quinta-feira, 8 de maio de 2014

Ela Anda Tão Triste


Você que achou o novo álbum da Lykke Li triste deveria segurar um pouco o choro e ouvir este Olhos de Onda, da Adriana Calcanhotto, pra aprender o que é tristeza de verdade. O disco, que saiu essa semana, é o registro da estreia de sua nova turnê aqui no Brasil (Adriana já havia estreado antes em Portugal) e consegue reunir 20 canções numa sequência que, ou te mata de poesia, ou te mata de depressão.

"Onde será que isso começa?", pergunta ela já no primeiro verso. Não sabemos se fala da dor ou do mar. Parece que as duas coisas se embrulham ao longo do show; uma tentando caber na outra. O mar de Portugal, berço da nossa língua, se esforça para falar de uma dor que, sem muito esforço, faz-se toda correnteza em busca de um oceano que lhe acalme.

Não existe banda, mas também não precisa. Adriana Calcanhotto é uma das poucas cantoras brasileiras que ainda sustentam um show inteiro só com violão e voz. A mulher toca barbaridades, canta barbaridades e deixou o cabelo crescer. Tudo parece favorecer a tristesse do espetáculo e você pode saber que depois de uma ou duas canções menos pessoais, que ela só toca pra colocar a plateia na mesma temperatura, a coisa vai começar a ficar feia. "No dia em que fui mais feliz eu vi um avião se espelhar no seu olhar até sumir", e depois disso é só ladeira abaixo.


Impossível fugir de uma interpretação vagabundinha e ignorar o fato de que as músicas do álbum parecem recriar o fim de um relacionamento. Depois de Me Dê Motivos, que ela regrava com um sofrimento muito mais elegante que o do Tim Maia, Adriana envereda por caminhos obscuros e comete um cover de Back to Black com tanta verdade e luto que até os fãs mais puristas da Amy (acreditem, eu sou um deles) ficarão sem material para o mimimi.

O clímax vem com Maldito Rádio, uma das três canções inéditas presentes no disco. "Maldito rádio / agora que parecia que eu ia / mudar de vez o curso dessa história / agora que parecia que ia ser agora / Não é momento / de reprisar canções que são só minhas / Maldito rádio, não me faça pensar nela / volte pras notícias / para o hit da nova novela...", mas parece que o rádio é tão maldito que não obedeceu. E já emendou com Devolva-Me, o carro-chefe da dor de cotovelo. É sempre ótimo ouvir aquele silêncio longo que Adriana Calcanhotto faz questão de alongar na última estrofe: "o retrato que te dei / se ainda tens, não sei / mas, se tiver... (e neste momento o público sempre enlouquece e um ou dois gritos de "devolve", "devolve!", "devolve, porra!", surgem no vácuo) ...devolva-me".

E do meio pro fim, torna-se bastante tênue a linha que separa a adoração sincera da obsessão doentia. "A uma hora dessas / por onde passará seu pensamento? / Por dentro da minha saia / ou pelo firmamento?", ela quer saber; "onde será que você está agora?", ela procura; "entre por esta porta agora e diga que me adora / você tem meia-hora pra mudar a minha vida / vem, vambora", ela convida.

E ao que tudo indica a pergunta fica mesmo sem resposta, a procura sem encontro e o convite sem destinatário.




"Depois de ter você, poetas para quê?
Os deuses, as dúvidas,
pra quê amendoeiras pelas ruas?
Para quê servem as ruas?
Depois de ter você..."

sábado, 26 de abril de 2014

Possuí e Perdi Alguma Coisa Infinita

Dois mil e catorze e eu acabo de descobrir esse gênero chamado ensaio. Claro que já tinha lido alguns ensaios na minha vida, mas nunca tinha me dado conta de que o nome daquilo era ensaio. Enfim. Acabei viciando. Gastei dinheiro no Kindle, investi tempo e saúde e conheci David Foster Wallace, o autor de Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo.

Quando eu digo conheci, é conheci realmente. E isso é uma das coisas legais de se ler uma coletânea de ensaios (principalmente a coletânea de ensaios de um cara que tem a cabeça como a do David Foster Wallace). O mergulho na mente, na capacidade narrativa e descritiva do autor é tão profundo que, por vezes, você se pega pensando como um D. F. Wallace em plena praça de alimentação do Conjunto Nacional, o que torna a vida inviável. Por outro lado, você, de certa forma, faz um amigo (vomitem, ridículos). Você passa horas numa conversa sem volta com esse homem que te faz rir e te faz pensar e quase te faz dormir, antes de te assaltar com uma construção genial e te fazer acordar. É um pouco estranho, mas você se acostuma (e no final, até ama).

