quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Como Você Consegue, Joana?

Depois de assistir Whiplash defini que realmente não tem jeito: se a gente quiser ser alguém nessa vida são necessários alguns sacrifícios tipo tirar sangue da mão de tanto treinar o mesmo movimento ou assumir a solteirice e o isolamento social necessários para o aperfeiçoamento da sua técnica. Aí resolvi me obrigar a escrever qualquer coisa que não seja trabalho acadêmico por pelo menos uma hora todos os dias, além de um tempo reservado pra escrever num arquivo que ainda chamo de diário mas que já virou uma espécie de joguinho masturbatório de estilos.

Considerando que reservar uma hora do seu dia pra treinar qualquer tipo de habilidade não é sacrifício em lugar nenhum do mundo, pode parecer que eu esteja sendo meio prepotente, achando que, por ter nascido com uma sintaxe natural mais evoluída, o que alguém levaria dias de treino e lapidação eu mataria em duas horas na frente da escrivaninha. Não. Não é bem isso. A verdade é que eu tô sendo bastante realista. Eu escrevo quando dá na telha (e não só quando dá na telha, mas quando dá na telha e eu tô em casa, com tempo disponível, computador disponível, etc) e isso não é o bastante. Pelo menos não segundo Bradbury e esse pessoal que ama tanto o ato de escrever que só passou a vida escrevendo e falando sobre como era mágico escrever, de uma forma meio guru (e pensando agora, a verdade é que quase todo escritor cai nesse ciclo víciosíssimo) e dizendo que você só vai ser bom realmente na coisa se fizer essa coisa uma porrada de vezes e experimentar formatos novos, assuntos desconhecidos, segredos profundos...

A ideia então é manter essa média de uma hora por dia por pelo menos dois meses seguidos (se ficar um dia sem escrever, começa tudo de novo) e só aí ir aumentando progressivamente o tempo de dedicação até virar um monge literário.

A partir desse ponto confesso que nem minha mania de programação doentia conseguiu dar conta. Porque o tempo não existe. Não tenho tempo. (Ninguém tem, eu sei, mas eu não tenho mesmo!) Eu caí no erro tremendo de ser do tipo de gente que é um pouco bom em muitíssimas coisas e não do tipo de gente que é muito bom em pouquíssimas coisas (ou ainda do tipo de gente que é o melhor em apenas uma coisa - o tipo certo) e isso atrasa tudo, porque eu me enfio numa verdadeira zona artística (tanto no sentido da bagunça quanto no sentido da putaria), sem saber se compro uma máquina fotográfica ou entro pra aula de canto.

Fora a pretensão dessa coisa toda de querer ser artista, ainda tenho que lidar com a minha natureza de consumidor insaciável. Antes de querer ser um fazedor de livros, filmes e músicas eu já queria consumí-los todos. Eu já era fascinado por eles (e esse fascínio é tão grande que até hoje alimenta minha inspiração) e acho que o dia em que eu não conseguir mais sentir alguma coisa com um conto, um romance ou um poema, aí realmente eu não vou ter mais forças pra continuar. Então manter esse fascínio é mais que uma boa estratégia, é uma questão de sobrevivência. É preciso me alimentar com estímulos que justifiquem meu esforço para produzir algo parecido. Daí a dificuldade de querer acompanhar uma indústria que solta material novo a cada segundo (e muito material novo!) e trata cada um desses novos lançamentos como obra de arte indispensável (que provavelmente ele não é, mas daí a você não querer ver com seus próprios olhos...).

Assinei a Entertainment Weekly, que era um sonho meu desde que eu lia a Set (uma revista de cinema já cancelada por falta de papel). A Set era meio tosca, mas era a única revista sobre filmes da banca que estava em português. Nunca me atrevi a comprar uma Entertainment Weekly. Primeiro que o preço cobrado por aquela revistinha mole de papel vagabundo aqui no Brasil chegava aos vinte e cinco reais e segundo que meu inglês é péssimo, mas naquela época era ainda pior. Hoje já dá. E, com iPad e esses aplicativos que simulam toda uma banca de jornal cheia de revista importada, famosa, independente, sem noção..., ninguém precisa mais gastar vinte dilmas num monte de papel grampeado (mas ainda precisa gastar dois obamas e noventa e nove cents, é verdade).

Como se não bastasse esse novo hobby de férias, ainda tenho o diabo de um app chamado Iba Revistas, que é a pior coisa que já inventaram (mas que continuo assinando por inércia e também pela possibilidade de ler todas as Super Interessantes lançadas até hoje). As Piauís nunca estiveram tão acumuladas; acho que estou terminando agora a edição de outubro.

Mas o problema da maioria dessas revistas é que elas, em vez de saciar seu desejo por informação e entretenimento, só fazem esse desejo aumentar, te indicando novos livros em edições de capa dura, blu-rays que vêm com todo o cenário do filme incluso, coletâneas de álbuns relançados em vinil e outros absurdos maravilhosos demais pra gente ignorar. Aí você vai ler um livro (que por si só já tem quase mil e duzentas páginas) e descobre que metade dessas páginas são referências a outras centenas de obras que, se você fosse esperto, já teria lido... Ou seja. Não tem a menor condição de viver num mundo assim.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Basicamente No Cinema Teve Muito Álcool

Obviamente que deixei pra fazer essa lista às 23h do dia 31 de dezembro, então vou ter que correr horrores e falar praticamente nada sobre cada filme, porque só tenho esse tempo da digestão de toda essa carne com champignon antes do céu começar a explodir. Desculpa a pressa, desculpa a falta de noção, obrigado pela visita e pode ficar tranquilo, que ano que vem a gente coloca os pingos nos "i"s.

10. O Maravilhoso Agora


A menina de A Culpa É das Estrelas fez esse filme de baixo orçamento, que foi selecionado pro Festival de Cannes e acabou caindo por acaso no meu HD. Conta um romance adolescente entre esse exemplo de garota e um jovem alcoólatra que vive pra lá e pra cá com seu copinho de canudo cheio de pinga e suco. Na metade do filme eu tomei um susto tão grande, que acho que só me recupero em 2015.

