terça-feira, 28 de agosto de 2012

Belos, Malditos e Incompreendidos


Terminei semana passada Os Belos e Malditos, romance de F. Scott Fitzgerald que narra a trajetória decadente de um casal rico de Manhattan. Anthony e Gloria são lindos e inteligentes, vieram de famílias instruídas, são bem relacionados e tinham tudo para dar certo, mas não dão. E as coisas desandam porque nenhum dos dois soube lidar com a maturidade. Enquanto Gloria se deixava levar por uma vaidade louca e um romantismo doentio, Anthony foi tragado pelo álcool, cigarro e pelas festas intermináveis que o casal promovia em sua casa. Coincidentemente, terminei o livro justamente na época de maior esbórnia da minha vida. E tudo ficou com a maior cara de aviso.

Mas não acho que o livro seja panfletário, muito pelo contrário. Fica claro que Fitzgerald era fascinado por esse estilo de vida irresponsável que mais tarde veio caracterizar a Era do Jazz. Suas descrições são cheias de adjetivos que elevam e seduzem e em momento algum a culpa é posta na bebida ou nos festejos. A culpa é de Anthony e Gloria. Eles que viviam numa inércia retumbante. Passavam semanas sentados: soltando baforadas de cigarro, enchendo taças de vinho e vendo seu dinheiro desaparecer.

O problema é que ao longo de toda a narrativa, as atitudes do casal parecem bem razoáveis. Anthony era um escritor talentosíssimo, só precisava de tempo pra gerar a obra-prima que, de certo, carregava com ele em algum lugar. E Gloria, com sua beleza e carisma únicos, nasceu pra ser atriz de cinema. Qualquer coisa menos que isso seria um crime contra os deuses da arte. Só que o livro acaba e Anthony não publica nada. E Gloria nunca faz um filme. E os dois permanecem fracos demais pra levantar do sofá.

"Então amadureci e abri mão da beleza das ilusões encantadoras. Minha fibra mental tornou-se áspera e meus ouvidos, tremendamente aguçados. A vida brotou como um mar em volta de minha ilha, e, dentro em breve, eu nadava. (...) O tédio, que não passa de um outro nome e um disfarce frequente da vitalidade, tornou-se a alavanca inconsciente de todos os meus atos. A beleza, eu a tinha ultrapassado, vocês compreendem. Eu amadurecera."

Separei outros dois trechos pra quem quiser saber mais:

Sobre Gloria:

"Aposentou-se. Ela que dominara incontáveis festas, que aspergira sua fragrância por tantas salas de baile, diante do tributo amoroso de tantos olhares parecia não ligar mais. Quem agora se apaixonasse por ela era logo dispensado, quase com raiva. Ela saía indiferentemente com os sujeitos mais indiferentes. Vivia rompendo compromissos, não como no passado, a partir de uma segurança tranquila de que ela era impecável, que o sujeito domesticado por ela voltaria como um animal domesticado - mas com indiferença, sem orgulho nem desprezo. Ela raramente se inflamava contra os homens; bocejava nas suas caras. Dava a impressão – tão estranha – à sua mãe, de estar ficando fria."

Sobre Anthony:

"– Trabalho! – zombou ela - Ah, pobre tipo! Seu enganador! Trabalho: isso significa grandes arrumações na escrivaninha e nas luminárias, fazer muita ponta nos lápis, e "Gloria, pare de cantar!", e "Por favor, mantenha esse diabo do Tana longe de mim!", e "deixe que eu leia minha primeira frase para você", e "levarei muito tempo para acabar, Gloria, por isso não fique acordada me esperando", e um tremendo consumo de chá e café. E só. Dentro de mais ou menos uma hora, ouço o velho lápis que deixou de rasgar o papel e dou uma olhada. Você tirou um livro da estante e está "consultando" alguma coisa. Em seguida está lendo. Em seguida bocejando – e tome cama, se revirando para lá e para cá porque está tão entupido de cafeína que não consegue dormir. Duas semanas depois e toda a cerimônia se repete."

3 comentários:

Froide disse...

O universo pode conspirar completamente a seu favor, se você não sai da sua inércia e decide o que fazer com os eventos, é por motivo óbvio que eles vão passar.

Anônimo disse...

Eu entro nesse blog quase todos os dias e é um dos meus favoritos. Leio tudo o que consigo e nunca comentei nada...até agora. Você despertou o meu interesse nesse livro e não é só nisso que você desperta o meu interesse. Tu és inteligente, eu fico enebriado em teus textos, tua sutileza, teus gostos, tua ironia... em você. Acho que o melhor de escrever um blog é saber que alguém que se identifica com você irá ler aquilo que está exposto, mas, cara... tu não sabes o quanto eu gosto de entrar nesse site, mesmo sem você saber que eu existo(até agora), mesmo sem eu ter coragem de te adicionar para tentar uma amizade (coisa que eu acho que você não iria querer), mesmo eu postando isso no anônimo... Enfim, eu fico feliz em ter você para ler e me completar. Achar algo que eu não consigo dizer e que você faz isso tão bem. Tuas mixtapes parecem minhas de tanta semelhança em gosto musical. haha O comentário fugiu totalmente do assunto da postagem, mas depois de ler ela eu fiquei com vontade de dizer isso. muita vontade. Sempre que estiver para baixo se lembre que tem um anônimo que le tudo que você posta e que pensa em você como a pessoa mais encantadora que seria possível existir.

Dasty-Sama disse...

Nossa, esse livro deve ser um tapa na cara. Sei lá, às vezes acabo me identificando com esses personagens que querem demais da vida e acabam não conseguindo nada. Tenho medo de acontecer isso comigo. A história me lembrou outro livro que amei demais, chamado Ilusões Perdidas do Balzac. É no mesmo estilo, mas em épocas diferentes. Acho que esse se passa nos anos 20, não é? O do Balzac é do século XIX. Dá para perceber que com o passar do tempo, muitas coisas não mudam.