segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Noves Fora

Hoje esbarrei com a morte e não era nem nove da manhã. Voltava de uma clínica onde não pude renovar minha carteira de motorista (vencida há dez meses) porque o DETRAN exige uma foto 3x4 diferente da que está na CNH vencida. A minha era igual. Eu adorava aquela foto, mas não pude usar. E fui embora chateado com o sono que havia perdido à toa. Vinha pela calçada remoendo meus pequenos problemas como se não houvesse alguém mais azarado no Guará. Vi quando um carro do corpo de bombeiros chegou de sirene ligada e encostou na calçada e de onde saiu um bombeiro apressado, olhos fitos na pequena multidão que se aglomerava do lado de fora de uma agência do Banco do Brasil. Meu caminho era passar por ali. E meus olhos tiveram que cruzar o vidro. Do lado de fora, uma senhora estendia as mãos para frente, como se lançasse um feitiço. Exigia que o sangue dele circulasse dos pés à cabeça, ó Pai, que Tua força esteja aqui nesta manhã. Do lado de dentro, vi, como quem não queria ver, um senhor obeso caído no chão. Tentavam reanimá-lo, mas sua barba branca seguia imóvel na cara. Não quis fazer volume, peguei meu ônibus e segui viagem, ainda que um pouco sombrio. Sumiram meus problemas menores. Pensei no azar que devia ser morrer no dia do pagamento. Pensei na beleza de uma morte em plena agência bancária. Nos significados que tudo isso tem antes das nove da manhã. Depois, já na rodoviária, pensei que era melhor tirar logo a foto 3x4. Fiquei com cara de mongol e desde então tenho pensado nisso. No que fazer com 9 fotos horríveis.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Realmente Difícil

Difícil não é ter que passar uma noite em claro, percorrer 2km de campus atrás de uma assinatura, atrás de um grampeador, atrás de uma sombra, subir a L2 num meio-dia, pegar ônibus custando os olhos da cara, fazer cadastro em  edifício do governo, esperar pra ser atendido e só então conseguir o que você quer. Difícil mesmo é fazer tudo isso e ainda assim não conseguir.

Adoro que, pra religião, tudo pode ser justificado como bênção ou provação. Estou orando todos os dias, lendo a Bíblia, pagando minhas ofertas, guardando os 10 mandamentos e tudo o que eu quero é um carro (ou um emprego, ou encontrar alguém que me ame). Se eu consigo o carro, devo agradecer, pois fui abençoado, amém! Mas se eu não consigo.... Também tenho que agradecer, porque estou sendo provado, Deus está me dando a chance de crescer. Amém também.

Nunca leu a história de Jó? Enquanto você não estiver tão fodido quanto ele, não tem o direito de reclamar. Não existe garantia. Deus, assim como a vida, tem uma justiça que foge á lógica humana (ou que só se faz no pós-vida).

Às vezes você vai deixar de dormir, vai suar, vai fazer o melhor que você pode, e vai conseguir o que pretende. Isso é difícil. Mas às vezes você simplesmente não vai conseguir. E é aí que cabe o pulo do gato. Não adianta fazer bico e se revoltar contra Deus, ou contra a Natureza. Ela faz isso justamente pra expandir seus próprios limites. É uma tarefa tanto nossa, quanto da formiga, dos cachorros, das plantas. Ou você acha que sempre que a saúva se esforça, ela consegue levar a plantinha pro formigueiro? Não. Às vezes você vem com suas Havaiannas 42 de borracha e em 1 milésimo de segundo acaba com o trabalho de uma vida inteira. Não foi justo. Ela era uma formiga boa. Ela nunca matava o serviço, sempre andava na fila, respondia a chamada, era até bonita.

Às vezes você recebeu uma informação errada, pegou um engarrafamento, faltou uma assinatura, e não acho que Deus tenha a ver com isso, como também não acho que o dono das Havaiannas tenha premeditado a morte da formiga. Os Deuses e a Natureza são e não são a mesma coisa. Se pautam pela lógica, pelo esforço e pela justiça, mas também se pautam pela sorte, pelo desejo e pelo caos.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Edukators


Assisti esse filme alemão com uns 14 anos. Acho que me formou um pouco politicamente. Nele, três amigos tinham o costume de invadir mansões enquanto os donos viajavam, e não roubavam nada, não estragavam nada, mas mudavam tudo de lugar. Quando os donos chegavam, se deparavam com os móveis empilhados na sala de estar. A lição era clara (e, se não me engano, eles até deixavam um bilhete), vocês não estão seguros.

