domingo, 14 de agosto de 2011

Preconceito Linguístico

Sinceramente, achei que não aguentaria um mês sem meus pais por perto. Que logo entraria numa crise depressiva sem precedentes ou que em poucos dias já teria brigado com minha irmã ou meu cunhado (que agora me abrigam pacientemente em Brasília). Então estou surpreso comigo mesmo. E muito orgulhoso. Ok, não é como se eu estivesse morando sozinho e pagando minhas contas Maria do Carmo feelings, porque meu pai ainda vai mandar uma grana pras necessidades básicas. Mas pra mim isso prova que eu não preciso deles pra tudo (apenas pra 60% de tudo) e que eu consigo sim fazer um orçamento tosco e controlar meus gastos com ônibus, almoço e cinema.

Voltei pro pré-vestibular e a rotina é exatamente a mesma do semestre passado, com a única diferença de que agora eu tenho que atravessar um barranco de terra toda vez que quero pegar ônibus (o que faz o pessoal do cursinho sentir pena de mim, porque chego com dupla camada de terra no tênis). E dia desses tinha um cara mijando na única entrada do barranco, então resolvi dar a volta e passar pelo outro lado pra evitar o constrangimento. Escorreguei nos pedregulhos e saí catando cavalo morro à fora, numa linda performance, mas ninguém viu, porque eram seis da manhã.

Também resolvi prestar vestibular pra Letras na UnB, por cinco motivos: 1) É mais fácil de passar, 2) Dou aula particular de literatura e texto há um ano. 3) Eu posso pegar umas matérias de Comunicação e depois terminar numa particular, me formando em Letras e Jornalismo no total de seis anos. 4) Professor de português pode ser jornalista, mas jornalista não pode ser professor de português e 5) Clarice Lispector me aprovaria.

Não é como se eu estivesse desistindo do meu sonho, até porque não sei se tenho algum. É mais como uma tentativa desesperada de começar alguma coisa. De sentir que não estou perdendo tempo, assistindo aula do lado de menino de DEZESSEIS anos. E juro que não vejo problema nenhum em passar o resto da vida sem dinheiro, corrigindo redação de criança semianalfabeta e esperando meu Jabuti que nunca virá.

Então liguei pra minha irmã, todo empolgado pra falar dos meus planos. E ela me vem com essa: "Não faz isso não! Letras é curso de empregada doméstica". Juro. E-m-p-r-e-g-a-d-a d-o-m-é-s-t-i-c-a! Primeiro eu fiquei assustado, mas depois vi que faz todo o sentido. Né? Sempre curti novela do Manoel Carlos e revista de fofoca... Só faltava mesmo um curso de Letras pra eu poder aumentar o valor da faxina.

Eu quero saber quedê minha vassoura?

PS: Minha irmã é formada em letras.

23 comentários:

Gab disse...

Eu faço letras, mas na verdade queria ta fazendo Jornalismo, aí pensei a mesma coisa que tu. Eu ainda posso ser jornalista fazendo letras, e é bem mais fácil e/ou barato.
Vai com tudo!
E viva as empregas domésticas. hahaha
Beijo.

Gabriela Petrucci disse...

Minha mãe é formada em letras e eu tô fazendo comunicação pra ser jornalista, que lindo!

HSIAUDHIASHDIAS

Beijo

sobrefatalismos disse...

Putz, e sua irmã é formada em Letras?
Já pensei em fazer Letras, Jornalismo, o escambal. Mas daí vi que, para ser escritora, não preciso disso tudo. Quero seguir com História, se tudo der certo.
Corre atrás do teu sonho, mesmo com as incertezas.
Beijo.

Anna Vitória disse...

HAHAHA
Tive que rir!
Quando eu era mais nova tinha a maior vontade de fazer Letras - ainda tenho - e quando comecei a falar isso meio sério a primeira pessoa que tentou me fazer desistir foi minha avó que, surpresa!, também é formada em Letras!
O que será que tem nesse curso de tão ruim, hein?

Bárbara Ribeiro disse...

Só queria dizer que fui colega de frentista de posto de gasolina a analista do banco central que fala até grego. Vc não vai aprender gramática nem ler a obra de Clarice Lispector. Mas vão tentar te convencer a aceitar os erros gramaticais dos coleguinhas menos capacitados.

del disse...

