sábado, 11 de julho de 2015

O Primeiro Avião Com Destino à Felicidade


Em 2013, pela primeira vez na vida, comemorei meu aniversário num bar. Antes disso eu era mórmon e me contentava com o jantarzão em família. Um ano Pizza Hut, no outro Outback... Não me entenda mal. Eu amava esses jantares de aniversário (e amo até hoje), mas só em 2013 comecei a fazer o que todos os meus amigos já faziam desde a sexta série: uma festa pros amigos e outra pra família.

O bar que eu tinha escolhido ainda é o meu preferido da cidade. Ele é um pouco metido à besta e mal frequentado (e por mal frequentado, entende-se cheio de gente bonita), mas foi o primeiro bar que eu conheci que oferecia narguilé e eu sou extremamente apegado às primeiras coisas que conheço: a primeira promoção do McDonald's que me deixou satisfeito; o primeiro cinema que me proporcionou uma experiência digna... costumo ficar preso pra sempre a essas coisas que, de um modo mais espiritual, me tiraram a virgindade.

Não sei como ficam os bares de narguilé com essa nova lei anti-fumo, mas o Hookah naquela época era bastante liberal. Se pode fumaça sabor morango, pode também fumaça de Malrboro, de Souza Paiol e, seguindo um pouco adiante, pode até uma fumaça de um tipo mais interessante.

Já passavam das duas da manhã e o bar continuava cheio. Todas as mesas já se conheciam suficientemente bem (já tínhamos nos trombado bastante entre uma mijada e outra) e eu não lembro como começou (não sei se da minha mesa ou se da mesa ao lado), mas quando dei por mim duas ou três pessoas cantavam juntas "Em vez de você ficar pensando nele... em vez de você viver chorando por ele..." e aí fui eu que não aguentei e entrei no coro "pensa em mim!, chora por mim!, liga pra mim, não, não liga pra ele..." e as vozes foram se somando... Agora ninguém conseguia mais se segurar e o bar inteiro era um imenso coral de bêbados. "Vamos pegar o primeiro avião... com destino à felicidade... A felicidade... pra mim é você!". Que sintonia! Que momento, amigos.

Assim como a primeira McOferta que encheu de verdade e a primeira marca de desodorante que deu certo, sinto que estarei preso pra sempre a esse primeiro coral de bêbados.

domingo, 24 de maio de 2015

Longa História de um Blog Abandonado

Blogs abandonados duram muito, se não pra sempre. Um blog abandonado não cobra e nem te deixa culpado. O máximo que pode acontecer é ele continuar a ser um blog abandonado. Agora se ele fosse um blog com atualizações diárias, semanais, quinzenais... mensais, que fosse... ainda assim ele não duraria tanto quanto um blog abandonado. Porque o sentimento de frustração, quando você precisar manter o ritmo e não conseguir (ou não estiver a fim), e a irritação de ficar arrastando uma coisa que não te dá dinheiro, não muda os seus problemas, não te faz ficar famoso e nem te faz ter mais amigos, mas, em vez disso, te enche de culpa, é justamente o que vai matar seu blog cheio de posts.

domingo, 29 de março de 2015

I've been saving all my money for you...


O diagnóstico que eu mesmo resolvi me dar foi: hipersensibilidade. Em outras palavras, tudo dói. Essa semana cheguei ao cúmulo de ficar mal por conta do cancelamento de um show para o qual eu nem ia. E isso só por ter cogitado a possibilidade de comprar o ingresso e as passagens e realmente ir pra um desses festivais de música. A gente passa a juventude vivendo uma ditadura meio velada dos grandes espetáculos. Todo mundo sabe que ingresso de show, passagem de avião, essas coisas, são investimento. Não se pode pagar por experiências, etc. Mas a verdade é que se pode pagar sim, e às vezes o preço é bem caro.

Fiquei um pouco chocado com a capacidade que um único ser humano tem de ferrar com os planos de tanta gente. E nem acho que a tal Marina dos Diamantes tem lá muita culpa do que aconteceu. Provavelmente ela só trabalha com uma galera ruim de serviço, o que, querendo ou não, é culpa dela também. Enfim. O que não deu pra assimilar ainda foi o nível da frustração de um fã, desses bem adolescentes, que se planejam pra coisa com meses de antecedência, juntam os trocados todos, fazem das tripas coração para convencer os pais, se envolvem em um milhão de rolos para conseguir onde dormir, pagam transporte pro show, chegam cedo, ficam na fila, pintam a cara... tudo isso para ver uma mulher específica cantar na frente deles... e algumas horas antes da apresentação, pluft! Aparecem as notícias. Não vai ter show. Ela não vem, não conseguiu chegar a tempo... O voo foi cancelado. Já era.

