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sexta-feira, 17 de março de 2017

Edukators


Assisti esse filme alemão com uns 14 anos. Acho que me formou um pouco politicamente. Nele, três amigos tinham o costume de invadir mansões enquanto os donos viajavam, e não roubavam nada, não estragavam nada, mas mudavam tudo de lugar. Quando os donos chegavam, se deparavam com os móveis empilhados na sala de estar. A lição era clara (e, se não me engano, eles até deixavam um bilhete), vocês não estão seguros.

Já faz 5 anos que dou aula particular e sempre tentei mostrar pros alunos que eles não estão seguros. A maioria mora no Lago Sul, veste AppleWatch e joga videogame usando óculos de realidade virtual. São crianças, claro, e a gente fica até com pena de já terem opiniões tão preconceituosas, mas são crianças somente até o dia em que não serão mais.

Dar um reforço no português, pra quem já tem, além de todas as condições ideais para o estudo, a garantia de uma assistência e renda, se pá, vitalícia, é sim empoderar o empoderado. Não posso fazer outra coisa, se não quiser perder o emprego, além de manter as notas dessa criança no topo. Garantir a vaga dela, que sempre esteve garantida.


É um esforço mínimo, esse de bagunçar os móveis da mansão. Quase não muda nada. Mas enquanto o jovem lê algo como O Conto da Vara, ou quando escuta Geni e o Zepelim, mesmo que seja no iPhone 7, ou quando se reconhece como um agressor, ou quando reconhece a empregada doméstica como um ser humano, você sente que está não só empoderando o empoderado, mas também mexendo um pouco com os seus brios. Trazendo à tona seu medo mais secreto; que a classe de baixo se volte contra eles e invada sua casa e bagunce seus móveis.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

É Good e Nóis Não Have

Crescer tem sido pra mim, em grande medida, a constatação espantosa e desesperadora do poder do dinheiro. É o tipo de problema que me enche de mágoa, porque estou sempre tentando fugir dele. Eu juro que não queria dar tanto poder assim pro capital. E também não tô reclamando agora só porque o país tá em crise e uma bandejinha com 4 fatias de queijo sai a cinco reais no Big Box. Dinheiro sempre foi um incômodo, porque sempre senti que precisava dele ao mesmo tempo em que não aceitava precisar de uma coisa tão insignificante.

Ontem cheguei ao cúmulo de lavar meus óculos (que já estão com uma perna só) e secar no secador de cabelo pra economizar guardanapo. Quando equilibrei a armação de volta no meu nariz, percebi a lente completamente embaçada, o que não fazia sentido algum. Acabei usando o guardanapo, pra ver se resolvia, mas o embaçado não era do tipo que saía. Fui pesquisar a aberração e descobri que o calor danificava a lente, principalmente se ela tivesse tratamento anti-reflexo. Ou seja: como se não bastasse os óculos só terem uma perna, gastei energia, guardanapo e agora enxergo tudo em modo benflogin.

Tinha vontade de falar com o psiquiatra que dinheiro é atualmente a coisa que mais me deixa triste e que ele cobrando 500 reais a consulta não está sendo de muita ajuda. Aí o problema da grana se torna tão insustentável que você é obrigado a reduzir os gastos, deixa de ir no médico e, como nada se resolve, continua sofrendo por dinheiro, mas com a diferença de que agora não tem outro lugar pra reclamar a não ser no seu blog abandonado.

domingo, 29 de março de 2015

I've been saving all my money for you...


O diagnóstico que eu mesmo resolvi me dar foi: hipersensibilidade. Em outras palavras, tudo dói. Essa semana cheguei ao cúmulo de ficar mal por conta do cancelamento de um show para o qual eu nem ia. E isso só por ter cogitado a possibilidade de comprar o ingresso e as passagens e realmente ir pra um desses festivais de música. A gente passa a juventude vivendo uma ditadura meio velada dos grandes espetáculos. Todo mundo sabe que ingresso de show, passagem de avião, essas coisas, são investimento. Não se pode pagar por experiências, etc. Mas a verdade é que se pode pagar sim, e às vezes o preço é bem caro.

