sábado, 20 de agosto de 2011

Conversas com Clarice

Clarice Lispector tinha acabado de escrever A Hora da Estrela quando deu essa entrevista. E é uma das coisas mais sensacionais que já assisti no YouTube. Sem dúvidas, a melhor entrevista a que tive acesso. Com sua língua presa (ou seu estranho sotaque ucraniano) Clarice transborda subjetividade. É uma figura interessantíssima. E tem esse olhar profundo que fere, e esse cigarro entre os dedos, e esses dedos tortos de bater à máquina, e essa eterna exaustão pela vida. As perguntas do entrevistador são ótimas e as respostas são imprevisíveis. Quase tão imprevisíveis quanto a literatura de Lispector.

Vou colocar as 2 primeiras partes da entrevista e comentar meus momentos preferidos em cada uma delas. Se você tem algum interesse (por menor que seja) em literatura ou qualquer outra arte, não pode deixar de assistir.


1:51 - É visível a mágoa de Clarice por ter seu nome real confundido com um pseudônimo.
3:40 - "Inventei uma história que não acabava nunca". Silêncio do entrevistador, chocado. "É muito complicado pra eu explicar essa história".
5:00 - Ela conta como publicou seu primeiro conto em uma revista.
5:30 - Clarice interrompe o entrevistador ao dizer que nunca assumiu a carreira de escritora e termina sambando na cara da sociedade: "Eu sou uma amadora". Agora... Se você é amadora eu sou o que, meu bem?
8:10 - "O adulto é triste e solitário".
8:25 - O entrevistador pergunta: "A partir de que momento o ser humano vai se transformando em triste e solitário?". Clarice fica em silêncio por alguns segundos, ameaça um sorriso e diz que "isso é segredo". Hahahaha. Sensacional!
9:00 - "Mas eu não sou solitária não, tenho muitos amigos. E só estou triste hoje porque estou cansada". E termina o bloco dizendo que, de modo geral, é alegre, mas com a expressão mais triste do universo.


4:50 - Sua rotina de trabalho é descrita.
5:40 - Clarice Lispector não se considera uma escritora popular nem hermética. Afirma que se compreende. Aí pensa um pouco mais e diz: "Bom, tem um conto meu que eu não compreendo muito bem".
7:00 - O trabalho da escritora sobre o Mineirinho. Tristíssimo.
7:45 - "Eu escrevo sem esperanças de que o que escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada".
8:30 - "Qual é o papel do escritor brasileiro hoje em dia?", pergunta. "De falar o menos possível", responde.

O especial ainda tem mais três outras partes com depoimentos e homenagens à escritora e o fim da entrevista, onde ela fala de seu último trabalho, A Hora da Estrela, do seu contato com estudantes universitários e de como anda cansada.

10 comentários:

del disse...

Não foi essa a última entrevista que ela deu? Ou confundi com outra? ._.
De qualquer forma, foi com essa entrevista que conheci a Clarice "pessoalmente", antes eu só tinha lido os trabalhos dela. Te digo: depois que assisti isso, tudo passou a fazer mais sentido pra mim. Clarice era uma peça rara!

G. S. Farias disse...

Admirável. Nesse sábado tive uma palestra sobre a Clarice, e foi como um: alô, como você pode viver sem ler todas as obras dessa mulher?
E depois da entrevista, acho que ela é uma das minhas inspiradoras. Sério, como que pode alguém ser tão genial? Admirável.

Priscila disse...

Nossa, estou achando cada blog ótimo hoje!!!
Essa entrevista de Clarice é sensacional. Aliás, como tudo dela. Até os textos que ela escrevia para uma revista feminina, com dicas para as donas de casa (tipo "como eliminar os insetos dos armários")são excelentes, porque ela não se continha e dava uma literalizada nas instruções...
Abraço e parabéns pelo blog.
Priscila (professora que cursou letras, mas que nunca foi empregada doméstica...)

Anna Vitória disse...

Gente!
Ela parece ter saído de um filme do Bergman, desses bem tensos e densos. Os olhos são lindos e aflitivos pra caramba, assim como esse sotaque meio meio nordestino, meio língua presa.
Engraçado que essa entrevista mostra ela como eu a imaginava ao ler Laços de Família e A Hora da Estrela, sem tirar nem por. Mas, depois que li A Descoberta do Mundo, a imagem que tinha dela mudou totalmente. Tem umas crônicas bem "claricescas", mas no geral é um livro muito leve, em que ela fala dos filhos, das empregadas domésticas, viagens...
Sensacional a entrevista, mesmo.

Manuel disse...

Adoro essa entrevista. Já assisti faz algum tempo. Mas acho as perguntas do entrevistador muito ruins.

Manuel disse...

Assisti de novo. Era um pouco implicância minha com o entrevistador. Ele não é ruim, ainda que por vezes um pouco insensível. Aliás, pra submeter uma entrevistadora a uma entrevista naquele estado (mesmo depois de ela ter dito que o papel do escritor era falar menos), tem de ser um pouco insensível mesmo.

Gabriel Leite disse...

Pois é, Manu... Eu acho as perguntas do entrevistador muito boas. E realmente, a Clarice parecia mesmo muito cansada, mas normalmente ela era diferente disso?

Manuel disse...

Não sei. É a única entrevista dela que vi. Mas ela mesma fala q estava cansada. Além disso, faltava pouco tempo pra ela morrer. Ela estava bastante doente já.

Ana Júlia disse...

Adorei esse post, a entrevista de Clarice foi um tanto interessante! sempre gostei dela, já li vários contos mas nunca tinha visto um vídeo dela, e tantas expressões. ela tem tanto mistério! o vídeo me deixou mais curiosa sobre ela! obrigada!

Matheus Rufino disse...

Eu adoro essa entrevista, a parte que eu mais gosto é quando ela fala que não é solitária, que só tá daquele jeito por estar cansada e geralmente é muito feliz. Não me convence de jeito nenhum, mas acho ótimo como ela fala! haha

E gente, sobre a Clarice, duas coisas me incomodam demais: creditarem textos de outros autores[as] como se fossem dela, e acharem que a língua presa dela é sotaque ucraniano, tem nada disso, ela não teve vivência na Ucrânia pra pegar sotaque, teve a educação até mais básica no Brasil. Ela tinha tanta chance de ter sotaque ucraniano quanto a Dilma teve de ter sotaque búlgaro.