Uma pessoa que pensa isso sobre o curso de Letras é, no mínimo, muito infeliz :P

Érika Perillo disse...

Faço o curso de Letras e não acho nada disso que falaram. Claro que tem seus problemas (como baixo salário, ralação para conseguir as coisas, vai ter que enfrentar o preconceito das pessoas contra o curso, etc), mas achei o seu texto desrespeitoso. Toda profissão tem seu valor! Eu estou estudando Gramática normativa, sim! Já li dois livros da Clarice no curso, com prova e tudo e o bacharelado de Letras te oferece matérias de editoração e revisão de textos tão detalhadas que fico em dúvida se na Comunicação são melhores. Não sei porque a maioria das pessoas pensa que jornalismo dá mais prestígio quando na verdade é uma área tão saturada! O salário pode ser maior, mas quero ver é você entrar no mercado de trabalho tão facilmente depois. E outra, será que vai trabalhar com o mesmo encanto que entrou no curso? Hoje em dia, qualquer pessoa pode ser jornalista, independente se tem diploma ou não. Fato. A concorrência é ainda maior desse jeito. Conclusão: nenhum curso é perfeito. Dentre esses dois, não acho que um é melhor que o outro. Tudo depende de você. Agora, não me venha com esse pensamento de que Letras é para quem gosta de fofoca e novela. Nada a ver.

Gabriel Leite disse...

Concordo com você, Érika.
Também admiro demais o curso de letras (por isso resolvi fazer, oras). Inclusive, é muito mais comum rolar preconceito com quem faz jornalismo e não o contrário. É o jornalista quem tem fama de saber um pouco de tudo e muito de nada. Nesse último parágrafo eu estava sendo irônico, por causa do comentário da minha irmã. Por isso também o "preconceito" do título.

É claro que eu não acho que letras é coisa de gente fofoqueira ou noveleira. Você não percebeu o contraste da foto da Clarice (extremamente blasé) com a legenda ridícula e ortograficamente errada? Então...

Eu nunca desrespeitaria o meu futuro curso.

:)

Erika Perillo disse...

Percebi sim a legenda, a foto blasé e tudo. Entendi que você criticou mais a forma como sua irmã disse aquilo, o preconceito dela contra o curso. (Agora que você me explicou, entendi melhor). Mas o último parágrafo deixou dúvidas no sentido de saber se você concorda (ainda que em parte) ou não com o que ela disse. Foi uma ironia infeliz. Mostrei o texto para outras pessoas e todas elas se assustaram. Os dois cursos sofrem preconceito, sim. Mas o pessoal sente mais vergonha de falar que estuda Letras, do que Comunicação Social.

Erika Perillo disse...

Uma última coisa! Depois da repreensão, vêm os elogios para vc não pensar que sou uma chata de galocha! =D Você tem grande potencial e talento para ambos os cursos! Escreve muito bem e muito melhor que muitas pessoas que estudam ou já são formadas em Letras ou Jornalismo. Conhece bem a gramática. É super criativo. Dá prazer de ler seus textos. Esteja preparado para o desestímulo das pessoas (inclusive de professores dentro do curso). Faça os dois cursos mesmo, do jeito que planejou, foi uma ótima idéia. Letras tem seus problemas, como já disse. Muitos problemas. Mas se você gosta de dar aula, de escrever, de revisar textos, de literatura, de gramática, de linguistica e outras coisas, faça ele. Só não o desrespeite porque pra isso, já tem gente demais fazendo. Good luck! :)

Manuel disse...

Vc nem vai tentar UFMG, Unicamp ou UFF? Lembra que Enem substitui o vestibular da UFRJ. Fazendo bem o Enem vc pode escolher o seu curso. Outra coisa: vc já leu o livro do Marcos Bagno? Mto bom. Ele dá aula na UnB. Eu me orgulharia se vc conseguisse escrever alguma coisa parecida um dia.

Gabriel Leite disse...

Não Manu... Eu vou tentar tudo isso. Já fiz minha inscrição na UFF e no Enem. A da Unicamp vai abrir semana que vem. E vou colocar "Comunicação Social" em todas. Só na UnB que vou colocar Letras. Meio que uma garantia pro caso de eu não passar em mais nada.

Daniel disse...

