quarta-feira, 8 de maio de 2013

Toda uma Festa de Psicopatas


Primeiro preciso explicar que essa falta de cultura pop no blog se deve à falta de cultura pop na minha própria vida. Tá tudo ou muito erudito (ninguém curtiria um post sobre Almeida Garrett) ou muito esculhambado (ninguém curtiria um post sobre Justin Bieber), então não estou conseguindo me dedicar às coisas verdadeiramente boas, que ficam justamente nesse limiar entre a erudição e a vergonha.

Não sei vocês, mas eu continuo não dando a mínima e vendo mais séries do que deveria. As últimas adicionadas à minha watchlist são, curiosamente, duas produções derivadas do cinema. Mais ainda, são séries focadas em dois dos maiores vilões da história: o esquizofrênico de Psicose e o canibal de O Silêncio dos Inocentes.


Bates Motel é uma coisa divertidíssima. Vocês deveriam. Porque não é aquele tipo de série realista, madura e classuda onde nada acontece, que tem se tornado uma praga na televisão americana. Não. Bates Motel é quase brega. Cheia das frases de efeito, cenas um pouco absurdas e exageros aqui e ali. Então, por que diabos? Uai... Porque tem Norman Bates com 16 anos. E esse menino, Freddie Highmore (de Em Busca da Terra do Nunca, O Som do Coração, A Fantástica Fábrica de Tim Burton, etc), é bastante competente. Ele cria um personagem bonzinho e afetado por quem a gente consegue torcer desde o primeiro episódio. Fica muito difícil lembrar que é o mesmo Norman que, alguns anos mais tarde, estará esfaqueando toda a clientela do hotel no chuveiro. Até que de repente não fica mais tão difícil assim lembrar e as coisas se tornam bem mais interessantes.

Mas apesar do 9nho mandar bem, quem rouba a cena é dona Vera Farmiga (a mãe psicopata e, consequentemente, responsável pela doença do filho), que tá naquela idade (da loba?) maravilhosa e carrega as melhores cenas da série nas costas. Não sei se Bates Motel tem chances de ganhar algum prêmio (porque me parece que os prêmios de TV se acham muito descolados, quando, na verdade, estão cada vez mais parecidos com os Oscars), mas se rolar algum, não tenho dúvidas de que será pra ela. Além desse elenco lindo, Bates Motel ainda conta com uma das coisas mais importantes pra mim numa série de TV: não tem medo de andar com a história. As coisas realmente acontecem (alô Game of Thrones). Cada episódio avança quilômetros no enredo: resolve conflitos, introduz novos, mata gente, revela segredos e parece que, mesmo assim, continua sabendo exatamente aonde quer chegar.


Hannibal vocês podem assistir sem medo da cafonice. Muito pelo contrário, tenham medo de morrer de estética. É tão violento e poético que a gente acaba perdendo o fôlego diversas vezes por episódio. Porque tá tudo lindo e realista quando, de repente, um alce gigantesco atravessa o corredor do hospital. Ou cogumelos são encontrados brotando em cadáveres. Pra quem curte séries com o visual deslumbrante, essa é, sem dúvidas um prato cheio (pra quem curte carne humana também, sic).

O Dr. Lecter é interpretado por um ator dinamarquês chamado Mads Mikkelsen (nossa, que cara bom!), que ganhou o prêmio do Festival de Cannes do ano passado e, com isso, tornou-se apto a ocupar o lugar que já foi de Anthony Hopkins. E ele realmente não faz feio. Ainda não conseguiu me assustar (só assisti três, dos seis episódios disponíveis), mas já mostrou que quando o susto vier, vai ser bem grande. Só que Hannibal Lecter nem é o protagonista da série. A Clarice da vez é Will Grahan (Hugh Dancy), um investigador talentoso que adota cãezinhos indefesos e usa uma técnica de dedução quase sobrenatural. O problema é que ele tem o psicológico um pouco fraco (além de um leve sabor agridoce, quando refogado na temperatura correta).

