sábado, 17 de agosto de 2013

Super Rich Kids


Se a gente parar pra pensar, Bling Ring não é muito diferente dos outros filmes da Sofia Coppola. Ele fala de jovens entediados como os de As Virgens Suicidas, mimados como Maria Antonieta e perdidos como a Charlotte de Encontros e Desencontros. Ele também oferece um olhar curioso (quase complacente) sobre o mundo das celebridades, coisa que Sofia tinha acabado de fazer muito bem em Um Lugar Qualquer. O roteiro é baseado na reportagem que Nancy Jo Sales escreveu para a Vanity Fair em março de 2010, contando a história dos adolescentes ricos de Los Angeles que começaram a invadir casas de famosos para roubar suas roupas, jóias e acessórios. A mesma reportagem deu origem a um livro que chegou no Brasil há pouco tempo. Eu sou bem fã da Sofia Coppola e já estava fascinado com a coisa toda o suficiente pra comprá-lo na semana do seu lançamento. Em pouco tempo comecei a pesquisar a vida dos envolvidos, ver suas fotos, seus vídeos, e ler tudo o que eu podia sobre o tema. Quanto mais eu lia sobre a Bling Ring, menos eu entendia as motivações daquela gente, o que só me deixava ainda mais interessado. Eu estava obcecado por adolescentes que eram obcecados por celebridades que eram obcecadas por si mesmas.

Esteticamente, Sofia Coppola é irretocável. Em Bling Ring ela aproveita as casas majestosas, os adolescentes ricos e as roupas de grife para criar pequenos momentos de contemplação. Depois de uma abertura frenética (e linda), a montagem começa a ficar cada vez mais parecida com a de seus outros trabalhos, até atingir o ápice, numa longa cena em que a casa de uma das vítimas é mostrada de longe, enquanto os ladrões andam pelos cômodos, enchendo bolsas, revirando gavetas, acendendo e apagando  as luzes. Em outro momento a câmera aparece imóvel, acima da escada, de um ângulo muito parecido com o das câmeras de segurança. São escolhas que fazem toda a diferença, quando se conta uma história em que o distanciamento é fundamental.


E o distanciamento é fundamental, porque estamos falando de uma geração vaidosa, egoísta e inconsequente. Marc, o único homem do grupo e principal cabeça por trás das invasões, materializa as três características em uma cena em que ele fuma maconha na frente do computador, enquanto ouve Drop It Low e se exibe para a câmera. Ele canta, dança, levanta a blusa pra mostrar um pouco do corpo, e nesse momento fica claro que eles não estão ali, roubando roupas e jóias, para mostrar pros outros. Quer dizer, é óbvio que é para mostrar pros outros, mas isso é só uma etapa para que o objetivo final seja atingido. A admiração alheia é o combustível que vai alimentar o bem estar desses adolescentes. A gente acaba percebendo que o distanciamento é fundamental, porque se chegar perto demais, corre-se o risco de topar com um grande nada.

E multiplicam-se as cenas de festas, em que tudo o que se faz é dançar, beber, cheirar cocaína e postar fotos no Facebook, para mostrar como se tem dançado, bebido e cheirado cocaína. É uma dinâmica que já não assusta ninguém, mas continua triste. E a coisa mais interessante de Bling Ring é a sua recusa em emitir julgamentos. Basicamente, Sofia Coppola usa da trilha sonora profunda e dos seus planos melancólicos para mostrar que esses jovens não são muito diferentes de mim ou você. Eles só tiveram a sorte de nascer em Hollywood.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Killing Them Softly


Festim Diabólico começa no exato momento em que dois amigos estão acabando de matar um homem enforcado. Assim que o corpo da vítima amolece no braço de um deles, os dois afrouxam as mãos, suspiram aliviados e permanecem imóveis e ofegantes, ao lado do cadáver. Um deles tira um cigarro do bolso, acende e traga com languidez, o outro pergunta se eles podem ficar ali mais um pouco, descansando do esforço físico. Podem. Ficam mais um pouco, descansam do esforço físico, escondem o corpo e mais tarde discutem o que cada um sentiu durante o ato.

