quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ensaio Sobre a Estupidez


Uma amiga muito querida me emprestou esse livro do Martin Page, chamado Como Me Tornei Estúpido. Achei uma indireta um tanto ousada, já que ninguém sai por aí dando livros cujo título é Como Me Tornei Obesa pra gordinhas, mas tudo bem, super levei na esportiva. O livro fala de um jovem francês que sofre de uma inadequação causada pela sua própria inteligência. Pra ser bem aceito pela sociedade em que vive, e desfrutar de uma vida mais leve e digna, Antoine decide se tornar estúpido. Burro. Vazio. O que, sem dúvida alguma, é mais fácil que o oposto.

Tenho pensado muito nisso ultimamente, em como pensar dói. Nem falo de inteligência, mas de pessoas com uma sensibilidade maior em relação ao mundo. Pessoas mais profundas. Ser assim é doloroso. Porque enquanto a maior parte da humanidade está lutando pra vencer pequenos obstáculos cotidianos, sem conflitos ou crises de existência, nós estamos sofrendo, pensando a longo prazo, nos corroendo de ansiedade, buscando um sentido maior pra tudo. E esse sentido, se existe, ainda é muito abstrato.

O trecho abaixo é parte do manifesto que Antoine escreveu pra explicar aos amigos a necessidade de uma transformação.

"Eu tenho a maldição da razão; sou pobre, solteiro, depressivo. Há meses reflito sobre a doença de refletir demasiadamente e estabeleci com toda a certeza a correlação entre a minha infelicidade e a incontinência da minha razão. Pensar, tentar compreender nunca me trouxe nenhum benefício, mas, ao contrário, sempre atuou contra mim. Refletir não é uma operação natural e fere, como se revelasse cacos de garrafa e arames farpados misturados com o ar. Eu não consigo deter o meu cérebro, diminuir o seu ritmo. Sinto-me como uma locomotiva, uma velha locomotiva que se precipita nos trilhos e que não poderá jamais parar, porque o combustível que lhe dá a sua potência vertiginosa, o seu carvão, é o mundo. Tudo o que vejo, sinto, escuto se engolfa no forno do meu espírito e o impele e faz funcionar a pleno vapor. Tentar compreender é um suicídio social, e isso significa já não desfrutar a vida sem sentir-se, a contragosto, e ao mesmo tempo, uma ave de rapina e um abutre que despedaça os seus objetos de estudo. [...] Não é possível viver demasiadamente consciente, demasiadamente pensante. Aliás, observemos a natureza: tudo o que vive muito e contente não é inteligente. [...] Na natureza, a consciência é a exceção; pode-se até postular que ela é um acidente, uma vez que ela não assegura nenhuma superioridade, nenhuma longevidade particular. No quadro da evolução das espécies, ela não é sinal de uma melhor adaptação. São os insetos que, em idade, em número e em território ocupado, são os verdadeiros mestres do planeta. A organização social das formigas, por exemplo, é muito mais bem-sucedida do que jamais será a nossa e nenhuma formiga tem cátedra na Sorbonne."

Cada vez estou mais convencido de que só existem dois caminhos que levam à felicidade: o primeiro é a ignorância e o segundo, a fluoxetina.

5 comentários:

Marlon disse...

Adorei o post e blog! Essa é a primeira de muitas visitas. Seguindooo... o/

Visitem: www.nosminimosdetalhes.blogspot.com

Matheus Rufino disse...

Gente, super me identifiquei, já me matei tanto de pensar e refletir e questionar que ultimamente acho que venho tentado a todo o custo me tornar estúpido mesmo, e quando começo a me preocupar demais com alguma coisa simplesmente começo a cantar Let it Be, rs. Há uma leve sensação de estar caminhando sorridente para um abismo por não estar a todo o tempo tentando entender e resolver tudo, mas tem sido mais leve, ainda que não consiga fazer o cérebro funcionar somente para cumprir as funções essenciais como muita gente que é feliz por aí.

Gab disse...

Que delícia esse post. Adorei ler. Muitas vezes eu me deito na cama antes de dormir e fico pensando porque penso muito. Vivo sempre um passo a frente das outras pessoas. Penso demais, me preocupo demais, acho soluções demais. Queria ser menos assim, mas não me tornaria estúpida..afinal tudo tem seu lado bom.
Adorei aqui. Um beijo (:

Bruno Batiston disse...

Primeira vez aqui. Fui lendo, gostando, até mesmo do cover, e olha que não sou muito fã de Skank... Tive que parar aqui, para não correr o risco de desgostar. É mais ou menos o que acontece quando se deixa a batata fita para comer só depois de todo o resto que há no prato. À primeira vista, acho difícil eu me identificar mais do que neste ponto. Não sei se é só pelo Page, vamos ver... Mas gostei muito daqui.

Cris Linardi disse...

Post bacana, indicado por uma amiga. Não é possível ser feliz mesmo, estamos num mundo de loucos, rs. Rimos pra não chorar porque se dar conta da própria miséria dói.
Imagina se uma madame tem sua primeira epifania existencial lá na mesa do esteticista? Seria um Deus nos acuda.
Eu faço coro com meu grande amigo Renato, que certamente não conseguia se adequar de forma alguma: "tenho quase certeza que eu não sou daqui"!