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Um Último Pedido Antes da Gente Dormir

Esperei que minha tristeza crescesse até chegar nesse nível que praticamente me obriga a escrever. Depois disso também não dá, porque tristeza demais paralisa.

Faz umas semanas que tenho pensado em você mais do que eu gostaria. Acho que por ter te perdido em uma esquina qualquer ou por não saber mais que horas você acorda, como passa suas tardes, com quem fala ao telefone antes de dormir, quais músicas escuta, quais detesta, quais livros tem lido, o que achou da última temporada de Homeland... E fico me sentindo um pouco egoísta por querer fazer parte da sua vida a essa altura do campeonato. E por perceber que não, eu já não faço.

Sei que não tenho o direito de te pedir mais nada, mas vou pedir mesmo assim. Vou pedir desculpas. E publicamente, porque acho mais corajoso e romântico. Desculpa. Pela bagunça, pela demora e pela falta de coragem. Desculpa por não saber lidar com as palavras a ponto de te machucar com elas (nunca vou saber se estas também te machucarão; espero sinceramente que não, que elas desçam com facilidade e façam uma cosquinha simpática no seu coração antes de desaparecerem; que não te atormentem). Desculpa por ter perdido tanto tempo tentando me explicar e me defender e por nunca ter aceitado meus erros quando, no fundo, tudo o que eu sempre pensava era: nossa, como ela está certa! Reconhecer isso agora é de uma canalhice absurda. Mas acho que continuar negando é ainda mais canalha.

Acho que era isso. Eu precisava pedir essas desculpas pra ver se me livrava dos seus olhos, que, juro, têm me perseguido. Os mesmos olhos de antes, com a mesma doçura e o mesmo peso, só que mais tristes. Vê se tira a tristeza de dentro deles. Mesmo que, pra isso, você nunca mais coloque esses olhos em mim.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Tudo Isso Me Reduz ao Silêncio


Poucas coisas na vida conseguem me deixar irritado. Uma delas é aluno reacionário. A outra é não ter tempo pro cinema.

As pessoas não entendem o que significa pra mim acompanhar o circuito. Não é sobre filmes. Quase nunca é sobre filmes, ou sobre livros, ou sobre séries. Na maioria das vezes é só a necessidade de me sentir vivo. De perceber uma mudança qualquer. De me iludir com uma provável transformação que a arte nunca executa, mas sempre promete. E com aquela persuasão característica.

Por isso, dia desses resolvi me forçar a ver um filme, começando pouco depois da meia-noite. Isso, apesar do cansaço e de ter que acordar às seis da manhã no dia seguinte. Era o jeito. Não dava mais pra esperar outra tarde livre como aquelas que a gente só tem até os 15 anos de idade. Dez minutos depois e eu percebi que já cochilava há cinco. Desisti, desliguei o computador e fui pra cama, chorando.

No dia seguinte as pessoas surgem com uma felicidade infernal e eu não consigo ver razão. Não consigo ver sentido nessas aulas, nessas provas, nessa graduação... Vou conservando um ódio de todo mundo. Entro no Facebook e acho tudo bastante ridículo e tenho vontade de mandar mensagem pros amigos falando que por favor, some daqui, você me enche de vergonha. Mas é tudo muito interno, o que problematiza a coisa do mau humor.

Uma das razões pra essa falta de tempo que me destrói é a quantidade desumana de textos e romances que esses professores passam pra gente ler. Ironicamente, foi daí que tirei a citação que encerra esse post. Tá lá nOs Sofrimentos do Jovem Werther, leitura bastante providencial pra esse momento da vida.