Fiquei um pouco chocado com a capacidade que um único ser humano tem de ferrar com os planos de tanta gente. E nem acho que a tal Marina dos Diamantes tem lá muita culpa do que aconteceu. Provavelmente ela só trabalha com uma galera ruim de serviço, o que, querendo ou não, é culpa dela também. Enfim. O que não deu pra assimilar ainda foi o nível da frustração de um fã, desses bem adolescentes, que se planejam pra coisa com meses de antecedência, juntam os trocados todos, fazem das tripas coração para convencer os pais, se envolvem em um milhão de rolos para conseguir onde dormir, pagam transporte pro show, chegam cedo, ficam na fila, pintam a cara... tudo isso para ver uma mulher específica cantar na frente deles... e algumas horas antes da apresentação, pluft! Aparecem as notícias. Não vai ter show. Ela não vem, não conseguiu chegar a tempo... O voo foi cancelado. Já era.

Pra esse fã, que provavelmente não vai ter outra oportunidade de ver sua artista preferida, resta beber um bocado, tentar se divertir com os outros shows do festival, voltar pra casa e aceitar a atmosfera melancólica que vai estar pra sempre entranhada nas faixas de Froot.

Anunciaram agora a pouco um show da Rihanna no Rock'n'Rio e me encontro atualmente ponderando e estudando a possibilidade de investir numa dessas incríveis perspectivas de frustração.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Belos, Malditos e Incompreendidos


Terminei semana passada Os Belos e Malditos, romance de F. Scott Fitzgerald que narra a trajetória decadente de um casal rico de Manhattan. Anthony e Gloria são lindos e inteligentes, vieram de famílias instruídas, são bem relacionados e tinham tudo para dar certo, mas não dão. E as coisas desandam porque nenhum dos dois soube lidar com a maturidade. Enquanto Gloria se deixava levar por uma vaidade louca e um romantismo doentio, Anthony foi tragado pelo álcool, cigarro e pelas festas intermináveis que o casal promovia em sua casa. Coincidentemente, terminei o livro justamente na época de maior esbórnia da minha vida. E tudo ficou com a maior cara de aviso.

Mas não acho que o livro seja panfletário, muito pelo contrário. Fica claro que Fitzgerald era fascinado por esse estilo de vida irresponsável que mais tarde veio caracterizar a Era do Jazz. Suas descrições são cheias de adjetivos que elevam e seduzem e em momento algum a culpa é posta na bebida ou nos festejos. A culpa é de Anthony e Gloria. Eles que viviam numa inércia retumbante. Passavam semanas sentados: soltando baforadas de cigarro, enchendo taças de vinho e vendo seu dinheiro desaparecer.

O problema é que ao longo de toda a narrativa, as atitudes do casal parecem bem razoáveis. Anthony era um escritor talentosíssimo, só precisava de tempo pra gerar a obra-prima que, de certo, carregava com ele em algum lugar. E Gloria, com sua beleza e carisma únicos, nasceu pra ser atriz de cinema. Qualquer coisa menos que isso seria um crime contra os deuses da arte. Só que o livro acaba e Anthony não publica nada. E Gloria nunca faz um filme. E os dois permanecem fracos demais pra levantar do sofá.

"Então amadureci e abri mão da beleza das ilusões encantadoras. Minha fibra mental tornou-se áspera e meus ouvidos, tremendamente aguçados. A vida brotou como um mar em volta de minha ilha, e, dentro em breve, eu nadava. (...) O tédio, que não passa de um outro nome e um disfarce frequente da vitalidade, tornou-se a alavanca inconsciente de todos os meus atos. A beleza, eu a tinha ultrapassado, vocês compreendem. Eu amadurecera."

Separei outros dois trechos pra quem quiser saber mais:

Sobre Gloria:

"Aposentou-se. Ela que dominara incontáveis festas, que aspergira sua fragrância por tantas salas de baile, diante do tributo amoroso de tantos olhares parecia não ligar mais. Quem agora se apaixonasse por ela era logo dispensado, quase com raiva. Ela saía indiferentemente com os sujeitos mais indiferentes. Vivia rompendo compromissos, não como no passado, a partir de uma segurança tranquila de que ela era impecável, que o sujeito domesticado por ela voltaria como um animal domesticado - mas com indiferença, sem orgulho nem desprezo. Ela raramente se inflamava contra os homens; bocejava nas suas caras. Dava a impressão – tão estranha – à sua mãe, de estar ficando fria."

