Mostrando postagens com marcador cotidiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cotidiano. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

É Good e Nóis Não Have

Crescer tem sido pra mim, em grande medida, a constatação espantosa e desesperadora do poder do dinheiro. É o tipo de problema que me enche de mágoa, porque estou sempre tentando fugir dele. Eu juro que não queria dar tanto poder assim pro capital. E também não tô reclamando agora só porque o país tá em crise e uma bandejinha com 4 fatias de queijo sai a cinco reais no Big Box. Dinheiro sempre foi um incômodo, porque sempre senti que precisava dele ao mesmo tempo em que não aceitava precisar de uma coisa tão insignificante.

Ontem cheguei ao cúmulo de lavar meus óculos (que já estão com uma perna só) e secar no secador de cabelo pra economizar guardanapo. Quando equilibrei a armação de volta no meu nariz, percebi a lente completamente embaçada, o que não fazia sentido algum. Acabei usando o guardanapo, pra ver se resolvia, mas o embaçado não era do tipo que saía. Fui pesquisar a aberração e descobri que o calor danificava a lente, principalmente se ela tivesse tratamento anti-reflexo. Ou seja: como se não bastasse os óculos só terem uma perna, gastei energia, guardanapo e agora enxergo tudo em modo benflogin.

Tinha vontade de falar com o psiquiatra que dinheiro é atualmente a coisa que mais me deixa triste e que ele cobrando 500 reais a consulta não está sendo de muita ajuda. Aí o problema da grana se torna tão insustentável que você é obrigado a reduzir os gastos, deixa de ir no médico e, como nada se resolve, continua sofrendo por dinheiro, mas com a diferença de que agora não tem outro lugar pra reclamar a não ser no seu blog abandonado.

sábado, 11 de julho de 2015

O Primeiro Avião Com Destino à Felicidade


Em 2013, pela primeira vez na vida, comemorei meu aniversário num bar. Antes disso eu era mórmon e me contentava com o jantarzão em família. Um ano Pizza Hut, no outro Outback... Não me entenda mal. Eu amava esses jantares de aniversário (e amo até hoje), mas só em 2013 comecei a fazer o que todos os meus amigos já faziam desde a sexta série: uma festa pros amigos e outra pra família.

O bar que eu tinha escolhido ainda é o meu preferido da cidade. Ele é um pouco metido à besta e mal frequentado (e por mal frequentado, entende-se cheio de gente bonita), mas foi o primeiro bar que eu conheci que oferecia narguilé e eu sou extremamente apegado às primeiras coisas que conheço: a primeira promoção do McDonald's que me deixou satisfeito; o primeiro cinema que me proporcionou uma experiência digna... costumo ficar preso pra sempre a essas coisas que, de um modo mais espiritual, me tiraram a virgindade.

Não sei como ficam os bares de narguilé com essa nova lei anti-fumo, mas o Hookah naquela época era bastante liberal. Se pode fumaça sabor morango, pode também fumaça de Malrboro, de Souza Paiol e, seguindo um pouco adiante, pode até uma fumaça de um tipo mais interessante.

Já passavam das duas da manhã e o bar continuava cheio. Todas as mesas já se conheciam suficientemente bem (já tínhamos nos trombado bastante entre uma mijada e outra) e eu não lembro como começou (não sei se da minha mesa ou se da mesa ao lado), mas quando dei por mim duas ou três pessoas cantavam juntas "Em vez de você ficar pensando nele... em vez de você viver chorando por ele..." e aí fui eu que não aguentei e entrei no coro "pensa em mim!, chora por mim!, liga pra mim, não, não liga pra ele..." e as vozes foram se somando... Agora ninguém conseguia mais se segurar e o bar inteiro era um imenso coral de bêbados. "Vamos pegar o primeiro avião... com destino à felicidade... A felicidade... pra mim é você!". Que sintonia! Que momento, amigos.

Assim como a primeira McOferta que encheu de verdade e a primeira marca de desodorante que deu certo, sinto que estarei preso pra sempre a esse primeiro coral de bêbados.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Como Você Consegue, Joana?

Depois de assistir Whiplash defini que realmente não tem jeito: se a gente quiser ser alguém nessa vida são necessários alguns sacrifícios tipo tirar sangue da mão de tanto treinar o mesmo movimento ou assumir a solteirice e o isolamento social necessários para o aperfeiçoamento da sua técnica. Aí resolvi me obrigar a escrever qualquer coisa que não seja trabalho acadêmico por pelo menos uma hora todos os dias, além de um tempo reservado pra escrever num arquivo que ainda chamo de diário mas que já virou uma espécie de joguinho masturbatório de estilos.