O livro reúne alguns ensaios sobre, por exemplo, cruzeiros de luxo, a problemática de se cozinhar lagostas ainda vivas e as razões pelas quais Federer é o melhor ser humano que já pisou neste planeta. Todos muito bem escritos. Cheios de detalhes precisos, jornalísticos e, ao mesmo tempo, completamente descompromissados com as coisas "naturalmente" primordiais. Uma das coisas mais legais do D. F. Wallace é essa capacidade de enxergar aquele detalhe que, à primeira vista, não parece muito digno de nota, mas que cresce com o texto e encontra correspondentes muito íntimos na nossa própria memória. Daí talvez a certeza de ter conhecido um ensaísta que se matou há seis anos. Seu texto tem a capacidade de nos ensinar algumas coisas fantásticas e, ao mesmo tempo, deixar a sensação de que, no fundo, nós sempre soubemos essas coisas.

Fiquei um pouco angustiado do meio pro final. Não pela qualidade do texto (até porque o texto é realmente impecável), mas porque Wallace tem uma visão muito pessimista, cíclica e perdida da existência humana. No meu ensaio preferido dessa coletânea (Isto É Água, que na verdade é um discurso de formatura que Wallace teve que fazer para alguma turma) ele descreve, com precisão, esse ciclo de fracassos e fala sobre a única alternativa possível. Só por esse trecho, o livro já valeria a pena.

"A única verdade com V maiúsculo é que quem decide como vai tentar ver as coisas são vocês mesmos. Essa, a meu ver, é a liberdade de uma educação autêntica, de aprender a ser bem ajustado: poder decidir conscientemente o que tem significado e o que não tem. Poder decidir o que venerar… 

Pois aqui está uma outra verdade. Nas trincheiras cotidianas de uma vida adulta, não existe isso de ateísmo. Não existe isso de não venerar. Todo mundo venera. Nossa única escolha é "o que" venerar. E se existe uma ótima razão para talvez venerar algum tipo de deus ou coisa espiritual - seja Jesus Cristo ou Alá, yhwh ou uma deusa-mãe wiccan, as Quatro Verdades Nobres ou algum conjunto inviolável de princípios éticos - é que provavelmente todas as outras coisas vão devorar vocês vivos. Quem venerar o dinheiro e os bens materiais, quem buscar neles o sentido da vida, nunca terá o suficiente. Nunca terá a sensação de que tem o suficiente. É a verdade. Quem venerar o próprio corpo, beleza e encanto sexual sempre vai se achar feio, e quando o tempo e a idade começarem a deixar marcas morrerá um milhão de mortes antes de finalmente ser enterrado por alguém. (...) Quem venerar o poder vai se sentir fraco e amedrontado, e precisará de cada vez mais poder para conseguir afastar o medo.  Quem venerar o intelecto, ser visto como inteligente, vai acabar se sentindo burro, uma fraude na iminência de ser desmascarada. E por aí vai.

Essas formas de venerar são traiçoeiras não por serem malignas ou pecaminosas, mas por serem inconscientes. São configurações padrão. É o tipo de veneração pelo qual nos deixamos levar gradualmente, dia após dia, e que nos torna cada vez seletivos em relação ao que vemos e a como atribuímos valor às coisas, sem jamais termos plena consciência do que é isso que estamos fazendo. E o suposto 'mundo real' nunca desencorajará vocês de operarem nas configurações padrão, porque o suposto 'mundo real' dos homens, do dinheiro e do poder avança tranquilamente movido pelo medo, pelo desprezo, pela frustração, pela ânsia e pela veneração do ego. Nossa cultura atual canalizou essas forças de modo a produzir doses extraordinárias de riqueza, conforto e liberdade pessoal. A liberdade de sermos senhores de reinos minúsculos, do tamanho dos nossos crânios, sozinhos dentro de toda a criação. Esse tipo de liberdade tem seus méritos. Mas é óbvio que há liberdades dos mais variados tipos, e no vasto mundo lá de fora, onde o que importa é vencer, conquistar e se exibir, vocês não ouvirão falar muito do tipo mais precioso de todos. O tipo realmente importante de liberdade requer atenção, consciência, disciplina, esforço e a capacidade de se importar genuinamente com os outros e de se sacrificar por eles inúmeras vezes, todos os dias, numa miríade de formas corriqueiras e pouco excitantes. Essa é a verdadeira liberdade. Isso é ter aprendido a pensar. A alternativa é a inconsciência, a configuração padrão, a 'corrida de ratos' - a sensação permanente e corrosiva de ter possuído e perdido alguma coisa infinita."

