quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Controlo o Calendário Sem Utilizar as Mãos


O que me entristece é a falta de perspectiva. Porque quando se tem 9 anos é muito fácil suportar períodos de tédio ou trabalho árduo. Porque as coisas terminam. O recreio chega. As férias chegam. O natal chega. Hoje eu fico olhando pro calendário e tudo o que consigo sentir é uma completa desesperança. Sabe essas pessoas que falam: nossa, não vejo a hora de dezembro acabar? Então. Tenho um pouco de inveja. Porque infelizmente, pra mim, quando acaba dezembro vem sempre janeiro.

Férias nunca é um bom negócio pra professor particular. A gente não tem décimo terceiro, então enquanto nossos alunos passeiam por Miami, a gente conta as moedas pra comprar um Big Mac. Além disso, tem a greve das federais, que acabou com o nosso ano. Ou seja: tô indo ali passar as férias estudando e sem dinheiro, forte abraço.

E dezembro chega como um vírus. As pessoas começam a andar pela rua cheirando a Sundown e cloro. As crianças saem de suas cavernas e dão risadas absurdas enquanto empinam papagaios. Os shoppings exibem suas luzinhas questionáveis. As famílias vão se aproximando, planejando amigo oculto, esquentando o peru... E você ali, com 15 textos pra ler, seminário pra preparar e todo o rancor do mundo.

Mas não era esse o problema. Acabei me perdendo com essa história de férias. O problema é que, independente da data, as coisas estão uma zona.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Mixtape - Polivox

Tenho feito cada vez menos. Como tudo na vida.

Tenho escrito menos, estudado menos, lido menos, dormido menos, comido menos e me importado menos. Tenho tido, assim como Fernando Sabino em Cartas Perto do Coração, uma overdose de particípios.

Então parei de me preocupar tanto com as mixtapes, criar contra-capas com a lista de músicas e disponibilizá-las para download. Primeiro porque vocês não valorizam o esforço e segundo porque chega uma hora na vida em que tudo parece um pouco demais. E a gente começa a cortar gastos (inclusive os de energia).

Coincidentemente, as 14 músicas desta mixtape são gravadas com menos instrumentos que o normal. Na verdade, a maioria das faixas consiste em arranjos de vozes e uma pá de sons produzidos pela boca. Tem Adriana Calcanhotto, BR6, Trio Esperança e umas versões ótimas de Beatles, Gotye, Fun e Rihanna.


Tem mais mixtapes aqui.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

W3


Eu não devia te dizer, mas essa chuva, essa janela, botam a gente comovido como o diabo.

Não tem parado de chover. E isso é bacana, porque alaga a W3 e oferece novas experiências de vida aos brasilienses (que, devido a evolução da espécie, já estavam criando duas corcovas maravilhosas nas costas), mas também é ruim, porque com a chuva vem essa camada espessa da mais pura melancolia disponível no mercado.

E tenho passado as noites mergulhado em mixtapes com as seguintes tags: sad, rain, heartbreak e loneliness...  E ouvindo Bookends até que o último traço de felicidade tenha sido exorcizado da minha alma. Porque tem isso, né? Além da chuva, que já pede pelas lágrimas, tem eu, que nasci com essa vocação absurda pro sofrimento.

Ando olhando pra baixo, pra não molhar os óculos, afundo o pé em poças oceânicas, chego molhado na casa dos alunos; e tudo vai ficando apático depois das dez. E eu perco a vontade de ler, de escrever, de estudar... Só consigo permanecer entre uma série e outra, maldizendo novembro e pensando no tanto de coisa que ainda tenho pra amanhã.

Os tênis estão todos molhados. E não tem sol pra secar.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Complexo de Walter White

Estava sentado no ônibus às quatro da tarde, num estado de quase sono, quando recebo um tapa na cara. Desses com a mão aberta. Abri os olhos pensando que esse era um jeito no mínimo curioso de abordar um conhecido, mas a figura que vi de pé na minha frente não lembrava nem vagamente qualquer amigo. E apontava um revólver pra minha barriga.