Já faz 5 anos que dou aula particular e sempre tentei mostrar pros alunos que eles não estão seguros. A maioria mora no Lago Sul, veste AppleWatch e joga videogame usando óculos de realidade virtual. São crianças, claro, e a gente fica até com pena de já terem opiniões tão preconceituosas, mas são crianças somente até o dia em que não serão mais.

Dar um reforço no português, pra quem já tem, além de todas as condições ideais para o estudo, a garantia de uma assistência e renda, se pá, vitalícia, é sim empoderar o empoderado. Não posso fazer outra coisa, se não quiser perder o emprego, além de manter as notas dessa criança no topo. Garantir a vaga dela, que sempre esteve garantida.


É um esforço mínimo, esse de bagunçar os móveis da mansão. Quase não muda nada. Mas enquanto o jovem lê algo como O Conto da Vara, ou quando escuta Geni e o Zepelim, mesmo que seja no iPhone 7, ou quando se reconhece como um agressor, ou quando reconhece a empregada doméstica como um ser humano, você sente que está não só empoderando o empoderado, mas também mexendo um pouco com os seus brios. Trazendo à tona seu medo mais secreto; que a classe de baixo se volte contra eles e invada sua casa e bagunce seus móveis.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Top 10: Filmes de 2016

Ano estranho com filme esquisito. Teve muito neon e polêmica (quase todo mundo odiou o suspense fashion do Nicolas Winding Refn - eu achei um filme super irônico de visual deslumbrante, além de amar felinos - e muita gente saiu do cinema pela quantidade de nu frontal e sexo explícito no brasileiro Boi Neon). Brasil esse que também trouxe Sônia Braga de volta com o importante Aquarius. Pro terror também foi um ano e tanto. Além da Bruxa, que, pra mim, foi a melhor coisa de 2016, ainda aparece na lista um filme coreano de zumbis, daqueles que você assistie abraçado nas próprias pernas, e o agoniante Sob a Sombra, que te deixa absolutamente pirado. Na animação, acho que perdi muita coisa, mas não deixei passar o fofíssimo Zootopia e a continuação de Procurando Nemo, que me fez chorar ainda mais que o original. Os diferentões da lista são O Lagosta e American Honey, o primeiro é meio distópico e fala de amor e o segundo é meio chapado e também fala de amor. Desculpa a pressa, tô doido pro ano acabar.

10
Demônio Neon
Nicolas Winding Refn




9
Zootopia
Byron Howard e Rich Moore



8
Sob a Sombra
Babak Anvari



7
Boi Neon
Gabriel Mascaro



6
Invasão Zumbi
Yeon Sang-ho



5
O Lagosta
Yorgos Lanthimos



4
Procurando Dory
Andrew Stanton



3
Aquarius
Kleber Mendonça Filho



2
American Honey
Andrea Arnold



1
A Bruxa
Robert Eggers

Top 10: Álbuns de 2016

A gente tem mania de conectar músicas específicas a memórias específicas. Acho que vem daí a popularidade tremenda dessa manifestação artística, etc. E eu faço isso de um jeito bastante consciente, porque uma das coisas que primeiro acontecem quando passo por algum rompimento ou mudança é a troca de todas as músicas do celular. Ouvir música nova, além de não te vincular a um passado que você provavelmente quer deixar pra trás, te apresenta a uma penca de melodias e frases novas que você nem fazia ideia de que precisava ouvir.

Foi um ano difícil e, falando por mim, se não fossem esses 10 álbuns aqui, teria sido ainda pior. Eles não estavam sozinhos. Em 2016 eu tive que deixar de fora da lista duas voltas maravilhosas:  a da senhorita Britney Spears, que mostrou que pode ter 30, 40 ou 60 anos, mas vai continuar garota, e Fernanda Abreu, que é a funkeira que o Brasil merece, mas não quer. E esse ano também foi o ano da Ludmilla (a funkeira que o Brasil quer, mas não merece). Two Door Cinema Club fez um CD perfeito  pra tocar em social, além de lindíssimo, e Leonard Cohen fechou o ano com o álbum mais sombrio da carreira, lançado pouco antes da sua própria morte.

Esse ano não vou escrever um parágrafo sobre cada álbum, porque penso que não há nada que eu vá falar que você não possa descobrir ouvindo. Mentira, é que tô com preguiça mesmo.

