Sinto que essas férias vão ser daquelas de torcer as tripas. O ano não acabou, mas já faz tempo que me sinto esgotado. Também não podemos dizer que não passou rápido. Até o fim do semestre, que a cada ano renova o tom da sua tortura, desta vez passou como uma viagem de ácido. Posso ter chorado (e provavelmente chorei), mas não sei se de graça ou de dor. Dos trabalhos que fiz, acho que nenhum se salvou. Amanhã tenho uma última chance, na aula de literatura contemporânea, quando vou ter que apresentar um seminário sobre Alice Ruiz e Cecília Meireles. Considerando que o grupo é formado por mim e mais três perdidos, e que faz apenas alguns minutos que escolhi meu tema, sinto que esse trabalho também não vai ter salvação.
O resto do tempo tenho matado a surras de bunda. E como se já avistasse a ponta de um enorme iceberg se aproximando (férias, é você?), baixei o piloto de várias séries dessa nova temporada que ou a Cláudia Croitor ou a Ana Maria Bahiana recomendaram (em matéria de televisão, aprendi que as dicas femininas são muito mais precisas e evitam muitos tiros no escuro). De todo o balaio, escolhi How To Get Away With Murder, BoJack Horseman e The Affair, que ainda não consegui assistir.
Se te interessa: How To Get Away With Murder é com a cabulosíssima Viola Davis em um papel tão cabuloso quanto. Ela é a professora mais temida e bajulada de uma faculdade de direito, gosta de fazer joguinhos para estimular a competição entre seus alunos e numa dessas acaba se ferrando. Ainda não sei como nem por que (e já estou no terceiro episódio), mas isso não é culpa da minha estupidez, como pode parecer, e sim da montagem espertinha, que vai contando a história de traz pra frente ao mesmo tempo em que conta a história de frente pra trás, de modo que eu imagino que daqui a pouco as duas histórias vão ser obrigadas a se encontrar no meio e a gente vai finalmente entender tudo.
É, acho que falando assim não deve ter dado muita vontade de ver; mas se eu fosse você, assistiria. Os alunos dela, apesar de péssimos seres humanos, são interessantes. Tem o negro com complexo de inferioridade e uma intuição fora do comum, o branco babaca, embora mestre da retórica, a bicha má... e por aí vai. E a série, apesar de um pouco brega, porque é de canal aberto (classe média sofre, dsclp), consegue superar isso com casos que não forçam a barra e atuações que não matam a gente de vergonha.
O outro programa não tem tantos poréns. BoJack Horseman é tudo o que se espera de um bom desenho (comecei a ver desenho ontem, com As Aventuras de Gumball, e já estou ditando regras): tem personagens irresistíveis (BoJack é um ator alcoólatra e fracassado que mora em Hollywood com um vagabundo que ele adotou pra lhe fazer companhia), temas interessantes (a cultura de celebridades, a crítica à cultura de celebridades e a cultura da crítica à cultura de celebridades) e uma boa dose de delusionismo (na Hollywood de BoJack, metade dos habitantes são animais personificados, o que gera figuras ótimas como uma foca-marinheiro ou um papagaio contra-regra).
BoJack, inclusive, é um cavalo; e seus dias se resumem a muita vodca com cenoura e maratonas da sua série favorita (que, por acaso, é estrelada por ele próprio). Uma atriz-problema estilo Lindsay Lohan, ao tentar diferenciar seu fracasso do de BoJack, afirma que, para ser um ator fracassado, é preciso ter sido antes um ator de sucesso. E eu, que já estava começando a me identificar com personagens como o Johnny Marco (de Um Lugar Qualquer) ou o Bob Harris (de Encontros e Desencontros), resolvi voltar um pouco atrás e me identificar primeiro com BoJack, o fracassado sem sucesso prévio.