terça-feira, 15 de abril de 2014

Quebrando o Silêncio como Quem Quebra a Bacia

Estive pensando demais. Li um bocado de poema, cometi outros tantos, perdi tempo adoidado e não consegui fazer muito. Cogitei um novo formato pro blog, com textos mais curtos e frequentes (numa tentativa de burlar o sistema e fazer na verdade um imenso Twitter com caracteres ilimitados), mas não tive coragem de me comprometer a tanto pra depois acabar com posts minúsculos e, ainda assim, esporádicos.

Tenho ouvido muita música. E elas têm me falado sobre a beleza das coisas de um jeito diferente. Comecei até a comprar CD (não todos os que eu quero ouvir, porque isso não faz nem sentido num mundo como o nosso, dominado por iPhones), mas os meus prediletos, aqueles que lembram uma época específica, uma boca específica ou uma caminhada na chuva. Compro pra ouvir no home theater, deitado no sofá, e depois deixar na estante como um mini-monumento da obra que eu já tinha de graça, há séculos, no celular. Pensando bem é um pouco besta.

Hoje me peguei com uma vontade maior que o normal de escrever aqui. E nem sei por que. O abandono já é tão longo (e tão cheio de promessas vagas e esperanças vãs), que qualquer textinho que quebre o silêncio vai ser noooossa.

Não. Assim como a vida, quando esse texto acabar você vai ver que nem foi lá grandes coisas.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O que Eu Ganhei com os Filmes Do Oscar 2014

Preciso confessar que esse ano, quando vi, já tinha perdido a entrega dos Golden Globes. Não andei muito preocupado em zerar os feeds de notícias a tempo de acompanhar uma temporada de prêmios com a dedicação que se deve e acabei não participando de nenhum bolão. Eu sei que ainda dá tempo (e talvez eu até participe de um bolão de cinco reais com uns amigos desanimados demais pra apostar mais grana que isso num programa de TV), mas a verdade é que, esse ano, o máximo que consegui fazer foi ver os filmes.

Não é tão pouco sacrifício quanto parece. Professor particular tem uma fase tenebrosa que dura o ano todo de dezembro de um ano a março do outro (que é quando saem os primeiros pagamentos). Sim, isso soa como férias escolares (e, coincidentemente, nossas férias também), mas, diferente dos professores graduados, com carteira assinada, décimo terceiro e mil privilégios, nós não recebemos nada se não dermos aula. Mas vocês também já sabem disso, porque todo ano eu reclamo da mesma coisa. O fato é que estou deplorável, pedindo dinheiro emprestado aos amigos, economizando na coxinha... e mesmo assim fiz questão de assistir aos nove indicados a melhor filme no cinema. Parabéns. Muito bom. Agora me diz... o que eu ganhei com isso?

Algumas coisas. Vou tentar enumerá-las de 9 a 1, considerando a importância que tiveram pra mim e a diferença que fizeram na minha vida (mesmo que essa diferença tenha durado apenas 120 minutos).

9. Philomena


Ganhei uma Judi Dench diferente (como todas as Judi Denchs de fato são); com tanta fofura e compaixão que fez com que eu saísse do cinema me sentindo o próprio George W. Bush. Seu filme não tem muitas ambições e, por isso mesmo, consegue satisfazer cada uma delas com um perfeccionismo britânico. Philomena fala de uma jovem mãe que, trancafiada num convento, vê seu filho ser dado para adoção e aprende que isso é parte da punição pelo terrível pecado que cometeu, quando levantou as saias pra um rapaz moreno do parque.

