sábado, 28 de julho de 2012

E agora, José?


Durante muito tempo esperei por essa viagem pra Belo Horizonte, exatamente como uma criança espera pelo Papai Noel. Fantasiando, é claro, uma perfeição que nunca existiu na capital mineira. Voltei essa semana e me vi completamente perdido, sem saber onde enfiar toda aquela ansiedade que antes tinha um alvo fácil. O melhor da festa é mesmo esperar por ela.

Agora me pego revivendo tudo com uma nostalgia absurda e uma melancolia torturante. Tudo mitificado, muito maior e muito melhor do que realmente foi. E só penso naquelas pessoas com quem dividi momentos de extrema intimidade e das quais não sei nem o nome. Viraram rostos cada vez mais desfocados e impessoais, o que me permite confirmar que eram lindas, já que as únicas testemunhas são meus olhos míopes e cansados de três da manhã. Onde elas estariam agora? O que fazem numa tarde de sábado?

Na Wikipédia tá escrito que nostalgia é um sentimento que surge a partir da sensação de não poder mais reviver certos momentos da vida. E eu tenho esse hábito de pegar a nostalgia pelo braço, andar com ela pela casa, oferecer meu travesseiro, etc. E ela adora, né? Se esparrama... Acaba ocupando mais da metade do colchão e me reservando um espaço mínimo entre a fronha e os livros que não param de se acumular no criado mudo.

Passo dias com uma enorme sensação de E agora, José? que, pra mim, é a melhor descrição de nostalgia instantânea. É aquilo de querer abrir a porta e não existir mais porta. De querer voltar pra Minas e Minas não há mais.

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

 Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…

Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 24 de julho de 2012

Debaixo dos Caracóis do Seu Cabelo


Em seu novo filme, a Pixar se rende aos contos de fadas e à forma clássica de contar histórias, mas isso não significa que Valente seja ruim ou dispensável. Muito pelo contrário. A história de Merida, uma princesa rebelde, e sua relação com a mãe controladora são um primor visual e narrativo.

É impossível assistir Valente e não reparar nos cabelos da protagonista. Não só pela animação deslumbrante, que faz cada fio ruivo ter vida própria, mas porque o cabelo surge como uma metáfora óbvia para o comportamento das personagens. Merida mantém suas madeixas encaracoladas ao vento, como símbolo do seu anseio por liberdade, já sua mãe tem cada fio sob controle, num penteado simétrico e perfeito. Logo fica claro que as diferenças não se resumem apenas ao ramo capilar.


Valente é um filme sobre relacionamento entre pais e filhos (tema que a Pixar já havia abordado em 2003, com Procurando Nemo). Só que em vez de um pai superprotetor que vive sob o medo de perder seu unigênito, aqui o conflito se dá pelo excesso de expectativa de uma mãe e sua dificuldade em respeitar a liberdade da filha. Nas duas histórias fica clara a transformação dos personagens, como consequência de uma trajetória de autoconhecimento, mas em Valente essa transformação é literal.

Com personagens carismáticos e momentos engraçados, o novo filme da Pixar deve ser interessante tanto para os pais (coisa que Carros 2 não foi) quanto para os filhos (coisa que Wall-E não foi). E esse é um equilíbrio que, inevitavelmente, reduz a força da trama. Por mais bem executado que seja, um conto de fadas tem suas correntes e todo filme que opte pelo gênero precisa escolher se vai quebrar as regras e virar uma paródia (o que Shrek fez) ou respeitá-las e ficar limitado a um certo campo narrativo. Valente escolhe a primeira opção e, mesmo aprisionado, consegue ir longe.