Considerando que reservar uma hora do seu dia pra treinar qualquer tipo de habilidade não é sacrifício em lugar nenhum do mundo, pode parecer que eu esteja sendo meio prepotente, achando que, por ter nascido com uma sintaxe natural mais evoluída, o que alguém levaria dias de treino e lapidação eu mataria em duas horas na frente da escrivaninha. Não. Não é bem isso. A verdade é que eu tô sendo bastante realista. Eu escrevo quando dá na telha (e não só quando dá na telha, mas quando dá na telha e eu tô em casa, com tempo disponível, computador disponível, etc) e isso não é o bastante. Pelo menos não segundo Bradbury e esse pessoal que ama tanto o ato de escrever que só passou a vida escrevendo e falando sobre como era mágico escrever, de uma forma meio guru (e pensando agora, a verdade é que quase todo escritor cai nesse ciclo víciosíssimo) e dizendo que você só vai ser bom realmente na coisa se fizer essa coisa uma porrada de vezes e experimentar formatos novos, assuntos desconhecidos, segredos profundos...

A ideia então é manter essa média de uma hora por dia por pelo menos dois meses seguidos (se ficar um dia sem escrever, começa tudo de novo) e só aí ir aumentando progressivamente o tempo de dedicação até virar um monge literário.

A partir desse ponto confesso que nem minha mania de programação doentia conseguiu dar conta. Porque o tempo não existe. Não tenho tempo. (Ninguém tem, eu sei, mas eu não tenho mesmo!) Eu caí no erro tremendo de ser do tipo de gente que é um pouco bom em muitíssimas coisas e não do tipo de gente que é muito bom em pouquíssimas coisas (ou ainda do tipo de gente que é o melhor em apenas uma coisa - o tipo certo) e isso atrasa tudo, porque eu me enfio numa verdadeira zona artística (tanto no sentido da bagunça quanto no sentido da putaria), sem saber se compro uma máquina fotográfica ou entro pra aula de canto.

Fora a pretensão dessa coisa toda de querer ser artista, ainda tenho que lidar com a minha natureza de consumidor insaciável. Antes de querer ser um fazedor de livros, filmes e músicas eu já queria consumí-los todos. Eu já era fascinado por eles (e esse fascínio é tão grande que até hoje alimenta minha inspiração) e acho que o dia em que eu não conseguir mais sentir alguma coisa com um conto, um romance ou um poema, aí realmente eu não vou ter mais forças pra continuar. Então manter esse fascínio é mais que uma boa estratégia, é uma questão de sobrevivência. É preciso me alimentar com estímulos que justifiquem meu esforço para produzir algo parecido. Daí a dificuldade de querer acompanhar uma indústria que solta material novo a cada segundo (e muito material novo!) e trata cada um desses novos lançamentos como obra de arte indispensável (que provavelmente ele não é, mas daí a você não querer ver com seus próprios olhos...).

Assinei a Entertainment Weekly, que era um sonho meu desde que eu lia a Set (uma revista de cinema já cancelada por falta de papel). A Set era meio tosca, mas era a única revista sobre filmes da banca que estava em português. Nunca me atrevi a comprar uma Entertainment Weekly. Primeiro que o preço cobrado por aquela revistinha mole de papel vagabundo aqui no Brasil chegava aos vinte e cinco reais e segundo que meu inglês é péssimo, mas naquela época era ainda pior. Hoje já dá. E, com iPad e esses aplicativos que simulam toda uma banca de jornal cheia de revista importada, famosa, independente, sem noção..., ninguém precisa mais gastar vinte dilmas num monte de papel grampeado (mas ainda precisa gastar dois obamas e noventa e nove cents, é verdade).

Como se não bastasse esse novo hobby de férias, ainda tenho o diabo de um app chamado Iba Revistas, que é a pior coisa que já inventaram (mas que continuo assinando por inércia e também pela possibilidade de ler todas as Super Interessantes lançadas até hoje). As Piauís nunca estiveram tão acumuladas; acho que estou terminando agora a edição de outubro.

Mas o problema da maioria dessas revistas é que elas, em vez de saciar seu desejo por informação e entretenimento, só fazem esse desejo aumentar, te indicando novos livros em edições de capa dura, blu-rays que vêm com todo o cenário do filme incluso, coletâneas de álbuns relançados em vinil e outros absurdos maravilhosos demais pra gente ignorar. Aí você vai ler um livro (que por si só já tem quase mil e duzentas páginas) e descobre que metade dessas páginas são referências a outras centenas de obras que, se você fosse esperto, já teria lido... Ou seja. Não tem a menor condição de viver num mundo assim.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Quebrando o Silêncio como Quem Quebra a Bacia

Estive pensando demais. Li um bocado de poema, cometi outros tantos, perdi tempo adoidado e não consegui fazer muito. Cogitei um novo formato pro blog, com textos mais curtos e frequentes (numa tentativa de burlar o sistema e fazer na verdade um imenso Twitter com caracteres ilimitados), mas não tive coragem de me comprometer a tanto pra depois acabar com posts minúsculos e, ainda assim, esporádicos.

