terça-feira, 27 de setembro de 2011

Os Corações Selvagens


Descobri Cartas Perto do Coração entre os livros ainda não lidos da minha irmã. Reconheci a edição da Record (no mesmo formato de O Homem Nu, O Bom Ladrão e O Menino do Espelho), tirei da estante e fiquei assombrado ao perceber que tratava-se de uma compilação de correspondências trocadas entre Fernando Sabino e Clarice Lispector. Apenas. E, né? Esses dois monstros juntos... Não tinha como ser ruim.

Fernando Sabino é o autor do meu livro preferido, O Encontro Marcado. Eu me identifico tanto com esse romance que fica até difícil explicar. Na verdade, nem gosto de explicar, porque o livro não tem um final muito louvável e me sinto invadido, vendo meus pensamentos, sonhos e medos expostos assim, de forma tão despudorada. E Clarice dispensa qualquer apresentação. É a queridinha da literatura moderna, indiscutivelmente genial, etc.

Basicamente, os dois escritores, ainda jovens, trocam experiências e originais de obras ainda por lançar. Falam sobre a dificuldade de conseguir uma editora, os mistérios do ato de criar e as saudades do país (ambos moraram fora do Brasil por muito tempo). É engraçado ver que Sabino já era bastante conhecido quando Clarice começou a fazer sucesso e ela meio que submetia seus textos à avaliação do amigo. Fernando Sabino CORRIGIA Clarice Lispector, ok? Hoje parece piada, já que a moça ficou muito mais famosa que Fernando Sabino, Paulo Coelho, Machado de Assis, Buda, ou qualquer ser vivente. Todos nós sabemos.

As cartas são tão boas que eu fiquei tentado a copiar o livro inteiro aqui no blog, mas fui comedido e separei só os trechos mais interessantes.

De Sabino para Clarice:

"Tenho uma grande, uma enorme esperança em você e já te disse que você avançou na frente de todos nós, passou pela janela, na frente de todos. Apenas desejo intensamente que você não avance demais para não cair do outro lado."

"Porque você por dentro não vai bem não, Clarice Lispector, você por três vezes já se esqueceu de sorrir quando era preciso"

"A arte não nos satisfaz porque não passa disso: é o testemunho de nós mesmos. O verdadeiro testemunho é o dos santos e a nossa tristeza mais irremediável é a de nem ao menos saber onde é que perdemos nossa única oportunidade de sermos santos."

"Nosso livro é o nosso testemunho, Clarice, é a única coisa que temos. Nele é que aprendemos a viver nascendo, nele é que vivemos, viajamos, temos filhos, amigos - é a nossa realidade, nosso testemunho. Às vezes contra nós mesmos. Ele é que vai viver sozinho, vai agir pró ou contra, vai ter uma individualidade da qual não participamos, de filho pródigo que não retorna. Nós não, nós perdemos. Nós perdemos sempre, Clarice."

"Você, de certo modo, me dispensa de escrever. Resta o consolo de pensar que se eu fosse capaz, como você, de dizer o indizível, eu teria a dizer certas coisas que você ainda vai dizer. E me limito a ficar esperando."

De Clarice para Sabino:

"Não trabalho mais, Fernando. Passo os dias procurando enganar minha angústia e procurando não fazer horror a mim mesma. Tem dias que me deito às 3 da tarde e acordo às 6 para em seguida ir para o divã e fechar os olhos até as 7 que é hora de jantar. Isso tudo não é bonito. Sei que é horrível. Caí inteiramente e não vejo um começo sequer de alguma coisa nascendo."

"Tive um verdadeiro cansaço em Paris de gente inteligente. Não se pode ir a um teatro sem precisar dizer se gostou ou não, e porque sim e porque não. Aprendi a dizer "não sei", o que é um orgulho, uma defesa e um mau hábito porque termina-se mesmo não querendo pensar, além de não querendo dizer."

"Cada vez que penso no seu livro [O Encontro Marcado] - e tenho vivido com ele nesses últimos dias - gosto mais. O envolvimento é insensível, é feito por acumulação, por estrangulamento gradativo que vem de todos os lados. Sei que estou usando palavras que talvez lhe soem fortes demais (tive uma noite de insônia, acredite...), mas, Fernando, foi assim que senti: encostada à parede, e me deu um desespero que me deu vontade de lhe dizer: Fernando, vamos mentir que não é assim."

Vamos, Clarice. Vamos mentir que não é assim.

5 comentários:

Manuel disse...

Agora você falou!

Gabriel Leite disse...

Eu não. Quem falou foram eles.

Evelyne disse...

Status: procurando e-book.
Não fiz isso antes com os livros da Clarisse (mesmo tendo ouvido maravilhas sobre ela) por causa dos nomes dos livros que nunca fui com a cara. Me sinto culpada agr.

del disse...

Sensacional! Quero esse livro PRA ONTEM, meu Deus do céu!

Priscila disse...

Nossa...
Obrigada por compartilhar!
Abraço.