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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Um Último Pedido Antes da Gente Dormir

Esperei que minha tristeza crescesse até chegar nesse nível que praticamente me obriga a escrever. Depois disso também não dá, porque tristeza demais paralisa.

Faz umas semanas que tenho pensado em você mais do que eu gostaria. Acho que por ter te perdido em uma esquina qualquer ou por não saber mais que horas você acorda, como passa suas tardes, com quem fala ao telefone antes de dormir, quais músicas escuta, quais detesta, quais livros tem lido, o que achou da última temporada de Homeland... E fico me sentindo um pouco egoísta por querer fazer parte da sua vida a essa altura do campeonato. E por perceber que não, eu já não faço.

Sei que não tenho o direito de te pedir mais nada, mas vou pedir mesmo assim. Vou pedir desculpas. E publicamente, porque acho mais corajoso e romântico. Desculpa. Pela bagunça, pela demora e pela falta de coragem. Desculpa por não saber lidar com as palavras a ponto de te machucar com elas (nunca vou saber se estas também te machucarão; espero sinceramente que não, que elas desçam com facilidade e façam uma cosquinha simpática no seu coração antes de desaparecerem; que não te atormentem). Desculpa por ter perdido tanto tempo tentando me explicar e me defender e por nunca ter aceitado meus erros quando, no fundo, tudo o que eu sempre pensava era: nossa, como ela está certa! Reconhecer isso agora é de uma canalhice absurda. Mas acho que continuar negando é ainda mais canalha.

Acho que era isso. Eu precisava pedir essas desculpas pra ver se me livrava dos seus olhos, que, juro, têm me perseguido. Os mesmos olhos de antes, com a mesma doçura e o mesmo peso, só que mais tristes. Vê se tira a tristeza de dentro deles. Mesmo que, pra isso, você nunca mais coloque esses olhos em mim.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

W3


Eu não devia te dizer, mas essa chuva, essa janela, botam a gente comovido como o diabo.

Não tem parado de chover. E isso é bacana, porque alaga a W3 e oferece novas experiências de vida aos brasilienses (que, devido a evolução da espécie, já estavam criando duas corcovas maravilhosas nas costas), mas também é ruim, porque com a chuva vem essa camada espessa da mais pura melancolia disponível no mercado.

E tenho passado as noites mergulhado em mixtapes com as seguintes tags: sad, rain, heartbreak e loneliness...  E ouvindo Bookends até que o último traço de felicidade tenha sido exorcizado da minha alma. Porque tem isso, né? Além da chuva, que já pede pelas lágrimas, tem eu, que nasci com essa vocação absurda pro sofrimento.

Ando olhando pra baixo, pra não molhar os óculos, afundo o pé em poças oceânicas, chego molhado na casa dos alunos; e tudo vai ficando apático depois das dez. E eu perco a vontade de ler, de escrever, de estudar... Só consigo permanecer entre uma série e outra, maldizendo novembro e pensando no tanto de coisa que ainda tenho pra amanhã.

Os tênis estão todos molhados. E não tem sol pra secar.

sábado, 28 de julho de 2012

E agora, José?


Durante muito tempo esperei por essa viagem pra Belo Horizonte, exatamente como uma criança espera pelo Papai Noel. Fantasiando, é claro, uma perfeição que nunca existiu na capital mineira. Voltei essa semana e me vi completamente perdido, sem saber onde enfiar toda aquela ansiedade que antes tinha um alvo fácil. O melhor da festa é mesmo esperar por ela.

Agora me pego revivendo tudo com uma nostalgia absurda e uma melancolia torturante. Tudo mitificado, muito maior e muito melhor do que realmente foi. E só penso naquelas pessoas com quem dividi momentos de extrema intimidade e das quais não sei nem o nome. Viraram rostos cada vez mais desfocados e impessoais, o que me permite confirmar que eram lindas, já que as únicas testemunhas são meus olhos míopes e cansados de três da manhã. Onde elas estariam agora? O que fazem numa tarde de sábado?

Na Wikipédia tá escrito que nostalgia é um sentimento que surge a partir da sensação de não poder mais reviver certos momentos da vida. E eu tenho esse hábito de pegar a nostalgia pelo braço, andar com ela pela casa, oferecer meu travesseiro, etc. E ela adora, né? Se esparrama... Acaba ocupando mais da metade do colchão e me reservando um espaço mínimo entre a fronha e os livros que não param de se acumular no criado mudo.