Sobre Anthony:

"– Trabalho! – zombou ela - Ah, pobre tipo! Seu enganador! Trabalho: isso significa grandes arrumações na escrivaninha e nas luminárias, fazer muita ponta nos lápis, e "Gloria, pare de cantar!", e "Por favor, mantenha esse diabo do Tana longe de mim!", e "deixe que eu leia minha primeira frase para você", e "levarei muito tempo para acabar, Gloria, por isso não fique acordada me esperando", e um tremendo consumo de chá e café. E só. Dentro de mais ou menos uma hora, ouço o velho lápis que deixou de rasgar o papel e dou uma olhada. Você tirou um livro da estante e está "consultando" alguma coisa. Em seguida está lendo. Em seguida bocejando – e tome cama, se revirando para lá e para cá porque está tão entupido de cafeína que não consegue dormir. Duas semanas depois e toda a cerimônia se repete."

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Aos Amigos que Restam

Desculpa pelo descontrole. Pela total falta de critério, dignidade e lucidez. As coisas andam muito bagunçadas, incrivelmente divertidas e eu não tô sabendo me controlar.

Desculpa por usar as mesmas roupas sempre, mas não tô tendo dinheiro pra renovar o armário. Nem tempo pra lavar os tênis. Desculpa pela coca-cola antes das 8h, pelos miojos de madrugada, pelas olheiras cada vez mais profundas e charmosas. Pelos acessos de carinho e ternura. Pelos acessos de raiva e loucura. Desculpa pelas lágrimas. Desculpa pelas conversas que não levam a lugar nenhum e sempre acabam comigo reclamando das mesmas coisas. Desculpa pela vergonha, pelos transtornos psicológicos, pelas músicas repetidas, pelos filmes repetidos, pelos livros atrasados. É que fico meio encabulado quando desperdiçam obras de arte. É que descobri que só existe salvação por meio delas.

Desculpa pelas piadas cada vez piores, pelo humor cada vez mais ofensivo, pelas risadas cada vez mais débeis e pelo sorriso cada vez mais perigoso. Inclusive decidi que não devo mais tirar fotos sorrindo. Porque além de parecer infantil, pareço feliz.

Desculpa por estar cada vez mais distante e ainda assim contar segredos cada vez mais cabeludos. Por jogar todo esse peso em cima de vocês, e ficar esperando uma resposta, com meus olhinhos brilhantes. E as respostas nunca vêm.

Desculpa por parecer entediado, por cortar a fala dos outros e dar pouca atenção aos detalhes. Tenho um descompasso grave na assimilação do mundo. Tudo me vem aos saltos. Como pequenos sustos, seguidos de um longo e eterno calafrio.

Desculpa pelo medo. Por preferir às vezes calar a ter que dizer as coisas que me machucam.

Desculpa pela poeira. A faxineira sumiu tem umas três semanas.

sexta-feira, 2 de março de 2012

As Férias Mais Longas do Mundo


É claro que eu não deveria reclamar. Ninguém em sã consciência reclama de férias longas demais, mas meu dinheiro tá acabando e férias é uma coisa que, por si só, gasta dinheiro. Como a gente tem muito tempo livre e muita tendência à felicidade, acaba pegando todas as sessões de cinema e comendo fora todos os dias e inventando programas (caros) pra disfarçar o tédio. E o preço de tudo anda tão absurdo que vou ter que aumentar minha hora-aula pra dar conta de viver.

Passar o dia à toa é uma delícia, mas ainda acho que nada supera o prazer de estudar, trabalhar e não ter tempo pra pensar. Quando você passa um dia completamente abarrotado de compromissos e leituras e exercícios, é muito pouco provável que encontre tempo pra refletir sobre a vida. E sinceramente, é a última coisa que tenho desejado fazer. Quanto menos pensar, menos paranoico, preocupado e pessimista vou ser. Não sou do enfrentamento e essa minha tendência à subjetividade tem me cansado profundamente de uns anos pra cá.

Existe algo de mágico no estilo de vida dessa gente que põe a mochila nas costas e vai fazendo o que tem de fazer. Sem parar, sem pensar, sem sofrer. Porque eles não abrem espaço pra contemplação, pra reflexão e pra muito provável conclusão de que nada realmente importa.