PS: Todo mundo já sabe que em filme da Pixar não dá pra chegar atrasado. O curta que antecede Valente é um banquete visual (assista em 3D) e tem na sua ideia uma simplicidade e ambição comum a outros trabalhos do estúdio, como Parcialmente Nublado.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Apartamentos em Earlybird

A gente percebe que está na hora de morar sozinho quando começa a reparar demais nas casas e apartamentos dos outros. E umas coisas que nunca tinham passado pela sua cabeça tornam-se dúvidas relevantes. Quanto custa uma geladeira? Quanto custa um microondas? Quanto tempo dura um botijão de gás? Quanto tempo dura um rolo de papel higiênico? É possível pagar uma lavanderia todo mês? É possível pagar uma TV à cabo? Quantos pacotes de miojo se pode comer antes de uma infecção alimentar?

É engraçado, porque nunca mais consegui ver um filme ou série sem reparar nas moradias dos personagens e ficar classificando os cômodos em possíveis ou impossíveis. Por exemplo: nos filmes do Woody Allen os apartamentos são sempre lindos e aconchegantes, mas alguns deles são plenamente possíveis (contanto que você não ligue pras marcas e crie uma decoração genérica baseada somente no aspecto visual dos cômodos). Já nos filmes da Nancy Meyers todos os cenários parecem tirados direto de uma edição da Casa Cor. Aí é melhor nem perder tempo sonhando.

Girls, a série nova da HBO, conta a história de quatro meninas que moram em Nova York, mas, ao contrário das personagens de Sex and The City, nunca têm dinheiro, usam roupa de marca ou frequentam restaurantes badalados. São meninas que até pouco tempo eram sustentadas pelos pais, mas agora precisam arcar com aluguéis exorbitantes (estamos falando da capital do mundo), empregos ridículos e namorados igualmente ridículos. E a série é cheia desses apartamentos possíveis (considerando Brasília, não Nova York, é claro). Assisti a primeira temporada com os Classificados do lado.

E meio que comecei a organizar umas referências do que seria um apartamento ideal. Separei essas fotos do Tumblr e cheguei à conclusão de que minha casa dos sonhos é um lugar pequeno, cheio de livros e fumaça, com cores pouco saturadas e um filtro do Instagram.




domingo, 1 de julho de 2012

O Manoel Carlos do Mundo


Fui conferir ontem o novo filme do Woody Allen. Saí de casa logo depois do almoço e peguei um ônibus pro Cine Cultura, no Liberty Mall, onde a primeira sessão estava marcada pras 14h. Cheguei e dei de cara com o aviso de que as cópias de Para Roma, com Amor não haviam chegado a tempo (parece que o avião que trazia as películas sofreu um atraso) e o filme só seria exibido na semana seguinte. Indignado, tive que engolir o choro e ir pro outro lado da cidade, onde a única sessão disponível era numa sala VIP. O ingresso custava assustadores 44 reais e se servia pipoca com azeite de oliva. Só não fiquei mais revoltado porque a poltrona é realmente maravilhosa e o filme, na falta de outro adjetivo, um pitéu.

Confesso que ainda prefiro o Woody Allen de New York e que tenho certa preguiça de cidades históricas como Roma, mas entendo que ele faz isso por dinheiro e nunca subestimo sua capacidade de transformar um projeto de incentivo ao turismo em pequenas obras de arte (como ele fez com Vicky Cristina Barcelona e Meia-Noite em Paris, por exemplo). Dessa vez a capital italiana é o palco de quatro histórias de amor completamente independentes, costuradas pela inútil observação de um guarda de trânsito.


Costumo dizer que Woody Allen é o Manoel Carlos do mundo (ou que o Manoel Carlos é o Woody Allen do Brasil, dependendo da importância que você dá pra cada um deles). Porque ambos criam essa atmosfera lânguida de cenários encantadores e personagens quase etéreos que passeiam por restaurantes charmosos e hotéis refinados, conversando, mentindo e cometendo adultério. Em Para Roma com Amor é tudo tão classudo que você acaba nem ligando pra algumas obviedades como a história da celebridade instantânea (Roberto Benigni) ou da prostituta que precisa fingir que é uma esposa recatada (Penélope Cruz).