Conheço bem esse sentimento que vem no pré vestibular. Aqui em casa ou era passar em concurso público ou passar na UnB. Decidi não escolher nenhum dos dois e dar aulas de Inglês e pagar pela minha própria faculdade de Arquitetura... o tempo é um fator importante... fiquei 3 anos fazendo o que eu não queria e hoje sou amargurado por só me formar aos 26 anos - o que na minha cabeça é ser velho demais pra estar se formando...

Acho o seu plano bom. O lance é fazer o que você quer ser perder tempo. =D

Cynfer disse...

Sempre quis fazer letras. Mas agora estou no meio do curso de Relações Internacionais e só vou terminar porque não gosto de fazer nada pela metade. Penso que fiz besteira!

Marlon disse...

Aonde eu estava que só vi esse post agora?! Também faço Letras(Francês) e já ouvi muitas piadinhas, mas essa é a primeira vez que sou chamado de "empregada doméstica"! Hahahaha... 70% da minha turma não tinha a menor intenção de fazer Letras(inclusive eu), estão amando o curso, mas ainda assim não desistiram do "verdadeiro sonho"(Cinema, no meu caso)! Você vai ver que o monstro não é tão feio quanto pintam por ai. Boa sorte!

sablofe disse...

Então... me senti obrigada a comentar essa parte:

4) Professor de português pode ser jornalista, mas jornalista não pode ser professor de português

Errado.

Hoje, qualquer um pode ser professor, Gabriel. Um cara que se forma engenheiro e que nunca teve sequer uma aulazinha que o direcione a lecionar em todo o curso, pode muito bem entrar pra uma sala de aula qualquer aí e dar aula de Matemática, Física, Química e blá, blá, blá. Um jornalista pode sim dar aula de Português. Também Inglês, Literatura, Filosofia, Sociologia... Sabe por que? Porque falta profissional em todas essas áreas. Falta professor em tudo quanto é parte. Basta o cara ter alguma graduação e não ter mais nenhum professor na fila pra pegar a vaga. Conheço quatro jornalistas que dão aulas de português, um advogado que dá aulas de inglês, uma pedagoga que dá aulas de história e geografia, uma série de engenheiros que dão aulas de exatas e até uma médica que dá aulas de biologia. Todos trabalham em escolas públicas. Isso, só que eu me recorde agora.

Pois bem, decidi levantar aqui uma questão que nenhum outro ainda levantou: a situação dos professores tá tão crítica, mas TÃO crítica, que não tem jeito de piorar. Do jeito que eu falei até parece uma coisa ruim, né. Mas não é não.

Não sei se você fica de olho no que acontece em Belo Horizonte morando aí no DF, então vou te contar um caso recente.

Os professores de algumas das Federais do estado estão em greve e tem outras estão naquele entra-não-entra. O Cefet já tá completamente parado. Sem aula, os alunos não podem fazer Enem, os vestibulares são adiados e acontece toda aquela reação em cadeia que a gente já conhece. Beleza. O senhor Governador falou o seguinte: "Manda vir três mil professores pra substituir todos esses que tão de greve, porque a gente não pode deixar tudo parado assim." Sabe quantos professores apareceram? Pouco mais de trezentos.

Faz ideia do salário que pagam no Cefet? Pra GRADUADOS, mais de R$ 3.000,00 - o dobro do que o estado paga. Sabe o que mais? No Cefet, quando um professor que fazer Pós, Mestrado, Doutorado e tudo o mais, ele é afastado REMUNERADAMENTE pra poder estudar direitinho e, em grande parte dos casos, o próprio Cefet paga o curso. Aí eu te pergunto: qual o professor que, em sã consciência, deixaria de aceitar uma proposta de emprego no Cefet assim, de bandeja? Eu não deixaria. Juro! E sabe o motivo de não terem aparecido mais professores? Porque não tem professores. Simples assim. O governo abafou o caso e o povo continua de greve. Haha.

Sobre o curso de Letras, a Babita falou uma coisa aí em cima que é bem verdade. De fato, tentam te fazer aceitar erros gramaticais alheios. Mas não tão é assim também não. Considero isso mais como uma abertura da mente pra com os preconceitos que existem, coisa que eu nunca ia entender se não fosse a faculdade e os livros do Marcos Bagno. E, ow, eu li Clarice sim! E Machado de Assis e Ésquilo e Fernando Pessoa (também me super identifico com Álvaro de Campos, só pra constar) e Marcelo Rubens Paiva e Eça e Camões e Érico Veríssimo e L. F. Veríssimo e tantos outros escritores atuais e passados. E aprendi gramática.

sablofe disse...