Passo dias com uma enorme sensação de E agora, José? que, pra mim, é a melhor descrição de nostalgia instantânea. É aquilo de querer abrir a porta e não existir mais porta. De querer voltar pra Minas e Minas não há mais.

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

 Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…

Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 19 de junho de 2012

Olhos nos Olhos


Gosto particularmente de como o universo se transforma depois de certa hora da madrugada. Não é que a nossa percepção do mundo fique alterada, mas é que o próprio mundo vai se alterando e se revelando todo cheio de percepções sobre nós. E o silêncio é tanto que qualquer um pode ouvir meus pensamentos, vagando pelas cobertas
. E depois das 3 eles eclodem como berros, acordando o Caetano no quarto ao lado.

Às vezes vou pra cama com uma música, pra abafar as memórias, e elas sempre me parecem bem mais reveladoras quando sussurradas no meio da noite. Saem do fone de ouvido feito lanças, furam meus tímpanos e jogam ali dentro todas aquelas verdades inconvenientes que a gente cria pra encaixar uma canção aleatória na vida da gente. Pra ver se consegue explicação pra esse tanto de erro absurdo e infantil.

Ontem perdi alguns minutos ouvindo uma coletânea da Maria Bethânia e encontrando milhares de respostas, concordando com quase tudo e sofrendo mais que o normal por umas letras bobas, quase cafonas. Percebi  como Tatuagem é linda, como Explode Coração é pornográfica, como é difícil dormir depois de Minha História e como Olhos nos Olhos é a coisa mais cruel que o Chico já escreveu.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Recontagem

Hoje tive que refazer pela décima vez o cálculo de quantas páginas de Os Lusíadas preciso ler por dia pra terminar a leitura no prazo estabelecido. E basicamente minha vida tem sido assim. Esse esforço enorme e eterno para adaptar os afazeres à minha falta de disciplina. Os dias estão implacáveis e tudo parece um atropelo.

As pessoas mudaram tanto. Tenho achado todo mundo um pouco frio e impaciente comigo. E talvez seja fruto desse clima de Brasília. Acordar tem sido difícil. Os ossos doem. E a cada dia que passa eu tenho mais páginas e menos tempo.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Mixtape - Hoje Vou Te Fazer Chorar

Eu estava relutando, mas uma hora ela teria que vir: a mixtape de músicas depressivas. Durante algumas semanas fui anotando o nome das músicas que já me fizeram chorar ou que, pelo menos, me deixaram com um buraco na alma. O resultado são essas 14 canções, entre músicas brasileiras, americanas e européias.

Começa com Pato Fu dizendo que não é por mal, mas hoje vai te fazer chorar, e é bom você acreditar e estar com os lenços de papel preparados, porque daí em diante é só ladeira abaixo. Tem Damien Rice (oconcur quando o assunto é música deprê) e seus 9 crimes, tem Radiohead com Karma Police e Creep (que aqui aparece numa versão cover do coral feminino Scala and Kolacny Brothers), tem Cássia Eller cantando Lanterna dos Afogados, Chico Buarque engasgando com Trocando em Miúdos e Cartola interpretando O Mundo É um Moinho (também conhecida como "Música Mais Triste do Universo"). Destaque para Amy Winehouse fazendo Love is a Losing Game acompanhada só do violão  e a lacrimosa Ne Me Quitte Pas, de Edith Piaf (a grande dama da dor). Tudo termina com o sucesso da jovem guarda Filme Triste, que deixa o clima um pouco irônico e infantil, como toda boa crise de depressão.

Como vocês já sabem, a mixtape vem organizadinha, com capa e contra-capa, e pronta para o iTunes. Pode baixar numa boa e deixar tocando enquanto você chora em posição fetal.




Outras Mixtapes:

Músicas de natal: Por um Natal Sem Uva-Passa
Vozes sexys femininas: So Wet, So Tight

terça-feira, 27 de março de 2012

Verbo Impessoal

Há muito tempo quero fazer um post sobre O Haver, poema de Vinícius de Moraes que, além de ser o meu preferido, é também um dos textos que mais soube traduzir essa angústia com relação à vida, ao tempo e ao amor.

Por sua extensão poética (e temática), nem se eu quisesse conseguiria falar dele num dia só. Então resolvi separar as estrofes e ir fazendo breves comentários sobre cada uma conforme a vontade ou inspiração surgirem.