Pediu o celular, estava visivelmente nervoso. E eu, com uma calma estranha, entreguei meu aparelho robusto de 50 reais. "O outro!", "Que outro? Só tenho esse...". Mas eu sabia que ele falava do iPod touch que eu trazia carinhosamente no bolso da calça e que, de longe, parece mesmo um iPhone. Por alguns segundos fiquei perdido nesse raciocínio e o cara se enfureceu. "Você quer morrer?". Agora o cano da arma encostava a minha testa. E eu olhando aquilo tudo só conseguia pensar que, por favor, eu assisto Breaking Bad! Lido com coisa muito pior que uma arma na cabeça.

Estendi o aparelho como quem entrega um filho e adverti: "Mas é um iPod". Acho que ele não ouviu. Saiu correndo, limpou o caixa, mandou o motorista parar, sumiu na BR. Quando tudo acabou, vi que a mulher do meu lado chorava copiosamente.

Eis uma que nunca assistiu Breaking Bad.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Beto e Inês

Fui num sebo gastar o dinheiro que não tinha e acabei comprando o roteiro de Cenas de um Casamento (meu filme favorito do Bergman), publicado pela Nórdica em 1973, por uns 15 reais. E uma das coisas mais gostosas de comprar livros em sebos é a certeza de que aquilo já passou pelas mãos de outras pessoas. Ao contrário das roupas de segunda mão, que se enchem de cheiros e bactérias alheias, os livros vão se enchendo de gotas de café, marcações inconvenientes, umas lágrimas, uns rabiscos e uns rancores. As dedicatórias então... Confesso que procuro por elas. Se forem muito boas, já vale a compra, independente da obra.

A minha edição de Cenas de um Casamento Sueco veio dedicado à Inês. Antes de começar a fuxicar a vida alheia, é preciso lembrar que esse filme conta a história de um casamento em decadência. Tem umas verdades absurdas, destrói toda a construção familiar e faz a gente pensar que o melhor mesmo é ficar sozinho. Os protagonistas, Marianne e Johan, se amam, mas as coisas vão caminhando de forma inexplicável rumo a um abismo de insultos e tapas na cara.

E em 1976, Goiânia, surge esse homem, Beto, que, tomado de desespero e amor, resolve comprar o livro e dar pra esposa. Como uma última tentativa de salvar o casamento. Talvez a leitura provoque em Inês um insight tão violento de identificação que as coisas realmente se resolvam.


"É necessário enfrentar os problemas a tempo", diz ele. Mas agora, em 2012, vendo o livro jogado numa prateleira de sebo, só consigo pensar em duas explicações pro destino dos dois. Ou os problemas foram realmente resolvidos e de tal forma que o livro perdeu por completo sua utilidade, ou Beto fez sua tentativa tarde demais.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Autoestima Baixíssima, Ego Gigante


Ruby Sparks, o filme novo dos diretores de Pequena Miss Sunshine, poderia ser só mais uma dessas obras com pretensão metalinguística, roupagem indie e final previsível, o que de fato é; mas também é um filme adorável, com um Paul Dano afetado, uma trilha sonora deliciosa e um roteiro, no mínimo, interessante. Na história, Calvin é um jovem escritor de sucesso que, em bloqueio criativo, começa a fazer um trabalho de redação a pedido do seu terapeuta, onde precisa criar uma garota que goste do seu cachorro de estimação apesar da sua fobia social e seu hábito de mijar como uma fêmea. Mas as coisas fogem um pouco do controle e Ruby Sparks, essa menina idealizada, interessante e carismática, de uma hora pra outra cria vida e passa a morar com Calvin.

O absurdo da situação é explorado ao máximo quando Calvin descobre que pode fazer de Ruby o que quiser. Basta escrever que ela está feliz, por exemplo, pra que ela passe os dias seguintes rindo pras paredes. Se ele quer que ela sinta sua falta, é só datilografar e Ruby vira uma namorada grudenta e possessiva. Exatamente como qualquer escritor. E então o filme entra numa intrigante discussão sobre os limites éticos de se relacionar com alguém que você pode manipular e o que isso significa pro seu ego.