"É comum dizer-se que a vida do homem não passa de um sonho, e esse sentimento me acompanha sempre. Quando observo os estreitos limites em que se acham encerradas as faculdades ativas e intelectuais do homem; quando vejo que o objetivo de todos os nossos esforços é prover necessidades que por si mesmas não têm outro fim senão prolongar nossa miserável existência, e que por conseqüência toda a nossa tranqüilidade, em certos pontos de nossas buscas, não passa de uma resignação sonhadora, que gozamos pintando de figuras variadas e perspectivas luminosas as quatro paredes que nos fazem prisioneiros: tudo isso, meu amigo, me reduz ao silêncio. Olho para dentro de mim mesmo e vejo um mundo; porém um mundo muito mais de pressentimentos e vagos desejos do que de realidades e forças vivas. Então tudo me flutua ante os olhos, e continuo sorrindo e sonhando em minha jornada através do mundo."

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Domando Sonhos como Quem Doma Leões


Realmente não sei porque alguém se importaria com minha última noite de sono ou com minha nova mania de dormir sob dois travesseiros dispostos na cama em formato de L. Não sei, mas continuarei insistindo até que me provem que não ter um blog é mais legal do que ter. Além do mais, se continuar nesse ritmo, com o número de visitas e comentários caindo diariamente, em pouquíssimo tempo realizarei meu sonho de ter um blog anônimo sem precisar ter um blog anônimo.

Mas adentremos o universo onírico, porque dia desses senti que podia controlar meus sonhos. Calma. Primeiro é preciso explicar o absurdo que tem sido dormir. Não sei se tem a ver com as férias que acabaram agora e que bagunçaram meus horários ou com um verdadeiro amadurecimento neurológico, mas tenho passado cerca de duas horas todas as noites, assim que eu deito na cama, pulando de um sonho pro outro e acordando no meio deles, cheio de horror e alívio. Não é como se eu realmente dormisse. Permaneço lúcido na maior parte do tempo. Consciente de que meu corpo está seguro na cama enquanto meu cérebro voa serelepe por universos mais ou menos conhecidos e deturpados. Mas se me deixo levar um pouco, a segurança some e o sono se torna imprevisível e incontrolável, como é da natureza deles.

Esse estágio de quase sonho, quase realidade, é extremamente favorável ao autocontrole mental. Eu só preciso pensar em uma situação específica, em primeira pessoa e com o maior número possível de detalhes, por algum tempo que, gradualmente, a imaginação vira sentido. É assustador e delicioso, como tudo que transcende a lucidez.

Lembro que na noite passada acordei muito agitado e querendo chorar. Eram três da manhã e eu não parava de ter esses pequenos sonhos lúcidos. Comecei a pensar que era o começo de algo. De uma comunicação espiritual, talvez, ou de uma esquizofrenia. Resolvi sair do quarto pra tentar me acalmar, mas quando acendi o abajur azul, percebi que nunca tive um abajur azul.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Introdução ao Pior Semestre de Nossas Vidas


Semestre passado peguei quatro matérias na UnB e lembro perfeitamente de cada uma das noites que passei em claro por causa delas, escrevendo ensaios, fazendo trabalhos e estudando pras provas do dia seguinte. É ridículo, porque quatro matérias é o mínimo. Qualquer um consegue. Eu só tinha aula depois das 10h, não tinha aula na sexta, não tinha aula à noite, e ainda assim cheguei a esse ponto de não ter tempo pra dormir. Fico me perguntando como. Então resolvi dar um jeito nessa situação doentia. E o que eu fiz dessa vez? Peguei só três matérias? Tranquei a faculdade? Tirei os próximos seis meses pra viajar pelas praias nordestinas? Não. Peguei sete. Isso mesmo: PEGUEI SETE MATÉRIAS. Peguei tudo o que eu podia. Preenchi cada segundo do meu dia com atividades exaustivas que certamente irão: a) me tirar desse redemoinho psicológico em que me meti ou b) me matar.

