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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Ele


Ele levantou da cama e foi escrever. E escreveu por semanas inteiras, se desligou do mundo, deixou que nascesse nele qualquer coisa de poético. E foi descoberto. E disseram que era um grande novo talento. E que sua escrita era vulgar e hermética. E imprevisível. E cheia de pontos finais desnecessários, preposições desnecessárias. Conjunções desnecessárias. Assuntos desnecessários. E tudo era lindo.

Ele aprendeu inglês.

Foi pra Nova York. E assistiu espetáculos, visitou museus, conheceu gente bonita, foi pra rehab, voltou da rehab, mudou pra Paris.

Ele aprendeu francês.

Cantou nas horas vagas. E participou de saraus plenos de música e poesia. E se embriagou de mundo. E se apaixonou por uma cortesã.

Ele finalmente aprendeu a amar. E ela morreu de tuberculose. E ele decidiu que amar não era bom. Era bem ruim, na verdade.

E teve uma recaída atrás da outra. Se isolou do mundo, escreveu um romance. Dessa vez um bom. Que fez sucesso. Que deu certo. Alcançou plateias, encantou a crítica, deixou uma mensagem e ele não viu nada disso, porque morreu de overdose. Ou se matou. Ou foi assassinado. Não ficou muito claro.

E disseram dele que era vulgar e hermético. E que teve uma vida cercada de mistérios. E que fez uma bagunça com o coração. E que não sabia amar. E que teve uma infância difícil.

Adotaram seu livro no último vestibular.

Mas não teve vestibular. Não teve livro. Não teve cortesã. Não teve Paris. Não teve francês. Não teve sarau. Não teve Nova York. O inglês não teve. Nem o escrever por semanas inteiras. Nem o levantar da cama.

PS: Tem conto novo no Crimes por Extenso. E é dos masoquistas.

domingo, 22 de maio de 2011

Forçando a Barra


Gosto muito de uma cena de Vicky Cristina Barcelona, onde a Cristina (Scarlett Johansson) se queixa de não ter talento, apesar de saber apreciar arte com bastante propriedade. Ela diz: "I just have to come face to face with the fact that I am not gifted, you know? I can appreciate art and I love music, but… It’s sad, really, because I feel like I have a lot to express and I am not gifted." Não vou fazer o modesto e dizer que não tenho talento. Até acho que ele existe em alguma proporção. Mas esse sentimento de que sempre tenho muito mais a expressar do que sou capaz é constante.

É complicado falar de talento. Porque tem gente que vê alguém tocando piano com desenvoltura e vai logo dizendo: "olha que dom maravilhoso esse menino recebeu" e, na verdade, só o menino sabe o tanto de horas que passou treinando e praticando antes de "receber" seu dom. É ilusão acreditar que as pessoas saem pegando um caderno (abrindo o Word, no caso) e escrevendo lindos contos, poemas ou romances. Escrever é um trabalho muito menos criativo do que se imagina. A criatividade é importante, lógico. Existe aquele momento em que a história surge na nossa cabeça e que alguns chamam de inspiração, mas isso é só o começo. A partir daí é preciso usar todo o seu vocabulário, experiência e conhecimento da língua pra pegar essa inspiração e transformar em texto.

Nunca tive problemas com a parte da criatividade, mas tentar transmitir esses sentimentos através de um código é sempre problemático. Por isso, estou convencido de que praticar a escrita é a única forma de realizar uma comunicação mais eficiente com o leitor. É preciso dominar as ferramentas. E resolvi criar um lugar onde eu possa treinar, publicando trabalhos um pouco mais pensados e polidos que os textos desse blog (já que o que eu faço aqui é simplesmente vomitar). Talvez assim eu me sinta desconfortável em manter um site desatualizado e acabe me obrigando a escrever mais.

Então, ainda que sem confiança no meu talento, a partir do dia 28 de maio entro para o seleto grupo de escritores de blogs metidos à literatura. Aguardem.