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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Eu, BoJack, Johnny Marco e Bob Harris


Sinto que essas férias vão ser daquelas de torcer as tripas. O ano não acabou, mas já faz tempo que me sinto esgotado. Também não podemos dizer que não passou rápido. Até o fim do semestre, que a cada ano renova o tom da sua tortura, desta vez passou como uma viagem de ácido. Posso ter chorado (e provavelmente chorei), mas não sei se de graça ou de dor. Dos trabalhos que fiz, acho que nenhum se salvou. Amanhã tenho uma última chance, na aula de literatura contemporânea, quando vou ter que apresentar um seminário sobre Alice Ruiz e Cecília Meireles. Considerando que o grupo é formado por mim e mais três perdidos, e que faz apenas alguns minutos que escolhi meu tema, sinto que esse trabalho também não vai ter salvação.

O resto do tempo tenho matado a surras de bunda. E como se já avistasse a ponta de um enorme iceberg se aproximando (férias, é você?), baixei o piloto de várias séries dessa nova temporada que ou a Cláudia Croitor ou a Ana Maria Bahiana recomendaram (em matéria de televisão, aprendi que as dicas femininas são muito mais precisas e evitam muitos tiros no escuro). De todo o balaio, escolhi How To Get Away With Murder, BoJack Horseman e The Affair, que ainda não consegui assistir.

Se te interessa: How To Get Away With Murder é com a cabulosíssima Viola Davis em um papel tão cabuloso quanto. Ela é a professora mais temida e bajulada de uma faculdade de direito, gosta de fazer joguinhos para estimular a competição entre seus alunos e numa dessas acaba se ferrando. Ainda não sei como nem por que (e já estou no terceiro episódio), mas isso não é culpa da minha estupidez, como pode parecer, e sim da montagem espertinha, que vai contando a história de traz pra frente ao mesmo tempo em que conta a história de frente pra trás, de modo que eu imagino que daqui a pouco as duas histórias vão ser obrigadas a se encontrar no meio e a gente vai finalmente entender tudo.

É, acho que falando assim não deve ter dado muita vontade de ver; mas se eu fosse você, assistiria. Os alunos dela, apesar de péssimos seres humanos, são interessantes. Tem o negro com complexo de inferioridade e uma intuição fora do comum, o branco babaca, embora mestre da retórica, a bicha má... e por aí vai. E a série, apesar de um pouco brega, porque é de canal aberto (classe média sofre, dsclp), consegue superar isso com casos que não forçam a barra e atuações que não matam a gente de vergonha.

O outro programa não tem tantos poréns. BoJack Horseman é tudo o que se espera de um bom desenho (comecei a ver desenho ontem, com As Aventuras de Gumball, e já estou ditando regras): tem personagens irresistíveis (BoJack é um ator alcoólatra e fracassado que mora em Hollywood com um vagabundo que ele adotou pra lhe fazer companhia), temas interessantes (a cultura de celebridades, a crítica à cultura de celebridades e a cultura da crítica à cultura de celebridades) e uma boa dose de delusionismo (na Hollywood de BoJack, metade dos habitantes são animais personificados, o que gera figuras ótimas como uma foca-marinheiro ou um papagaio contra-regra).

BoJack, inclusive, é um cavalo; e seus dias se resumem a muita vodca com cenoura e maratonas da sua série favorita (que, por acaso, é estrelada por ele próprio). Uma atriz-problema estilo Lindsay Lohan, ao tentar diferenciar seu fracasso do de BoJack, afirma que, para ser um ator fracassado, é preciso ter sido antes um ator de sucesso. E eu, que já estava começando a me identificar com personagens como o Johnny Marco (de Um Lugar Qualquer) ou o Bob Harris (de Encontros e Desencontros), resolvi voltar um pouco atrás e me identificar primeiro com BoJack, o fracassado sem sucesso prévio.

sábado, 17 de agosto de 2013

Super Rich Kids


Se a gente parar pra pensar, Bling Ring não é muito diferente dos outros filmes da Sofia Coppola. Ele fala de jovens entediados como os de As Virgens Suicidas, mimados como Maria Antonieta e perdidos como a Charlotte de Encontros e Desencontros. Ele também oferece um olhar curioso (quase complacente) sobre o mundo das celebridades, coisa que Sofia tinha acabado de fazer muito bem em Um Lugar Qualquer. O roteiro é baseado na reportagem que Nancy Jo Sales escreveu para a Vanity Fair em março de 2010, contando a história dos adolescentes ricos de Los Angeles que começaram a invadir casas de famosos para roubar suas roupas, jóias e acessórios. A mesma reportagem deu origem a um livro que chegou no Brasil há pouco tempo. Eu sou bem fã da Sofia Coppola e já estava fascinado com a coisa toda o suficiente pra comprá-lo na semana do seu lançamento. Em pouco tempo comecei a pesquisar a vida dos envolvidos, ver suas fotos, seus vídeos, e ler tudo o que eu podia sobre o tema. Quanto mais eu lia sobre a Bling Ring, menos eu entendia as motivações daquela gente, o que só me deixava ainda mais interessado. Eu estava obcecado por adolescentes que eram obcecados por celebridades que eram obcecadas por si mesmas.

Esteticamente, Sofia Coppola é irretocável. Em Bling Ring ela aproveita as casas majestosas, os adolescentes ricos e as roupas de grife para criar pequenos momentos de contemplação. Depois de uma abertura frenética (e linda), a montagem começa a ficar cada vez mais parecida com a de seus outros trabalhos, até atingir o ápice, numa longa cena em que a casa de uma das vítimas é mostrada de longe, enquanto os ladrões andam pelos cômodos, enchendo bolsas, revirando gavetas, acendendo e apagando  as luzes. Em outro momento a câmera aparece imóvel, acima da escada, de um ângulo muito parecido com o das câmeras de segurança. São escolhas que fazem toda a diferença, quando se conta uma história em que o distanciamento é fundamental.


E o distanciamento é fundamental, porque estamos falando de uma geração vaidosa, egoísta e inconsequente. Marc, o único homem do grupo e principal cabeça por trás das invasões, materializa as três características em uma cena em que ele fuma maconha na frente do computador, enquanto ouve Drop It Low e se exibe para a câmera. Ele canta, dança, levanta a blusa pra mostrar um pouco do corpo, e nesse momento fica claro que eles não estão ali, roubando roupas e jóias, para mostrar pros outros. Quer dizer, é óbvio que é para mostrar pros outros, mas isso é só uma etapa para que o objetivo final seja atingido. A admiração alheia é o combustível que vai alimentar o bem estar desses adolescentes. A gente acaba percebendo que o distanciamento é fundamental, porque se chegar perto demais, corre-se o risco de topar com um grande nada.

E multiplicam-se as cenas de festas, em que tudo o que se faz é dançar, beber, cheirar cocaína e postar fotos no Facebook, para mostrar como se tem dançado, bebido e cheirado cocaína. É uma dinâmica que já não assusta ninguém, mas continua triste. E a coisa mais interessante de Bling Ring é a sua recusa em emitir julgamentos. Basicamente, Sofia Coppola usa da trilha sonora profunda e dos seus planos melancólicos para mostrar que esses jovens não são muito diferentes de mim ou você. Eles só tiveram a sorte de nascer em Hollywood.