Os pontos altos do filme são a atuação do próprio Woody Allen (que, felizmente, continua hilário) e o triângulo amoroso envolvendo um estudante de arquitetura (Jesse Eisenberg), sua namorada (Greta Gerwig) e a melhor amiga da sua namorada (Ellen Page). Nesta última, o diretor aposta no realismo fantástico, onde situações completamente plausíveis e verossímeis são intercaladas com absurdos obviamente improváveis. E ele faz isso de forma natural, sem causar estranhamento ou perder a credibilidade.

Para Roma, com Amor não é um dos grandes filmes de Woody Allen, mas é preciso lembrar que estamos falando de um cara que faz um filme por ano e que, ao contrário dos seus colegas, mantém um invejável padrão de trabalhos bons, ótimos ou excelentes. Ainda assim, essa é uma viagem que vale a pena. Esteja certo de que você vai se divertir com um filme leve e agradável, que não subestima sua inteligência, e, se tiver sorte, ainda pode fazer tudo isso enquanto come uma pipoca com azeite.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Quão Bregas Nossos Sonhos Podem Ser


Quando assisti ao primeiro episódio de Glee, a série ainda não era conhecida. Lembro de ter lido alguns comentários na internet sobre o que parecia ser o programa mais cool do momento e ficado curioso, porque qualquer coisa que envolvesse adolescentes ou música me interessava muito. Comecei a ver sem fazer ideia do que esperar e, quando dei por mim, estava chorando na frente do computador. Isso foi em 2009, ano em que Don't Stop Believing liderou o ranking de execuções no meu iPod.

Muito tempo passou, a série se consolidou como um sucesso teen, ganhou fãs, vendeu discos, cresceu e piorou. A segunda temporada foi difícil de assistir. Com um enredo cada vez mais perdido, onde as tramas eram visivelmente manipuladas com o único objetivo de inserir canções famosas no repertório, Glee parecia não ter mais salvação. Era difícil encontrar um episódio tão agradável quanto os da primeira temporada, onde tudo era mais natural e verdadeiro. A terceira também não foi excelente. Alguns personagens muito bons sumiram, outros muito ruins ganharam destaque e as coisas foram mudando de lugar. Por isso (e pela má vontade de uma gente um tanto implicante) a série virou piada. E o sinismo foi tomando conta de tudo como uma epidemia.

Ontem terminei de ver a terceira temporada e fiquei feliz por ela ter acabado com dois dos episódios mais bonitos de todo o programa. Alguns dos personagens principais estavam se formando, então o clima era de despedida; e alguns flashbacks do primeiro episódio fizeram todo aquele encantamento de 2009 voltar. Pude perceber como foi legal acompanhar esses meninos rejeitados, humilhados e confusos, e suas descobertas através de um coral numa escola pública do interior dos EUA. De um jeito ou de outro, cada um deles havia mudado, aceitado suas diferenças e transformado suas vidas. A treinadora casca grossa agora torcia pelo sucesso do grupo, a orientadora paranóica resolveu dar uma chance ao que antes considerava sujo, o pai homofóbico dançou Single Ladies pro filho gay e os valentões, em vez de jogar raspadinhas na cara dos excluídos, jogaram confetes.


Acho que Glee, por mais problemática que seja, carrega consigo alguns méritos. Não só por ter sido a primeira série musical a dar certo em anos, mas por ter dado voz a toda uma geração de jovens atormentados pelo bullying que, através de Finn, Kurt, Santana, Artie ou Mercedes, puderam sonhar com o dia em que não precisariam mais se esconder. E ninguém melhor que Rachel Berry pra traduzir tudo isso. A menina com mania de estrelato, que gostava de colar estrelinhas douradas ao lado do seu nome e era ridicularizada por quase todos os colegas, termina sua trajetória com uma vaga pra estudar na Broadway.

