho é o dos santos e a nossa tristeza mais irremediável é a de nem ao menos saber onde é que perdemos nossa única oportunidade de sermos santos."
"Nosso livro é o nosso testemunho, Clarice, é a única coisa que temos. Nele é que aprendemos a viver nascendo, nele é que vivemos, viajamos, temos filhos, amigos - é a nossa realidade, nosso testemunho. Às vezes contra nós mesmos. Ele é que vai viver sozinho, vai agir pró ou contra, vai ter uma individualidade da qual não participamos, de filho pródigo que não retorna. Nós não, nós perdemos. Nós perdemos sempre, Clarice."
"Você, de certo modo, me dispensa de escrever. Resta o consolo de pensar que se eu fosse capaz, como você, de dizer o indizível, eu teria a dizer certas coisas que você ainda vai dizer. E me limito a ficar esperando."
De Clarice para Sabino:
"Não trabalho mais, Fernando. Passo os dias procurando enganar minha angústia e procurando não fazer horror a mim mesma. Tem dias que me deito às 3 da tarde e acordo às 6 para em seguida ir para o divã e fechar os olhos até as 7 que é hora de jantar. Isso tudo não é bonito. Sei que é horrível. Caí inteiramente e não vejo um começo sequer de alguma coisa nascendo."
"Tive um verdadeiro cansaço em Paris de gente inteligente. Não se pode ir a um teatro sem precisar dizer se gostou ou não, e porque sim e porque não. Aprendi a dizer "não sei", o que é um orgulho, uma defesa e um mau hábito porque termina-se mesmo não querendo pensar, além de não querendo dizer."
"Cada vez que penso no seu livro [O Encontro Marcado] - e tenho vivido com ele nesses últimos dias - gosto mais. O envolvimento é insensível, é feito por acumulação, por estrangulamento gradativo que vem de todos os lados. Sei que estou usando palavras que talvez lhe soem fortes demais (tive uma noite de insônia, acredite...), mas, Fernando, foi assim que senti: encostada à parede, e me deu um desespero que me deu vontade de lhe dizer: Fernando, vamos mentir que não é assim."
Vamos, Clarice. Vamos mentir que não é assim.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
É Impossível Comer um Só
Todo mundo, aos oito anos de idade, adora Fandangos. E Ruffles, chocolate, pizza, sorvete, batata frita, hambúrguer... Porque são alimentos que entregam de cara o que a gente está procurando: açúcar, sal e gordura. Alimentos que não dependem de muita elaboração ou cerimônia, não são sofisticados, mas cumprem o prometido. Acontece que as pessoas crescem e, naturalmente, aprendem a refinar o paladar. E começam a procurar sabores mais sutis e imprevisíveis, capazes de proporcionar novas experiências gustativas. Mas eu não cresci. E hoje passo por situações constrangedoras como: ter que ir pro banheiro com meu pacote de Fandangos pra ninguém ver um homem de 20 anos comendo salgadinho no intervalo do curso.
Em algum momento da vida, todo mundo toma consciência dos seus piores defeitos. E acho que esse momento chegou pra mim, quando descobri que sou medíocre. Na verdade, sempre desconfiei, mas tinha esperança de ser coisa da idade. Não era. E o Fandangos tá aí pra provar.
Eu sempre acabo preso naquilo que não é incrível, mas também não é um lixo (ok, Fandangos é um lixo). Por exemplo: meus lugares preferidos pra comer são Outback e Pizza Hut. Sabe? Tudo tão previsível! Eu não consigo preferir nenhum bistrô, cantina ou restaurante legal, por mais refinado que ele seja. Simplesmente aposto naquilo que já conheço e fico ali, estagnado, pedindo Quarterão Grill até os 50 anos de idade.
Nos campos culturais é assim também. Eu poderia estar lendo Guimarães Rosa, Eça de Queiroz, Dostoiévski ou Edgar Allan Poe, mas prefiro continuar com meus romances britânicos de fácil digestão. Porque uma preguiça enorme toma conta de mim quando penso em ler qualquer coisa que exija mais do que eu esteja disposto a oferecer. E ultimamente tenho estado disposto a oferecer muito pouco.
Também tenho pavor do que é novo. Não adianta olhar cardápio, porque eu sempre peço a mesma coisa e, minha nossa, como odeio experimentar! Sério. Pede pra eu tocar La Bamba com os dentes, mas não me pede pra "provar isso aqui".
Não estou reclamando. Acho inclusive que é muito mais fácil ser feliz assim: com filmes hollywoodianos, Agatha Christie e pacotes de Fandangos saboreados nas surdinas da vida.
PS: Esse blog está cada vez mais absurdo. Toda a sua proposta me parece incrivelmente tola (primeiro por não ter proposta, segundo por, ainda assim, não conseguir cumpri-la). E de uns tempos pra cá, acho que uma força tomou conta dos meus dedos e começou a digitar palavras que nunca levam a nada. Tenho sofrido muito pra terminar os textos, porque sempre acabo arrependido de tê-los escrito. Felizmente, a mesma força que me obriga a escrever, acaba por me convencer a clicar no botão laranjado de publicar postagem. Comentem, por favor. Nunca pedi isso, mas hoje estou numa carência de dar pena. E preciso saber se alguém tá entendendo alguma coisa, porque eu não tô.