O roteiro do filme conta essa história pelo ponto de vista de um escritor, também interessado em Philomena (e eu digo "também" partindo do pressuposto de que quem vai ao cinema deve, antes de tudo, estar interessado na história de uma mãe que perdeu o filho de vista, por culpa de umas freiras malvadas); e justamente por isso o filme tem um começo de metalinguagem interessante. Enquanto a editora de Martin Sixsmith (Steve Coogan) enche sua paciência, sugerindo que ele invista na atmosfera da culpa, colocando a Igreja Católica como a grande responsável pelo sofrimento daquela mãe (não que a Igreja Católica não tenha sido a grande responsável, de fato), pra que o leitor se sinta injustiçado e ofendido... você percebe que está se sentindo exatamente injustiçado e ofendido e fala: opa, espera aí.

8. Clube de Compras Dallas


Eu não queria ter que exaltar atuação de novo, porque os cinéfilos vão começar a pensar que eu não entendo nada de cinema e que deveria estar me propondo a comentar teatro (ao que eu responderia: não só comento o que eu quiser, como comento é tudo!), mas a verdade é que não tem como ignorar a encarnação (na falta de um termo melhor) perfeita de Matthew McConaughey. Seu Ron Woodroof transita entre o animal selvagem e o animal arredio. São duas coisas diferentes e, no caso de Ron, perfeitamente complementares. McConaughey merece o Oscar, definitivamente. Mas eu não consigo não torcer pelo DiCaprio esse ano. Desencanta, menino!

Também ganhei a atuação de Jared Leto. Esse sim, com a minha torcida (e também com o favoritismo) pelo Oscar de melhor ator coadjuvante. Seu travesti é magnético. Ou sua performance é.

7. 12 Anos de Escravidão


Confesso que fiquei um pouco decepcionado com esse aí. Não porque o filme é ruim (ele não é), mas porque eu esperava alguma coisa que fosse mudar a história do cinema para sempre. Ou pelo menos mudar a história dos filmes feitos sobre escravidão para sempre. Não fez uma coisa nem outra.

Mas fez um filme lindo, forte, sobre uma história mais linda e mais forte ainda. 12 Anos de Escravidão é, antes de tudo, um desses filmes muito fáceis de dar certo. Tem a coisa da culpa branca e tem a verdade incontestável dessa marca de sangue na nossa história, que já mexe com o nosso coração muito antes de chegar na nossa cabeça. E como cinema é emoção pura, fica difícil não segurar o espectador pelo estômago. A gente já entra na sala torcendo pelo Solomon. Teria que ser um diretor muito ruim pra estragar essa vantagem. Por isso, e também pela reputação do Steve McQueen, parece que é ele quem vai ganhar.

6. Trapaça


Ganhei outro filme do David O. Russel, que pode não ser muito talentoso, mas dirige ator como o diabo. Trapaça concentra, em seu nome, quatro indicações ao Oscar (uma pra cada categoria de atuação). E todas são merecidas. Eu não queria ter que jogar minha voz no lixo, misturando-a com a voz da multidão, mas Jennifer Lawrence está matando a cobra e mostrando o pau como a caipira perua que bota fogo na casa do marido.

Trapaça também tem uma trilha sonora que chama a atenção. E eu tô falando de trilha sonora de canções (que é do que o povo gosta), não dessa letargia das trilhas incidentais. Fora isso, tem a direção de arte, a reconstituição de época, os penteados inacreditáveis, os anos 70...

5. Capitão Philips


Se tem uma coisa que eu ganhei com essa maratona, foi a chance de me reconciliar com Tom Hanks. Após anos achando tudo que esse homem faz completamente intragável (porque, a verdade seja dita: Tom Hanks só sabe fazer um papel e esse papel vem a ser o de um homem retardado), pude entrar no cinema com os olhos desconfiados e sair do mesmo cinema com os olhos cheios de água. Capitão Philips é, não só um ótimo filme de assalto (com toda a tensão e as reviravoltas a que tem direito), como também um estudo de personagem riquíssimo. E Tom Hanks brilha como esse capitão. Ele consegue nos conduzir pela mão, despertar uma empatia que a gente nem sabia que tinha (muito menos que viria se manifestar logo agora, por um ator como o Tom Hanks).

4. Nebraska


Em Montana tudo é cinza e melancólico. E tem esse senhor, Woody Grant (Bruce Dern): um velho senil e alcóolatra que, deslumbrado por um folheto publicitário de assinatura de revistas, pensa ter ganho um milhão de dólares. Como se não fosse o bastante, Woody está certo de que o prêmio só será dele, quando ele for buscá-lo em Lincoln, a capital do Nebraska. David (Will Forte), o filho de Woody, parece um depósito de remorsos e tristezas. É ele quem sempre se sacrifica para buscar o pai, que, decidido a ir pro Nebraska a pé, pôs-se outra vez a sair pela rua em direção ao ouro. É David também quem se cansa dessa história e um dia decide levar o pai, numa viagem de carro, até o fuzilamento de sua ilusão.