Todos nós tivemos alguns desses sonhos cafonas quando crianças. Ainda não tínhamos sido contaminados pela epidemia do sinismo, nosso futuro parecia brilhante e nada era tão difícil. Com o tempo, a gente vai se esquecendo de lutar, vai andando pelo caminho mais confortável e quando percebe, não existe mais sonho nenhum. Nos damos por satisfeitos com nossos gabinetes abafados e trabalhos desinteressantes e seguimos com a vida, buscando aspirações menores e mais fáceis. Somos todos Rachel Berry. Tínhamos sonhos ridículos e colávamos uma estrela dourada ao lado do nosso nome, exatamente como ela. A diferença é que no último episódio da nossa terceira temporada, em vez de ir pra New York, preferimos ficar em Ohio.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Olhos nos Olhos


Gosto particularmente de como o universo se transforma depois de certa hora da madrugada. Não é que a nossa percepção do mundo fique alterada, mas é que o próprio mundo vai se alterando e se revelando todo cheio de percepções sobre nós. E o silêncio é tanto que qualquer um pode ouvir meus pensamentos, vagando pelas cobertas
. E depois das 3 eles eclodem como berros, acordando o Caetano no quarto ao lado.

Às vezes vou pra cama com uma música, pra abafar as memórias, e elas sempre me parecem bem mais reveladoras quando sussurradas no meio da noite. Saem do fone de ouvido feito lanças, furam meus tímpanos e jogam ali dentro todas aquelas verdades inconvenientes que a gente cria pra encaixar uma canção aleatória na vida da gente. Pra ver se consegue explicação pra esse tanto de erro absurdo e infantil.

Ontem perdi alguns minutos ouvindo uma coletânea da Maria Bethânia e encontrando milhares de respostas, concordando com quase tudo e sofrendo mais que o normal por umas letras bobas, quase cafonas. Percebi  como Tatuagem é linda, como Explode Coração é pornográfica, como é difícil dormir depois de Minha História e como Olhos nos Olhos é a coisa mais cruel que o Chico já escreveu.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Memórias Póstumas de Brás de Oliva Domingos


Não sei ler quadrinhos. Quando abro uma página meus olhos são automaticamente sugados pelas letras e as imagens assumem um caráter meramente ilustrativo. Fica parecendo livro infantil, não levo a sério, etc. Até hoje só tinha dado certo com Calvin e Haroldo. Mas também, temos um garoto de seis anos (visivelmente esquizofrênico e perturbado) e seu tigre de pelúcia. Não tem como isso dar errado. Aí comprei minha primeira graphic novel (nome fresco pra história em quadrinhos de gente grande) por indicação de dois amigos com o gosto confiável.

Continuo achando a leitura desconfortável e preferindo apenas letras ou apenas desenhos, mas não posso deixar de reconhecer o mérito de Daytripper. Os quadrinhos são de dois irmãos gêmeos, os brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon, e foram lançados primeiro no exterior e depois traduzidos para o português. Fala sobre a vida de um romancista que trabalha como escritor de obituários pra um jornal da cidade. Não dá pra falar muito sobre a trama, porque a estrutura é particularmente sensível a spoilers, mas não espere uma narrativa das mais clássicas. O livro brinca com você desde o primeiro capítulo e fica clara a intenção de te fazer abrir a guarda e permitir que a obra ultrapasse as barreiras físicas.


Boa parte do encanto de Daytripper se deve a exuberância visual dos traços de Fábio Moon e Gabriel Bá. Cada página é construída com a mesma paleta de cores, pra tornar a leitura ainda mais sensorial e o desenho é levemente despojado, mas sem deixar os detalhes de lado. Tem sempre uma xícara de café, uma fumaça de cigarro ou um porta-retratos pra tornar o cenário crível e nos aproximar do protagonista.