Em uma cena específica, a ex-namorada de Calvin diz que ele não consegue se relacionar com ninguém além de si próprio. E lá está Calvin pra provar o contrário: namorando uma criação da sua mente. Uma mulher que é exatamente como ele quer e faz exatamente o que ele escreve. Toda essa masturbação criativa é tão triste que só me fez lembrar da Hannah, protagonista de Girls. Ela também é escritora e, como bem descreveu uma amiga minha, sofre de autoestima baixíssima e ego gigante. Uma combinação tão corrosiva que, por si só, transformou toda uma geração cheia de potencial nesse monte de gente que fica sofrendo no Twitter às duas da madrugada.

Porque somos geniais, não há dúvidas. O problema é que também precisamos de alguém gritando isso o tempo todo.

Só pra confirmar.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Sobre Meninos e Cães


Eu tinha 8 anos quando você nasceu. Redondo, peludo e com uma manchinha branca na cabeça. Eu só conseguia pensar que nunca existiria um cachorrinho tão adorável, engraçado e sem jeito. Éramos duas crianças e tivemos uma infância maravilhosa juntos. Mas você cresceu, ganhou personalidade e definiu quais eram suas prioridades na vida: comida, nossa companhia e bolinhas de tênis (mas a ordem pode estar errada). Ninguém correu tanto, Buddie. Você era incansável! Jogar a bolinha pra você pegar era não só uma das coisas mais divertidas do mundo como também uma das mais surpreendentes. Acho que seus genes de caçador britânico se manifestavam de tal forma que nenhuma barreira era suficientemente grande. Nunca vou esquecer quando a bolinha caiu no lago do parque e você, sem pensar duas vezes, pulou, nadou e voltou com ela na boca, like a boss.

Sabe? Ter um cachorro muda a vida da gente. Você foi a primeira criatura que parecia depender de mim e que me amava sem esperar absolutamente nada em troca. E era recíproco. Poucas coisas vão ser mais gostosas que seu abraço, quando você ficava sobre duas patas, eu agachava e, de um jeito mágico, nos abraçávamos exatamente como dois humanos. Poucas coisas vão ser mais tristes que seus uivos pro caminhão de gás e sua decepção posterior, ao perceber que o som de Pour Elise já havia desaparecido no fim da rua e não tinha mais necessidade de continuar cantando. Poucas coisas vão ser mais brilhantes que seus olhos. Um brilho que acabou cedo demais.

A catarata precoce tornou tudo opaco e sem vida e as coisas ficaram bastante confusas. Postes, degraus e buracos começaram a surgir e mudar de lugar sem o menor aviso. Era difícil. E logo os ossos começaram a reclamar, porque passar a vida correndo atrás de bolinhas de tênis também tem seu preço. Os últimos meses devem ter sido difíceis. Desculpa pela distância, viu? Desculpa. Mas acho que foi melhor assim. Eu não conseguiria te ver partir.

E você foi tão forte, cara! A morte já tinha te visitado outras duas vezes, mas parece que comer veneno e passar 10 minutos na boca de um pit bull não foram suficientes pra te derrubar. (Tem certeza que você é um cachorro e não, sei lá, um touro?) A única coisa capaz de te vencer foi mesmo o que vence todos nós: o tempo. Essa força invisível, violenta e desgraçada que vai destruindo nosso corpo, mudando nosso rosto e levando quem a gente ama.

Hoje eu só queria agradecer por esses treze anos de vida do seu lado. Pela sua fidelidade, carinho e amor sem igual. Por conseguir transformar todos os seus instintos e toda a sua irracionalidade em compreensão. Porque nem toda a ciência do mundo vai conseguir explicar nossas conversas. Obrigado por estar sempre lá.

Dizem que na terça-feira uma criança jogou a bolinha pra você buscar. Espero que você tenha se divertido com ele. Tudo que eu queria agora era ser esse menino e poder te jogar a bolinha mais umas duas ou três vezes antes de sentar com você embaixo de uma árvore pra discutirmos como a vida não faz sentido e é cheia de injustiças. A maior delas, sem dúvidas, é deixar um coração tão bom quanto o seu simplesmente parar de bater.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Estejam Online


A carência fica bem mais evidente na madrugada, porque rola um desespero, né? Quatro da manhã e as chances de encontrar alguém interessante online são mínimas. O coração acelera só de pensar na possibilidade de um vácuo infinito que duraria até o dia seguinte, quando as pessoas aos poucos acordariam e (sem muita paciência) ouviriam minhas mazelas. E quase nunca há o que dizer. É só a necessidade de ser ouvido, de perceber algum tipo de comunicação e sentir que você não é o único no mundo.