Tenho ouvido muita música. E elas têm me falado sobre a beleza das coisas de um jeito diferente. Comecei até a comprar CD (não todos os que eu quero ouvir, porque isso não faz nem sentido num mundo como o nosso, dominado por iPhones), mas os meus prediletos, aqueles que lembram uma época específica, uma boca específica ou uma caminhada na chuva. Compro pra ouvir no home theater, deitado no sofá, e depois deixar na estante como um mini-monumento da obra que eu já tinha de graça, há séculos, no celular. Pensando bem é um pouco besta.

Hoje me peguei com uma vontade maior que o normal de escrever aqui. E nem sei por que. O abandono já é tão longo (e tão cheio de promessas vagas e esperanças vãs), que qualquer textinho que quebre o silêncio vai ser noooossa.

Não. Assim como a vida, quando esse texto acabar você vai ver que nem foi lá grandes coisas.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Como as Crianças Ouvem Música Hoje em Dia


Se eu tivesse feito um top 5 das melhores coisas que me aconteceram em 2013, com certeza descobrir o streaming de música estaria lá. Foi uma das maiores revoluções na minha vidinha ínfima infinita e particular em, sei lá, uns dez anos. Minha biblioteca não faz mais sentido (porque eu tenho todas as músicas do mundo (ou a maioria delas) à minha disposição, só clicar no search e digitar), então eu tô me sentindo um velho que, de repente, encontra o mundo todo diferente. E não sabe mais o que fazer com a coleção de vinis.

O fato é que tenho ouvindo muita música nova (o que é uma delícia - principalmente nesse momento de solidão, férias e miséria) e feito umas descobertas (ou redescobertas) interessantes. Não tenho muito com quem falar, então pensei até em abrir uma sessão no blog só pra crítica musical (totalmente pessoal e sem compromisso com a realidade), mas quem eu tô tentando enganar? Faz décadas que não consigo escrever um post.

Acho que o fato de voltar a escrever (ou me forçar a voltar a escrever) está ligado às descobertas musicais e ao ano-novo e às férias também. Porque quando a gente estuda português e ensina português e passa o dia sendo forçado a pensar em gramática, uma repulsinha natural pela língua começa a surgir. Paciência pra revisar? Zero. Pensar em preposições, coesão, coerência...? Inventar figuras de linguagem pra enfeitar a coisa toda? Não. Eu quero só falar umas bobagens e vender minha arte. Devolver pra natureza o que ela dá pra gente.

No caso, fiz minha primeira playlist no Rdio (que é o serviço de streaming que eu assinei). Aproveitei que, no momento, a única coisa que eu faço da vida é ver Mad Men e entrei de topete nos anos 60. Escolhi 14 músicas que Don Draper conceberia na balada; afinal de contas, advertising is based on one thing: happiness. And you know what happiness is? Happiness is the smell of a new car. It's freedom from fear. It's a billboard on the side of the road that screams reassurance that whatever you are doing is okay.

You are okay.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

John Lennon Reinventado


Não é como se eu não tivesse nada a dizer; é mais como se eu soubesse que ninguém quer ouvir. E na verdade eu até sei que alguém no mundo quer, que todo blog tem 100 leitores, etc, mas sentir eu não sinto.

E quando você fica muito tempo sem escrever, a tendência é ficar ainda mais. Isso porque a gente percebe que não faz muita diferença.

E agora entra a parte da pretensão literária.

Sempre achei lindo encher a boca pra dizer que não escrevo por dinheiro, fama ou reconhecimento. Que não acredito que a literatura, ou seja lá o que isso for, tenha alguma função. Que a vantagem dela é justamente essa de não servir pra bosta nenhuma. Que só assim ela vai conseguir ser verdadeira.

Mas esse discurso, que parece tão liberal, bonito e artístico, não sustenta a realidade (ou o ego) de escritor nenhum. Primeiro que não existe arte verdadeira (e eu não quero entrar nesse mérito agora, porque o blog tá abandonado há tempo demais pra já voltar assim, com filosofia de boteco) e segundo que escrever é um ato de comunicação e fica impossível se comunicar sem esperar por uma reação do interlocutor.

Quando você fica muito tempo sem escrever e ninguém reclama, significa que você pode ficar mais um pouco. Foi o que eu fiz. E só voltei agora porque estou numa dessas fases mega produtivas, em que tudo o que eu faço é passar horas organizando as coisas que ainda preciso fazer (sem nunca de fato fazê-las).

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Vocês Criaram um Monstro

Aí tem essa professora... Mais louca que o Batman. Uma figura tão loira, tão surreal, tão problemática, que merecia um post só pra ela. Não vou fazer isso, porque sinceramente tenho medo que ela leia antes do semestre acabar (e eu preciso de nota). É bem a cara dela investigar vida de aluno, fazer ego search no Google, essas coisas.