10
Hopelessness
Anohni



9
I Remember
AlunaGeorge



8
Blond
Frank Ocean



7
Duas Cidades
Baiana System



6
Dangerous Woman
Ariana Grande



5
This Is What the Truth Feels Like
Gwen Stefani



4
Tropix
Céu



3
Anti
Rihanna



2
Lemonade
Beyoncé



1
The Life Of Pablo
Kanye West



Bônus de EPs e singles incríveis demais:

Be The One
Dua Lipa



Soft Animals
Sofi Tucker



Coconut Oil
Lizzo

quinta-feira, 28 de julho de 2016

As coisas mais estranhas

Estive pensando muito nesse livro do Cortázar desde que terminei de ler. São contos bem impressionantes. E tem sempre um aspecto absurdo ou de sonho que me confunde e me mantém atento. É um esforço também. Um livrinho de 140 páginas, que ganhei em 2014 (e que, ainda em 2014 comecei a ler) e só fui terminar agora. A bagunça que eu faço.

Todo o objetivo dessas férias de julho era organizar essa parte da leitura e da escrita na minha vida, que tem estado um caos (e, pelo que parece, é o que escolhi fazer da vida, então se tem uma área que não pode estar um caos é essa). Sem brincadeira, eu já perdi as contas. Completamente. (Ontem lembrei que tava lendo Crime e Castigo, inclusive já tinha passado da metade, mas fui obrigado a devolver pra BCE porque já estava pagando multa. Aí devolvi, nunca paguei a multa, nunca mais continuei a ler... pensa nos nomes dos personagens de romance russo. Já era.) Perdi a conta dos livros que estou lendo. E, por isso, eles nunca terminam. A gente pula de um livro pro outro sem terminar nenhum, não para de comprar e as pilhas só aumentam.

Mais uma vez acho que a nossa relação com eles reflete muito bem a nossa relação com o resto. Nesse mês eu queria ter dado uma respirada, sentado a bunda e terminado uns seis livros que já vinham mais pra lá do que pra cá. Consegui até agora quatro.

Um amigo me contou uma vez que ouviu alguém dizer que ler um romance é como habitar um novo mundo. Que é preciso certo tempo para se acomodar, reconhecer os cenários, se reconhecer no novo mundo; e que ler vários romances ao mesmo tempo seria o mesmo que saltar de um mundo para outro completamente diferente  o tempo todo. Ao fim da metáfora eu estava exausto. E isso porque naquela hora só consegui pensar em dois ou três (dos vinte e oito) mundos onde habito.


Sobre o Bestiário (que não é romance, note), é melhor vocês entrarem em cada conto por conta própria. Já faz tempo que parei de querer guiar as pessoas em qualquer coisa que seja. Adianta bestas. A gente indica, incentiva, mas apresentá-la seria um erro fatal. Principalmente quando se trata de um texto tão estranho. Acho que estranheza é das qualidades mais humanas e que, por humana, a arte tem obrigação de revelar. Realismo fantástico faz isso muito bem. Leiam esses caras dos anos 60. São todos muito estranhos.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

É Good e Nóis Não Have

Crescer tem sido pra mim, em grande medida, a constatação espantosa e desesperadora do poder do dinheiro. É o tipo de problema que me enche de mágoa, porque estou sempre tentando fugir dele. Eu juro que não queria dar tanto poder assim pro capital. E também não tô reclamando agora só porque o país tá em crise e uma bandejinha com 4 fatias de queijo sai a cinco reais no Big Box. Dinheiro sempre foi um incômodo, porque sempre senti que precisava dele ao mesmo tempo em que não aceitava precisar de uma coisa tão insignificante.

Ontem cheguei ao cúmulo de lavar meus óculos (que já estão com uma perna só) e secar no secador de cabelo pra economizar guardanapo. Quando equilibrei a armação de volta no meu nariz, percebi a lente completamente embaçada, o que não fazia sentido algum. Acabei usando o guardanapo, pra ver se resolvia, mas o embaçado não era do tipo que saía. Fui pesquisar a aberração e descobri que o calor danificava a lente, principalmente se ela tivesse tratamento anti-reflexo. Ou seja: como se não bastasse os óculos só terem uma perna, gastei energia, guardanapo e agora enxergo tudo em modo benflogin.