Estou fazendo o curso que o CCBB oferece como parte da Mostra de Cinema Alfred Hitchcock (que  vai até 4 de agosto aqui em Brasília e reúne 35 longas do homem) e aproveitei pra ler o livro que traz a famosa conversa do Hitch com o Truff (pronuncia-se trâff), que comprei num sebo ano passado e nunca tive coragem de abrir. Nela, o mestre do suspense revela o segredo das suas cenas de assassinato: "film your murders like love scenes, and film your love scenes like murders". Por isso as mortes do Hitchcock são tão chocantes, porque subvertem o crime com o que há de menos subversivo.

Fiquei obcecado pelo assunto e comecei a perceber que alguns dos assassinatos do Hitchcock chegam a ser eróticos (é o que ocorre em Festim Diabólico, onde a tensão homossexual torna-se cada vez mais evidente), revelando que amor e crime se confundem não só na estética do filme, mas também em seu enredo.

Passei algum tempo procurando outros exemplos dessa modalidade de crime e cheguei a uma pequena lista com outras 5 cenas de assassinato filmadas como cenas de amor.

Drive - Cena do Elevador


A combinação perfeita entre trilha sonora, iluminação e brutalidade. Começa com um beijo e termina com Ryan Gosling esmagando a cabeça de um homem com o pé.

Assista aqui.

Carrie, A EstranhaA Morte de Margaret White


Acho que foi a cena mais traumatizante que vi na infância. Durante muito tempo pensei na morte de Margaret White antes de dormir. Em como ela tentou assassinar a própria filha, no sinal da cruz feito com a faca suja de sangue, no sorriso medonho e nos gemidos de dor e prazer a cada facada.

Assista aqui.

2001: Uma Odisseia no EspaçoHal 9000 É Desligado


Hal 9000 é o personagem mais carismático de 2001 e é também uma máquina. Todas as questões filosóficas sobre vida e consciência vêm à tona quando David é obrigado a desconectá-lo, enquanto ele canta uma canção de despedida.

Assista aqui.

Bastardos InglóriosShoshanna e Frederick


Com a trilha de Ennio Morricone ao fundo, Shoshanna e Frederick (ela, judia e ele, nazista) encerram sua curta história de amor e ódio. É como se Tarantino reescrevesse Romeu e Julieta.

Assista aqui.

Onde os Fracos Não Têm VezAnton Foge da Prisão


Poucas coisas são tão específicas quanto a cara que Anton Chigurh faz enquanto mata o policial em Onde os Fracos Não Têm Vez. Melhor que isso, só a viradinha que ele dá pra evitar que o sangue espirrado da garganta de outrem suje sua franja majestosa.

Assista aqui.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Retratos de uma Dedicação


Lendo esse texto da Renata Miwa sobre dedicação, comecei a pensar que a tendência é mesmo que ela desapareça. Se a gente entender dedicação como o cuidado, carinho e esforço para a realização de uma tarefa, fica mais fácil perceber como, cada vez mais, as coisas têm sido feitas nas coxas. Ninguém mais tem tempo pra se dedicar a nada. Se dedicar a um projeto só, a um conhecimento só, a um romance só...  Isso é perca de tempo. É comodismo. E a era do multitasking, que pretendia multiplicar o tempo, aumentando a abrangência, só consegue dividir os resultados, diminuindo a qualidade.

Obsessão é a nova dedicação. Muito em breve as pessoas só vão conseguir se dedicar a algum projeto quando estiverem obcecadas por ele. A obsessão nada mais é que uma dedicação natural, imperativa e impossível de conter. Você já deve ter conhecido um desses sujeitos que passam dias enfurnados num quarto, lendo, pesquisando e estudando o mesmo assunto; sujos, sedentos e famintos. Eles não fazem isso porque querem bons resultados. Fazem porque não conseguem não fazer.