Aí, você para e pensa: "Mas eu não posso simplesmente fazer o que me dá prazer. Eu tenho que ganhar dinheiro com isso também! Tenho que investir em algo que vá me dar estabilidade porque quero casar, ter filhos e sustentar todos eles.” Te acho um lindo, se pensa dessa forma. Aí, eu te falo uma coisa, Gabriel: Acompanho os seus blogs desde o início e sei do talento que você tem pra escrever, observo o quanto gosta de Literatura e tenho a certeza absoluta de que você vai se dar bem no Letras. E, Palavra! não estou dizendo para desistir do Jornalismo. Longe disso! Outra: se você acha que perdeu um ano não passando no vestibular dessa vez, VOCÊ TÁ NOVO! Ainda. (Só não faz igual aquele povo d'A Igreja que chega aos 28 sem ter feito nada da vida e, já com mulher, casa e filhos, pega o Fundo Perpétuo, faz um curso técnico meia-boca, fica satisfeito, porque agora ganha dez vezes mais e nunca mais pensa em fazer algo que o deixe feliz de verdade. Por favor, você é melhor que isso.) Talvez agora você pense que vai perder muitas coisas em toda a sua vida por causa desse um ano, mas não é bem assim. E só vai descobrir isso mais pra frente. Você vai perder tempo é se ficar parado. Caso aconteça de você não entrar pra nenhuma Federal esse ano (o que acredito sinceramente que não vai acontecer), bola pra frente. Começa uma particular e CONTINUA tentando, mesmo se não tiver mais tempo pra cursinhos. Se tem uma coisa da qual eu me arrependo é de (desabafo) ter planejado a minha vida toda estudar na UFMG, passado na UEMG de primeira parado por aí, me sentindo orgulhosa e satisfeita com tudo isso.

Sejamos otimistas.

Com fatos como o que eu citei acima acontecendo, o governo vê-se obrigado a investir nos professores – e nos cursos de licenciatura. As mudanças, aos poucos, já estão acontecendo. Se você acha que não vai ganhar dinheiro com isso, tá muito enganado. Desconheço uma profissão em que se trabalhe vinte e quatro horas por semana, sendo quatro dias na escola e um em casa, receba a quantia que recebe, tenha ainda a possibilidade de trabalhar dobrado pra ganhar dobrado e blá, blá, blá, receba gratificações pelo período trabalhado, tenha férias duas vezes por ano + férias prêmio, flexione o horário de trabalho da forma que lhe aprouver e ainda possa trabalhar informalmente – dando aulas particulares em horários que lhe convenham, coisa que sei que você já faz – ou em cursos pré-vestibular, pré-Enem ou profissionalizantes.

Só me promete uma coisa? Não se forma em Jornalismo pensando em ir pra sala de aula. Se tem uma coisa que deixa o povo das licenciaturas malucos, é ver um indivíduo que fez isso. Faça Letras e exerça sua função. Faça Jornalismo e exerça sua função. E não se forma em Letras pensando em ser jornalista também, tá? Tenho certeza que o povo do Jornalismo pensa a mesma coisa que nós da licenciatura pensamos. Se forme nos dois, se for a sua vontade, como planejou.

É isso aí, eu faço Letras.
E, Babita, amei o ‘empregada doméstica’, juro! Vou usar essa com os meus futuros filhos, quando cismarem de seguir o exemplo da mãe. Hahaha.

Manuel disse...

Arrasou. Melhores comentários do blog em meses.

sablofe disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
sablofe disse...

Só que isso aí tá mais pra postagem do que pra comentário né, Manuel? :s

Odeio limite de caracteres.

sablofe disse...

Odeio também quando o Blogger conta que a gente excluiu um comentário. Só tava fazendo uma correçãozinha de nada :/

Gabriel Leite disse...

Ah, também adorei. Obrigado.
Seus comentários foram um sopro de otimismo na minha tarde. ;)

Matheus Rufino disse...

Ia mandar um "oi?!" pra Bárbara, haha. mas quem mereceu um "OI?!" mesmo foi a Erika. Enfim, eu adorei o post, ri pra caramba, mas ia comentar só que a expressão é "catando cavaco" e não cavalo, faz sentido nenhum catar cavalo, gente, hahaha.