Essa é a história de Nebraska, último filme de Alexander Payne, que também dirigiu os ótimos Os Descendentes e Sideways – Entre Umas e Outras. Curiosamente, Nebraska é o único cujo roteiro não foi escrito também pelo diretor. O fato de ser também o melhor filme de Payne se explica não só pela qualidade do roteiro de Bob Nelson, mas também pela direção precisa de um homem que, sem o fardo da autoria, se mostra mais à vontade, amadurecido e focado.

3. Gravidade


Lembro que vi Gravidade numa sessão 3D lotada, no Festival do Rio, ano passado. Lembro também de estar acompanhado e de, a certo momento, me dar conta de que nossas mãos estavam dadas, na mesma posição, há muitos minutos. Estavam até suando. E a direção de Alfonso Cuarón (eu sempre falo Afonso, é inevitável) foi meticulosamente programada pra reforçar essa angústia que nós sentimos. Seus belíssimos plano-sequências dançam com a câmera pela imensidão de um jeito bonito, mas desolador. Acho que foi o filme que fez com que eu me sentisse mais próximo do espaço. É tudo muito vazio e silencioso. E Sandra Bullock samba.

2. O Lobo de Wall Street


A única reclamação que ouvi sobre O Lobo de Wall Street era a de que o filme era "muito pesado". E sim, se você considera cenas de sexo e violência algo que torna um filme pesado, O Lobo de Wall Street é um filme pesado. Mas, pensando um pouquinho no Scorsese, no pouco que eu conheço da sua carreira e pensando nessa história, nesse megalomaníaco escroto que o diretor resolveu mostrar ao mundo, eu acho até que o filme ficou bem leve. Inclusive gargalhei.

O Lobo de Wall Street é o filme mais engraçado que eu vi no cinema nos últimos, sei lá, 10 anos. E isso é total mérito do Leonardo DiCaprio e do Jonah Hill, que estão ridículos e hilários. O humor praticado aqui é o humor do absurdo. Falando assim, parece o tipo de humor que a galera do Pânico pratica (talvez até seja), mas como a história, na verdade, é tristíssima (é sobre uma gente triste, uma sociedade perdida, uma busca inútil e uma droga fatal), esse humor sai do ridículo e entra na ironia. Soa mais bonito.

1. Ela


O Oscar desse ano me deu, principalmente, uma coisa que há muitas edições não me dava: um filme preferido.

Com Ela, eu ganhei a chance de repensar um bocado de coisa. Ganhei a oportunidade de pensar no passado, no que nossa espécie foi, e de vislumbrar o futuro, do que nossa espécie é capaz. Também pensei sobre solidão, sobre sentimentos e, porque seria muita canalhice negar, sobre amor.

Já falaram muito sobre o filme por aí. E já falaram muito bem, de modo que me sinto liberado dessa função. Só queria dizer que eu me peguei por três vezes com as bochechas molhadas (por sorte, em uma delas o cinema estava completamente escuro e só se ouviam as vozes de Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson), e que, em cada uma delas, eu me senti, ao mesmo tempo, encantado e triste. Foi como se apaixonar.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Como as Crianças Ouvem Música Hoje em Dia


Se eu tivesse feito um top 5 das melhores coisas que me aconteceram em 2013, com certeza descobrir o streaming de música estaria lá. Foi uma das maiores revoluções na minha vidinha ínfima infinita e particular em, sei lá, uns dez anos. Minha biblioteca não faz mais sentido (porque eu tenho todas as músicas do mundo (ou a maioria delas) à minha disposição, só clicar no search e digitar), então eu tô me sentindo um velho que, de repente, encontra o mundo todo diferente. E não sabe mais o que fazer com a coleção de vinis.

O fato é que tenho ouvindo muita música nova (o que é uma delícia - principalmente nesse momento de solidão, férias e miséria) e feito umas descobertas (ou redescobertas) interessantes. Não tenho muito com quem falar, então pensei até em abrir uma sessão no blog só pra crítica musical (totalmente pessoal e sem compromisso com a realidade), mas quem eu tô tentando enganar? Faz décadas que não consigo escrever um post.