Por tratar de temas muito grandiosos: como amor, vida e morte (Severina), Daytripper às vezes não consegue evitar a cafonice. Alguns trechos parecem tirados de livros de autoajuda, o que, felizmente, não compromete o enredo. Esse se mantém coerente e interessante até a última página (belíssima, por sinal). Terminei de ler satisfeito por ter vencido esse preconceito bobo e conseguido curtir um livro com mais de 200 páginas de quadrinhos e balões. Acho que até ensaiei umas lágrimas no capítulo final.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Mas o diabo do tambor...


Estava lendo esse conto do Machado de Assis pra uma prova que, graças à greve das federais, não aconteceu; e tive espasmos de prazer com o último parágrafo. A história é desse menino, o Pilar, que perdeu uma moeda de prata, conquistada num negócio mal sucedido com Raimundo (seu colega interesseiro), por causa de um menino dedo-duro chamado Curvelo. O professor, indignado com Pilar e Raimundo, não pensou duas vezes e jogou a moeda pela janela da escola. No dia seguinte, Pilar acordou com o firme propósito de encontrá-la antes de ir pra aula:

"De manhã, acordei cedo. A idéia de ir procurar a moeda fez-me vestir depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol magnífico, ar brando, sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por sinal que eram amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Saí de casa, como se fosse trepar ao trono de Jerusalém. Piquei o passo para que ninguém chegasse antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças. Não, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua...

Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor... Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também ao som do rufo, creio que cantarolando alguma cousa:

Rato na casaca... Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor..."

E como eu entendo o Pilar! Aceito perfeitamente que ele perca todo e qualquer propósito quando confrontado com o barulho dos tambores. E até me compadeço. Porque meus tambores têm sido cada vez mais irresistíveis. É recorrente isso de sair de casa com um objetivo claro e tempos depois dar comigo na Praia da Gamboa, maltrapilho.

Ontem meu tambor foi o Song Pop e as 30 pessoas incríveis e insones que jogam comigo. Amanhã pode ser uma série, um romance barato, o Tumblr, Google Reader, YouTube... São muitas as chances de seguir marcha na direção oposta. Porque o dia está lindo, visto calças amarelas e eles estão rufando.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Sobre Velhas Fofas e Noites Refrescantes

Hoje na rodoviária, estava eu no meio da fila pro 110, ouvindo o podcast do Cinema em Cena e me policiando pra não comprar outro pastel da Viçosa, quando chega uma velha e, disfarçadamente, se enfia na minha frente. Olha... Nem era o caso de atendimento preferencial, porque visivelmente a dona não tinha mais de sessenta anos. Era caso de safadeza pura e simples. E fico tão atônito, tão desconjuntado quando essas coisas acontecem que nem sei o que fazer. Passei uns dois minutos imóvel, olhando pra nuca dela com tanta força que me surpreende ela não ter quebrado o pescoço. Mas o ódio foi me subindo, silencioso e rastejante, e não aguentei. Dei uma batidinha em seu ombro e perguntei: "moça, cê tava na fila?", ao que ela respondeu "estava sim" e virou pra frente de novo. E foi isso. MAS ELA NÃO ESTAVA! Eu vi, não sou louco. Agora, o que se pode fazer? Eu que não ia armar barraco por causa de lugar em fila de ônibus. Já era humilhação bastante estar nela.

O problema é que sou terrivelmente rancoroso. Tô até agora pensando na velha e em diversas formas de tortura que envolvem desde a catraca do 110 à caldeira de óleo onde os pastéis da Viçosa são fritos. E fico morrendo de ódio da minha passividade diante dos absurdos cotidianos. Porque eu nunca falo. E depois passo o dia repetindo o discurso que eu deveria ter feito e pensando que, oh, seria lindo se eu tivesse tido coragem.

