Ontem foi confirmada a transferência do meu pai pra Campinas e agora ninguém sabe o que fazer. Porque nossa família nunca se separou. Meus dois irmãos mais velhos, apesar de casados, moram aqui no DF (um em cada extremo, é verdade, mas ainda aqui) e todo mundo já tem sua vida estabelecida, seus empregos, suas casas, etc. Eu sou o filho que não tem nada. Tenho um cachorro e uma namorada, mas, fora isso, nada me impede de mudar de cidade, estado, país ou planeta. O único problema seria ganhar bem menos com as aulas particulares de redação e literatura, porque a hora-aula que se paga aqui (principalmente a hora-aula que os alunos do
Galois pagam aqui) não existe em nenhum outro lugar. Em outros tempos eu adoraria a ideia, mas hoje tenho medo de ficar sozinho. Mais uma vez.
Demorei a reconhecer que sou extremamente dependente da minha família. Uma dependência emocional mesmo. Porque, no fundo, eu não tenho mais nada. Nunca fui de amizades profundas, de entrega completa e sinceridade desmedida. Até porque, sempre tive muito mais amiga que amigo (descobri cedo que nós, meninos, somos muito desinteressantes e abobalhados) e amizade entre homem e mulher, quando não tem segundas intenções, está fadada à superficialidade. Sobrou minha família, onde sempre depositei essa enorme bagagem de medo e insegurança.
Tenho a sorte de ser o caçula e poder contar com dois irmãos razoavelmente estabelecidos, mas não acho que aguentaria passar 4 anos numa casa que não é minha. Por mais à vontade que eu me sinta, não seria confortável pra nenhum dos lados. E nessas horas bate um desespero, porque eu vejo que não tenho muitas outras opções. Não construí nada onde eu possa me agarrar. Não tenho faculdade, salário fixo ou um teto pra fugir do sereno. E o mundo tá aí, querendo me engolir. E eu aqui, com medo de encarar.
E eu aqui, preso num tempo entre 1991 e a puberdade.