9. Boyhood


E parece que foi mesmo o ano dos alcoólatras no cinema. Taí o pai do nosso menino Boyhood que não me deixa mentir. Que vilão detestável! Enquanto eu assistia, me subiu um ódio que eu não sentia no cinema há anos. Chegou a me fazer mal e tudo.

8. Mommy


Xavier Dolan voltou a falar de maternidade, mas sem a euforia juvenil dos seus primeiros filmes. Mommy é uma narrativa consistente, muito bem contada e com atuações alucinadas de tão boas. Nunca imaginei que fosse quase chorar de beleza estética por conta de uma cena de selfie ou que fosse me divertir tanto com uma sequência de vinho na cozinha. Nem precisava ter Lana Del Rey nos créditos.

7. O Congresso Futurista


Duas horas do mais puro lsd.

6. Amantes Eternos


Esses não bebem álcool, mas neles o efeito do sangue é praticamente o mesmo. Não são os vampiros mais bonitos do cinema, mas certamente são os mais cultões. E tem a melhor cena final desses 10 filmes aqui tudinho.

5. Joe


Apesar de não suportar o Nicolas Cage, não tive o que fazer com ele e essa preciosidade chamada Joe, que quase ninguém viu, se não metê-los na quinta posição dos melhores do ano. O filme é bem cru, cheio de miséria e violência, mas seu maior trunfo está no trabalho do menino Tye Sheridan, que faz o filho de um alcoólatra terminal (outro pinguço, tô falando...) e mostra que talento é mesmo uma coisa deveras injusta e impressionante.

4. Relatos Selvagens


É o representante argentino pro Oscar 2015 e reúne meia dúzia de histórias desesperadamente geniais, cheias de graça, sangue e peripécias do roteiro. Recomendo pra qualquer um que ainda tenha olhos.

3. Versos de um Crime


Não sei se as atuações me impressionaram tanto quanto a montagem, mas, sem dúvidas, Versos de um Crime também me ganhou pela temática. É um thriller-literário-poético-gay, que te prende num universo de descobertas, encantamento e perigo tão deliciosamente bem esculpido que a última coisa que você quer fazer é sair.

2. O Lobo de Wall Street


Scorsese enfiando o pé na jaca de um jeito tão lambuzado, que fica difícil andar depois. O filme te mata de rir: primeiro de incredulidade, depois de graça, mais tarde ainda, de nervoso.

1. Ela


Que loucura o amor!

O Ano que Foi Metade Tiê e Metade Beyoncé


Passei o ano inteiro botando o blog de lado.

Sempre que eu via, lia ou ouvia alguma coisa mais ou menos digna de nota (pra quem ainda não percebeu, a única função desse espaço é reunir as coisas mais ou menos dignas de nota que vejo, leio e escuto), era dominado por uma preguiça sem nome, que fazia com que eu desistisse de qualquer tipo de compartilhamento e optasse enfim por guardar as tais coisas somente na memória.

Ano passado não teve Top 10 dos melhores do ano, o que me fez ter a sensação de que não vi nenhum filme em 2013. Resolvido a não repetir o erro este ano, mas, em vez disso, pagar por ele, fiz a lista dos dez melhores filmes de 2014 e, de lambuja, uma lista inédita de álbuns e singles preferidos (coisa que nunca tinha me sentido apto a fazer até agora).

2014 foi o primeiro ano que passei na companhia de uma assinatura Rdio e isso fez toda a diferença (mais uma vez fazendo publicidade de graça, como uma mula) porque, se antes eu levava horas pra baixar, organizar e colocar minhas músicas no iTunes, agora eu podia fazer tudo isso em segundos e ainda recebia notificações quando qualquer artista da minha biblioteca lançava alguma coisa nova. Acabei ouvindo cinco vezes mais música que em 2013 e o resultado desse ano com pouquíssimo silêncio você vê aqui:

10. G I R L - Pharrel Williams


Vindo de um ótimo 2013, quando emplacou Get Lucky com o pessoal do Daft Punk e finalmente se tornou conhecido  pelo povão, Pharrel Williams aproveitou 2014 pra dar uma virada definitiva na carreira (e conseguiu, oras!). G I R L foi lançado bem no comecinho do ano e tem uma coleção de black music, cheia de swing, batuques e estalos infalíveis para provavelmente 80% das situações em que uma boa música faz diferença. Tá certo que ninguém mais consegue ouvir Happy, mas Come Get It Bae, por exemplo, eu tava ouvindo agorinha mesmo e dando as mesmas reboladinhas que dei o ano todo.


9. Rock'N'Roll Sugar Darling - Thiago Pethit


Confesso que quando ouvi pela primeira vez tive uma opinião parecida com a da Nara, quando lhe mostrei os versos “doce como açúcar / explode na sua boca / vem chupar meu rock’n’roll": parece música da Xuxa, mas com putaria. E a verdade é que eu nem gosto de rock. O som de guitarras e amplificadores me excitam demais a ponto de me perturbar. Ano passado comecei a gostar de bateria, prestar mais atenção no instrumental das músicas e até mesmo a tolerar um ou outro chorinho de guitarra, mas nada que chegue perto do tanto de rock(!!!) que eu ouvi em 2014. E, claro, quando eu falo de rock, eu tô falando do meu limite aceitável de rock, que, sim, parece estar em evolução bastante íngrime até, mas ainda não chega perto de ultrapassar um Pato Fu ou uma Cássia Eller na fase média. Acontece que mesmo eu não gostando de rock e mesmo achando que o Thiago Pethit realmente tem certa inclinação a paquita, não resisti a uma segunda ouvida. Parece que comecei a entender que o cara estava cagando e andando pra tudo (no sentido da despretensão mesmo), que aquilo ali ele tinha feito num país distante, com pessoas não daqui, e que era o momento dele de chutar esse bode. O álbum é uma coisa safadíssima, cheia de trocadilhos infames e um instrumental ao mesmo tempo pesado (voz distorcida, tudo muito difícil de entender) e glamuroso (backing vocals, palminhas…), coisa que eu não tinha percebido tão bem à primeira audição. Acho que porque fiquei preso nas letras e, realmente, você também não deveria ir por esse caminho. Recomendo Vodoo, altamente viciante, e 1992, que é o tipo de música que eu gostaria de ter feito pra alguém.