Pra esse fã, que provavelmente não vai ter outra oportunidade de ver sua artista preferida, resta beber um bocado, tentar se divertir com os outros shows do festival, voltar pra casa e aceitar a atmosfera melancólica que vai estar pra sempre entranhada nas faixas de Froot.

Anunciaram agora a pouco um show da Rihanna no Rock'n'Rio e me encontro atualmente ponderando e estudando a possibilidade de investir numa dessas incríveis perspectivas de frustração.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Como Você Consegue, Joana?

Depois de assistir Whiplash defini que realmente não tem jeito: se a gente quiser ser alguém nessa vida são necessários alguns sacrifícios tipo tirar sangue da mão de tanto treinar o mesmo movimento ou assumir a solteirice e o isolamento social necessários para o aperfeiçoamento da sua técnica. Aí resolvi me obrigar a escrever qualquer coisa que não seja trabalho acadêmico por pelo menos uma hora todos os dias, além de um tempo reservado pra escrever num arquivo que ainda chamo de diário mas que já virou uma espécie de joguinho masturbatório de estilos.

Considerando que reservar uma hora do seu dia pra treinar qualquer tipo de habilidade não é sacrifício em lugar nenhum do mundo, pode parecer que eu esteja sendo meio prepotente, achando que, por ter nascido com uma sintaxe natural mais evoluída, o que alguém levaria dias de treino e lapidação eu mataria em duas horas na frente da escrivaninha. Não. Não é bem isso. A verdade é que eu tô sendo bastante realista. Eu escrevo quando dá na telha (e não só quando dá na telha, mas quando dá na telha e eu tô em casa, com tempo disponível, computador disponível, etc) e isso não é o bastante. Pelo menos não segundo Bradbury e esse pessoal que ama tanto o ato de escrever que só passou a vida escrevendo e falando sobre como era mágico escrever, de uma forma meio guru (e pensando agora, a verdade é que quase todo escritor cai nesse ciclo víciosíssimo) e dizendo que você só vai ser bom realmente na coisa se fizer essa coisa uma porrada de vezes e experimentar formatos novos, assuntos desconhecidos, segredos profundos...

A ideia então é manter essa média de uma hora por dia por pelo menos dois meses seguidos (se ficar um dia sem escrever, começa tudo de novo) e só aí ir aumentando progressivamente o tempo de dedicação até virar um monge literário.

A partir desse ponto confesso que nem minha mania de programação doentia conseguiu dar conta. Porque o tempo não existe. Não tenho tempo. (Ninguém tem, eu sei, mas eu não tenho mesmo!) Eu caí no erro tremendo de ser do tipo de gente que é um pouco bom em muitíssimas coisas e não do tipo de gente que é muito bom em pouquíssimas coisas (ou ainda do tipo de gente que é o melhor em apenas uma coisa - o tipo certo) e isso atrasa tudo, porque eu me enfio numa verdadeira zona artística (tanto no sentido da bagunça quanto no sentido da putaria), sem saber se compro uma máquina fotográfica ou entro pra aula de canto.

Fora a pretensão dessa coisa toda de querer ser artista, ainda tenho que lidar com a minha natureza de consumidor insaciável. Antes de querer ser um fazedor de livros, filmes e músicas eu já queria consumí-los todos. Eu já era fascinado por eles (e esse fascínio é tão grande que até hoje alimenta minha inspiração) e acho que o dia em que eu não conseguir mais sentir alguma coisa com um conto, um romance ou um poema, aí realmente eu não vou ter mais forças pra continuar. Então manter esse fascínio é mais que uma boa estratégia, é uma questão de sobrevivência. É preciso me alimentar com estímulos que justifiquem meu esforço para produzir algo parecido. Daí a dificuldade de querer acompanhar uma indústria que solta material novo a cada segundo (e muito material novo!) e trata cada um desses novos lançamentos como obra de arte indispensável (que provavelmente ele não é, mas daí a você não querer ver com seus próprios olhos...).