Acho que o fato de voltar a escrever (ou me forçar a voltar a escrever) está ligado às descobertas musicais e ao ano-novo e às férias também. Porque quando a gente estuda português e ensina português e passa o dia sendo forçado a pensar em gramática, uma repulsinha natural pela língua começa a surgir. Paciência pra revisar? Zero. Pensar em preposições, coesão, coerência...? Inventar figuras de linguagem pra enfeitar a coisa toda? Não. Eu quero só falar umas bobagens e vender minha arte. Devolver pra natureza o que ela dá pra gente.

No caso, fiz minha primeira playlist no Rdio (que é o serviço de streaming que eu assinei). Aproveitei que, no momento, a única coisa que eu faço da vida é ver Mad Men e entrei de topete nos anos 60. Escolhi 14 músicas que Don Draper conceberia na balada; afinal de contas, advertising is based on one thing: happiness. And you know what happiness is? Happiness is the smell of a new car. It's freedom from fear. It's a billboard on the side of the road that screams reassurance that whatever you are doing is okay.

You are okay.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

John Lennon Reinventado


Não é como se eu não tivesse nada a dizer; é mais como se eu soubesse que ninguém quer ouvir. E na verdade eu até sei que alguém no mundo quer, que todo blog tem 100 leitores, etc, mas sentir eu não sinto.

E quando você fica muito tempo sem escrever, a tendência é ficar ainda mais. Isso porque a gente percebe que não faz muita diferença.

E agora entra a parte da pretensão literária.

Sempre achei lindo encher a boca pra dizer que não escrevo por dinheiro, fama ou reconhecimento. Que não acredito que a literatura, ou seja lá o que isso for, tenha alguma função. Que a vantagem dela é justamente essa de não servir pra bosta nenhuma. Que só assim ela vai conseguir ser verdadeira.

Mas esse discurso, que parece tão liberal, bonito e artístico, não sustenta a realidade (ou o ego) de escritor nenhum. Primeiro que não existe arte verdadeira (e eu não quero entrar nesse mérito agora, porque o blog tá abandonado há tempo demais pra já voltar assim, com filosofia de boteco) e segundo que escrever é um ato de comunicação e fica impossível se comunicar sem esperar por uma reação do interlocutor.

Quando você fica muito tempo sem escrever e ninguém reclama, significa que você pode ficar mais um pouco. Foi o que eu fiz. E só voltei agora porque estou numa dessas fases mega produtivas, em que tudo o que eu faço é passar horas organizando as coisas que ainda preciso fazer (sem nunca de fato fazê-las).

sábado, 17 de agosto de 2013

Super Rich Kids


Se a gente parar pra pensar, Bling Ring não é muito diferente dos outros filmes da Sofia Coppola. Ele fala de jovens entediados como os de As Virgens Suicidas, mimados como Maria Antonieta e perdidos como a Charlotte de Encontros e Desencontros. Ele também oferece um olhar curioso (quase complacente) sobre o mundo das celebridades, coisa que Sofia tinha acabado de fazer muito bem em Um Lugar Qualquer. O roteiro é baseado na reportagem que Nancy Jo Sales escreveu para a Vanity Fair em março de 2010, contando a história dos adolescentes ricos de Los Angeles que começaram a invadir casas de famosos para roubar suas roupas, jóias e acessórios. A mesma reportagem deu origem a um livro que chegou no Brasil há pouco tempo. Eu sou bem fã da Sofia Coppola e já estava fascinado com a coisa toda o suficiente pra comprá-lo na semana do seu lançamento. Em pouco tempo comecei a pesquisar a vida dos envolvidos, ver suas fotos, seus vídeos, e ler tudo o que eu podia sobre o tema. Quanto mais eu lia sobre a Bling Ring, menos eu entendia as motivações daquela gente, o que só me deixava ainda mais interessado. Eu estava obcecado por adolescentes que eram obcecados por celebridades que eram obcecadas por si mesmas.