E na aula de hoje ela começou a recapitular as 400 tarefas (sem nenhum objetivo, lógica ou fundamento) que ela tinha passado ao longo do semestre e lembrou que todas deveriam ser entregues na terça-feira da semana que vem. O que é lindo, porque significa que depois de terça-feira vou poder até colocar o nome dela aqui pra facilitar a pesquisa, mas também é péssimo, porque é óbvio que ninguém dá a mínima pra o que essa mulher fala em sala de aula e ninguém fez nenhuma dessas tarefas, já que, veja bem: ninguém SABE como fazer!).

Esse é o panorama então: loira surtadíssima que manda a gente usar uma tal de "ecofont" (projeto flopado de fonte ecologicamente correta, que já não fazia sentido em 2004, que dirá agora) em todos os trabalhos, 400 tarefas que deveriam ter sido feitas ao longo de seis meses para serem compreendidas e realizadas em coisa de dias e toda uma Mostra Hitchcock pegando fogo no CCBB.

Ainda bem que os comentários do post anterior foram favoráveis ao mimimi. Fiquei mais seguro pra reclamar com propriedade. Vou até escrever mais e mais porcamente.

Daqui a pouco cês abrem o blog e tem um poema.
Ou um acróstico.
Ou um haicai.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Este É um Blog de Mimimi

O semestre começa a dar sinais de falência. E eu acordo e durmo pensando no dia em que não vou ter mais razões pra sair da cama antes da hora do almoço. Não sei como, mas consegui passar um semestre inteiro sem mudar meus hábitos de sono. Continuo dormindo depois das duas, mas agora acordo às seis e meia. Acordo porque preciso (durmo porque te amo) e isso resulta num estado permanente de impaciência e esgotamento. Tenho deixado de falar com as pessoas por pura preguiça de ouví-las.

Óbvio que o que mais sofre é esse blog. Acho que nunca escrevi tão pouco. Primeiro porque não sou obrigado. Segundo porque, sempre que eu pensava em escrever alguma coisa, essa coisa era uma reclamação disfarçada de comentário sobre trecho de livro, episódio de série ou cena de filme. E da última vez que comecei a reclamar aqui, vieram xingar muito nos comentários, falando que tava ficando chato, etc. Agora, imagina... Se tá ficando chato pra vocês (que só têm que ler...) imagina pra mim, que vivo todo o material?

Então desculpa, mas reclamar da minha vida usando trecho de livro, episódio de série ou cena de filme como disfarce é a única razão pela qual mantenho esse blog funcionando. Tem outra razão que é fazer as pessoas que nunca me viram pessoalmente acharem que eu sou mais interessante e inteligente do que realmente sou; e o fato dessas duas razões serem contraditórias é só o começo do que poderia ser a explicação pra todos os problemas da minha vida.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Um Último Pedido Antes da Gente Dormir

Esperei que minha tristeza crescesse até chegar nesse nível que praticamente me obriga a escrever. Depois disso também não dá, porque tristeza demais paralisa.

Faz umas semanas que tenho pensado em você mais do que eu gostaria. Acho que por ter te perdido em uma esquina qualquer ou por não saber mais que horas você acorda, como passa suas tardes, com quem fala ao telefone antes de dormir, quais músicas escuta, quais detesta, quais livros tem lido, o que achou da última temporada de Homeland... E fico me sentindo um pouco egoísta por querer fazer parte da sua vida a essa altura do campeonato. E por perceber que não, eu já não faço.

Sei que não tenho o direito de te pedir mais nada, mas vou pedir mesmo assim. Vou pedir desculpas. E publicamente, porque acho mais corajoso e romântico. Desculpa. Pela bagunça, pela demora e pela falta de coragem. Desculpa por não saber lidar com as palavras a ponto de te machucar com elas (nunca vou saber se estas também te machucarão; espero sinceramente que não, que elas desçam com facilidade e façam uma cosquinha simpática no seu coração antes de desaparecerem; que não te atormentem). Desculpa por ter perdido tanto tempo tentando me explicar e me defender e por nunca ter aceitado meus erros quando, no fundo, tudo o que eu sempre pensava era: nossa, como ela está certa! Reconhecer isso agora é de uma canalhice absurda. Mas acho que continuar negando é ainda mais canalha.

Acho que era isso. Eu precisava pedir essas desculpas pra ver se me livrava dos seus olhos, que, juro, têm me perseguido. Os mesmos olhos de antes, com a mesma doçura e o mesmo peso, só que mais tristes. Vê se tira a tristeza de dentro deles. Mesmo que, pra isso, você nunca mais coloque esses olhos em mim.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Tudo Isso Me Reduz ao Silêncio


Poucas coisas na vida conseguem me deixar irritado. Uma delas é aluno reacionário. A outra é não ter tempo pro cinema.

As pessoas não entendem o que significa pra mim acompanhar o circuito. Não é sobre filmes. Quase nunca é sobre filmes, ou sobre livros, ou sobre séries. Na maioria das vezes é só a necessidade de me sentir vivo. De perceber uma mudança qualquer. De me iludir com uma provável transformação que a arte nunca executa, mas sempre promete. E com aquela persuasão característica.