Assinei a Entertainment Weekly, que era um sonho meu desde que eu lia a Set (uma revista de cinema já cancelada por falta de papel). A Set era meio tosca, mas era a única revista sobre filmes da banca que estava em português. Nunca me atrevi a comprar uma Entertainment Weekly. Primeiro que o preço cobrado por aquela revistinha mole de papel vagabundo aqui no Brasil chegava aos vinte e cinco reais e segundo que meu inglês é péssimo, mas naquela época era ainda pior. Hoje já dá. E, com iPad e esses aplicativos que simulam toda uma banca de jornal cheia de revista importada, famosa, independente, sem noção..., ninguém precisa mais gastar vinte dilmas num monte de papel grampeado (mas ainda precisa gastar dois obamas e noventa e nove cents, é verdade).

Como se não bastasse esse novo hobby de férias, ainda tenho o diabo de um app chamado Iba Revistas, que é a pior coisa que já inventaram (mas que continuo assinando por inércia e também pela possibilidade de ler todas as Super Interessantes lançadas até hoje). As Piauís nunca estiveram tão acumuladas; acho que estou terminando agora a edição de outubro.

Mas o problema da maioria dessas revistas é que elas, em vez de saciar seu desejo por informação e entretenimento, só fazem esse desejo aumentar, te indicando novos livros em edições de capa dura, blu-rays que vêm com todo o cenário do filme incluso, coletâneas de álbuns relançados em vinil e outros absurdos maravilhosos demais pra gente ignorar. Aí você vai ler um livro (que por si só já tem quase mil e duzentas páginas) e descobre que metade dessas páginas são referências a outras centenas de obras que, se você fosse esperto, já teria lido... Ou seja. Não tem a menor condição de viver num mundo assim.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Basicamente No Cinema Teve Muito Álcool

Obviamente que deixei pra fazer essa lista às 23h do dia 31 de dezembro, então vou ter que correr horrores e falar praticamente nada sobre cada filme, porque só tenho esse tempo da digestão de toda essa carne com champignon antes do céu começar a explodir. Desculpa a pressa, desculpa a falta de noção, obrigado pela visita e pode ficar tranquilo, que ano que vem a gente coloca os pingos nos "i"s.

10. O Maravilhoso Agora


A menina de A Culpa É das Estrelas fez esse filme de baixo orçamento, que foi selecionado pro Festival de Cannes e acabou caindo por acaso no meu HD. Conta um romance adolescente entre esse exemplo de garota e um jovem alcoólatra que vive pra lá e pra cá com seu copinho de canudo cheio de pinga e suco. Na metade do filme eu tomei um susto tão grande, que acho que só me recupero em 2015.

9. Boyhood


E parece que foi mesmo o ano dos alcoólatras no cinema. Taí o pai do nosso menino Boyhood que não me deixa mentir. Que vilão detestável! Enquanto eu assistia, me subiu um ódio que eu não sentia no cinema há anos. Chegou a me fazer mal e tudo.

8. Mommy


Xavier Dolan voltou a falar de maternidade, mas sem a euforia juvenil dos seus primeiros filmes. Mommy é uma narrativa consistente, muito bem contada e com atuações alucinadas de tão boas. Nunca imaginei que fosse quase chorar de beleza estética por conta de uma cena de selfie ou que fosse me divertir tanto com uma sequência de vinho na cozinha. Nem precisava ter Lana Del Rey nos créditos.

7. O Congresso Futurista


Duas horas do mais puro lsd.

6. Amantes Eternos


Esses não bebem álcool, mas neles o efeito do sangue é praticamente o mesmo. Não são os vampiros mais bonitos do cinema, mas certamente são os mais cultões. E tem a melhor cena final desses 10 filmes aqui tudinho.

5. Joe


Apesar de não suportar o Nicolas Cage, não tive o que fazer com ele e essa preciosidade chamada Joe, que quase ninguém viu, se não metê-los na quinta posição dos melhores do ano. O filme é bem cru, cheio de miséria e violência, mas seu maior trunfo está no trabalho do menino Tye Sheridan, que faz o filho de um alcoólatra terminal (outro pinguço, tô falando...) e mostra que talento é mesmo uma coisa deveras injusta e impressionante.

4. Relatos Selvagens


É o representante argentino pro Oscar 2015 e reúne meia dúzia de histórias desesperadamente geniais, cheias de graça, sangue e peripécias do roteiro. Recomendo pra qualquer um que ainda tenha olhos.