Tinha vontade de falar com o psiquiatra que dinheiro é atualmente a coisa que mais me deixa triste e que ele cobrando 500 reais a consulta não está sendo de muita ajuda. Aí o problema da grana se torna tão insustentável que você é obrigado a reduzir os gastos, deixa de ir no médico e, como nada se resolve, continua sofrendo por dinheiro, mas com a diferença de que agora não tem outro lugar pra reclamar a não ser no seu blog abandonado.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Os Melhores Filmes de 2015


Desculpa por não ter conseguido acompanhar o circuito muito bem, mas estive sem dinheiro e sem paciência para transporte público, fila de ingresso, gente conversando do meu lado, gente no smartphone... então quase não vi os filmes do ano. Preferi fazer uma maratona dos clássicos Disney, depois uma de Harry Potter, Senhor dos Anéis, Batman... Ou seja, posso estar sendo injusto com alguns títulos que ainda não consegui ver, como, por exemplo, Star Wars, mas não tem problema. Melhor uma lista singela que um ano mal terminado.

10. Cobain: Montage of Heck, de Brett Morgen


Parece que foi o ano dos documentários. E eu, que nunca fui do rock, me peguei inteiramente envolvido com a vida desse cara. Graças a uma montagem perfeita e ao conteúdo extremamente pessoal que compõe o filme, a sensação que a gente tem é de estar diante do que resta de mais íntimo do artista.

9. Casa Grande, de Fellipe Barbosa


Beleza de reflexão sobre os sistemas de escravidão, favor e troca, ainda vigentes no Brasil. As atuações sofrem daquele probleminha do amadorismo, mas nada que a fotografia linda ou a edição elegante não disfarcem. É o único filme nacional da lista, mas isso não é culpa minha.

8. Foxcatcher, de Bennett Miller


Precisamos falar sobre um cara e o nome dele é Steve Carrel. Fantástico o vilão que este homem nos entrega aqui. Eu fiquei de boca aberta boa parte do filme. Carrel está assustador, transformado, com trejeitos que inspiram ao mesmo tempo asco e vergonha.

7. A Very Murray Christmas, de Sofia Coppola


Pode me chamar de fã boy, mas não consegui ver um defeito sequer neste especial de natal dirigido pela Sofia Coppola pro Netflix. Tem Bill Murray cantando, (Miley Cyrus cantando), George Clooney cantando (!). Tem todo mundo cantando. E aquela melancolia característica de um cara bem sucedido profissionalmente, mas com o emocional em pedaços, que a diretora já tinha explorado tão bem em Encontros e Desencontros e Um Lugar Qualquer.

6. O Fim da Turnê, de James Ponsoldt


Ainda não terminei de ler Graça Infinita (dizem que a leitura também é infinita), mas esse filme passado em pouquíssimos dias, durante uma turnê de divulgação da obra, consegue transmitir boa parte da atmosfera do romance. A história é sobre um repórter da Rolling Stone que fica fascinado com o livro (todo mundo que lê, fica) e precisa esboçar um perfil do excêntrico escritor norte-americano. David Foster Wallace, que ficou famoso pelo tom depressivo-neurótico de seus textos e se matou antes dos cinquenta, conseguiu, neste filme, se tornar tão interessante quanto sua própria obra.

5. Ida, de Lukasz Zal e Pawel Pawlikowski


O filme mais lindo do ano (e isso no ano em que tivemos Mad Max). Ida tem um enquadramento absolutamente original, que faz a gente enxergar a história de uma perspectiva poucas vezes experimentada no cinema. A fotografia em preto e branco só deixa tudo mais bonito: as expressões da atriz, a textura da roupa, os fios de cabelo...

4. Whiplash, de Damien Chazelle


Além de um trabalho absurdo de edição de som e imagem (o filme começa com bateria e termina com bateria), Whiplash traz a dupla de protagonistas mais entregues do ano (pau a pau com a dupla de O Fim da Turnê). O filme é um duelo; e dos bons.

3. Divertida Mente, de Pete Docter


Disseram que era a volta da Pixar e era mesmo. Divertida Mente constrói aqueles universos imensos e completamente originais, que são a especialidade do estúdio, sem descuidar do visual (as cores são tão lindas que dá vontade de por na boca) ou da historinha. Falar sobre tristeza para crianças já é uma coisa difícil, imagina fazer isso de modo colorido, envolvente e criativo?

2. Amy, de Asif Kapadia


Chorei, não procurei esconder... Todos viram, fingiram... Pena de mim, não precisava! Ali onde eu chorei qualquer um chorava...