8. Sound of a Woman - Kiesza



É o que aconteceria se a Madonna dos anos 70 fosse um pouco mais 'disco' e resolvesse lançar um álbum novo hoje, com toda a tecnologia disponível, etc. Kiesza faz música pra dançar (ela própria é uma dançarina super descolada, que adora ressuscitar uns passinhos que ficaram perdidos no tempo) e conquistou todo mundo com Hideway, que, penso eu, tocou em todas as academias do ocidente. E tome barulhinho de videogame pulsando na orelha, batidas eletrônicas retrô-modernizadas (ou moderna-vintagizadas), tome gritinhos e mais gritinhos de UH, AH, mesmas frases sendo repetidas à exaustão… e você só quer ficar ali, ouvindo uma atrás da outra e ressuscitando uns passinhos que ficaram perdidos no tempo.


7. Coraçao a Batucar - Maria Rita


Teve Copa sim e também foi horrível, nos golearam, nos humilharam, cuspiram na nossa cara etc, mas a gente é brasileiro, claro, e não desiste nunca. Eu, particularmente, aproveitei o CD novo da Maria Rita (o segundo só de sambas) pra curar essa dor de tom tão canarinho O CD segue um ritmo impressionante, pendendo pra porta-bandeira e mestre-sala diversas vezes. Fala de samba, de natureza, de Brasil, tem Maria Rita cantando absurdos e eu te desafio a ouvir No Mistério No Samba sem dar pelo menos uma quebradinha.


6. The New Classic - Iggy Azalea


Deixa a branca fazer o rap dela.


5. Olhos de Onda - Adriana Calcanhotto


Simplesmente a melhor gravação ao vivo que ouvi em muito tempo. Já falei sobre a tristeza absurda desse disco aqui, mas a verdade é que Olhos de Onda é um álbum muito simples. São vinte músicas, uma atrás da outra, cantadas e tocadas pela Adriana Calcanhotto num show no Rio de Janeiro. O que faz diferença mesmo é o repertório. Que repertório! Tenho quase certeza de que ela canta pra uma mulher só.



4. My Favourite Faded Fantasy - Damien Rice


Mais uma tristezinha em forma de álbum que me acompanhou por muitos dos momentos de ansiedade e desespero de 2014. Damien Rice é meu cantor vivo preferido (pau a pau com Chico, se considerarmos o mundo todo), certamente o da voz mais bonita, e desde 2007 não lançava nada. Agora, se antes suas canções folks já indicavam certa danação emocional, com My Favourite Faded Fantasy Damien Rice atinge o lugar mais sombrio do poço. E é lá de baixo, numa sombra formada por outras sombras maiores, que ele chora um amor que, se algum dia ele teve, já não tem há muito tempo.


3. Ultraviolence - Lana Del Rey


Outro exemplar do tipo de rock que eu consumo. Lana Del Rey é conhecida pela languidez, rivotril e botox, mas em Ultraviolence, seu terceiro álbum de estúdio, a moça mostrou que sabe mexer também com guitarra e bateria. Todas as músicas partem de um cenário melancólico, que já era o cenário original da Lana em músicas como Yayo, Videogames e Blue Jeans, por exemplo, mas supera a pegada pop e reveste toda aquela massa de voz oceânica e letra depressiva em uma camada bem grossa de rock minimalista. Fora a corta-pulso Black Beauty e a impecável West Coast, Lana Del Rey ainda me vem com Brooklin Baby, onde cantarola lindamente, e Florida Kilos, onde mostra que ainda dá pra dançar.


2. Esmeraldas - Tiê


Nem o pessoal daqui de casa aguenta mais, do tanto que eu não paro de ouvir esse álbum. Sempre tive uma certa fascinação pela Tiê, que era um pouco por conta da beleza, mas principalmente pela veia autoral nítida desde o seu primeiro trabalho, Sweet Jardim (pra quem não conhece, indico uma boa ouvida em A Bailarina e o Astronauta), e o que era fascínio, depois do lançamento de Esmeraldas, virou obsessão. As letras da Tiê parecem bobas, mas alguma coisa me diz que elas não são. Também não posso afirmar que são cheias de duplo sentido, rancores maduros e recalques sofridos, porque as músicas têm o sentido que a gente dá pra elas. Falo por mim, quando digo que aprendi uma vida de coisas com essas 12 faixas tão fáceis de ouvir. Os arranjos estão muito menos minimalistas, o que também  não significa que estejam pauleira, e se conectam às letras com uma organicidade tão grande que eu não imagino uma coisa nascendo antes da outra. O final de Depois de um Dia de Sonho sempre me faz quase chorar e a letra de Urso é tão boa e nonsense, que virou meu hino particular de 2014. Decore você também.


1. BEYONCÉ - Beyoncé


Ok, se a família já está reclamando do tanto de Tiê que escutei ao longo do ano, o mesmo é válido para o BEYONCÉ da Beyoncé. Não só a família, mas os amigos, os vizinhos, os colegas de curso, os contatos do Snapchat… Ninguém mais aguenta me ouvir ouvindo Haunted, ou Partition, ou Flawless, ou Blow, ou Drunk In Love… E olha que o álbum foi lançado no finzinho do ano passado (o que não o classificaria como melhor álbum de 2014, mas parece que Beyoncé também pensou nisso e mês passado relançou tudo num pacotão deluxe com mais umas três músicas inéditas, uns três remixes e um kit de brinquedos eróticos + um beck bem bolado que vem de brinde para clientes Itaú Card, mediante apresentação da carteirinha de um dos 863 fã-clubes oficiais do Jay-Z). Não tenho muito a acrescentar. Apenas que foi a melhor coisa que Beyoncé já fez. Um CD inteiro tingido de preto, com um neon rosa piscando no meio. Falar que é sobre feminismo seria mentira, falar que é sobre amor, também. Falar que é sobre sexo… É… Podemos falar que é sobre sexo.