Acho que esse fenômeno acontece porque nunca houve uma geração menos disposta. A nossa geração perdeu a capacidade de fazer o que não gosta. E isso é bom, porque expulsa o fantasma da frustração profissional da vida de centenas de adultos, mas é ruim, porque acaba criando uma geração de meninos mimados, que não consegue exercer qualquer atividade desagradável por um período mínimo.

O problema desse tipo de pensamento é que desistir acaba se tornando uma opção quase automática. Acho que desistir não era uma opção na época da minha mãe. Não consigo imaginar minha avó fazendo a matrícula da filha no inglês e ouvindo, na segunda semana de aula, que tá muito chato e, por isso, seria melhor matricular no francês. E depois no alemão. Não existia isso. E hoje existe demais. A cada dia desisto de pelo menos três coisas, sendo que duas delas eu nem chego a começar.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Vocês Criaram um Monstro

Aí tem essa professora... Mais louca que o Batman. Uma figura tão loira, tão surreal, tão problemática, que merecia um post só pra ela. Não vou fazer isso, porque sinceramente tenho medo que ela leia antes do semestre acabar (e eu preciso de nota). É bem a cara dela investigar vida de aluno, fazer ego search no Google, essas coisas.

E na aula de hoje ela começou a recapitular as 400 tarefas (sem nenhum objetivo, lógica ou fundamento) que ela tinha passado ao longo do semestre e lembrou que todas deveriam ser entregues na terça-feira da semana que vem. O que é lindo, porque significa que depois de terça-feira vou poder até colocar o nome dela aqui pra facilitar a pesquisa, mas também é péssimo, porque é óbvio que ninguém dá a mínima pra o que essa mulher fala em sala de aula e ninguém fez nenhuma dessas tarefas, já que, veja bem: ninguém SABE como fazer!).

Esse é o panorama então: loira surtadíssima que manda a gente usar uma tal de "ecofont" (projeto flopado de fonte ecologicamente correta, que já não fazia sentido em 2004, que dirá agora) em todos os trabalhos, 400 tarefas que deveriam ter sido feitas ao longo de seis meses para serem compreendidas e realizadas em coisa de dias e toda uma Mostra Hitchcock pegando fogo no CCBB.

Ainda bem que os comentários do post anterior foram favoráveis ao mimimi. Fiquei mais seguro pra reclamar com propriedade. Vou até escrever mais e mais porcamente.

Daqui a pouco cês abrem o blog e tem um poema.
Ou um acróstico.
Ou um haicai.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Este É um Blog de Mimimi

O semestre começa a dar sinais de falência. E eu acordo e durmo pensando no dia em que não vou ter mais razões pra sair da cama antes da hora do almoço. Não sei como, mas consegui passar um semestre inteiro sem mudar meus hábitos de sono. Continuo dormindo depois das duas, mas agora acordo às seis e meia. Acordo porque preciso (durmo porque te amo) e isso resulta num estado permanente de impaciência e esgotamento. Tenho deixado de falar com as pessoas por pura preguiça de ouví-las.

Óbvio que o que mais sofre é esse blog. Acho que nunca escrevi tão pouco. Primeiro porque não sou obrigado. Segundo porque, sempre que eu pensava em escrever alguma coisa, essa coisa era uma reclamação disfarçada de comentário sobre trecho de livro, episódio de série ou cena de filme. E da última vez que comecei a reclamar aqui, vieram xingar muito nos comentários, falando que tava ficando chato, etc. Agora, imagina... Se tá ficando chato pra vocês (que só têm que ler...) imagina pra mim, que vivo todo o material?