Durante muito tempo pensei em morar sozinho como um ideal de futuro perfeito. Sempre me achei muito pouco carente de companhia. As coisas que mais me agradam são, em sua maioria, entretenimentos solitários. E minha maior preocupação era ter um bom livro à disposição no criado mudo. Não sei mesmo quando foi que comecei com essa necessidade de comentar o tal livro com alguém. E de marcar o filme como visto no Filmow, o episódio como assistido no Orangotag... E trocar as experiências. Nem sei se faço isso pela troca mesmo, ou pelo desejo infantil e canalha de ser ouvido.

A internet fez uma coisa péssima: facilitou a interação. Facilitou de tal forma que a gente nem sabe se aquilo pode ser considerado interação. Assim fica impossível levar a sério as amizades. Ninguém está realmente fazendo alguma coisa pelo contato. Basta permanecer, trocar um ou dois emoticons e ir dormir se sentindo popular como nunca. Mas não queria entrar nessa da guerra de egos, da vaidade louca... Não. Só queria pesquisar um pouco o que tem motivado meus surtos de carência online.

Porque pior que ser carente só mesmo ter noção desse estado. E quanto mais tento me controlar, guardar as fotos e calar a boca, mais tweets desnecessários, publicações vergonhosas e posts como este.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Transtornos Afetivos

Quando dei por mim, tava pesquisando sobre transtornos afetivos e me encaixando em todos os perfis. Tô com esse novo vício de estudar quadros patológicos da psicanálise como se fossem signos. E ir descobrindo que não só minha família, mas também meus amigos e toda a humanidade são bem doentes.

Arrumaram pra mim os telefones de uns psicanalistas com boa fama. Dizem até que o plano cobre.

Talvez eu marque uma consulta.

Não sei por onde começar.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Problemas com o Miocárdio


Nada pode ser mais prejudicial à arte que viver. Eu tenho tido particular dificuldade em encontrar ânimo pra ficção e pra toda a concentração e apreciação que ela exige. Porque tudo começou a parecer bastante ridículo agora. A gente vai ganhando certa noção do absurdo que é trabalhar por horas numa história que não tem a menor razão de ser e começa a se questionar se seria realmente válido trazer isso ao mundo. É como ter filhos. Ninguém sente falta deles enquanto não existem. E até quando existem, às vezes, pensamos se não teria sido melhor deixá-los onde estavam.


E eu tô cada vez mais relapso com os contos e com esse futuro provável romance que tenho guardado na cabeça e nuns papéis espalhados pelo criado mudo. Lirismo passou longe. Nunca estive tão entregue ao cinismo dos novos tempos e não sei o que fazer pra recuperar a sensibilidade. A ansiedade tá pulsando e destruindo toda e qualquer inspiração. Ninguém mais tem tempo pra pagar de Shakespeare.


Escrever no blog é um pouco mais fácil. Primeiro porque existe audiência (ridícula, mínima, mas ainda assim uma audiência) e segundo porque isso aqui é meu templo de autoafirmação. É fundamental ter um lugar pra escrever três ou quatro parágrafos por semana dizendo coisas que te identificam como a pessoa que você quer ser. Ou a pessoa que você gostaria que os outros pensassem que você é. É um jeito de economizar com, sei lá, psicólogo? Namorada? Drogas?


Posso dizer que hoje começo a entender os babacas da escola. Aqueles meninos que, minha nossa, preferiam jogar bola ou beijar meninas no recreio em vez de ir pra biblioteca ler Nelson Rodrigues. E como era divertido passar por eles com o livro debaixo do braço e uma sensação absurda de superioridade. Mas eles só estavam num outro nível. Não inferior, nem superior, mas diferente. Um nível onde as emoções são mais orgânicas e o palpitar no coração vem direto do toque, do suor, da saliva... E pra alguém que durante muito tempo só sentiu o coração bater mais forte por causa dos livros e filmes, esse novo estilo de vida tem sido um grande catalisador de infartos.