1. Mad Max: Estrada da Fúria, por George Miller


Acontece muito raramente, mas às vezes o cinemão acerta em cheio. Tem a ver com uma série de coisas que, no conjunto da obra, tornam o filme um clássico instantâneo. Nesse caso, podemos culpar a Furiosa, a fotografia estonteante ou os efeitos especiais que, de tão orgânicos, precisaram de todo um Cirque Du Soleil pra serem feitos.

PS: Dessa vez não vou prometer que em 2016 atualizarei o blog mais vezes, porque todo ano prometo e o número de posts só cai.  Só vou desejar um feliz ano novo mesmo.

Os Melhores Álbuns de 2015


Às vezes eu acho que só passo o ano inteiro ouvindo música e vendo filme pra poder fazer essas listas de fim de ano. Como eu amo! E 2015 está de parabéns! Que ano pra música brasileira! Que ano pra música internacional! O povo arrasou tanto, que eu tive de deixar de fora do top 10 umas coisas tipo o CD novo da Adele ou do Justin Bieber (ou da ex do Justin Bieber), Lana Fucking Del Rey, Alice Caymmi, Caetano e Gil... Sabe? Não foi fácil. De qualquer forma, esses álbuns que escolhi foram aqueles que conseguiram me fazer sentir coisas novas sobre assuntos antigos ou coisas antigas sobre assuntos novos.

10 - Cheers to the Fall, Andra Day


Independente do álbum ser um brinde à queda, cheio de emoções exacerbadas e cara de dor-de-cotovelo, a voz de Andra Day nunca nos deixa de fato cair. Ela segura as notas, suspende o tom e eleva a dramaticidade da letra com uma suavidade que só é possível a quem tem, ou muita técnica, ou muito talento.

Ouça City Burns e tente não arrepiar no refrão.

9 - To Pimp a Butterfly, Kendrick Lamar


Pode ganhar o Grammy no ano que vem, mas, considerando o tom de revolta de todos os raps e o quão abusado esse Kendrick Lamar é no seu segundo álbum, acho pouco provável. Deveria. Fiquei impressionado com o sucesso que pode fazer um disco absolutamente não comercial e anti-pop, o que mostra que o problema não é mesmo o público, que engole o lixo, infelizmente, porque é a única coisa que tem.

Ouça For Free? (interlude) e entenda por que este pau não é grátis.

8 - Uma Temporada Fora de Mim, Hélio Flanders


Porque às vezes você passa uma meia dúzia de semanas completamente alheio a tudo aquilo que pensava ser você. Ainda bem que existem coisas como o primeiro CD solo do vocalista do Vanguart pra te lembrar que morrer de amor nunca vai ser banal.

Ouça Romeo, que ele fez com o Thiago Pethit e os dois gravaram nos seus respectivos álbuns.

7 - Delírio, Roberta Sá


Ela irradia todas as cores e finalmente volta a fazer um CD daqueles que a gente não consegue parar de ouvir. Os últimos dois álbuns da Roberta Sá não estavam indo por um caminho que me agradava muito, mas agora ela voltou. E parece que voltou melhor? O samba que Roberta Sá faz em Delírio é não só maduro e refinado como também contagiante.

Ouça Delírio e, se der tempo, Se For Pra Mentir, que ela gravou com ninguém mais ninguém menos que Chico Buarque de Hollanda.

6 - Pedaço Duma Asa, Mariana Aydar


É difícil falar de álbuns como esse quarto da Mariana Aydar. Ele não consegue ser feliz, muito menos triste, ao mesmo tempo em que atinge picos de pura melancolia e outros de intenso desbunde.  O baião continua ali, um samba alternativo, uma espécie de música popular brasileira regional urbana (?). Infelizmente as palavras não chegam onde Mariana está.

Ouça Isso Pode, antes que não possa mais.

5 - Beauty Behind the Madness, The Weeknd


Não sei de onde veio esse menino com cabelo de espanador, mas que ele chegou chamando a atenção não podemos negar. Imagino que não devem ter tocado outra coisa na balada, mas como quase não saí de casa esse ano, a única coisa que posso garantir é que aqui em casa tocou bastante. Sabe música pra quando seus amigos estão reunidos e você quer impressioná-los com um ótimo gosto musical (e ainda assim, animar a festa)? É esse o tipo de música que você põe.

Ouça The Hills, pra sentir o peso.

4 - #1, Jaloo


Essa bicha paraense deu o nome (é jota, ah, éle, oh, oh...) e fez uma coisa que quase não existe na música brasileira: um álbum alternativo completamente acessível, com letras lindas, arranjos originais e toda uma vibe eletro-disco pra dançar na sala com uma catuaba na mão.