Então desculpa, mas reclamar da minha vida usando trecho de livro, episódio de série ou cena de filme como disfarce é a única razão pela qual mantenho esse blog funcionando. Tem outra razão que é fazer as pessoas que nunca me viram pessoalmente acharem que eu sou mais interessante e inteligente do que realmente sou; e o fato dessas duas razões serem contraditórias é só o começo do que poderia ser a explicação pra todos os problemas da minha vida.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O Ambulante

A rodoviária de Brasília é conhecida por hospedar os tipos mais sinistros e insólitos da cidade. Não são só os mendigos, junkies e prostitutas (personagens tradicionais em todas as rodoviárias do país), mas também hippies, pastores com alto-falantes amarrados na pança, cantores de rap e ambulantes de todo gênero. Os camelôs geralmente ficam ali na plataforma superior, que é em cima de uma espécie de viaduto. Dia desses uma amiga contou que a polícia bateu. E que quase todos os vendedores perderam suas bugigangas ilegais. Foi aí que um dos ambulantes, em desespero com o prejuízo recém-adquirido, se jogou de cima da plataforma.

Eu fiquei completamente fascinado com essa história. Não só pelo suicídio inusitado, mas porque dificilmente imaginaria uma vingança melhor.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Toda uma Festa de Psicopatas


Primeiro preciso explicar que essa falta de cultura pop no blog se deve à falta de cultura pop na minha própria vida. Tá tudo ou muito erudito (ninguém curtiria um post sobre Almeida Garrett) ou muito esculhambado (ninguém curtiria um post sobre Justin Bieber), então não estou conseguindo me dedicar às coisas verdadeiramente boas, que ficam justamente nesse limiar entre a erudição e a vergonha.

Não sei vocês, mas eu continuo não dando a mínima e vendo mais séries do que deveria. As últimas adicionadas à minha watchlist são, curiosamente, duas produções derivadas do cinema. Mais ainda, são séries focadas em dois dos maiores vilões da história: o esquizofrênico de Psicose e o canibal de O Silêncio dos Inocentes.


Bates Motel é uma coisa divertidíssima. Vocês deveriam. Porque não é aquele tipo de série realista, madura e classuda onde nada acontece, que tem se tornado uma praga na televisão americana. Não. Bates Motel é quase brega. Cheia das frases de efeito, cenas um pouco absurdas e exageros aqui e ali. Então, por que diabos? Uai... Porque tem Norman Bates com 16 anos. E esse menino, Freddie Highmore (de Em Busca da Terra do Nunca, O Som do Coração, A Fantástica Fábrica de Tim Burton, etc), é bastante competente. Ele cria um personagem bonzinho e afetado por quem a gente consegue torcer desde o primeiro episódio. Fica muito difícil lembrar que é o mesmo Norman que, alguns anos mais tarde, estará esfaqueando toda a clientela do hotel no chuveiro. Até que de repente não fica mais tão difícil assim lembrar e as coisas se tornam bem mais interessantes.

Mas apesar do 9nho mandar bem, quem rouba a cena é dona Vera Farmiga (a mãe psicopata e, consequentemente, responsável pela doença do filho), que tá naquela idade (da loba?) maravilhosa e carrega as melhores cenas da série nas costas. Não sei se Bates Motel tem chances de ganhar algum prêmio (porque me parece que os prêmios de TV se acham muito descolados, quando, na verdade, estão cada vez mais parecidos com os Oscars), mas se rolar algum, não tenho dúvidas de que será pra ela. Além desse elenco lindo, Bates Motel ainda conta com uma das coisas mais importantes pra mim numa série de TV: não tem medo de andar com a história. As coisas realmente acontecem (alô Game of Thrones). Cada episódio avança quilômetros no enredo: resolve conflitos, introduz novos, mata gente, revela segredos e parece que, mesmo assim, continua sabendo exatamente aonde quer chegar.


