terça-feira, 8 de novembro de 2011

Diário de um Kamikaze

A Piauí do mês passado trouxe um dos textos mais tristes que já li na vida. É uma espécie de diário escrito por pilotos kamikazes do Japão, durante a Segunda Guerra Mundial. Pelo que entendi, os militares escolhiam aleatoriamente estudantes da Universidade de Tóquio e os convidavam a se alistar. A maioria deles tinha entre 19 e 22 anos de idade. Eram jovens cultos, bem criados, cheios de ideologia e patriotismo. Todos tinham pleno conhecimento de que, a qualquer momento, teriam que mergulhar com um avião carregado de explosivos contra algum navio inimigo e dariam sua vida pelo país.

Os trechos foram tirados de diários e cartas escritas pelos meninos. Alguns falavam sobre honra, outros sobre o medo da morte. Não consegui captar até que ponto eles estavam dispostos a se sacrificar e até que ponto foram forçados. Passei uma tarde inteira pensando neles. Em como deve ficar a cabeça de alguém com data marcada pra morrer.

Selecionei as partes que mais me interessaram ou comoveram.

Sasaki Hachirõ

"Soa a sentimentalismo, mas, se você precisa morrer, que seja de uma forma bela."

"Sei que posso morrer a qualquer momento, e por isso deixo tudo o que é meu arrumado; vivo uma vida organizada e tiro fotografias para a posteridade."

"Achei uma aranha minúscula dentro do meu livro. Num impulso de malvadeza, aproximei meu cigarro da aranha, que se pôs a correr freneticamente. Coloquei o cigarro aceso à sua frente, ela mudou de rota. Repeti o ato várias vezes até a aranha se imobilizar. Deixei-a sossegada por um tempo. Num novo impulso, aproximei o cigarro aceso por cima, e ela voltou a correr. Continuamos assim por uns dois minutos. Ela então cansou, encolheu as pernas e tornou-se imóvel mesmo sem ter sido tocada pela brasa do cigarro."

Hayashi Tadao

"Sigo uma agenda diária que me impus: ler cinco páginas em inglês e 100 em japonês... Durante meus anos de colegial me proponho a ler 300 livros em japonês, quinze em inglês (além dos do currículo escolar) e melhorar meu condicionamento físico com 30 minutos de exercícios diários. Não ler enquanto descanso."

"Japão, por que eu não te amo e não te respeito?"

"Preciso ser sincero. O desejo sexual é doloroso. Olho para mim, tomado pela vontade de união física. Em seguida combato o impulso como se fosse sujo e feio, resultado da minha raiva por não satisfazer o desejo. Por outro lado, sonho em aspirar o cheiro do suor [de uma amante] que excita, o cheiro do corpo do sexo oposto, o toque em um corpo quente, a euforia do enlace de duas pessoas apaixonadas se descobrindo, sem o sentimento da vergonha, a dança selvagem do ato, o adormecer abraçado e a doce sensação de despertar a seu lado – são todas imagens que me atormentam. Luto diariamente com esta dor. Preciso assumir o controle sobre mim!"

"Não fujo do sacrifício. Mas martírio e sacrifício devem ser feitos no auge da realização pessoal. Sacrifício ao término do autoaniquilamento, da dissolução do seu ser, não tem nenhum significado."

"Estamos todos pessimistas quanto à possibilidade de voltar para casa. Se eu não conseguir sair da Marinha, vou enlouquecer. No momento eu só quero ler livros e nesse estado de espírito não vou conseguir lutar na guerra... Não tenho paixão. Sinto perda e indiferença. Não me importa o que venha a acontecer. O sentimento mais penoso e insuportável deriva dessa vida de forçada indiferença. A parte dura não é morrer, é viver."

"Sinto-me cada vez mais atraído pela solidão, preces, dívida e responsabilidade social, mas nenhum sentimento de amor, que me parece remoto demais no momento."