Bônus (porque o post também é Deluxe Edition):

Também fiz uma lista rápida dos 10 melhores singles lançados em 2014, que estão aqui no final, de castigo, ou porque seus álbuns de origem ainda não foram lançados, ou porque foram lançados mas não tiveram seu conjunto da obra classificado para o Top 10 álbuns, o que não torna essas 10 músicas  listadas abaixo menos maravilhosas, muito pelo contrário. A ordem é alfabética, porque eu já estou cansado de fazer escolhas difíceis.

Blue Gangsta - Michael Jackson
Já morreu há anos e ainda faz música melhor que metade desses bunda-branca de hoje em dia.


Every Other Freckle - alt-J
O CD novo do alt-J me decepcionou um pouco, mas não por causa disso:


Froot - Marina and the Diamonds
2014 foi living la dolce vita como se não houvesse amanhã.


Habits (Stay Hight) - Tove-Lo
Pra cantar bem alto quando o mozão estiver longe.


Let Me Down Easy - Paolo Nutini
Revelação do ano, segundo minha própria cara de perplexidade ao ouvir esse homem pela primeira vez.


Magic - Coldplay
Se você ainda não chorou ouvindo essa música, pode voltar pra janeiro e repetir 2014.


Make Her Say (Beat it Up) - Estelle
Pra ouvir com catuaba.


My Club - Asteroids Galaxy Tour
Talvez a única bandinha que eu realmente ame. Voltou com esse single belíssimo, mas entregou um álbum meia-boca depois.


NEW DORP. NEW YORK - SBRKT
Foi o carinha do Vampire Weekend que emprestou a voz pra essa que é a música eletrônica mais gostosa de se ouvir na face da terra.


Paradise - Big Sean
Rebola, safado!


E ainda tem os filmes...

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Eu, BoJack, Johnny Marco e Bob Harris


Sinto que essas férias vão ser daquelas de torcer as tripas. O ano não acabou, mas já faz tempo que me sinto esgotado. Também não podemos dizer que não passou rápido. Até o fim do semestre, que a cada ano renova o tom da sua tortura, desta vez passou como uma viagem de ácido. Posso ter chorado (e provavelmente chorei), mas não sei se de graça ou de dor. Dos trabalhos que fiz, acho que nenhum se salvou. Amanhã tenho uma última chance, na aula de literatura contemporânea, quando vou ter que apresentar um seminário sobre Alice Ruiz e Cecília Meireles. Considerando que o grupo é formado por mim e mais três perdidos, e que faz apenas alguns minutos que escolhi meu tema, sinto que esse trabalho também não vai ter salvação.

O resto do tempo tenho matado a surras de bunda. E como se já avistasse a ponta de um enorme iceberg se aproximando (férias, é você?), baixei o piloto de várias séries dessa nova temporada que ou a Cláudia Croitor ou a Ana Maria Bahiana recomendaram (em matéria de televisão, aprendi que as dicas femininas são muito mais precisas e evitam muitos tiros no escuro). De todo o balaio, escolhi How To Get Away With Murder, BoJack Horseman e The Affair, que ainda não consegui assistir.

Se te interessa: How To Get Away With Murder é com a cabulosíssima Viola Davis em um papel tão cabuloso quanto. Ela é a professora mais temida e bajulada de uma faculdade de direito, gosta de fazer joguinhos para estimular a competição entre seus alunos e numa dessas acaba se ferrando. Ainda não sei como nem por que (e já estou no terceiro episódio), mas isso não é culpa da minha estupidez, como pode parecer, e sim da montagem espertinha, que vai contando a história de traz pra frente ao mesmo tempo em que conta a história de frente pra trás, de modo que eu imagino que daqui a pouco as duas histórias vão ser obrigadas a se encontrar no meio e a gente vai finalmente entender tudo.

É, acho que falando assim não deve ter dado muita vontade de ver; mas se eu fosse você, assistiria. Os alunos dela, apesar de péssimos seres humanos, são interessantes. Tem o negro com complexo de inferioridade e uma intuição fora do comum, o branco babaca, embora mestre da retórica, a bicha má... e por aí vai. E a série, apesar de um pouco brega, porque é de canal aberto (classe média sofre, dsclp), consegue superar isso com casos que não forçam a barra e atuações que não matam a gente de vergonha.

O outro programa não tem tantos poréns. BoJack Horseman é tudo o que se espera de um bom desenho (comecei a ver desenho ontem, com As Aventuras de Gumball, e já estou ditando regras): tem personagens irresistíveis (BoJack é um ator alcoólatra e fracassado que mora em Hollywood com um vagabundo que ele adotou pra lhe fazer companhia), temas interessantes (a cultura de celebridades, a crítica à cultura de celebridades e a cultura da crítica à cultura de celebridades) e uma boa dose de delusionismo (na Hollywood de BoJack, metade dos habitantes são animais personificados, o que gera figuras ótimas como uma foca-marinheiro ou um papagaio contra-regra).

BoJack, inclusive, é um cavalo; e seus dias se resumem a muita vodca com cenoura e maratonas da sua série favorita (que, por acaso, é estrelada por ele próprio). Uma atriz-problema estilo Lindsay Lohan, ao tentar diferenciar seu fracasso do de BoJack, afirma que, para ser um ator fracassado, é preciso ter sido antes um ator de sucesso. E eu, que já estava começando a me identificar com personagens como o Johnny Marco (de Um Lugar Qualquer) ou o Bob Harris (de Encontros e Desencontros), resolvi voltar um pouco atrás e me identificar primeiro com BoJack, o fracassado sem sucesso prévio.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Relato Transcrito por Volta de Meio-Dia

Sobre um poeta que gostava de escrever pela manhã. Segundo a sua teoria, a manhã era o melhor momento para a inspiração artística:

O corpo ainda não se acomodou à estranheza da vida real. Os sonhos estão frescos. Nossos olhos e ouvidos ainda não foram contaminados por qualquer coisa dos homens. Vivíamos há muito num universo só nosso, que, de tão nosso, nem reconhecíamos como tal.