3. Versos de um Crime


Não sei se as atuações me impressionaram tanto quanto a montagem, mas, sem dúvidas, Versos de um Crime também me ganhou pela temática. É um thriller-literário-poético-gay, que te prende num universo de descobertas, encantamento e perigo tão deliciosamente bem esculpido que a última coisa que você quer fazer é sair.

2. O Lobo de Wall Street


Scorsese enfiando o pé na jaca de um jeito tão lambuzado, que fica difícil andar depois. O filme te mata de rir: primeiro de incredulidade, depois de graça, mais tarde ainda, de nervoso.

1. Ela


Que loucura o amor!

O Ano que Foi Metade Tiê e Metade Beyoncé


Passei o ano inteiro botando o blog de lado.

Sempre que eu via, lia ou ouvia alguma coisa mais ou menos digna de nota (pra quem ainda não percebeu, a única função desse espaço é reunir as coisas mais ou menos dignas de nota que vejo, leio e escuto), era dominado por uma preguiça sem nome, que fazia com que eu desistisse de qualquer tipo de compartilhamento e optasse enfim por guardar as tais coisas somente na memória.

Ano passado não teve Top 10 dos melhores do ano, o que me fez ter a sensação de que não vi nenhum filme em 2013. Resolvido a não repetir o erro este ano, mas, em vez disso, pagar por ele, fiz a lista dos dez melhores filmes de 2014 e, de lambuja, uma lista inédita de álbuns e singles preferidos (coisa que nunca tinha me sentido apto a fazer até agora).

2014 foi o primeiro ano que passei na companhia de uma assinatura Rdio e isso fez toda a diferença (mais uma vez fazendo publicidade de graça, como uma mula) porque, se antes eu levava horas pra baixar, organizar e colocar minhas músicas no iTunes, agora eu podia fazer tudo isso em segundos e ainda recebia notificações quando qualquer artista da minha biblioteca lançava alguma coisa nova. Acabei ouvindo cinco vezes mais música que em 2013 e o resultado desse ano com pouquíssimo silêncio você vê aqui:

10. G I R L - Pharrel Williams


Vindo de um ótimo 2013, quando emplacou Get Lucky com o pessoal do Daft Punk e finalmente se tornou conhecido  pelo povão, Pharrel Williams aproveitou 2014 pra dar uma virada definitiva na carreira (e conseguiu, oras!). G I R L foi lançado bem no comecinho do ano e tem uma coleção de black music, cheia de swing, batuques e estalos infalíveis para provavelmente 80% das situações em que uma boa música faz diferença. Tá certo que ninguém mais consegue ouvir Happy, mas Come Get It Bae, por exemplo, eu tava ouvindo agorinha mesmo e dando as mesmas reboladinhas que dei o ano todo.


9. Rock'N'Roll Sugar Darling - Thiago Pethit


Confesso que quando ouvi pela primeira vez tive uma opinião parecida com a da Nara, quando lhe mostrei os versos “doce como açúcar / explode na sua boca / vem chupar meu rock’n’roll": parece música da Xuxa, mas com putaria. E a verdade é que eu nem gosto de rock. O som de guitarras e amplificadores me excitam demais a ponto de me perturbar. Ano passado comecei a gostar de bateria, prestar mais atenção no instrumental das músicas e até mesmo a tolerar um ou outro chorinho de guitarra, mas nada que chegue perto do tanto de rock(!!!) que eu ouvi em 2014. E, claro, quando eu falo de rock, eu tô falando do meu limite aceitável de rock, que, sim, parece estar em evolução bastante íngrime até, mas ainda não chega perto de ultrapassar um Pato Fu ou uma Cássia Eller na fase média. Acontece que mesmo eu não gostando de rock e mesmo achando que o Thiago Pethit realmente tem certa inclinação a paquita, não resisti a uma segunda ouvida. Parece que comecei a entender que o cara estava cagando e andando pra tudo (no sentido da despretensão mesmo), que aquilo ali ele tinha feito num país distante, com pessoas não daqui, e que era o momento dele de chutar esse bode. O álbum é uma coisa safadíssima, cheia de trocadilhos infames e um instrumental ao mesmo tempo pesado (voz distorcida, tudo muito difícil de entender) e glamuroso (backing vocals, palminhas…), coisa que eu não tinha percebido tão bem à primeira audição. Acho que porque fiquei preso nas letras e, realmente, você também não deveria ir por esse caminho. Recomendo Vodoo, altamente viciante, e 1992, que é o tipo de música que eu gostaria de ter feito pra alguém.