Por isso, dia desses resolvi me forçar a ver um filme, começando pouco depois da meia-noite. Isso, apesar do cansaço e de ter que acordar às seis da manhã no dia seguinte. Era o jeito. Não dava mais pra esperar outra tarde livre como aquelas que a gente só tem até os 15 anos de idade. Dez minutos depois e eu percebi que já cochilava há cinco. Desisti, desliguei o computador e fui pra cama, chorando.

No dia seguinte as pessoas surgem com uma felicidade infernal e eu não consigo ver razão. Não consigo ver sentido nessas aulas, nessas provas, nessa graduação... Vou conservando um ódio de todo mundo. Entro no Facebook e acho tudo bastante ridículo e tenho vontade de mandar mensagem pros amigos falando que por favor, some daqui, você me enche de vergonha. Mas é tudo muito interno, o que problematiza a coisa do mau humor.

Uma das razões pra essa falta de tempo que me destrói é a quantidade desumana de textos e romances que esses professores passam pra gente ler. Ironicamente, foi daí que tirei a citação que encerra esse post. Tá lá nOs Sofrimentos do Jovem Werther, leitura bastante providencial pra esse momento da vida.

"É comum dizer-se que a vida do homem não passa de um sonho, e esse sentimento me acompanha sempre. Quando observo os estreitos limites em que se acham encerradas as faculdades ativas e intelectuais do homem; quando vejo que o objetivo de todos os nossos esforços é prover necessidades que por si mesmas não têm outro fim senão prolongar nossa miserável existência, e que por conseqüência toda a nossa tranqüilidade, em certos pontos de nossas buscas, não passa de uma resignação sonhadora, que gozamos pintando de figuras variadas e perspectivas luminosas as quatro paredes que nos fazem prisioneiros: tudo isso, meu amigo, me reduz ao silêncio. Olho para dentro de mim mesmo e vejo um mundo; porém um mundo muito mais de pressentimentos e vagos desejos do que de realidades e forças vivas. Então tudo me flutua ante os olhos, e continuo sorrindo e sonhando em minha jornada através do mundo."

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Domando Sonhos como Quem Doma Leões


Realmente não sei porque alguém se importaria com minha última noite de sono ou com minha nova mania de dormir sob dois travesseiros dispostos na cama em formato de L. Não sei, mas continuarei insistindo até que me provem que não ter um blog é mais legal do que ter. Além do mais, se continuar nesse ritmo, com o número de visitas e comentários caindo diariamente, em pouquíssimo tempo realizarei meu sonho de ter um blog anônimo sem precisar ter um blog anônimo.

Mas adentremos o universo onírico, porque dia desses senti que podia controlar meus sonhos. Calma. Primeiro é preciso explicar o absurdo que tem sido dormir. Não sei se tem a ver com as férias que acabaram agora e que bagunçaram meus horários ou com um verdadeiro amadurecimento neurológico, mas tenho passado cerca de duas horas todas as noites, assim que eu deito na cama, pulando de um sonho pro outro e acordando no meio deles, cheio de horror e alívio. Não é como se eu realmente dormisse. Permaneço lúcido na maior parte do tempo. Consciente de que meu corpo está seguro na cama enquanto meu cérebro voa serelepe por universos mais ou menos conhecidos e deturpados. Mas se me deixo levar um pouco, a segurança some e o sono se torna imprevisível e incontrolável, como é da natureza deles.

Esse estágio de quase sonho, quase realidade, é extremamente favorável ao autocontrole mental. Eu só preciso pensar em uma situação específica, em primeira pessoa e com o maior número possível de detalhes, por algum tempo que, gradualmente, a imaginação vira sentido. É assustador e delicioso, como tudo que transcende a lucidez.

Lembro que na noite passada acordei muito agitado e querendo chorar. Eram três da manhã e eu não parava de ter esses pequenos sonhos lúcidos. Comecei a pensar que era o começo de algo. De uma comunicação espiritual, talvez, ou de uma esquizofrenia. Resolvi sair do quarto pra tentar me acalmar, mas quando acendi o abajur azul, percebi que nunca tive um abajur azul.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Introdução ao Pior Semestre de Nossas Vidas


Semestre passado peguei quatro matérias na UnB e lembro perfeitamente de cada uma das noites que passei em claro por causa delas, escrevendo ensaios, fazendo trabalhos e estudando pras provas do dia seguinte. É ridículo, porque quatro matérias é o mínimo. Qualquer um consegue. Eu só tinha aula depois das 10h, não tinha aula na sexta, não tinha aula à noite, e ainda assim cheguei a esse ponto de não ter tempo pra dormir. Fico me perguntando como. Então resolvi dar um jeito nessa situação doentia. E o que eu fiz dessa vez? Peguei só três matérias? Tranquei a faculdade? Tirei os próximos seis meses pra viajar pelas praias nordestinas? Não. Peguei sete. Isso mesmo: PEGUEI SETE MATÉRIAS. Peguei tudo o que eu podia. Preenchi cada segundo do meu dia com atividades exaustivas que certamente irão: a) me tirar desse redemoinho psicológico em que me meti ou b) me matar.