Esteticamente, Sofia Coppola é irretocável. Em Bling Ring ela aproveita as casas majestosas, os adolescentes ricos e as roupas de grife para criar pequenos momentos de contemplação. Depois de uma abertura frenética (e linda), a montagem começa a ficar cada vez mais parecida com a de seus outros trabalhos, até atingir o ápice, numa longa cena em que a casa de uma das vítimas é mostrada de longe, enquanto os ladrões andam pelos cômodos, enchendo bolsas, revirando gavetas, acendendo e apagando  as luzes. Em outro momento a câmera aparece imóvel, acima da escada, de um ângulo muito parecido com o das câmeras de segurança. São escolhas que fazem toda a diferença, quando se conta uma história em que o distanciamento é fundamental.


E o distanciamento é fundamental, porque estamos falando de uma geração vaidosa, egoísta e inconsequente. Marc, o único homem do grupo e principal cabeça por trás das invasões, materializa as três características em uma cena em que ele fuma maconha na frente do computador, enquanto ouve Drop It Low e se exibe para a câmera. Ele canta, dança, levanta a blusa pra mostrar um pouco do corpo, e nesse momento fica claro que eles não estão ali, roubando roupas e jóias, para mostrar pros outros. Quer dizer, é óbvio que é para mostrar pros outros, mas isso é só uma etapa para que o objetivo final seja atingido. A admiração alheia é o combustível que vai alimentar o bem estar desses adolescentes. A gente acaba percebendo que o distanciamento é fundamental, porque se chegar perto demais, corre-se o risco de topar com um grande nada.

E multiplicam-se as cenas de festas, em que tudo o que se faz é dançar, beber, cheirar cocaína e postar fotos no Facebook, para mostrar como se tem dançado, bebido e cheirado cocaína. É uma dinâmica que já não assusta ninguém, mas continua triste. E a coisa mais interessante de Bling Ring é a sua recusa em emitir julgamentos. Basicamente, Sofia Coppola usa da trilha sonora profunda e dos seus planos melancólicos para mostrar que esses jovens não são muito diferentes de mim ou você. Eles só tiveram a sorte de nascer em Hollywood.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Killing Them Softly


Festim Diabólico começa no exato momento em que dois amigos estão acabando de matar um homem enforcado. Assim que o corpo da vítima amolece no braço de um deles, os dois afrouxam as mãos, suspiram aliviados e permanecem imóveis e ofegantes, ao lado do cadáver. Um deles tira um cigarro do bolso, acende e traga com languidez, o outro pergunta se eles podem ficar ali mais um pouco, descansando do esforço físico. Podem. Ficam mais um pouco, descansam do esforço físico, escondem o corpo e mais tarde discutem o que cada um sentiu durante o ato.

Estou fazendo o curso que o CCBB oferece como parte da Mostra de Cinema Alfred Hitchcock (que  vai até 4 de agosto aqui em Brasília e reúne 35 longas do homem) e aproveitei pra ler o livro que traz a famosa conversa do Hitch com o Truff (pronuncia-se trâff), que comprei num sebo ano passado e nunca tive coragem de abrir. Nela, o mestre do suspense revela o segredo das suas cenas de assassinato: "film your murders like love scenes, and film your love scenes like murders". Por isso as mortes do Hitchcock são tão chocantes, porque subvertem o crime com o que há de menos subversivo.

Fiquei obcecado pelo assunto e comecei a perceber que alguns dos assassinatos do Hitchcock chegam a ser eróticos (é o que ocorre em Festim Diabólico, onde a tensão homossexual torna-se cada vez mais evidente), revelando que amor e crime se confundem não só na estética do filme, mas também em seu enredo.

Passei algum tempo procurando outros exemplos dessa modalidade de crime e cheguei a uma pequena lista com outras 5 cenas de assassinato filmadas como cenas de amor.

Drive - Cena do Elevador


A combinação perfeita entre trilha sonora, iluminação e brutalidade. Começa com um beijo e termina com Ryan Gosling esmagando a cabeça de um homem com o pé.

Assista aqui.

Carrie, A EstranhaA Morte de Margaret White


Acho que foi a cena mais traumatizante que vi na infância. Durante muito tempo pensei na morte de Margaret White antes de dormir. Em como ela tentou assassinar a própria filha, no sinal da cruz feito com a faca suja de sangue, no sorriso medonho e nos gemidos de dor e prazer a cada facada.

Assista aqui.

2001: Uma Odisseia no EspaçoHal 9000 É Desligado


Hal 9000 é o personagem mais carismático de 2001 e é também uma máquina. Todas as questões filosóficas sobre vida e consciência vêm à tona quando David é obrigado a desconectá-lo, enquanto ele canta uma canção de despedida.