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sábado, 20 de agosto de 2011
Conversas com Clarice
Clarice Lispector tinha acabado de escrever A Hora da Estrela quando deu essa entrevista. E é uma das coisas mais sensacionais que já assisti no YouTube. Sem dúvidas, a melhor entrevista a que tive acesso. Com sua língua presa (ou seu estranho sotaque ucraniano) Clarice transborda subjetividade. É uma figura interessantíssima. E tem esse olhar profundo que fere, e esse cigarro entre os dedos, e esses dedos tortos de bater à máquina, e essa eterna exaustão pela vida. As perguntas do entrevistador são ótimas e as respostas são imprevisíveis. Quase tão imprevisíveis quanto a literatura de Lispector.
Vou colocar as 2 primeiras partes da entrevista e comentar meus momentos preferidos em cada uma delas. Se você tem algum interesse (por menor que seja) em literatura ou qualquer outra arte, não pode deixar de assistir.
1:51 - É visível a mágoa de Clarice por ter seu nome real confundido com um pseudônimo.
3:40 - "Inventei uma história que não acabava nunca". Silêncio do entrevistador, chocado. "É muito complicado pra eu explicar essa história".
5:00 - Ela conta como publicou seu primeiro conto em uma revista.
5:30 - Clarice interrompe o entrevistador ao dizer que nunca assumiu a carreira de escritora e termina sambando na cara da sociedade: "Eu sou uma amadora". Agora... Se você é amadora eu sou o que, meu bem?
8:10 - "O adulto é triste e solitário".
8:25 - O entrevistador pergunta: "A partir de que momento o ser humano vai se transformando em triste e solitário?". Clarice fica em silêncio por alguns segundos, ameaça um sorriso e diz que "isso é segredo". Hahahaha. Sensacional!
9:00 - "Mas eu não sou solitária não, tenho muitos amigos. E só estou triste hoje porque estou cansada". E termina o bloco dizendo que, de modo geral, é alegre, mas com a expressão mais triste do universo.
4:50 - Sua rotina de trabalho é descrita.
5:40 - Clarice Lispector não se considera uma escritora popular nem hermética. Afirma que se compreende. Aí pensa um pouco mais e diz: "Bom, tem um conto meu que eu não compreendo muito bem".
7:00 - O trabalho da escritora sobre o Mineirinho. Tristíssimo.
7:45 - "Eu escrevo sem esperanças de que o que escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada".
8:30 - "Qual é o papel do escritor brasileiro hoje em dia?", pergunta. "De falar o menos possível", responde.
O especial ainda tem mais três outras partes com depoimentos e homenagens à escritora e o fim da entrevista, onde ela fala de seu último trabalho, A Hora da Estrela, do seu contato com estudantes universitários e de como anda cansada.
O especial ainda tem mais três outras partes com depoimentos e homenagens à escritora e o fim da entrevista, onde ela fala de seu último trabalho, A Hora da Estrela, do seu contato com estudantes universitários e de como anda cansada.
domingo, 22 de maio de 2011
Forçando a Barra
Gosto muito de uma cena de Vicky Cristina Barcelona, onde a Cristina (Scarlett Johansson) se queixa de não ter talento, apesar de saber apreciar arte com bastante propriedade. Ela diz: "I just have to come face to face with the fact that I am not gifted, you know? I can appreciate art and I love music, but… It’s sad, really, because I feel like I have a lot to express and I am not gifted." Não vou fazer o modesto e dizer que não tenho talento. Até acho que ele existe em alguma proporção. Mas esse sentimento de que sempre tenho muito mais a expressar do que sou capaz é constante.
É complicado falar de talento. Porque tem gente que vê alguém tocando piano com desenvoltura e vai logo dizendo: "olha que dom maravilhoso esse menino recebeu" e, na verdade, só o menino sabe o tanto de horas que passou treinando e praticando antes de "receber" seu dom. É ilusão acreditar que as pessoas saem pegando um caderno (abrindo o Word, no caso) e escrevendo lindos contos, poemas ou romances. Escrever é um trabalho muito menos criativo do que se imagina. A criatividade é importante, lógico. Existe aquele momento em que a história surge na nossa cabeça e que alguns chamam de inspiração, mas isso é só o começo. A partir daí é preciso usar todo o seu vocabulário, experiência e conhecimento da língua pra pegar essa inspiração e transformar em texto.
Nunca tive problemas com a parte da criatividade, mas tentar transmitir esses sentimentos através de um código é sempre problemático. Por isso, estou convencido de que praticar a escrita é a única forma de realizar uma comunicação mais eficiente com o leitor. É preciso dominar as ferramentas. E resolvi criar um lugar onde eu possa treinar, publicando trabalhos um pouco mais pensados e polidos que os textos desse blog (já que o que eu faço aqui é simplesmente vomitar). Talvez assim eu me sinta desconfortável em manter um site desatualizado e acabe me obrigando a escrever mais.
Então, ainda que sem confiança no meu talento, a partir do dia 28 de maio entro para o seleto grupo de escritores de blogs metidos à literatura. Aguardem.
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