Porque eu consigo enxergar o problema muito bem, o que sempre some é a solução. Eu percebo quando passo horas tentando zerar o Feedly (sdds, Google Reader) sem entender o real propósito de tanta notícia mal escrita. Percebo o problema quando, no mesmo dia, vejo 5 episódios de séries diferentes, já que continuo atrasado com todas. Ou quando baixo o triplo de filmes que tenho a capacidade de ver. Ou quando passo dias pra terminar um capítulo de um livro que é só o primeiro de uma fila gigantesca de outras tantas leituras que muito provavelmente nunca farei.

É extremamente cansativa essa luta diária pra ficar em dia com as coisas que me importam. E mais cansativo ainda é perceber que essas coisas na verdade não importam pra mais ninguém. Meu maior medo é que um dia elas deixem de importar pra mim também. Porque aí sim... Não vai sobrar absolutamente nada.

Eu não vejo outra saída. Tudo o que consigo fazer é continuar assinando cada vez mais feeds, acompanhando cada vez mais séries, baixando cada vez mais filmes, comprando cada vez mais livros e, agora, pegando cada vez mais matérias.

Seja bem-vinda, vida acadêmica. Você acaba de entrar pro seleto grupo das coisas que amo e que estão sempre atrasadas.

terça-feira, 19 de março de 2013

No Country for Old Players


Quando a Fani foi eliminada ontem, Pedro Bial se deu ao trabalho de inventar toda uma parábola cansativa pra explicar que a veterana entendeu muito menos do jogo que o novato Nasser e por isso não conseguiu vencer. Que ela passou o programa inteiro lutando por uma verdade e que, sim, foi bastante verdadeira, mas e daí? Quem quer verdade? O povo quer é fantasia, Fani! E isso o Nasser sacou bem rápido. Ele é um personagem tão bem projetado que eu fico tentado a achar que merece o prêmio só pelo esforço. A saída da Fani me abalou. Era, talvez, minha BBB preferida desde o sétimo, quando mandou a melhor amiga calar a boca nesse barraco histórico.

Como se não bastasse a saída da Fani, no mesmo programa tivemos Nasser e Andressa colocando André e Fernanda no paredão sem a menor piedade. O mais assustador foi que Andressa poderia escolher entre Natália e Fernanda (teoricamente, sua melhor amiga até então) e escolheu Fernanda. Acho que nunca vi uma votação tão emocionante (gente, alguém me avisa se eu estiver exagerando, mas realmente tudo isso me desesperou): os votos em aberto, o empate entre Natália e Fernanda, o casal de cabeça baixa, chorando, prevendo o destino trágico do seu romance... Não lembro de uma edição ter terminado tão bem.


Pela enquete da UOL, Fernanda volta do paredão. E tô torcendo pra que isso eleve sua popularidade a ponto de ameaçar o favoritismo do Nasser. Ninguém precisa de um novo Rafinha, ninguém quer outro personagem. E a loira teve uma participação tão incrível que só um louco ignoraria tudo isso pra dar o prêmio pra um banana que só fez manipular, discutir a relação e simular brincadeiras sadomasoquistas com a namorada de fachada.

Fernanda sai desse BBB como uma participante do nível de Leka (a bulímica do BBB1), Solange (barraqueira do BBB4), Tina (louca da vassoura do BBB2) e até da própria Fani (vértice mais legal do triângulo amoroso do BBB7). Isso porque foi uma psicopata apaixonada que matou meio mundo de vergonha quando passou dias rastejando por um suposto príncipe, perdeu a dignidade em todas as festas, jogou água e cerveja na cara de todo mundo e justificou tudo isso argumentando daquele jeito afobado e lindo, com o implacável sotaque que só as moças de Belo Horizonte têm.

Não quero ser ingênuo, mas ainda acho que a Fernanda pode ganhar. Principalmente se ela for indicada pro último paredão antes da final com Natália ou Andressa. Mas calma. Todo mundo sabe que a gente não pode criar expectativas em nada que é decidido por votação popular. E não, eu não acho que o povo não sabe votar, que o povo não sabe escolher... Quem não sabe sou eu.