Ouça Last Dance quando a festa estiver acabando.

3 - But You Caint Use My Phone, Erykah Badu


A voz mais sexy do R&B resolveu se amigar do menino Drake e os dois fizeram uma sessão de Hotline Bling. Depois Ms. Badu lançou essa mixtape de 14 canções que só falam de telefone (Hello, Adele, você não está sozinha on the other side, parece que todos nós estamos). É claro que me fez pensar em como nossas relações atuais são intermediadas por esse grande viveiro de germes que é o telefone. Como todas as boas e as péssimas notícias vêm dele. As piores brigas, os melhores flertes... E agora também parece que as melhores músicas.

Ouça Hello, uma parceria da Badu com o André 3000 (que faz rap de um jeito que deixa a gente totalmente sem fôlego)

2 - Dancê, Tulipa Ruiz


Foi o álbum que me salvou do inferno astral. Era maio, eu estava enjoado de tudo o que costumava me fazer feliz, jogado na sarjeta, e ouvir Tulipa Ruiz dizer que "começou! Agora você vai tomar conta de si!" me deu forças para levantar da cama, aprender a puxar o próprio cabelo e ir à luta. O disco inteiro é de um astral contagiante, letras espertas e vários daqueles agudos extremos que só a Tulipa sabe dar.

Ouça Físico, mas com o volume bem alto.

1 - My Garden, Kat Dahlia


Uma das coisas mais inexplicáveis da vida é ninguém conhecer essa mulher. Sério, ninguém, nenhum amigo ouviu falar, ela não toca em lugar nenhum! Às vezes eu acho que vivo numa espécie de universo paralelo onde uma gringa de descendência cubana lança em janeiro um álbum de rap, cheio de pop e tambor, e até dezembro esse álbum permanece na biblioteca de todo mundo, sendo reproduzido várias e várias vezes, nunca esquecido, a ponto de figurar não apenas nas listas de melhores do ano, mas frequentemente assumindo a primeira posição do ranking.

Ouça Lava e finalmente conheça a mulher que ninguém conhece.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Carta de Ódio


E quando a gente achou que já tinha superado a HBO, vem esse Emmy absurdo, dando o prêmio de melhor série dramática pra Game of Thrones no ano em que Mad Men chegou ao fim. Não tenho nada contra Game of Thrones, muito pelo contrário, mas não consigo aceitar que Mad Men perca um único prêmio sequer; imagina na sua temporada final? Principalmente depois de se manter impecável, linda e profunda por seis ou cinco longos anos.

Quando a Netflix começou a aparecer com House of Cards e Orange is the New Black, muita gente achou que vinha aí uma nova HBO: superproduções caprichadas, elencos afiados, realismo, muito sexo e violência... e, por uma questão de comodismo, é bem provável que ainda venha mesmo (o mundo está cada vez mais preguiçoso, acho que quem entender isso primeiro fica mais rico. Ninguém quer realizar qualquer tipo de esforço pra ver séries, nem esperar uma semana pelo próximo episódio, a paciência acabou).

Apesar disso, são décadas fazendo boa televisão e muito dinheiro envolvido. É um monopólio que não desaparece fácil. Ontem a minissérie que ninguém viu, Olive Kitteridge, também da HBO, passou o rodo. Game of Thrones fez o mesmo. Deixou um espacinho para Jon Hamm ser maravilhoso como melhor ator de drama, subir no palco e nos lembrar aquela trajetória em queda-livre.

Mad Men trouxe algo de literário pra televisão americana. É o tipo de série que você precisa assistir bastante antes de falar qualquer coisa. É um livro grande onde tudo se transforma, ao mesmo tempo em que tudo permanece igual. Parece a vida.

A culpa é dos roteiristas, em primeiro lugar, do elenco, em segundo, e da parte técnica em terceiro. Todos impecáveis. Enquanto eu acompanhava uma temporada de Mad Men, era comum passar o dia ouvindo Nancy Sinatra; era difícil não beber o dobro ou fumar o triplo. Era comum parar no meio de um ônibus, ou entre duas atividades boçais, e me pegar pensando na Peggy, no Pete, na Betty, no Don... Era difícil lembrar que aquilo tudo era só uma série. Não precisava se angustiar pela vida deles, nem fumar o triplo, nem escrever um texto inteiro só pra falar que devia ter ganhado o Emmy.