8. Sound of a Woman - Kiesza



É o que aconteceria se a Madonna dos anos 70 fosse um pouco mais 'disco' e resolvesse lançar um álbum novo hoje, com toda a tecnologia disponível, etc. Kiesza faz música pra dançar (ela própria é uma dançarina super descolada, que adora ressuscitar uns passinhos que ficaram perdidos no tempo) e conquistou todo mundo com Hideway, que, penso eu, tocou em todas as academias do ocidente. E tome barulhinho de videogame pulsando na orelha, batidas eletrônicas retrô-modernizadas (ou moderna-vintagizadas), tome gritinhos e mais gritinhos de UH, AH, mesmas frases sendo repetidas à exaustão… e você só quer ficar ali, ouvindo uma atrás da outra e ressuscitando uns passinhos que ficaram perdidos no tempo.


7. Coraçao a Batucar - Maria Rita


Teve Copa sim e também foi horrível, nos golearam, nos humilharam, cuspiram na nossa cara etc, mas a gente é brasileiro, claro, e não desiste nunca. Eu, particularmente, aproveitei o CD novo da Maria Rita (o segundo só de sambas) pra curar essa dor de tom tão canarinho O CD segue um ritmo impressionante, pendendo pra porta-bandeira e mestre-sala diversas vezes. Fala de samba, de natureza, de Brasil, tem Maria Rita cantando absurdos e eu te desafio a ouvir No Mistério No Samba sem dar pelo menos uma quebradinha.


6. The New Classic - Iggy Azalea


Deixa a branca fazer o rap dela.


5. Olhos de Onda - Adriana Calcanhotto


Simplesmente a melhor gravação ao vivo que ouvi em muito tempo. Já falei sobre a tristeza absurda desse disco aqui, mas a verdade é que Olhos de Onda é um álbum muito simples. São vinte músicas, uma atrás da outra, cantadas e tocadas pela Adriana Calcanhotto num show no Rio de Janeiro. O que faz diferença mesmo é o repertório. Que repertório! Tenho quase certeza de que ela canta pra uma mulher só.



4. My Favourite Faded Fantasy - Damien Rice


Mais uma tristezinha em forma de álbum que me acompanhou por muitos dos momentos de ansiedade e desespero de 2014. Damien Rice é meu cantor vivo preferido (pau a pau com Chico, se considerarmos o mundo todo), certamente o da voz mais bonita, e desde 2007 não lançava nada. Agora, se antes suas canções folks já indicavam certa danação emocional, com My Favourite Faded Fantasy Damien Rice atinge o lugar mais sombrio do poço. E é lá de baixo, numa sombra formada por outras sombras maiores, que ele chora um amor que, se algum dia ele teve, já não tem há muito tempo.


3. Ultraviolence - Lana Del Rey


Outro exemplar do tipo de rock que eu consumo. Lana Del Rey é conhecida pela languidez, rivotril e botox, mas em Ultraviolence, seu terceiro álbum de estúdio, a moça mostrou que sabe mexer também com guitarra e bateria. Todas as músicas partem de um cenário melancólico, que já era o cenário original da Lana em músicas como Yayo, Videogames e Blue Jeans, por exemplo, mas supera a pegada pop e reveste toda aquela massa de voz oceânica e letra depressiva em uma camada bem grossa de rock minimalista. Fora a corta-pulso Black Beauty e a impecável West Coast, Lana Del Rey ainda me vem com Brooklin Baby, onde cantarola lindamente, e Florida Kilos, onde mostra que ainda dá pra dançar.


2. Esmeraldas - Tiê


Nem o pessoal daqui de casa aguenta mais, do tanto que eu não paro de ouvir esse álbum. Sempre tive uma certa fascinação pela Tiê, que era um pouco por conta da beleza, mas principalmente pela veia autoral nítida desde o seu primeiro trabalho, Sweet Jardim (pra quem não conhece, indico uma boa ouvida em A Bailarina e o Astronauta), e o que era fascínio, depois do lançamento de Esmeraldas, virou obsessão. As letras da Tiê parecem bobas, mas alguma coisa me diz que elas não são. Também não posso afirmar que são cheias de duplo sentido, rancores maduros e recalques sofridos, porque as músicas têm o sentido que a gente dá pra elas. Falo por mim, quando digo que aprendi uma vida de coisas com essas 12 faixas tão fáceis de ouvir. Os arranjos estão muito menos minimalistas, o que também  não significa que estejam pauleira, e se conectam às letras com uma organicidade tão grande que eu não imagino uma coisa nascendo antes da outra. O final de Depois de um Dia de Sonho sempre me faz quase chorar e a letra de Urso é tão boa e nonsense, que virou meu hino particular de 2014. Decore você também.