PS: Publiquei uma mixtape nova no 8tracks só com músicas pra te deixar looooooucaaaaa louquinha, rebolando com a bunda na cadeira do escritório.

sexta-feira, 15 de março de 2013

O Que Deu Para Fazer em Matéria de História de Horror


O livro novo da Elvira Vigna não é mais um exercício de masturbação intelectual como tem sido a nossa literatura contemporânea. E digo isso porque foi o que ouvi dizer. Eu mesmo não faço a menor ideia de como anda a nossa literatura. Imagino que não esteja tão boa quanto a da Elvira. Porque não pode estar. O Brasil explodiria com esse excesso de palavras bem colocadas e não gosto nem de pensar na trabalheira que daria recolher as letras depois.

O Que Deu Para Fazer em Matéria de História de Amor (e, antes de mais nada, por favor: que espécie de título maravilhoso é esse? Não consegui evitar de mostrar a capa do livro pra todos os meus amigos e falar um "olha o que eu tô lendo" com orgulho, porque o título, por si só, já indica certa marotice literária) é um romance narrado em primeira pessoa com uma história só, mas que na verdade são duas. E que na verdade são muitas. Mas que na verdade são a mesma. A protagonista é deliciosa (porque só alguém delicioso teria insights tão bons sobre o número de fileiras em cada espiga de milho e como os jogos de pôquer são terrivelmente sanguinários) e, partindo dela, e da visão dela, todo o resto fica igualmente apetitoso.

A leitura não cansa. Primeiro porque beira a oralidade sem abrir mão da erudição (isto é: sensual sem ser vulgar) e segundo porque a trama propriamente dita, a novelinha mesmo... que a gente gosta de acompanhar, é muito bem construída, amarrada e resolvida. E vai tomando uma proporção mágica nas páginas finais. Fica aberta a interpretações daquele jeito que qualquer pessoa de razoável sensibilidade artística ama. Pra gente poder brincar com as peças, revirar as evidências e fazer castelinhos.

Já o amor do título parece nunca se fazer presente. Se essa é uma história de amor, desculpa, mas eu não sei o que diabos é isso. É o que pensamos. Que essa é uma história de vingança (o que de fato é). Mas, a cada página, os personagens vão se despindo diante dos nossos olhos. É interessantíssimo descobrir os segredos de Roger, Arno e Rose... E ir entendendo o porquê de toda aquela situação desagradável. E a gente vai unindo esses pedacinho de nudez até formar um retrato completo. Agora eles estão completamente pelados, nus, entregues e vulneráveis. Quer maior prova de amor?

"Com o canto do olho apreendo outra vez a sombra que passa na torrinha da Biblioteca Nacional. Tenho um pensamento desses de fim de história, e que acabam (no sentido de destruir) com qualquer história, e que é o seguinte:

A Biblioteca, cheia de histórias em seu interior, tem histórias melhores no seu exterior. Porque a vida está sempre no exterior.

Agora é dar um suspiro profundo, significativo. E fim. Colo um adesivo cor-de-rosa em mim mesma e penso que já posso levantar, acabar com o que mal comecei, e que é isto aqui, e, quem sabe, tentar fazer alguma coisa de útil na minha vida.

Ou posso ver se cato homem."

terça-feira, 12 de março de 2013

Estado Civil: Autônomo


Tanto na vida afetiva quanto na profissional, sofro por excesso de medo. Não tenho o menor espírito empreendedor (para desgosto do meu pai, que já abriu mais de 10 empresas, sempre está envolvido em projetos independentes e me deu um exemplar de Pai Rico, Pai Pobre quando eu tinha 15 anos). Na verdade eu tenho repulsa. É preciso reconhecer quando você tem a vocação e, por mais triste que isso seja, quando você nasceu pra ser só um empregadinho.