Porque eu consigo enxergar o problema muito bem, o que sempre some é a solução. Eu percebo quando passo horas tentando zerar o Feedly (sdds, Google Reader) sem entender o real propósito de tanta notícia mal escrita. Percebo o problema quando, no mesmo dia, vejo 5 episódios de séries diferentes, já que continuo atrasado com todas. Ou quando baixo o triplo de filmes que tenho a capacidade de ver. Ou quando passo dias pra terminar um capítulo de um livro que é só o primeiro de uma fila gigantesca de outras tantas leituras que muito provavelmente nunca farei.

É extremamente cansativa essa luta diária pra ficar em dia com as coisas que me importam. E mais cansativo ainda é perceber que essas coisas na verdade não importam pra mais ninguém. Meu maior medo é que um dia elas deixem de importar pra mim também. Porque aí sim... Não vai sobrar absolutamente nada.

Eu não vejo outra saída. Tudo o que consigo fazer é continuar assinando cada vez mais feeds, acompanhando cada vez mais séries, baixando cada vez mais filmes, comprando cada vez mais livros e, agora, pegando cada vez mais matérias.

Seja bem-vinda, vida acadêmica. Você acaba de entrar pro seleto grupo das coisas que amo e que estão sempre atrasadas.

terça-feira, 12 de março de 2013

Estado Civil: Autônomo


Tanto na vida afetiva quanto na profissional, sofro por excesso de medo. Não tenho o menor espírito empreendedor (para desgosto do meu pai, que já abriu mais de 10 empresas, sempre está envolvido em projetos independentes e me deu um exemplar de Pai Rico, Pai Pobre quando eu tinha 15 anos). Na verdade eu tenho repulsa. É preciso reconhecer quando você tem a vocação e, por mais triste que isso seja, quando você nasceu pra ser só um empregadinho.

Eu tenho tanto medo de arriscar, de ficar sem dinheiro, de perder o caminho de volta pra casa, de viver um amor não correspondido, que acabo fugindo de qualquer responsabilidade. Dou umas aulas particulares (que é um trabalho sem chefe, que eu domino e que rende um bom dinheiro), vivo uns romances com significado indefinido e assim vou me protegendo ao mesmo tempo de uma demissão e de um coração partido.

Essa semana fiz uma espécie de entrevista de emprego. Nunca tinha feito. E achei muito engraçado todo esse lance de RH, trabalho com hora marcada, carteira assinada, férias, direitos trabalhistas, Getúlio Vargas... E também achei assustador eu ter chegado a esse ponto. Porque é como se a vida estivesse me empurrando pra frente (obrigado, vida) e eu tentando voltar atrás, desesperado, esperando a hora em que alguém vai descobrir que, na verdade, ainda sou uma criança de 12 anos.

Hoje me peguei torcendo pra essa entrevista não dar em nada. Por puro medo. Porque ter a carteira assinada é quase tão perigoso quanto se apaixonar. Tenho medo de abandonar meus alunos particulares, me envolver no emprego, me acostumar com o décimo terceiro, e acabar demitido sem maiores explicações. O único consolo seria o seguro desemprego (e pra esse, desculpa vida afetiva, mas não encontrei nenhum correspondente).

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Ele


Ele levantou da cama e foi escrever. E escreveu por semanas inteiras, se desligou do mundo, deixou que nascesse nele qualquer coisa de poético. E foi descoberto. E disseram que era um grande novo talento. E que sua escrita era vulgar e hermética. E imprevisível. E cheia de pontos finais desnecessários, preposições desnecessárias. Conjunções desnecessárias. Assuntos desnecessários. E tudo era lindo.

Ele aprendeu inglês.

Foi pra Nova York. E assistiu espetáculos, visitou museus, conheceu gente bonita, foi pra rehab, voltou da rehab, mudou pra Paris.

Ele aprendeu francês.

Cantou nas horas vagas. E participou de saraus plenos de música e poesia. E se embriagou de mundo. E se apaixonou por uma cortesã.

Ele finalmente aprendeu a amar. E ela morreu de tuberculose. E ele decidiu que amar não era bom. Era bem ruim, na verdade.

E teve uma recaída atrás da outra. Se isolou do mundo, escreveu um romance. Dessa vez um bom. Que fez sucesso. Que deu certo. Alcançou plateias, encantou a crítica, deixou uma mensagem e ele não viu nada disso, porque morreu de overdose. Ou se matou. Ou foi assassinado. Não ficou muito claro.