1. BEYONCÉ - Beyoncé


Ok, se a família já está reclamando do tanto de Tiê que escutei ao longo do ano, o mesmo é válido para o BEYONCÉ da Beyoncé. Não só a família, mas os amigos, os vizinhos, os colegas de curso, os contatos do Snapchat… Ninguém mais aguenta me ouvir ouvindo Haunted, ou Partition, ou Flawless, ou Blow, ou Drunk In Love… E olha que o álbum foi lançado no finzinho do ano passado (o que não o classificaria como melhor álbum de 2014, mas parece que Beyoncé também pensou nisso e mês passado relançou tudo num pacotão deluxe com mais umas três músicas inéditas, uns três remixes e um kit de brinquedos eróticos + um beck bem bolado que vem de brinde para clientes Itaú Card, mediante apresentação da carteirinha de um dos 863 fã-clubes oficiais do Jay-Z). Não tenho muito a acrescentar. Apenas que foi a melhor coisa que Beyoncé já fez. Um CD inteiro tingido de preto, com um neon rosa piscando no meio. Falar que é sobre feminismo seria mentira, falar que é sobre amor, também. Falar que é sobre sexo… É… Podemos falar que é sobre sexo.


Bônus (porque o post também é Deluxe Edition):

Também fiz uma lista rápida dos 10 melhores singles lançados em 2014, que estão aqui no final, de castigo, ou porque seus álbuns de origem ainda não foram lançados, ou porque foram lançados mas não tiveram seu conjunto da obra classificado para o Top 10 álbuns, o que não torna essas 10 músicas  listadas abaixo menos maravilhosas, muito pelo contrário. A ordem é alfabética, porque eu já estou cansado de fazer escolhas difíceis.

Blue Gangsta - Michael Jackson
Já morreu há anos e ainda faz música melhor que metade desses bunda-branca de hoje em dia.


Every Other Freckle - alt-J
O CD novo do alt-J me decepcionou um pouco, mas não por causa disso:


Froot - Marina and the Diamonds
2014 foi living la dolce vita como se não houvesse amanhã.


Habits (Stay Hight) - Tove-Lo
Pra cantar bem alto quando o mozão estiver longe.


Let Me Down Easy - Paolo Nutini
Revelação do ano, segundo minha própria cara de perplexidade ao ouvir esse homem pela primeira vez.


Magic - Coldplay
Se você ainda não chorou ouvindo essa música, pode voltar pra janeiro e repetir 2014.


Make Her Say (Beat it Up) - Estelle
Pra ouvir com catuaba.


My Club - Asteroids Galaxy Tour
Talvez a única bandinha que eu realmente ame. Voltou com esse single belíssimo, mas entregou um álbum meia-boca depois.


NEW DORP. NEW YORK - SBRKT
Foi o carinha do Vampire Weekend que emprestou a voz pra essa que é a música eletrônica mais gostosa de se ouvir na face da terra.


Paradise - Big Sean
Rebola, safado!


E ainda tem os filmes...

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Eu, BoJack, Johnny Marco e Bob Harris


Sinto que essas férias vão ser daquelas de torcer as tripas. O ano não acabou, mas já faz tempo que me sinto esgotado. Também não podemos dizer que não passou rápido. Até o fim do semestre, que a cada ano renova o tom da sua tortura, desta vez passou como uma viagem de ácido. Posso ter chorado (e provavelmente chorei), mas não sei se de graça ou de dor. Dos trabalhos que fiz, acho que nenhum se salvou. Amanhã tenho uma última chance, na aula de literatura contemporânea, quando vou ter que apresentar um seminário sobre Alice Ruiz e Cecília Meireles. Considerando que o grupo é formado por mim e mais três perdidos, e que faz apenas alguns minutos que escolhi meu tema, sinto que esse trabalho também não vai ter salvação.