Eu tenho tanto medo de arriscar, de ficar sem dinheiro, de perder o caminho de volta pra casa, de viver um amor não correspondido, que acabo fugindo de qualquer responsabilidade. Dou umas aulas particulares (que é um trabalho sem chefe, que eu domino e que rende um bom dinheiro), vivo uns romances com significado indefinido e assim vou me protegendo ao mesmo tempo de uma demissão e de um coração partido.

Essa semana fiz uma espécie de entrevista de emprego. Nunca tinha feito. E achei muito engraçado todo esse lance de RH, trabalho com hora marcada, carteira assinada, férias, direitos trabalhistas, Getúlio Vargas... E também achei assustador eu ter chegado a esse ponto. Porque é como se a vida estivesse me empurrando pra frente (obrigado, vida) e eu tentando voltar atrás, desesperado, esperando a hora em que alguém vai descobrir que, na verdade, ainda sou uma criança de 12 anos.

Hoje me peguei torcendo pra essa entrevista não dar em nada. Por puro medo. Porque ter a carteira assinada é quase tão perigoso quanto se apaixonar. Tenho medo de abandonar meus alunos particulares, me envolver no emprego, me acostumar com o décimo terceiro, e acabar demitido sem maiores explicações. O único consolo seria o seguro desemprego (e pra esse, desculpa vida afetiva, mas não encontrei nenhum correspondente).

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Top 9 - Filmes do Oscar 2013


Talvez essa seja a pior seleção da história do Oscar. Eu, particularmente, não lembro de um ano com a mesma quantidade de filme medíocre. Tanto que só hoje à tarde consegui terminar de ver os indicados à categoria principal. E como já é tradicional por aqui (um blog inteiro baseado em tradição, percebam), publico agora meu ranking pessoal dos filmes do Oscar 2013.



É uma história boboca de recuperação e vitória. Mas é uma história boboca de recuperação e vitória com roteiro bem feito, trilha sonora cativante e excelentes atuações de Bradley Cooper, Robert De Niro e Jennifer Lawrence (favorita ao Oscar de melhor atriz). É o Pequena Miss Sunshine do ano. O filme descolado e sapeca que todos tentam amar (e, nesse caso, não conseguem).



Acho que a Kathryn Bigelow pesou a mão dessa vez. A Hora Mais Escura é um filme arrastado que, salvo uma ou outra cena, desperdiça grandes oportunidades de criar tensão e desenvolver o personagem principal. Não gosto de filme que se nega a entregar pro público momentos de catarse e não oferece nada pra suprir essa falta.



O que Quvenzhané Wallis, de seis anos de idade, faz aqui é monstruoso. Ela carrega o filme nas costas, consegue emocionar e trazer a plateia pra ela. Infelizmente, o roteiro do filme não corresponde ao talento de Wallis, e se contenta em repetir a fórmula de outros tantos exemplos do cinema independente norte-americano.



Lincoln tem seus problemas (é excessivamente didático, exalta uma figura já exaltada à exaustão e cai no melodrama), mas também traz um Daniel Day-Lewis e uma Sally Field afiadíssimos e em perfeita harmonia (a cena do diálogo mais caloroso dos dois é uma aula de atuação). É o favorito a melhor ator (uma das poucas certezas da noite), melhor ator coadjuvante (Tommy Lee Jones e sua peruca danadíssima) e melhor diretor (Spielberg, graças à ausência de Ben Affleck entre os indicados).

5. Argo


O favorito do ano é um filme pequeno, se comparado à megalomania de outros concorrentes como Lincoln e Os Miseráveis, mas consegue coordenar seus elementos técnicos e cênicos de forma tão  eficiente que acaba criando a cena mais tensa do ano. Ben Affleck ficou de fora do prêmio de melhor diretor, mas isso não deve impedir Argo de levar na categoria principal, além de melhor roteiro adaptado e melhor montagem.