Portanto na manhã, dizia ele, é consideravelmente mais fácil captar aquela fagulha de vida que nos falta ao meio-dia e que temos de sobra à noite. De manhã nossos olhos e ouvidos ainda não foram corrompidos por todas aquelas imagens e sons que a humanidade produz e que à noite já atrapalham, envenenam e modificam o trabalho do poeta.

De manhã posso levantar em segredo, quando o mundo ainda não se deu conta de mim. Ou posso me demorar por um ou dois instantes e prolongar essa omissão. Posso sentar sozinho, comigo mesmo, e matutar ou remoer. Quando vejo, os versos aparecem pequenos, ainda sem muita ousadia, mas certamente seguros e que logo vão dando outros versos, desta vez mais soltinhos..."

O que o poeta não sabia (e morreu sem saber) é que todo aquele trabalho poético matinal, que ele não só produzia como lia e relia, recortava e copiava, riscava e recitava às palmas, já era imagem e som da qualidade mais humana que havia.

Acabou contaminado, corrompido, atrapalhado e envenenado por si mesmo. Seus poemas ficaram ilegíveis. Se matou de desgosto, quando ainda era manhã.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Ela Anda Tão Triste


Você que achou o novo álbum da Lykke Li triste deveria segurar um pouco o choro e ouvir este Olhos de Onda, da Adriana Calcanhotto, pra aprender o que é tristeza de verdade. O disco, que saiu essa semana, é o registro da estreia de sua nova turnê aqui no Brasil (Adriana já havia estreado antes em Portugal) e consegue reunir 20 canções numa sequência que, ou te mata de poesia, ou te mata de depressão.

"Onde será que isso começa?", pergunta ela já no primeiro verso. Não sabemos se fala da dor ou do mar. Parece que as duas coisas se embrulham ao longo do show; uma tentando caber na outra. O mar de Portugal, berço da nossa língua, se esforça para falar de uma dor que, sem muito esforço, faz-se toda correnteza em busca de um oceano que lhe acalme.

Não existe banda, mas também não precisa. Adriana Calcanhotto é uma das poucas cantoras brasileiras que ainda sustentam um show inteiro só com violão e voz. A mulher toca barbaridades, canta barbaridades e deixou o cabelo crescer. Tudo parece favorecer a tristesse do espetáculo e você pode saber que depois de uma ou duas canções menos pessoais, que ela só toca pra colocar a plateia na mesma temperatura, a coisa vai começar a ficar feia. "No dia em que fui mais feliz eu vi um avião se espelhar no seu olhar até sumir", e depois disso é só ladeira abaixo.


Impossível fugir de uma interpretação vagabundinha e ignorar o fato de que as músicas do álbum parecem recriar o fim de um relacionamento. Depois de Me Dê Motivos, que ela regrava com um sofrimento muito mais elegante que o do Tim Maia, Adriana envereda por caminhos obscuros e comete um cover de Back to Black com tanta verdade e luto que até os fãs mais puristas da Amy (acreditem, eu sou um deles) ficarão sem material para o mimimi.

O clímax vem com Maldito Rádio, uma das três canções inéditas presentes no disco. "Maldito rádio / agora que parecia que eu ia / mudar de vez o curso dessa história / agora que parecia que ia ser agora / Não é momento / de reprisar canções que são só minhas / Maldito rádio, não me faça pensar nela / volte pras notícias / para o hit da nova novela...", mas parece que o rádio é tão maldito que não obedeceu. E já emendou com Devolva-Me, o carro-chefe da dor de cotovelo. É sempre ótimo ouvir aquele silêncio longo que Adriana Calcanhotto faz questão de alongar na última estrofe: "o retrato que te dei / se ainda tens, não sei / mas, se tiver... (e neste momento o público sempre enlouquece e um ou dois gritos de "devolve", "devolve!", "devolve, porra!", surgem no vácuo) ...devolva-me".

E do meio pro fim, torna-se bastante tênue a linha que separa a adoração sincera da obsessão doentia. "A uma hora dessas / por onde passará seu pensamento? / Por dentro da minha saia / ou pelo firmamento?", ela quer saber; "onde será que você está agora?", ela procura; "entre por esta porta agora e diga que me adora / você tem meia-hora pra mudar a minha vida / vem, vambora", ela convida.

E ao que tudo indica a pergunta fica mesmo sem resposta, a procura sem encontro e o convite sem destinatário.




"Depois de ter você, poetas para quê?
Os deuses, as dúvidas,
pra quê amendoeiras pelas ruas?
Para quê servem as ruas?
Depois de ter você..."

sábado, 26 de abril de 2014

Possuí e Perdi Alguma Coisa Infinita

Dois mil e catorze e eu acabo de descobrir esse gênero chamado ensaio. Claro que já tinha lido alguns ensaios na minha vida, mas nunca tinha me dado conta de que o nome daquilo era ensaio. Enfim. Acabei viciando. Gastei dinheiro no Kindle, investi tempo e saúde e conheci David Foster Wallace, o autor de Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo.

Quando eu digo conheci, é conheci realmente. E isso é uma das coisas legais de se ler uma coletânea de ensaios (principalmente a coletânea de ensaios de um cara que tem a cabeça como a do David Foster Wallace). O mergulho na mente, na capacidade narrativa e descritiva do autor é tão profundo que, por vezes, você se pega pensando como um D. F. Wallace em plena praça de alimentação do Conjunto Nacional, o que torna a vida inviável. Por outro lado, você, de certa forma, faz um amigo (vomitem, ridículos). Você passa horas numa conversa sem volta com esse homem que te faz rir e te faz pensar e quase te faz dormir, antes de te assaltar com uma construção genial e te fazer acordar. É um pouco estranho, mas você se acostuma (e no final, até ama).

