segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Relato Transcrito por Volta de Meio-Dia

Sobre um poeta que gostava de escrever pela manhã. Segundo a sua teoria, a manhã era o melhor momento para a inspiração artística:

O corpo ainda não se acomodou à estranheza da vida real. Os sonhos estão frescos. Nossos olhos e ouvidos ainda não foram contaminados por qualquer coisa dos homens. Vivíamos há muito num universo só nosso, que, de tão nosso, nem reconhecíamos como tal.

Portanto na manhã, dizia ele, é consideravelmente mais fácil captar aquela fagulha de vida que nos falta ao meio-dia e que temos de sobra à noite. De manhã nossos olhos e ouvidos ainda não foram corrompidos por todas aquelas imagens e sons que a humanidade produz e que à noite já atrapalham, envenenam e modificam o trabalho do poeta.

De manhã posso levantar em segredo, quando o mundo ainda não se deu conta de mim. Ou posso me demorar por um ou dois instantes e prolongar essa omissão. Posso sentar sozinho, comigo mesmo, e matutar ou remoer. Quando vejo, os versos aparecem pequenos, ainda sem muita ousadia, mas certamente seguros e que logo vão dando outros versos, desta vez mais soltinhos..."

O que o poeta não sabia (e morreu sem saber) é que todo aquele trabalho poético matinal, que ele não só produzia como lia e relia, recortava e copiava, riscava e recitava às palmas, já era imagem e som da qualidade mais humana que havia.

Acabou contaminado, corrompido, atrapalhado e envenenado por si mesmo. Seus poemas ficaram ilegíveis. Se matou de desgosto, quando ainda era manhã.

6 comentários:

Vanessa disse...

Nossa! Sinceramente não esperava esse final! Mas o que dizer? Que todo poeta tem seu jeito único de se render a inspiração e dar vida aos pensamentos e sentimentos. Todos morrem a cada palavra, a cada vírgula e ponto final. Muito bom seu texto!

Gyzelle Góes disse...

Céus, que coisa sublime, amanhecida, quase ouvi o grito de um passarinho a agonizar a morte do poeta. Lindo.

ello c. disse...

esse aqui tinha que tar no crimes por extenso :B

anandacastilho disse...

Ainda nem olhei por cima o blog, li apenas esse texto. Acho que me apaixonei.

Eita.

Pedro Marcílio Henrique disse...

Esperando novos textos.

Laísa Sampaio disse...

Eu vi uma grande razão neste texto. Acabei fazendo um paralelo com minha rotina, que no caso, é ao contrário do texto. Os meus pensamentos mais complexos se manifestam de madrugada, minutos antes de eu dormir. Eu só nunca entendi, porque eles se perdem logo ao amanhecer. Talvez seja essa 'poluição' ao decorrer do dia, que faz com que tudo desapareça. Mas eu sinto uma espécie de necessidade sobre a noite.