Hannibal vocês podem assistir sem medo da cafonice. Muito pelo contrário, tenham medo de morrer de estética. É tão violento e poético que a gente acaba perdendo o fôlego diversas vezes por episódio. Porque tá tudo lindo e realista quando, de repente, um alce gigantesco atravessa o corredor do hospital. Ou cogumelos são encontrados brotando em cadáveres. Pra quem curte séries com o visual deslumbrante, essa é, sem dúvidas um prato cheio (pra quem curte carne humana também, sic).

O Dr. Lecter é interpretado por um ator dinamarquês chamado Mads Mikkelsen (nossa, que cara bom!), que ganhou o prêmio do Festival de Cannes do ano passado e, com isso, tornou-se apto a ocupar o lugar que já foi de Anthony Hopkins. E ele realmente não faz feio. Ainda não conseguiu me assustar (só assisti três, dos seis episódios disponíveis), mas já mostrou que quando o susto vier, vai ser bem grande. Só que Hannibal Lecter nem é o protagonista da série. A Clarice da vez é Will Grahan (Hugh Dancy), um investigador talentoso que adota cãezinhos indefesos e usa uma técnica de dedução quase sobrenatural. O problema é que ele tem o psicológico um pouco fraco (além de um leve sabor agridoce, quando refogado na temperatura correta).

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Um Último Pedido Antes da Gente Dormir

Esperei que minha tristeza crescesse até chegar nesse nível que praticamente me obriga a escrever. Depois disso também não dá, porque tristeza demais paralisa.

Faz umas semanas que tenho pensado em você mais do que eu gostaria. Acho que por ter te perdido em uma esquina qualquer ou por não saber mais que horas você acorda, como passa suas tardes, com quem fala ao telefone antes de dormir, quais músicas escuta, quais detesta, quais livros tem lido, o que achou da última temporada de Homeland... E fico me sentindo um pouco egoísta por querer fazer parte da sua vida a essa altura do campeonato. E por perceber que não, eu já não faço.

Sei que não tenho o direito de te pedir mais nada, mas vou pedir mesmo assim. Vou pedir desculpas. E publicamente, porque acho mais corajoso e romântico. Desculpa. Pela bagunça, pela demora e pela falta de coragem. Desculpa por não saber lidar com as palavras a ponto de te machucar com elas (nunca vou saber se estas também te machucarão; espero sinceramente que não, que elas desçam com facilidade e façam uma cosquinha simpática no seu coração antes de desaparecerem; que não te atormentem). Desculpa por ter perdido tanto tempo tentando me explicar e me defender e por nunca ter aceitado meus erros quando, no fundo, tudo o que eu sempre pensava era: nossa, como ela está certa! Reconhecer isso agora é de uma canalhice absurda. Mas acho que continuar negando é ainda mais canalha.

Acho que era isso. Eu precisava pedir essas desculpas pra ver se me livrava dos seus olhos, que, juro, têm me perseguido. Os mesmos olhos de antes, com a mesma doçura e o mesmo peso, só que mais tristes. Vê se tira a tristeza de dentro deles. Mesmo que, pra isso, você nunca mais coloque esses olhos em mim.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Tudo Isso Me Reduz ao Silêncio


Poucas coisas na vida conseguem me deixar irritado. Uma delas é aluno reacionário. A outra é não ter tempo pro cinema.

As pessoas não entendem o que significa pra mim acompanhar o circuito. Não é sobre filmes. Quase nunca é sobre filmes, ou sobre livros, ou sobre séries. Na maioria das vezes é só a necessidade de me sentir vivo. De perceber uma mudança qualquer. De me iludir com uma provável transformação que a arte nunca executa, mas sempre promete. E com aquela persuasão característica.

Por isso, dia desses resolvi me forçar a ver um filme, começando pouco depois da meia-noite. Isso, apesar do cansaço e de ter que acordar às seis da manhã no dia seguinte. Era o jeito. Não dava mais pra esperar outra tarde livre como aquelas que a gente só tem até os 15 anos de idade. Dez minutos depois e eu percebi que já cochilava há cinco. Desisti, desliguei o computador e fui pra cama, chorando.