Carta de despedida de Hayashi Ichizõ à mãe:

"Hoje metade de nossa unidade mergulhou sobre navios inimigos ao largo de Okinawa. Não temos luz, por isso escrevo perto de uma fogueira.

Mando lembranças a todos. Não me resta tempo para escrever-lhes. Vamos afundar navios inimigos. O uniforme de um piloto tokkōtai para sua última missão inclui uma bandana com o sol nascente e uma echarpe de seda branca em volta do pescoço... Para meu último voo vou enrolar no meu corpo a bandeira do Sol Nascente que você me deu e vou colocar uma foto sua no peito... Quando você ouvir pelo rádio que navios inimigos foram afundados, por favor lembre que mergulhei em um deles.

Amanhã não estarei mais vivo. Os que saíram em missão ontem estão todos mortos? Não consigo crer que seja real. Sinto como se fossem retornar de repente. Você talvez pense a mesma coisa em relação a mim. Mas, por favor, desista. Por favor, chore. Mas, por favor, não fique tão triste.

Parto antes de você. E me pergunto se me será permitido ir para o céu. Ore por mim, mãe. Não suportaria a ideia de ir para um lugar onde você não se juntará a mim mais tarde.

Amanhã mergulho contra uma flotilha de porta-aviões inimigos. Se você fizer um funeral religioso, coloque a data certa: 10 de abril."

8 comentários:

Flávio Antunes Soares disse...

Estava pesquisando sobre poesia japonesa e, por acaso, encontrei ese blog. Esses textos escritos pelos kamikazes causaram tamanho impacto em minha mente que, assim com tu, me quedei pensativo toda uma tarde.

Ana Lu disse...

Meu Deus! Enchi o olho aqui com a história desses rapazes...

Esthéfane Moraes disse...

"Parto antes de você. E me pergunto se me será permitido ir para o céu. Ore por mim, mãe. Não suportaria a ideia de ir para um lugar onde você não se juntará a mim mais tarde."

Chorei feito criança.

sobrefatalismos disse...

Gabriel,
É comovedor o fato da consciência da morte que esses jovens tinham, uma consciência em tudo diferente da minha (pois, de certa forma, também "tenho data" para morrer). A fragilidade diante da guerra e a sabedoria de saber-se sozinho e de entregar a própria vida em prol de interesses externos.
Pior é pensar que os grandes líderes políticos que fizeram a guerra acontecer não dariam a própria vida pelo país, mas incentivam que outros façam por eles e no lugar deles.
Abraços.

sobrefatalismos disse...

Gabriel,
É comovedor o fato da consciência da morte que esses jovens tinham, uma consciência em tudo diferente da minha (pois, de certa forma, também "tenho data" para morrer). A fragilidade diante da guerra e a sabedoria de saber-se sozinho e de entregar a própria vida em prol de interesses externos.
Pior é pensar que os grandes líderes políticos que fizeram a guerra acontecer não dariam a própria vida pelo país, mas incentivam que outros façam por eles e no lugar deles.
Abraços.

Gab disse...

Meu deus que coisa triste.
Eu que morro de medo de morrer, não sei como agiria momentos antes da minha morte. Mas pensando bem, se eu tivesse nascido nesse meio já estaria meio que acostumada com a morte...Ai não sei, só sei que essa carta de despedida foi difícil de ler. :(
Beijo.

Leandro Ataide disse...

" Se é uma coisa que admiro em um homem é a Honra", sinto uma profunda reverência pelos Kamikazes morreram por um Sol que não brilhava, mas deram a maior prova de coragem que se pode alcançar, morrer honrosamente. Fico pensativo pois hoje em dia são poucos que "vivem honrosamente", ótimo artigo Gabriel.

Ismael Carlos disse...

esta lendo "aventuras na história" e vi que quando chegava o dia do voo os Kamikases escreviam poesias, seguindo o exemplo dos samurais condenados a cometer SEPPUKU, o suicídio horroso.
vocês conhecem algum site ou blog que tenham esses escritos?
muito interessante sua postagem.