quarta-feira, 26 de abril de 2017

Realmente Difícil

Difícil não é ter que passar uma noite em claro, percorrer 2km de campus atrás de uma assinatura, atrás de um grampeador, atrás de uma sombra, subir a L2 num meio-dia, pegar ônibus custando os olhos da cara, fazer cadastro em  edifício do governo, esperar pra ser atendido e só então conseguir o que você quer. Difícil mesmo é fazer tudo isso e ainda assim não conseguir.

Adoro que, pra religião, tudo pode ser justificado como bênção ou provação. Estou orando todos os dias, lendo a Bíblia, pagando minhas ofertas, guardando os 10 mandamentos e tudo o que eu quero é um carro (ou um emprego, ou encontrar alguém que me ame). Se eu consigo o carro, devo agradecer, pois fui abençoado, amém! Mas se eu não consigo.... Também tenho que agradecer, porque estou sendo provado, Deus está me dando a chance de crescer. Amém também.

Nunca leu a história de Jó? Enquanto você não estiver tão fodido quanto ele, não tem o direito de reclamar. Não existe garantia. Deus, assim como a vida, tem uma justiça que foge á lógica humana (ou que só se faz no pós-vida).

Às vezes você vai deixar de dormir, vai suar, vai fazer o melhor que você pode, e vai conseguir o que pretende. Isso é difícil. Mas às vezes você simplesmente não vai conseguir. E é aí que cabe o pulo do gato. Não adianta fazer bico e se revoltar contra Deus, ou contra a Natureza. Ela faz isso justamente pra expandir seus próprios limites. É uma tarefa tanto nossa, quanto da formiga, dos cachorros, das plantas. Ou você acha que sempre que a saúva se esforça, ela consegue levar a plantinha pro formigueiro? Não. Às vezes você vem com suas Havaiannas 42 de borracha e em 1 milésimo de segundo acaba com o trabalho de uma vida inteira. Não foi justo. Ela era uma formiga boa. Ela nunca matava o serviço, sempre andava na fila, respondia a chamada, era até bonita.

Às vezes você recebeu uma informação errada, pegou um engarrafamento, faltou uma assinatura, e não acho que Deus tenha a ver com isso, como também não acho que o dono das Havaiannas tenha premeditado a morte da formiga. Os Deuses e a Natureza são e não são a mesma coisa. Se pautam pela lógica, pelo esforço e pela justiça, mas também se pautam pela sorte, pelo desejo e pelo caos.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Edukators


Assisti esse filme alemão com uns 14 anos. Acho que me formou um pouco politicamente. Nele, três amigos tinham o costume de invadir mansões enquanto os donos viajavam, e não roubavam nada, não estragavam nada, mas mudavam tudo de lugar. Quando os donos chegavam, se deparavam com os móveis empilhados na sala de estar. A lição era clara (e, se não me engano, eles até deixavam um bilhete), vocês não estão seguros.

Já faz 5 anos que dou aula particular e sempre tentei mostrar pros alunos que eles não estão seguros. A maioria mora no Lago Sul, veste AppleWatch e joga videogame usando óculos de realidade virtual. São crianças, claro, e a gente fica até com pena de já terem opiniões tão preconceituosas, mas são crianças somente até o dia em que não serão mais.

Dar um reforço no português, pra quem já tem, além de todas as condições ideais para o estudo, a garantia de uma assistência e renda, se pá, vitalícia, é sim empoderar o empoderado. Não posso fazer outra coisa, se não quiser perder o emprego, além de manter as notas dessa criança no topo. Garantir a vaga dela, que sempre esteve garantida.


É um esforço mínimo, esse de bagunçar os móveis da mansão. Quase não muda nada. Mas enquanto o jovem lê algo como O Conto da Vara, ou quando escuta Geni e o Zepelim, mesmo que seja no iPhone 7, ou quando se reconhece como um agressor, ou quando reconhece a empregada doméstica como um ser humano, você sente que está não só empoderando o empoderado, mas também mexendo um pouco com os seus brios. Trazendo à tona seu medo mais secreto; que a classe de baixo se volte contra eles e invada sua casa e bagunce seus móveis.