Assista aqui.

Bastardos InglóriosShoshanna e Frederick


Com a trilha de Ennio Morricone ao fundo, Shoshanna e Frederick (ela, judia e ele, nazista) encerram sua curta história de amor e ódio. É como se Tarantino reescrevesse Romeu e Julieta.

Assista aqui.

Onde os Fracos Não Têm VezAnton Foge da Prisão


Poucas coisas são tão específicas quanto a cara que Anton Chigurh faz enquanto mata o policial em Onde os Fracos Não Têm Vez. Melhor que isso, só a viradinha que ele dá pra evitar que o sangue espirrado da garganta de outrem suje sua franja majestosa.

Assista aqui.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Retratos de uma Dedicação


Lendo esse texto da Renata Miwa sobre dedicação, comecei a pensar que a tendência é mesmo que ela desapareça. Se a gente entender dedicação como o cuidado, carinho e esforço para a realização de uma tarefa, fica mais fácil perceber como, cada vez mais, as coisas têm sido feitas nas coxas. Ninguém mais tem tempo pra se dedicar a nada. Se dedicar a um projeto só, a um conhecimento só, a um romance só...  Isso é perca de tempo. É comodismo. E a era do multitasking, que pretendia multiplicar o tempo, aumentando a abrangência, só consegue dividir os resultados, diminuindo a qualidade.

Obsessão é a nova dedicação. Muito em breve as pessoas só vão conseguir se dedicar a algum projeto quando estiverem obcecadas por ele. A obsessão nada mais é que uma dedicação natural, imperativa e impossível de conter. Você já deve ter conhecido um desses sujeitos que passam dias enfurnados num quarto, lendo, pesquisando e estudando o mesmo assunto; sujos, sedentos e famintos. Eles não fazem isso porque querem bons resultados. Fazem porque não conseguem não fazer.

Acho que esse fenômeno acontece porque nunca houve uma geração menos disposta. A nossa geração perdeu a capacidade de fazer o que não gosta. E isso é bom, porque expulsa o fantasma da frustração profissional da vida de centenas de adultos, mas é ruim, porque acaba criando uma geração de meninos mimados, que não consegue exercer qualquer atividade desagradável por um período mínimo.

O problema desse tipo de pensamento é que desistir acaba se tornando uma opção quase automática. Acho que desistir não era uma opção na época da minha mãe. Não consigo imaginar minha avó fazendo a matrícula da filha no inglês e ouvindo, na segunda semana de aula, que tá muito chato e, por isso, seria melhor matricular no francês. E depois no alemão. Não existia isso. E hoje existe demais. A cada dia desisto de pelo menos três coisas, sendo que duas delas eu nem chego a começar.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Vocês Criaram um Monstro

Aí tem essa professora... Mais louca que o Batman. Uma figura tão loira, tão surreal, tão problemática, que merecia um post só pra ela. Não vou fazer isso, porque sinceramente tenho medo que ela leia antes do semestre acabar (e eu preciso de nota). É bem a cara dela investigar vida de aluno, fazer ego search no Google, essas coisas.

E na aula de hoje ela começou a recapitular as 400 tarefas (sem nenhum objetivo, lógica ou fundamento) que ela tinha passado ao longo do semestre e lembrou que todas deveriam ser entregues na terça-feira da semana que vem. O que é lindo, porque significa que depois de terça-feira vou poder até colocar o nome dela aqui pra facilitar a pesquisa, mas também é péssimo, porque é óbvio que ninguém dá a mínima pra o que essa mulher fala em sala de aula e ninguém fez nenhuma dessas tarefas, já que, veja bem: ninguém SABE como fazer!).

Esse é o panorama então: loira surtadíssima que manda a gente usar uma tal de "ecofont" (projeto flopado de fonte ecologicamente correta, que já não fazia sentido em 2004, que dirá agora) em todos os trabalhos, 400 tarefas que deveriam ter sido feitas ao longo de seis meses para serem compreendidas e realizadas em coisa de dias e toda uma Mostra Hitchcock pegando fogo no CCBB.

Ainda bem que os comentários do post anterior foram favoráveis ao mimimi. Fiquei mais seguro pra reclamar com propriedade. Vou até escrever mais e mais porcamente.

Daqui a pouco cês abrem o blog e tem um poema.
Ou um acróstico.
Ou um haicai.