O livro reúne alguns ensaios sobre, por exemplo, cruzeiros de luxo, a problemática de se cozinhar lagostas ainda vivas e as razões pelas quais Federer é o melhor ser humano que já pisou neste planeta. Todos muito bem escritos. Cheios de detalhes precisos, jornalísticos e, ao mesmo tempo, completamente descompromissados com as coisas "naturalmente" primordiais. Uma das coisas mais legais do D. F. Wallace é essa capacidade de enxergar aquele detalhe que, à primeira vista, não parece muito digno de nota, mas que cresce com o texto e encontra correspondentes muito íntimos na nossa própria memória. Daí talvez a certeza de ter conhecido um ensaísta que se matou há seis anos. Seu texto tem a capacidade de nos ensinar algumas coisas fantásticas e, ao mesmo tempo, deixar a sensação de que, no fundo, nós sempre soubemos essas coisas.

Fiquei um pouco angustiado do meio pro final. Não pela qualidade do texto (até porque o texto é realmente impecável), mas porque Wallace tem uma visão muito pessimista, cíclica e perdida da existência humana. No meu ensaio preferido dessa coletânea (Isto É Água, que na verdade é um discurso de formatura que Wallace teve que fazer para alguma turma) ele descreve, com precisão, esse ciclo de fracassos e fala sobre a única alternativa possível. Só por esse trecho, o livro já valeria a pena.

"A única verdade com V maiúsculo é que quem decide como vai tentar ver as coisas são vocês mesmos. Essa, a meu ver, é a liberdade de uma educação autêntica, de aprender a ser bem ajustado: poder decidir conscientemente o que tem significado e o que não tem. Poder decidir o que venerar… 

Pois aqui está uma outra verdade. Nas trincheiras cotidianas de uma vida adulta, não existe isso de ateísmo. Não existe isso de não venerar. Todo mundo venera. Nossa única escolha é "o que" venerar. E se existe uma ótima razão para talvez venerar algum tipo de deus ou coisa espiritual - seja Jesus Cristo ou Alá, yhwh ou uma deusa-mãe wiccan, as Quatro Verdades Nobres ou algum conjunto inviolável de princípios éticos - é que provavelmente todas as outras coisas vão devorar vocês vivos. Quem venerar o dinheiro e os bens materiais, quem buscar neles o sentido da vida, nunca terá o suficiente. Nunca terá a sensação de que tem o suficiente. É a verdade. Quem venerar o próprio corpo, beleza e encanto sexual sempre vai se achar feio, e quando o tempo e a idade começarem a deixar marcas morrerá um milhão de mortes antes de finalmente ser enterrado por alguém. (...) Quem venerar o poder vai se sentir fraco e amedrontado, e precisará de cada vez mais poder para conseguir afastar o medo.  Quem venerar o intelecto, ser visto como inteligente, vai acabar se sentindo burro, uma fraude na iminência de ser desmascarada. E por aí vai.

Essas formas de venerar são traiçoeiras não por serem malignas ou pecaminosas, mas por serem inconscientes. São configurações padrão. É o tipo de veneração pelo qual nos deixamos levar gradualmente, dia após dia, e que nos torna cada vez seletivos em relação ao que vemos e a como atribuímos valor às coisas, sem jamais termos plena consciência do que é isso que estamos fazendo. E o suposto 'mundo real' nunca desencorajará vocês de operarem nas configurações padrão, porque o suposto 'mundo real' dos homens, do dinheiro e do poder avança tranquilamente movido pelo medo, pelo desprezo, pela frustração, pela ânsia e pela veneração do ego. Nossa cultura atual canalizou essas forças de modo a produzir doses extraordinárias de riqueza, conforto e liberdade pessoal. A liberdade de sermos senhores de reinos minúsculos, do tamanho dos nossos crânios, sozinhos dentro de toda a criação. Esse tipo de liberdade tem seus méritos. Mas é óbvio que há liberdades dos mais variados tipos, e no vasto mundo lá de fora, onde o que importa é vencer, conquistar e se exibir, vocês não ouvirão falar muito do tipo mais precioso de todos. O tipo realmente importante de liberdade requer atenção, consciência, disciplina, esforço e a capacidade de se importar genuinamente com os outros e de se sacrificar por eles inúmeras vezes, todos os dias, numa miríade de formas corriqueiras e pouco excitantes. Essa é a verdadeira liberdade. Isso é ter aprendido a pensar. A alternativa é a inconsciência, a configuração padrão, a 'corrida de ratos' - a sensação permanente e corrosiva de ter possuído e perdido alguma coisa infinita."

terça-feira, 15 de abril de 2014

Quebrando o Silêncio como Quem Quebra a Bacia

Estive pensando demais. Li um bocado de poema, cometi outros tantos, perdi tempo adoidado e não consegui fazer muito. Cogitei um novo formato pro blog, com textos mais curtos e frequentes (numa tentativa de burlar o sistema e fazer na verdade um imenso Twitter com caracteres ilimitados), mas não tive coragem de me comprometer a tanto pra depois acabar com posts minúsculos e, ainda assim, esporádicos.

Tenho ouvido muita música. E elas têm me falado sobre a beleza das coisas de um jeito diferente. Comecei até a comprar CD (não todos os que eu quero ouvir, porque isso não faz nem sentido num mundo como o nosso, dominado por iPhones), mas os meus prediletos, aqueles que lembram uma época específica, uma boca específica ou uma caminhada na chuva. Compro pra ouvir no home theater, deitado no sofá, e depois deixar na estante como um mini-monumento da obra que eu já tinha de graça, há séculos, no celular. Pensando bem é um pouco besta.

Hoje me peguei com uma vontade maior que o normal de escrever aqui. E nem sei por que. O abandono já é tão longo (e tão cheio de promessas vagas e esperanças vãs), que qualquer textinho que quebre o silêncio vai ser noooossa.