As quase três horas de cantoria de Os Miseráveis provocaram reações extremas tanto na crítica quanto no público. Comecei a ver o filme achando tudo cansativo, mas sou presa fácil pra musicais e não demorou muito até que eu começasse a chorar no cinema, enquanto balançava pra lá e pra cá no ritmo da música. Deve ganhar melhor atriz coadjuvante (Anne Hathaway emagreceu, raspou a cabeça, cantou e chorou ao vivo com esse propósito) e mixagem de som.



É um dos filmes mais divertidos do Tarantino. Tem todos os elementos cultuados pelos fãs do diretor (e eu faço questão de me incluir na categoria), tem Leonardo DiCaprio num papel sensacional (achei uma barbaridade ele não ter sido indicado esse ano), Christopher Waltz repetindo o sucesso de Bastardos Inglórios (só que agora do lado bom) e um final épico, cheio de tiro e sangue. Infelizmente, só tem chances de ganhar melhor roteiro original.

2. Amor


O filme de Michael Haneke é dessas porradas dadas com carinho. Conta a história de um casal e sua relação com a proximidade da morte e traz Emmanuelle Riva com uma interpretação absurda, que faz todo mundo ficar com o coração na mão. É cruel até não poder mais e, justamente por isso, honra completamente seu título. Favorito incontestável a melhor filme em língua estrangeira.



As Aventuras de Pi consegue falar de fé, família e morte sem parecer um filme religioso, familiar ou mórbido. Em vez disso, promove o encantamento, enche nossos olhos e nos convida a embarcar com Pi e Richard Parker numa aventura deliciosa. Não tem muitas chances nas categorias principais (embora Ang Lee ainda esteja cotado para diretor), mas é o favorito em trilha sonora original, efeitos visuais e edição de som.

PS1: Todas as imagens usadas neste post foram editadas pelo Chico Fireman e roubadas descaradamente por mim.

PS2: Amanhã (hoje?) eu estarei comentando o Oscar pelo Twitter e, obviamente, dando RT nas melhores piadas da noite. A gente começa com o tapete vermelho, umas 21h. Vem!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Ele


Ele levantou da cama e foi escrever. E escreveu por semanas inteiras, se desligou do mundo, deixou que nascesse nele qualquer coisa de poético. E foi descoberto. E disseram que era um grande novo talento. E que sua escrita era vulgar e hermética. E imprevisível. E cheia de pontos finais desnecessários, preposições desnecessárias. Conjunções desnecessárias. Assuntos desnecessários. E tudo era lindo.

Ele aprendeu inglês.

Foi pra Nova York. E assistiu espetáculos, visitou museus, conheceu gente bonita, foi pra rehab, voltou da rehab, mudou pra Paris.

Ele aprendeu francês.

Cantou nas horas vagas. E participou de saraus plenos de música e poesia. E se embriagou de mundo. E se apaixonou por uma cortesã.

Ele finalmente aprendeu a amar. E ela morreu de tuberculose. E ele decidiu que amar não era bom. Era bem ruim, na verdade.

E teve uma recaída atrás da outra. Se isolou do mundo, escreveu um romance. Dessa vez um bom. Que fez sucesso. Que deu certo. Alcançou plateias, encantou a crítica, deixou uma mensagem e ele não viu nada disso, porque morreu de overdose. Ou se matou. Ou foi assassinado. Não ficou muito claro.

E disseram dele que era vulgar e hermético. E que teve uma vida cercada de mistérios. E que fez uma bagunça com o coração. E que não sabia amar. E que teve uma infância difícil.

Adotaram seu livro no último vestibular.

Mas não teve vestibular. Não teve livro. Não teve cortesã. Não teve Paris. Não teve francês. Não teve sarau. Não teve Nova York. O inglês não teve. Nem o escrever por semanas inteiras. Nem o levantar da cama.

PS: Tem conto novo no Crimes por Extenso. E é dos masoquistas.