No dia seguinte as pessoas surgem com uma felicidade infernal e eu não consigo ver razão. Não consigo ver sentido nessas aulas, nessas provas, nessa graduação... Vou conservando um ódio de todo mundo. Entro no Facebook e acho tudo bastante ridículo e tenho vontade de mandar mensagem pros amigos falando que por favor, some daqui, você me enche de vergonha. Mas é tudo muito interno, o que problematiza a coisa do mau humor.

Uma das razões pra essa falta de tempo que me destrói é a quantidade desumana de textos e romances que esses professores passam pra gente ler. Ironicamente, foi daí que tirei a citação que encerra esse post. Tá lá nOs Sofrimentos do Jovem Werther, leitura bastante providencial pra esse momento da vida.

"É comum dizer-se que a vida do homem não passa de um sonho, e esse sentimento me acompanha sempre. Quando observo os estreitos limites em que se acham encerradas as faculdades ativas e intelectuais do homem; quando vejo que o objetivo de todos os nossos esforços é prover necessidades que por si mesmas não têm outro fim senão prolongar nossa miserável existência, e que por conseqüência toda a nossa tranqüilidade, em certos pontos de nossas buscas, não passa de uma resignação sonhadora, que gozamos pintando de figuras variadas e perspectivas luminosas as quatro paredes que nos fazem prisioneiros: tudo isso, meu amigo, me reduz ao silêncio. Olho para dentro de mim mesmo e vejo um mundo; porém um mundo muito mais de pressentimentos e vagos desejos do que de realidades e forças vivas. Então tudo me flutua ante os olhos, e continuo sorrindo e sonhando em minha jornada através do mundo."

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Domando Sonhos como Quem Doma Leões


Realmente não sei porque alguém se importaria com minha última noite de sono ou com minha nova mania de dormir sob dois travesseiros dispostos na cama em formato de L. Não sei, mas continuarei insistindo até que me provem que não ter um blog é mais legal do que ter. Além do mais, se continuar nesse ritmo, com o número de visitas e comentários caindo diariamente, em pouquíssimo tempo realizarei meu sonho de ter um blog anônimo sem precisar ter um blog anônimo.

Mas adentremos o universo onírico, porque dia desses senti que podia controlar meus sonhos. Calma. Primeiro é preciso explicar o absurdo que tem sido dormir. Não sei se tem a ver com as férias que acabaram agora e que bagunçaram meus horários ou com um verdadeiro amadurecimento neurológico, mas tenho passado cerca de duas horas todas as noites, assim que eu deito na cama, pulando de um sonho pro outro e acordando no meio deles, cheio de horror e alívio. Não é como se eu realmente dormisse. Permaneço lúcido na maior parte do tempo. Consciente de que meu corpo está seguro na cama enquanto meu cérebro voa serelepe por universos mais ou menos conhecidos e deturpados. Mas se me deixo levar um pouco, a segurança some e o sono se torna imprevisível e incontrolável, como é da natureza deles.

Esse estágio de quase sonho, quase realidade, é extremamente favorável ao autocontrole mental. Eu só preciso pensar em uma situação específica, em primeira pessoa e com o maior número possível de detalhes, por algum tempo que, gradualmente, a imaginação vira sentido. É assustador e delicioso, como tudo que transcende a lucidez.

Lembro que na noite passada acordei muito agitado e querendo chorar. Eram três da manhã e eu não parava de ter esses pequenos sonhos lúcidos. Comecei a pensar que era o começo de algo. De uma comunicação espiritual, talvez, ou de uma esquizofrenia. Resolvi sair do quarto pra tentar me acalmar, mas quando acendi o abajur azul, percebi que nunca tive um abajur azul.