terça-feira, 9 de agosto de 2011

O Internauta


Até 2006, quando lançou Carioca, Chico parecia desconhecer qualquer coisa sobre MP3, iPods ou YouTube. E hoje tá aí... Conversando com os internautas e até fazendo o louco do pântano em depoimentos descontraídos. Acho graça, porque o Chico Buarque parece um tio meu, que levou mais ou menos 15 anos pra aceitar esse negócio de computador. Mas é um caminho inevitável. Até o mais tradicional dos artistas está percebendo que, em vez de lutar contra o inimigo, é melhor ficar do lado dele e tentar tirar algum proveito. Então poucos meses antes de lançar seu último álbum, Chico Buarque colocou no ar um site onde publicava vídeos periódicos dos bastidores das gravações pra manter o público interessado e vender mais cópias. Eu falo "Chico" como se ele próprio tivesse montado o site após um cursinho de Dreamweaver, mas é claro que o velho foi forçado incentivado a fazer tudo isso por alguém com muito mais visão de mercado. O resultado é Chico, um disco minimalista com 10 faixas muito boas e algumas excelentes.

Querido Diário, que abre os trabalhos, tem uma harmonia bem mais interessante que a letra. Não gosto de algumas rimas, principalmente aquela que ele confessa amar uma "mulher sem orifício" (WTF?). Mas do meio pro final entra uma segunda voz extremamente sofrível que enriquece tudo e faz a gente querer repetir o mesmo trecho 500 vezes. Já a segunda faixa, Rubato, é a que menos me agradou. Acho que o Chico chegou num nível de dissonância que ultrapassa o limite do bonito. É tanto medo de ser previsível que a coisa acaba ficando esquisita.

O álbum ainda conta com uns sambas bem gostosinhos, como Sou Eu e Barafunda. E outras canções mais depressivas, como Sem Você 2 e Nina, onde ele fala de um romance online (sério!): "Nina diz que se quiser eu posso ver na tela / A cidade, o bairro, a chaminé da casa dela / Posso imaginar por dentro a casa / A roupa que ela usa, as mechas, a tiara / Posso até adivinhar a cara que ela faz / Quando me escreve".

Essa Pequena parece muito outro clássico do Chico, Ela É Dançarina, mas com um pouco menos de glamour: "Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas / o blues já valeu a pena". E Se Eu Soubesse, que é uma das minhas preferidas, tem a participação de Thais Gullin, a namorada do Chico (uma fofa de aparentes 15 anos de idade). A música ficou  linda! Talvez pela química do casal, talvez pelos "lararis" e "lararás" que escondem parte da letra e fermentam nossa imaginação.

A canção que fecha o disco é Sinhá, que tem participação de João Bosco e já entra diretamente pro Top 10 músicas mais tristes do Brasil. Conta a história de um escravo que viu a patroinha se banhando e, por isso, vai perder as pernas, os olhos e a vida. Uma volta ao passado, pra encerrar o primeiro passo de Chico em direção ao futuro.

4 comentários:

karina disse...

lindo blog!!!
adorei este post!!!

sobrefatalismos disse...

Nina fala de um amor virtual sim. O Chico fez a música para mim. Até escrevi sobre isso aqui ó: http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/07/14/nina/

Beijão.

Bárbara Ribeiro disse...

Olha... Um dos melhores textos mesmo sendo mais dissertativo que artístico. Conectou todas as informações.. super fechadinho. Invejável.

Matheus Rufino disse...

Achei que já tinha superado essa coisa de negligenciar albuns importantes e acabar ouvindo-os cem anos depois, sendo que tive toda a condição de ouvi-los na época de lançamento. Mas olhaí, até hoje não ouvi esse "novo" do chico. tsc, matheus, tsc. O que me consola é que, lendo seu texto, tive o incentivo definitivo de que precisava =)