Recomendo fortemente que vocês ouçam o poema na íntegra, narrado pelo próprio Vinícius nesse vídeo, antes de ler o post. E que tirem suas conclusões. E falem sobre elas aqui, porque poesia tem essa vantagem de não ser conclusiva. E de não precisar fazer sentido.

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
Perdoai! Eles não têm culpa de ter nascido

O poema já começa falando do que resta. Muito já se perdeu, não tem o que fazer. Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura. E nem é pra todo mundo. Ser terno é um esforço e um talento. Os artistas conseguem, as mulheres conseguem, as crianças conseguem...

E essa intimidade perfeita com o silêncio só quem já se sentiu realmente sozinho consegue alcançar. É uma espécie de conforto de se bastar. De conseguir passar horas inteiras sem ouvir outra voz e sem se desesperar por isso. De fazer do silêncio um companheiro íntimo.

É um cenário por demais melancólico esse que o poeta desenha pra apresentar seu eu-lírico. E quando ele começa a falar de perdão, aí você percebe o tamanho do "desamparo" e da total falta de esperança desse homem. Não estamos só pedindo perdão. Estamos pedindo perdão por tudo.

E o final da estrofe quase sempre me faz chorar, com o discurso bíblico e a voz de Cristo a pedir perdão por nós. É justo e necessário.

Não temos culpa de ter nascido.

sexta-feira, 2 de março de 2012

As Férias Mais Longas do Mundo


É claro que eu não deveria reclamar. Ninguém em sã consciência reclama de férias longas demais, mas meu dinheiro tá acabando e férias é uma coisa que, por si só, gasta dinheiro. Como a gente tem muito tempo livre e muita tendência à felicidade, acaba pegando todas as sessões de cinema e comendo fora todos os dias e inventando programas (caros) pra disfarçar o tédio. E o preço de tudo anda tão absurdo que vou ter que aumentar minha hora-aula pra dar conta de viver.

Passar o dia à toa é uma delícia, mas ainda acho que nada supera o prazer de estudar, trabalhar e não ter tempo pra pensar. Quando você passa um dia completamente abarrotado de compromissos e leituras e exercícios, é muito pouco provável que encontre tempo pra refletir sobre a vida. E sinceramente, é a última coisa que tenho desejado fazer. Quanto menos pensar, menos paranoico, preocupado e pessimista vou ser. Não sou do enfrentamento e essa minha tendência à subjetividade tem me cansado profundamente de uns anos pra cá.

Existe algo de mágico no estilo de vida dessa gente que põe a mochila nas costas e vai fazendo o que tem de fazer. Sem parar, sem pensar, sem sofrer. Porque eles não abrem espaço pra contemplação, pra reflexão e pra muito provável conclusão de que nada realmente importa.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Tá Tudo Errado


Sempre que fico muito triste ou melancólico procuro encontrar os motivos. E geralmente são motivos bobocas, facilmente superáveis. Tenho essa capacidade de racionalizar a tristeza e, por isso, sofrer menos. E ontem deixei um pedaço do meu dedo no cortador de queijo. O sangue me fez mal. E o fato de estar sempre espirrando também não ajuda. Tenho estado tão errado que não estou conseguindo fazer uma conexão entre as frases. Que dirá entre os parágrafos. Então vou só escrever as ideias separadas mesmo e vocês que façam o trabalho de juntar e embelezar em suas próprias mentes.

Nessas horas é tão difícil conviver. Porque as pessoas não compartilham da sua dor. E nem devem. Vida segue pra todo mundo, independente da sua estar uma bosta. E quando alguém se compadece, sempre acaba no erro de tentar explicar meu sofrimento, ou tentar me consolar. Eu não quero consolo, não quero explicação. Quero alguma coisa parecida com evaporação. Mas de um jeito que eu permaneça com os pés aquecidos.

Essa noite foi difícil dormir, porque fiquei pensando muito e sentindo o dente latejar. Mais uma vez, tinha ido fundo demais com o fio-dental. O dedo sangrando, o dente doendo, o nariz escorrendo... Tudo crescendo e incomodando de um jeito cada vez mais insuportável a ponto de eu sentir a sanidade sumir por alguns segundos.

Hoje acordei assim. Melancólico. Sentindo o desespero correr nas artérias. E fui fazer meu exame mental pra descobrir o motivo da tristeza, mas não consegui. Hoje não achei motivo pra chorar. Ou achei motivos demais.