E disseram dele que era vulgar e hermético. E que teve uma vida cercada de mistérios. E que fez uma bagunça com o coração. E que não sabia amar. E que teve uma infância difícil.

Adotaram seu livro no último vestibular.

Mas não teve vestibular. Não teve livro. Não teve cortesã. Não teve Paris. Não teve francês. Não teve sarau. Não teve Nova York. O inglês não teve. Nem o escrever por semanas inteiras. Nem o levantar da cama.

PS: Tem conto novo no Crimes por Extenso. E é dos masoquistas.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Salubridade, Sanidade e Perfume


Cheguei em casa e fui recebido por uma mãe de banho tomado, cabelos úmidos e perfume de condicionador. Elizete, que trabalha na minha irmã mais velha, veio dar um salve aqui em casa e as duas passaram o dia numa faxina que, imagino eu, precisou terminar com esse ritual de autopurificação materno. Depois ela foi me mostrando os cômodos, quase efusiva. Contou que tinham passado aspirador de pó em todos os cantos do meu quarto (o pobre menino asmático) e tinham limpado até os segredos mais sujos do guarda-roupas. Entrei no banheiro e, ofendido com tamanha assepsia, fiquei pensando em como foi difícil passar tanto tempo sem ela.

Desde que voltei a morar com meus pais, nunca mais vi a louça acumular. A pia está sempre vazia, seca e brilhando. As roupas aparecem passadas, dobradas em pequenos cubos em cima da cama. As cobertas, lençóis e toalhas são trocados de pouco em pouquíssimo tempo. O papel higiênico, o sabonete, o shampoo, o condicionador... Tudo é reposto de forma discreta e silenciosa, escondendo assim o maior segredo da minha família: elfos domésticos.

Puxei da minha mãe essa obsessão com a limpeza, obviamente sem nunca alcançar seu alto nível de dedicação à higiene. Sempre gostei de ter as coisas no lugar e tenho pequenos surtos de deleite quando termino de limpar qualquer coisa mais ou menos imunda. Acho que significa o começo de algo. Como se fosse impossível ser feliz enquanto não passasse álcool gel nas mãos. Mas também tenho preguiça e foi essa minha salvação. Foi isso que me impediu de ser uma Mônica Geller de vida.

Antigamente, no banho, me ensaboava por horas e com tal zelo e tanto, que acreditava piamente ser uma questão de tempo até que meu corpo desaparecesse. Um menino que, de tanto tomar banho, sumiu. Porque uma linha muito tênue divide as células vivas das mortas. É preciso cuidado com essa mania de querer limpar tudo que é sujo. A gente sempre acaba descobrindo que nada é realmente limpo.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Um Ano Muito

Fui ler as resoluções do ano passado e morri de pena de mim. Porque continuo dormindo pouco, comendo mal, vivendo em estado vegetativo e perdendo séculos em redes sociais sem qualquer compromisso com a realidade. O bom disso tudo é que não preciso ficar inventando novas metas pra 2013.

2012 foi tão eufórico e desesperado que não consigo classificá-lo como um ano bom ou ruim. Vou classificá-lo como um ano muito.

Então eu só queria que 2013 fosse um ano menos, porque até minha asma voltou.

Ninguém tem fôlego pra isso. Pra entrar na faculdade, terminar namoro e morar em quatro casas em regiões opostas de um Distrito Federal cada vez menor. Sinto meu corpo desproporcional e gigante, como o da tia Guilda do Harry Potter. Meus pés ficam pra fora da cama e isso é pura metáfora.

Depois de quase dois anos, voltei a morar com os meus pais. E pode parecer uma regressão no processo natural de amadurecimento (vai ver até é), mas eu considero uma volta necessária. É preciso estabelecer uma comunicação, atualizar a família e ganhar meu espaço. Também é preciso economizar.

Ontem fiz uma maratona de How To Make it in America (uma das séries mais legais que a HBO já produziu) e assisti Setembro, um desses filmes sérios do Woody Allen. Hoje acordei mais cedo pra nadar um pouco e tomar sol, enquanto observava duas crianças apostando corrida na piscina infantil (uma delas roubando descaradamente). A ideia era começar o ano com as séries e filmes em dia e uma inclinação inevitável para o exercício físico, quiçá a maromba, mas tudo que consegui foi começar o ano com o ombro queimado.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Meninos Não Choram

Faz um mês que estou emocionalmente abalado e não sei por que. Percebi o problema em uma noite de segunda-feira, quando, sozinho no meu quarto, fui ver Compramos um Zoológico e chorei por quatro vezes ao longo do filme. Quem viu sabe que ele não é tão triste nem oferece tantas oportunidades assim pra comoção, mas eu fiz acontecer.

Meu pai, por exemplo. Nunca vi derramar uma lágrima. Ele simplesmente não chora. Desconfio de que suas glândulas lacrimais não funcionem muito bem. Ou talvez ele vá todo dia pro banheiro chorar escondido, nunca se sabe. Minha mãe diz que já viu meu pai chorar duas vezes ao longo dos infinitos anos de casados que eles têm, mas até agora são só boatos.