Não. Assim como a vida, quando esse texto acabar você vai ver que nem foi lá grandes coisas.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O que Eu Ganhei com os Filmes Do Oscar 2014

Preciso confessar que esse ano, quando vi, já tinha perdido a entrega dos Golden Globes. Não andei muito preocupado em zerar os feeds de notícias a tempo de acompanhar uma temporada de prêmios com a dedicação que se deve e acabei não participando de nenhum bolão. Eu sei que ainda dá tempo (e talvez eu até participe de um bolão de cinco reais com uns amigos desanimados demais pra apostar mais grana que isso num programa de TV), mas a verdade é que, esse ano, o máximo que consegui fazer foi ver os filmes.

Não é tão pouco sacrifício quanto parece. Professor particular tem uma fase tenebrosa que dura o ano todo de dezembro de um ano a março do outro (que é quando saem os primeiros pagamentos). Sim, isso soa como férias escolares (e, coincidentemente, nossas férias também), mas, diferente dos professores graduados, com carteira assinada, décimo terceiro e mil privilégios, nós não recebemos nada se não dermos aula. Mas vocês também já sabem disso, porque todo ano eu reclamo da mesma coisa. O fato é que estou deplorável, pedindo dinheiro emprestado aos amigos, economizando na coxinha... e mesmo assim fiz questão de assistir aos nove indicados a melhor filme no cinema. Parabéns. Muito bom. Agora me diz... o que eu ganhei com isso?

Algumas coisas. Vou tentar enumerá-las de 9 a 1, considerando a importância que tiveram pra mim e a diferença que fizeram na minha vida (mesmo que essa diferença tenha durado apenas 120 minutos).

9. Philomena


Ganhei uma Judi Dench diferente (como todas as Judi Denchs de fato são); com tanta fofura e compaixão que fez com que eu saísse do cinema me sentindo o próprio George W. Bush. Seu filme não tem muitas ambições e, por isso mesmo, consegue satisfazer cada uma delas com um perfeccionismo britânico. Philomena fala de uma jovem mãe que, trancafiada num convento, vê seu filho ser dado para adoção e aprende que isso é parte da punição pelo terrível pecado que cometeu, quando levantou as saias pra um rapaz moreno do parque.

O roteiro do filme conta essa história pelo ponto de vista de um escritor, também interessado em Philomena (e eu digo "também" partindo do pressuposto de que quem vai ao cinema deve, antes de tudo, estar interessado na história de uma mãe que perdeu o filho de vista, por culpa de umas freiras malvadas); e justamente por isso o filme tem um começo de metalinguagem interessante. Enquanto a editora de Martin Sixsmith (Steve Coogan) enche sua paciência, sugerindo que ele invista na atmosfera da culpa, colocando a Igreja Católica como a grande responsável pelo sofrimento daquela mãe (não que a Igreja Católica não tenha sido a grande responsável, de fato), pra que o leitor se sinta injustiçado e ofendido... você percebe que está se sentindo exatamente injustiçado e ofendido e fala: opa, espera aí.

8. Clube de Compras Dallas


Eu não queria ter que exaltar atuação de novo, porque os cinéfilos vão começar a pensar que eu não entendo nada de cinema e que deveria estar me propondo a comentar teatro (ao que eu responderia: não só comento o que eu quiser, como comento é tudo!), mas a verdade é que não tem como ignorar a encarnação (na falta de um termo melhor) perfeita de Matthew McConaughey. Seu Ron Woodroof transita entre o animal selvagem e o animal arredio. São duas coisas diferentes e, no caso de Ron, perfeitamente complementares. McConaughey merece o Oscar, definitivamente. Mas eu não consigo não torcer pelo DiCaprio esse ano. Desencanta, menino!

Também ganhei a atuação de Jared Leto. Esse sim, com a minha torcida (e também com o favoritismo) pelo Oscar de melhor ator coadjuvante. Seu travesti é magnético. Ou sua performance é.

7. 12 Anos de Escravidão


Confesso que fiquei um pouco decepcionado com esse aí. Não porque o filme é ruim (ele não é), mas porque eu esperava alguma coisa que fosse mudar a história do cinema para sempre. Ou pelo menos mudar a história dos filmes feitos sobre escravidão para sempre. Não fez uma coisa nem outra.

Mas fez um filme lindo, forte, sobre uma história mais linda e mais forte ainda. 12 Anos de Escravidão é, antes de tudo, um desses filmes muito fáceis de dar certo. Tem a coisa da culpa branca e tem a verdade incontestável dessa marca de sangue na nossa história, que já mexe com o nosso coração muito antes de chegar na nossa cabeça. E como cinema é emoção pura, fica difícil não segurar o espectador pelo estômago. A gente já entra na sala torcendo pelo Solomon. Teria que ser um diretor muito ruim pra estragar essa vantagem. Por isso, e também pela reputação do Steve McQueen, parece que é ele quem vai ganhar.

6. Trapaça


Ganhei outro filme do David O. Russel, que pode não ser muito talentoso, mas dirige ator como o diabo. Trapaça concentra, em seu nome, quatro indicações ao Oscar (uma pra cada categoria de atuação). E todas são merecidas. Eu não queria ter que jogar minha voz no lixo, misturando-a com a voz da multidão, mas Jennifer Lawrence está matando a cobra e mostrando o pau como a caipira perua que bota fogo na casa do marido.

Trapaça também tem uma trilha sonora que chama a atenção. E eu tô falando de trilha sonora de canções (que é do que o povo gosta), não dessa letargia das trilhas incidentais. Fora isso, tem a direção de arte, a reconstituição de época, os penteados inacreditáveis, os anos 70...

5. Capitão Philips


Se tem uma coisa que eu ganhei com essa maratona, foi a chance de me reconciliar com Tom Hanks. Após anos achando tudo que esse homem faz completamente intragável (porque, a verdade seja dita: Tom Hanks só sabe fazer um papel e esse papel vem a ser o de um homem retardado), pude entrar no cinema com os olhos desconfiados e sair do mesmo cinema com os olhos cheios de água. Capitão Philips é, não só um ótimo filme de assalto (com toda a tensão e as reviravoltas a que tem direito), como também um estudo de personagem riquíssimo. E Tom Hanks brilha como esse capitão. Ele consegue nos conduzir pela mão, despertar uma empatia que a gente nem sabia que tinha (muito menos que viria se manifestar logo agora, por um ator como o Tom Hanks).