Mais tarde tomei a maior chuva de toda a minha vida. O trajeto era da parada de ônibus ao prédio do meu aluno. Uns 300 metros. Mas o céu desabava em água corrente e tive que atravessar a W3 de navio (o qual naufragou, devido a um iceberg engraçadinho e minha namorada ficou em cima de uma porta e eu morri congelado no meio da rua. Foi triste). Ainda passei uns minutos me enxugando antes de entrar no elevador e pensando em que piadinha eu faria para que a mãe do meu aluno não ficasse com (muita) pena de mim e me oferecesse uma blusa velha do menino.

Aí chego em casa com esses dois rancores enormes. A velha fura-fila e o momento Arca de Noé. Não sei o que mais me entristece. Minha impotência diante de uma velha pilantra ou minha impotência diante de São Pedro.

PS1: No último fim de semana escrevi um conto novo no Crimes por Extenso. É a história de duas crianças que acabam tendo que se esconder no mesmo lugar durante um jogo de esconde-esconde. Aí vai um trecho:

"Aos poucos Luana percebeu o que lhe ocorria e com espanto se deu conta do absurdo que era estar espremida com um garoto no meio do mato. Pra logo mais, não se espantar. E até gostar. E achar estranho. Abusado. Tinha dez anos e estava espremida com um menino no meio do mato."

PS2: Também fiz um Tumblr pra poder reblogar as coisas legais dos outros e perder ainda mais tempo com uma atividade inútil e incrivelmente prazerosa. O nome é Festa do Grand Monde (e só pode entrar quem for da alta sociedade francesa, fiquem avisados).

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Habemus Papam


Quando um Papa morre, os cardeais se reunem em uma sala secreta no Vaticano e realizam uma votação para que o novo líder da Igreja Católica seja escolhido. Pelo que entendi, o novo Papa só é eleito se atingir uma porcentagem dos votos, então se a eleição for bem equilibrada, ela é anulada e refeita, até que todos entrem em um consenso (ou até que o Espírito Santo ilumine suas mentes) a apenas um homem receba a maior parte dos votos. Esse homem, a partir de então, recebe sua roupa especial e passa a assumir a responsabilidade de guiar e abençoar milhares de fiéis ao redor do mundo. Dessa vez Melville foi o eleito, mas na hora de se apresentar à multidão de fieis que aguardava o resultado da votação, ele travou, entrou em pânico e pediu por ajuda. Habemus Papam (filme italiano selecionado para o Festival de Cannes do ano passado e que, milagrosamente, resiste em cartaz em Brasília), conta exatamente essa história. Um Papa recém-eleito não quer assumir o cargo. E agora?

A situação hipotética é absurda, inusitada e poderia gerar um filme extremamente polêmico e cheio de alfinetadas à Igreja Católica, mas o diretor e roteirista Nanni Moretti foge dessa solução fácil e prefere mostrar a história de um homem que, assim como muitos de nós, sente-se inadequado à posição que ocupa. A certa altura do filme, Melville é encaminhado para uma terapeuta que, para facilitar o tratamento, não conhece sua verdadeira identidade. Na primeira consulta a psicóloga pergunta: "qual o seu trabalho, o que você é?". Ao que o Papa responde "sou ator".

Nunca pensei que algum dia eu pudesse me identificar com vossa santidade. E que eu pudesse entender perfeitamente o peso que aquele homem sentia e o tipo de pensamento que pode ter passado pela sua cabeça para que ele não conseguisse dar um passo a frente. O tipo de emboscada que, às vezes, nos assalta em pleno Vaticano, onde tudo parece perfeitamente santo. E poucas vezes senti tanta pena de alguém. Porque a gente até sabe o que é lidar com as expectativas de meia dúzia de parentes e amigos, mas não faz ideia do que significa decepcionar toda uma multidão.

Não curto filme com temática religiosa, não sou católico e não faço ideia se as coisas no Vaticano funcionam desse jeito, mas sei que é muito provável que em algum momento da história da Igreja Católica alguém tenha se sentido como Melville. Alguns conseguem pedir ajuda, outros continuam atuando pelo resto da vida.