Eu realmente queria ser menos sensível a essas bobagens. Ou chorar pelos motivos certos. Porque quando é pra demonstrar carinho, falar da minha vida ou sofrer com alguma perda, sou uma pedra. Agora, coloca um Toy Story 3 procê ver se eu não estarei em prantos do início ao fim, com direito a soluços desesperados na sequência final.

Acho que peguei toda a minha sensibilidade e joguei no campo das artes. É uma estratégia segura, porque a ficção tem essa vantagem maravilhosa de não ser real. E, por mais comovente que o filme for, em aproximadamente duas horas ele vai acabar. Eu tenho medo é dessa coisa louca chamada vida que não vem com o tempo de duração na capa.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Controlo o Calendário Sem Utilizar as Mãos


O que me entristece é a falta de perspectiva. Porque quando se tem 9 anos é muito fácil suportar períodos de tédio ou trabalho árduo. Porque as coisas terminam. O recreio chega. As férias chegam. O natal chega. Hoje eu fico olhando pro calendário e tudo o que consigo sentir é uma completa desesperança. Sabe essas pessoas que falam: nossa, não vejo a hora de dezembro acabar? Então. Tenho um pouco de inveja. Porque infelizmente, pra mim, quando acaba dezembro vem sempre janeiro.

Férias nunca é um bom negócio pra professor particular. A gente não tem décimo terceiro, então enquanto nossos alunos passeiam por Miami, a gente conta as moedas pra comprar um Big Mac. Além disso, tem a greve das federais, que acabou com o nosso ano. Ou seja: tô indo ali passar as férias estudando e sem dinheiro, forte abraço.

E dezembro chega como um vírus. As pessoas começam a andar pela rua cheirando a Sundown e cloro. As crianças saem de suas cavernas e dão risadas absurdas enquanto empinam papagaios. Os shoppings exibem suas luzinhas questionáveis. As famílias vão se aproximando, planejando amigo oculto, esquentando o peru... E você ali, com 15 textos pra ler, seminário pra preparar e todo o rancor do mundo.

Mas não era esse o problema. Acabei me perdendo com essa história de férias. O problema é que, independente da data, as coisas estão uma zona.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

W3


Eu não devia te dizer, mas essa chuva, essa janela, botam a gente comovido como o diabo.

Não tem parado de chover. E isso é bacana, porque alaga a W3 e oferece novas experiências de vida aos brasilienses (que, devido a evolução da espécie, já estavam criando duas corcovas maravilhosas nas costas), mas também é ruim, porque com a chuva vem essa camada espessa da mais pura melancolia disponível no mercado.

E tenho passado as noites mergulhado em mixtapes com as seguintes tags: sad, rain, heartbreak e loneliness...  E ouvindo Bookends até que o último traço de felicidade tenha sido exorcizado da minha alma. Porque tem isso, né? Além da chuva, que já pede pelas lágrimas, tem eu, que nasci com essa vocação absurda pro sofrimento.

Ando olhando pra baixo, pra não molhar os óculos, afundo o pé em poças oceânicas, chego molhado na casa dos alunos; e tudo vai ficando apático depois das dez. E eu perco a vontade de ler, de escrever, de estudar... Só consigo permanecer entre uma série e outra, maldizendo novembro e pensando no tanto de coisa que ainda tenho pra amanhã.

Os tênis estão todos molhados. E não tem sol pra secar.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Complexo de Walter White

Estava sentado no ônibus às quatro da tarde, num estado de quase sono, quando recebo um tapa na cara. Desses com a mão aberta. Abri os olhos pensando que esse era um jeito no mínimo curioso de abordar um conhecido, mas a figura que vi de pé na minha frente não lembrava nem vagamente qualquer amigo. E apontava um revólver pra minha barriga.

Pediu o celular, estava visivelmente nervoso. E eu, com uma calma estranha, entreguei meu aparelho robusto de 50 reais. "O outro!", "Que outro? Só tenho esse...". Mas eu sabia que ele falava do iPod touch que eu trazia carinhosamente no bolso da calça e que, de longe, parece mesmo um iPhone. Por alguns segundos fiquei perdido nesse raciocínio e o cara se enfureceu. "Você quer morrer?". Agora o cano da arma encostava a minha testa. E eu olhando aquilo tudo só conseguia pensar que, por favor, eu assisto Breaking Bad! Lido com coisa muito pior que uma arma na cabeça.

Estendi o aparelho como quem entrega um filho e adverti: "Mas é um iPod". Acho que ele não ouviu. Saiu correndo, limpou o caixa, mandou o motorista parar, sumiu na BR. Quando tudo acabou, vi que a mulher do meu lado chorava copiosamente.

Eis uma que nunca assistiu Breaking Bad.