O resto do tempo tenho matado a surras de bunda. E como se já avistasse a ponta de um enorme iceberg se aproximando (férias, é você?), baixei o piloto de várias séries dessa nova temporada que ou a Cláudia Croitor ou a Ana Maria Bahiana recomendaram (em matéria de televisão, aprendi que as dicas femininas são muito mais precisas e evitam muitos tiros no escuro). De todo o balaio, escolhi How To Get Away With Murder, BoJack Horseman e The Affair, que ainda não consegui assistir.

Se te interessa: How To Get Away With Murder é com a cabulosíssima Viola Davis em um papel tão cabuloso quanto. Ela é a professora mais temida e bajulada de uma faculdade de direito, gosta de fazer joguinhos para estimular a competição entre seus alunos e numa dessas acaba se ferrando. Ainda não sei como nem por que (e já estou no terceiro episódio), mas isso não é culpa da minha estupidez, como pode parecer, e sim da montagem espertinha, que vai contando a história de traz pra frente ao mesmo tempo em que conta a história de frente pra trás, de modo que eu imagino que daqui a pouco as duas histórias vão ser obrigadas a se encontrar no meio e a gente vai finalmente entender tudo.

É, acho que falando assim não deve ter dado muita vontade de ver; mas se eu fosse você, assistiria. Os alunos dela, apesar de péssimos seres humanos, são interessantes. Tem o negro com complexo de inferioridade e uma intuição fora do comum, o branco babaca, embora mestre da retórica, a bicha má... e por aí vai. E a série, apesar de um pouco brega, porque é de canal aberto (classe média sofre, dsclp), consegue superar isso com casos que não forçam a barra e atuações que não matam a gente de vergonha.

O outro programa não tem tantos poréns. BoJack Horseman é tudo o que se espera de um bom desenho (comecei a ver desenho ontem, com As Aventuras de Gumball, e já estou ditando regras): tem personagens irresistíveis (BoJack é um ator alcoólatra e fracassado que mora em Hollywood com um vagabundo que ele adotou pra lhe fazer companhia), temas interessantes (a cultura de celebridades, a crítica à cultura de celebridades e a cultura da crítica à cultura de celebridades) e uma boa dose de delusionismo (na Hollywood de BoJack, metade dos habitantes são animais personificados, o que gera figuras ótimas como uma foca-marinheiro ou um papagaio contra-regra).

BoJack, inclusive, é um cavalo; e seus dias se resumem a muita vodca com cenoura e maratonas da sua série favorita (que, por acaso, é estrelada por ele próprio). Uma atriz-problema estilo Lindsay Lohan, ao tentar diferenciar seu fracasso do de BoJack, afirma que, para ser um ator fracassado, é preciso ter sido antes um ator de sucesso. E eu, que já estava começando a me identificar com personagens como o Johnny Marco (de Um Lugar Qualquer) ou o Bob Harris (de Encontros e Desencontros), resolvi voltar um pouco atrás e me identificar primeiro com BoJack, o fracassado sem sucesso prévio.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Relato Transcrito por Volta de Meio-Dia

Sobre um poeta que gostava de escrever pela manhã. Segundo a sua teoria, a manhã era o melhor momento para a inspiração artística:

O corpo ainda não se acomodou à estranheza da vida real. Os sonhos estão frescos. Nossos olhos e ouvidos ainda não foram contaminados por qualquer coisa dos homens. Vivíamos há muito num universo só nosso, que, de tão nosso, nem reconhecíamos como tal.

Portanto na manhã, dizia ele, é consideravelmente mais fácil captar aquela fagulha de vida que nos falta ao meio-dia e que temos de sobra à noite. De manhã nossos olhos e ouvidos ainda não foram corrompidos por todas aquelas imagens e sons que a humanidade produz e que à noite já atrapalham, envenenam e modificam o trabalho do poeta.

De manhã posso levantar em segredo, quando o mundo ainda não se deu conta de mim. Ou posso me demorar por um ou dois instantes e prolongar essa omissão. Posso sentar sozinho, comigo mesmo, e matutar ou remoer. Quando vejo, os versos aparecem pequenos, ainda sem muita ousadia, mas certamente seguros e que logo vão dando outros versos, desta vez mais soltinhos..."

O que o poeta não sabia (e morreu sem saber) é que todo aquele trabalho poético matinal, que ele não só produzia como lia e relia, recortava e copiava, riscava e recitava às palmas, já era imagem e som da qualidade mais humana que havia.

Acabou contaminado, corrompido, atrapalhado e envenenado por si mesmo. Seus poemas ficaram ilegíveis. Se matou de desgosto, quando ainda era manhã.