4. Nebraska


Em Montana tudo é cinza e melancólico. E tem esse senhor, Woody Grant (Bruce Dern): um velho senil e alcóolatra que, deslumbrado por um folheto publicitário de assinatura de revistas, pensa ter ganho um milhão de dólares. Como se não fosse o bastante, Woody está certo de que o prêmio só será dele, quando ele for buscá-lo em Lincoln, a capital do Nebraska. David (Will Forte), o filho de Woody, parece um depósito de remorsos e tristezas. É ele quem sempre se sacrifica para buscar o pai, que, decidido a ir pro Nebraska a pé, pôs-se outra vez a sair pela rua em direção ao ouro. É David também quem se cansa dessa história e um dia decide levar o pai, numa viagem de carro, até o fuzilamento de sua ilusão.

Essa é a história de Nebraska, último filme de Alexander Payne, que também dirigiu os ótimos Os Descendentes e Sideways – Entre Umas e Outras. Curiosamente, Nebraska é o único cujo roteiro não foi escrito também pelo diretor. O fato de ser também o melhor filme de Payne se explica não só pela qualidade do roteiro de Bob Nelson, mas também pela direção precisa de um homem que, sem o fardo da autoria, se mostra mais à vontade, amadurecido e focado.

3. Gravidade


Lembro que vi Gravidade numa sessão 3D lotada, no Festival do Rio, ano passado. Lembro também de estar acompanhado e de, a certo momento, me dar conta de que nossas mãos estavam dadas, na mesma posição, há muitos minutos. Estavam até suando. E a direção de Alfonso Cuarón (eu sempre falo Afonso, é inevitável) foi meticulosamente programada pra reforçar essa angústia que nós sentimos. Seus belíssimos plano-sequências dançam com a câmera pela imensidão de um jeito bonito, mas desolador. Acho que foi o filme que fez com que eu me sentisse mais próximo do espaço. É tudo muito vazio e silencioso. E Sandra Bullock samba.

2. O Lobo de Wall Street


A única reclamação que ouvi sobre O Lobo de Wall Street era a de que o filme era "muito pesado". E sim, se você considera cenas de sexo e violência algo que torna um filme pesado, O Lobo de Wall Street é um filme pesado. Mas, pensando um pouquinho no Scorsese, no pouco que eu conheço da sua carreira e pensando nessa história, nesse megalomaníaco escroto que o diretor resolveu mostrar ao mundo, eu acho até que o filme ficou bem leve. Inclusive gargalhei.

O Lobo de Wall Street é o filme mais engraçado que eu vi no cinema nos últimos, sei lá, 10 anos. E isso é total mérito do Leonardo DiCaprio e do Jonah Hill, que estão ridículos e hilários. O humor praticado aqui é o humor do absurdo. Falando assim, parece o tipo de humor que a galera do Pânico pratica (talvez até seja), mas como a história, na verdade, é tristíssima (é sobre uma gente triste, uma sociedade perdida, uma busca inútil e uma droga fatal), esse humor sai do ridículo e entra na ironia. Soa mais bonito.

1. Ela


O Oscar desse ano me deu, principalmente, uma coisa que há muitas edições não me dava: um filme preferido.

Com Ela, eu ganhei a chance de repensar um bocado de coisa. Ganhei a oportunidade de pensar no passado, no que nossa espécie foi, e de vislumbrar o futuro, do que nossa espécie é capaz. Também pensei sobre solidão, sobre sentimentos e, porque seria muita canalhice negar, sobre amor.

Já falaram muito sobre o filme por aí. E já falaram muito bem, de modo que me sinto liberado dessa função. Só queria dizer que eu me peguei por três vezes com as bochechas molhadas (por sorte, em uma delas o cinema estava completamente escuro e só se ouviam as vozes de Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson), e que, em cada uma delas, eu me senti, ao mesmo tempo, encantado e triste. Foi como se apaixonar.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Como as Crianças Ouvem Música Hoje em Dia


Se eu tivesse feito um top 5 das melhores coisas que me aconteceram em 2013, com certeza descobrir o streaming de música estaria lá. Foi uma das maiores revoluções na minha vidinha ínfima infinita e particular em, sei lá, uns dez anos. Minha biblioteca não faz mais sentido (porque eu tenho todas as músicas do mundo (ou a maioria delas) à minha disposição, só clicar no search e digitar), então eu tô me sentindo um velho que, de repente, encontra o mundo todo diferente. E não sabe mais o que fazer com a coleção de vinis.

O fato é que tenho ouvindo muita música nova (o que é uma delícia - principalmente nesse momento de solidão, férias e miséria) e feito umas descobertas (ou redescobertas) interessantes. Não tenho muito com quem falar, então pensei até em abrir uma sessão no blog só pra crítica musical (totalmente pessoal e sem compromisso com a realidade), mas quem eu tô tentando enganar? Faz décadas que não consigo escrever um post.

Acho que o fato de voltar a escrever (ou me forçar a voltar a escrever) está ligado às descobertas musicais e ao ano-novo e às férias também. Porque quando a gente estuda português e ensina português e passa o dia sendo forçado a pensar em gramática, uma repulsinha natural pela língua começa a surgir. Paciência pra revisar? Zero. Pensar em preposições, coesão, coerência...? Inventar figuras de linguagem pra enfeitar a coisa toda? Não. Eu quero só falar umas bobagens e vender minha arte. Devolver pra natureza o que ela dá pra gente.

No caso, fiz minha primeira playlist no Rdio (que é o serviço de streaming que eu assinei). Aproveitei que, no momento, a única coisa que eu faço da vida é ver Mad Men e entrei de topete nos anos 60. Escolhi 14 músicas que Don Draper conceberia na balada; afinal de contas, advertising is based on one thing: happiness. And you know what happiness is? Happiness is the smell of a new car. It's freedom from fear. It's a billboard on the side of the road that screams reassurance that whatever you are doing is okay.

You are okay.